II. A Informática e seu Meio
Pensando a “questão da informática” com M. Heidegger
Murilo Cardoso de Castro. Tese de Doutorado, UFRJ 2005.
Um dito popular talvez seja a melhor aproximação ao que aqui se quer denominar meio: “bicho de goiaba, goiaba é”. Toda interpretação do meio sob o olhar sujeito-objeto, por mais próximo que considere o meio, por mais habitat que defina o meio, é insuficiente e enganadora. Somente a partir da sabedoria deste dito popular amparada pela meditação de Heidegger sobre o ser-em (In-sein) enquanto momento estrutural da unidade ser-em-o-mundo (HEIDEGGER, 2006, §12), é possível uma justa aproximação do que aqui se denomina meio.
O ser-em, ao contrário, significa uma constituição de ser da presença e é um existencial. Com ele, portanto, não se pode pensar no ser simplesmente dado de uma coisa corpórea (o corpo vivo do humano) “dentro” de um ente simplesmente dado. O ser-em não pode indicar que uma coisa simplesmente dada está, espacialmente, “dentro de outra” porque, em sua origem, o “em” não significa de forma alguma uma relação espacial desta espécie; “em” deriva-se de innan-, morar, habitar, deter-se; “an” significa: estou acostumado a, habituado a, familiarizado com, cultivo alguma coisa; possui o significado de colo, no sentido de habito e diligo. O ente, ao qual pertence o ser-em, neste sentido, é o ente que sempre eu mesmo sou. A expressão “sou” conecta-se a “junto”; “eu sou” diz, por sua vez: eu moro, detenho-me junto… ao mundo, como alguma coisa que, deste ou daquele modo, me é familiar. Como infinitivo de “eu sou”, isto é, como existencial, ser significa morar junto a, ser familiar com. O ser-em é, pois, a expressão formal e existencial do ser da presença que possui a constituição essencial de ser-no-mundo