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Percepções

ZUMTHOR, Paul. La Mesure du monde. Paris: Seuil, 1993.

O espaço e o tempo

1. Diferentemente do tempo, dado como sensação de posse íntima ligada à memória, o espaço se oferece ao homem como campo de ação, sendo ambos vividos e percebidos conjuntamente através do movimento fundador da vida.

2. A filosofia ocidental privilegiou historicamente a reflexão sobre o tempo em detrimento do espaço, e as diversas doutrinas elaboradas ao longo dos séculos giram em torno de saber se espaço e tempo são coisas ou ideias, dados primeiros da consciência ou expressões de uma pulsão mais profunda.

  • A relação do homem com o tempo envolve racionalidade, enquanto a relação com o espaço se assenta em exigências biológicas primárias, predominando por isso na percepção animal.
  • Somente a partir do segundo quarto do século XX as questões espaciais passaram a invadir a consciência comum, atenuando a centralidade da temporalidade, efeito de angústias profundas mais do que do crescimento populacional.

3. Ao contrário do espaço cotidiano, reversível a cada instante, o tempo é irreversível, e essa diferença dilacerante levou numerosas sociedades a atenuá-la fazendo do tempo a projeção de um modelo imóvel ou confundindo-o com o espaço em rituais.

  • O aqui e agora funciona como ponto zero universal, cercado por dois círculos concêntricos de mensuração: o do uso cotidiano, variável segundo cada cultura, e o cósmico, mais estável, relativo ao dia e à noite, ao céu e à terra, às estações.

4. As medidas relativas ao tempo carregam o rigor absoluto atribuído às vontades divinas, enquanto as do espaço permanecem mais concretas e mais imprecisas, mesmo depois de as sociedades terem buscado objetivá-las por meio de instrumentos técnicos.

  • Da invenção grega da geometria e das primeiras computações astronômicas até a primeira relógio mecânico do século XIV, inverteu-se progressivamente, ao longo da Idade Média, a relação entre as duas formas de medição, de modo que o homem antigo media o espaço pelo tempo e o homem moderno passou a medir o tempo pelo espaço.

Do sensorial ao mítico

5. A percepção contemporânea perdeu o sentido antigo que fazia da extensão bruta uma forma global e significante, já que o olhar, ao alcançar as coisas, cria uma distância que ao mesmo tempo separa e une, dando origem à consciência do espaço.

  • Tais percepções, ainda próximas do fluxo pré-conceitual, não garantem paz nem poder, mas são retomadas pela faculdade simbólica, que ordena o espaço percebido em um espaço representativo aberto às projeções do imaginário.
  • Permanece a incerteza sobre se tudo possui sentido, se restam lugares vazios cuja vacuidade significaria por si mesma, e se subsiste sempre um hiato entre a imagem produzida e o sentido que ela revela ou oculta.

6. Só é real o espaço efetivamente percorrido, e a relação com o ambiente permanece subjetiva, oscilando entre densidade extrema, vazio ou chamado à ação, sendo todo espaço próximo matriz e tudo o que está além abertura ao infinito sem descontinuidade.

7. Subsiste, para além dos mal-entendidos do vínculo vital com o espaço, a memória de um olhar primordial que é ao mesmo tempo constatação, conhecimento e dilatação do indivíduo rumo à universalidade, mas também retração e ruptura diante da dureza dos objetos e do próprio corpo.

  • O que se imprime na retina não possui homogeneidade própria, de modo que o sujeito organiza esse caos ao escolher os traços em que centra sua percepção, condicionando-a segundo a necessidade de viver e a confiança depositada no mundo, enraizando-se assim em seu espaço de vida existencial.

8. De modo análogo ao indivíduo, as coletividades humanas só podem conceber suas relações espacialmente, seja no espaço da ação coletiva, no da organização do grupo ou no das atividades simbólicas e lúdicas que compõem o chamado espaço social, sobre o qual atua a função fantasmática que lhe confere identidade e valores de esperança.

9. Percebido pela luz e associado ao fogo, ao movimento, ao ritmo, ao canto e ao amor, o espaço é criador de mitos, e toda apropriação espacial comporta um aspecto irracional e fantasmático, como testemunham a história dos povos e os antigos rituais de tomada de posse cujos traços persistem nos conceitos e nas imagens pelas quais hoje se representa o espaço.

10. Para efeitos de análise, distinguem-se três planos possíveis: o das imagens pelas quais o discurso se apropria da realidade espacial e tenta dominá-la; o dos esquemas ou modelos subjacentes às imagens; e o das formas elementares e matriciais, designadas arquétipos, que conferem dinamismo e conteúdo semântico ao esquema e à imagem, sendo o arquétipo, ao contrário do mito, desprovido de caráter narrativo.

  • As imagens conceituais ou figurativas operam por meio da linguagem ou das artes miméticas.
  • Os esquemas, modelos ou tipos correspondem a diferentes graus de abstração e generalidade de emprego.
  • Os arquétipos, entendidos de modo não mitológico e próximos dos algoritmos da linguística gerativa, podem ser interpretados como traço memorial de experiências extremamente antigas.

O exemplo do corpo

11. Os arquétipos que sustentam as representações do espaço derivam da consciência corporal, sendo o corpo o lugar primeiro, inicialmente confundido com o da mãe, a partir do qual se engendra uma ordem e a extensão se converte em espaço carregado de valores.

  • Uma tradição milenar e quase universal faz do microcosmo corporal o modelo do mundo, estrutura cujo estudo introduz à via mística, memória preservada nas línguas familiares desde a primeira percepção de um aqui indiscutível fechado sobre um eu.
  • Para o homem dos séculos X e XV, o corpo constituía seu próprio modo espaço-temporal de existência, ao passo que o tempo, demasiado carregado de interpretações religiosas, escapava quase inteiramente a essa analogia.

12. Além de fonte de metáforas, o corpo é instrumento de medida e fornece os elementos de uma linguagem, da qual emerge uma simbólica de oposições fisiológicas e patológicas como em pé e deitado, duro e mole, quente e frio, privilegiando órgãos como o coração, a cabeça, a mão e o pé.

  • Esse fato observável em todas as culturas se estende ao uso, até a época moderna, de medidas corporais como o polegar, o palmo, o côvado, o passo e a milha.

13. Manifestação do invisível que se oferece à percepção sensorial e se integra à experiência coletiva, o corpo funda o vocabulário relativo aos julgamentos e às ideias, ao mesmo tempo em que se objetiva e se afasta ficticiamente do sujeito, dando origem à necessidade de adorno, máscara e civilidade que buscam dominar seu espaço exemplar.

  • Dessa objetivação corporal decorrem também as fisiognomonias do Iluminismo, a ciência das paixões de Aristóteles redescoberta por volta de 1500, a ideia de eloquência corporal cara aos retóricos do século XVII e as teorias proxêmicas surgidas a partir da década de 1950, que avaliam a distância ideal das relações interpessoais.

14. Em torno do corpo e desde o nascimento, a extensão se organiza segundo um eixo quádruplo que opõe dentro e fora, cheio e vazio, aqui e alhures, este último logo diversificado em perto e longe segundo distâncias reguladas por regras e tabus.

  • A posição ereta própria do homem e a angústia infantil da queda parecem ter valorizado os contrastes primários entre alto e baixo, associando-se o alto aos seres sobre-humanos, à vida e ao Bem, e o baixo aos demônios, à morte e ao Mal, sendo a Idade Média o momento em que tais arquétipos invadem com mais intensidade as representações.

15. A anatomia humana, com suas formas quase retangulares ou esféricas e seu bilateralismo, favorece a distinção entre frente e trás e, por consequência, entre direita e esquerda, dando origem desde a Antiguidade à partição do universo segundo os pontos cardeais e os eixos do zênite e do nadir.

  • A Antiguidade greco-latina valorizou sobretudo a lateralidade, ao passo que a Idade Média privilegiou a elevação e a profundidade, associando-se o leste ao triunfo da vida, o oeste ao declínio, e o norte às trevas, à guerra e à morte, simbolismo que também determinou a designação de povos germânicos e anglo-saxões ao se cristianizarem.

16. A orientação implica um centro que pode ser o coração, o eu, aqui ou a terra, fundamento metafísico e místico de toda ordem do mundo, sendo esse centro não um ponto mas um lugar mais ou menos extenso em relação ao qual se definem periferia e descentramento.

  • Somado aos pontos cardeais, o centro produz o número cinco, que a inclusão do eixo vertical transforma em sete, valores numéricos amplamente explorados nas práticas medievais.

17. O espaço do corpo se desdobra entre o ser físico que se opõe à extensão exterior e a ocupação de parte dela pelo movimento, implicando a experiência corporal do espaço tanto um dinamismo que impele a percorrer a extensão quanto uma estabilidade que permite constituir zonas sucessivas até os limites do desconhecido.

18. O eixo alto-baixo semantiza e é semantizado pelas imagens de ascensão e de queda, ilustradas pelo mito do voo de Ícaro e pela edificação da Torre de Babel, associando-se o impulso ascensional à luz, à purificação e à santidade, e a queda, ligada à Falta original, à angústia e ao abismo, ambos alimentando uma energia agressiva geradora de guerra representada nas canções de gesta como luta entre a Luz e as Trevas.

19. Além do eixo vertical, muitos movimentos se inscrevem em imagens arquetípicas redutíveis a figuras geométricas simples como o círculo, a esfera, o triângulo e o quadrado, ou em esquemas que as concretizam, como a roda, a cruz, a escada e a árvore, sustentados por tradições muito antigas.

20. O quadrado evoca a força interna e a totalidade orgânica, enquanto o círculo evoca o equilíbrio e a perfeição do Reino, sendo a essas duas formas que se reduzem a maioria das figurações de cidades na arte europeia dos séculos X a XII; o triângulo, por sua vez, simboliza a convergência dos elementos e a Trindade, e o círculo engendra a esfera e o esquema onipresente da roda, imagem do eterno retorno e da totalidade espaço-temporal.

21. Marca perfeita do Centro e universalidade triunfante, a cruz recebeu a partir do século VI o corpo do Salvador supliciado, sendo identificada, por meio de lenda difundida nos séculos XII e XIII, com a Árvore do Paraíso e associada, enquanto árvore erguida, ao devir e à vida, base das genealogias e cenário recorrente de conselhos régios e ações heroicas ou amorosas na épica e nos romances medievais.

O espaço e a língua

22. As imagens espaciais exigem a mediação da linguagem, colocando-se o problema da relação entre a língua e a percepção ou representação mental do espaço, questão de pouco interesse teórico para o historiador, que não pode dissociar a noção do fato linguístico, distinguindo-se contudo entre a faculdade geral de linguagem e a prática particular de uma língua natural.

23. Na unicidade da experiência, espaço, pensamento e língua remetem juntos ao corpo, em torno do qual se cria o mundo, sendo o olhar que percebe apelo à palavra, a qual inverte a relação dramática em que o sujeito seria possuído pelo espaço, o que talvez explique a identidade estabelecida por diversos mitos entre a palavra e a luz.

24. A comunicação implica um elemento idêntico na enunciação e na recepção, um sujeito e seu ponto de vista revelados pelos dêiticos eu-aqui-agora, dos quais decorrem noções linguísticas como relação e contato e um vocabulário de espacialidade como plano, rede, dimensão, pista, campo e domínio, termos não metafóricos mas ligados à natureza originária das coisas.

  • As línguas indo-europeias, ao empregar o verbo para a ação e o nome para a substância, tendem a especializar o primeiro na expressão do tempo e o segundo na do espaço, ainda que certos nomes comportem intrinsecamente uma ideia de localização.

25. Nome e verbo se conjugam na frase, que remete ao evento representativo do vivido, geralmente com o auxílio de preposições e advérbios que no francês antigo dissimulam verdadeiras metáforas corporais.

  • A ordem das palavras, discutida pelos doutos do século XVIII, impunha o esquema sujeito-verbo-complemento como reflexo da própria natureza, ao passo que o francês antigo fazia alternar os elementos da frase conforme o ponto de vista adotado diante do evento, sistema de sintaxe moderna que se instaurou progressivamente entre os séculos XIII e XV.

26. Traço universal das línguas, os chamados embreantes servem à localização dos objetos do discurso em relação a quem fala, como ici e là em francês, sistema estudado no francês dos séculos XIV e XV, que ao final do século XV começou a se fixar ou mudar de valor, desequilibrando o conjunto até sua desarticulação, embora tais sistemas sempre acabem por se recompor sobre novas bases.

27. Uma das funções primárias da linguagem consiste em marcar, dentro de toda situação de fala, o lugar do sujeito, determinado por fatores como a memória das palavras anteriormente proferidas e a hierarquização social do discurso, sendo essa especificação espacial predominantemente metafórica nas sociedades modernas, mas quase literal em culturas do gesto como a medieval.

28. As categorias pelas quais as línguas descrevem o espaço não se fundam na lógica nem na geometria abstrata, mas remetem à forma do corpo humano e a uma física ingênua, reduzindo-se, segundo apontou C. Vandeloise, a um pequeno número de conceitos operatórios relativos à acessibilidade perceptiva, ao contato, à orientação e à relação entre continente e conteúdo, nenhum deles necessário nem suficiente, o que gera uma vacilação geral das estruturas historicamente construídas.

29. Essa instabilidade decorre também da impossibilidade de dissociar espaço e tempo na linguagem, como mostram expressões do tipo em l'espace de vingt ans, sendo sempre o tempo que desliza para o espaço, o que sugere ser a linguagem mais apta a apreender a realidade espacial, fundamento sobre o qual o ser humano organiza conceitualmente os demais domínios do real.

  • Nas línguas do Ocidente medieval, essa extensão metafórica constituía apenas um aspecto da interpenetração geral dos discursos, que se movia entre polivalências sempre remetidas a uma Palavra englobante e autoritária, a Bíblia, o latim ou a Criação.

Perspectivas históricas

30. A fala cotidiana exige constantes compromissos entre a particularidade do vivido e o sistema regularizado da língua, e os esquemas representativos por meio dos quais uma sociedade percebe a realidade constituem uma rede complexa, móvel e sem alcance universal, como demonstrou Panofsky a propósito da perspectiva na pintura.

  • Tais variações incidem sobre a interpretação da relação entre espaço e tempo, entre espaço interior e exterior, e entre o próximo e o distante, conferindo a cada coletividade humana uma plasticidade constante na noção que forma de seu espaço.

31. A ação dos indivíduos reavalia as formas herdadas, realizando de modo criativo e contingente um modelo em si inatual, fazendo cada indivíduo correr um risco às categorias culturais às quais confere valor por meio da significação atribuída pelo grupo, donde decorre a heterogeneidade tanto da história quanto do imaginário sempre plural das sociedades que a constroem.

32. Até o início do século XX, em um Ocidente onde persistiam antigas mentalidades camponesas, ressurgiam concepções primitivas de espaço, permanecendo em aberto até que ponto o cristianismo teria vinculado espacialidade e temporalidade na consciência das massas iletradas e que relações contraditórias manteria um imaginário nutrido de memórias rituais antigas com noções pouco coerentes vindas de Aristóteles pela Antiguidade tardia.

33. As flutuações do conceito de espaço decorrem da natureza problemática do próprio termo, que não cessa de derivar em metáforas, cabendo talvez contar tantos espaços quantos forem os recortes possíveis da realidade, sendo o único discurso eficaz sobre o espaço, para o historiador das culturas, um relato da ordem do mito, ao qual todos os demais discursos apenas se aproximam.

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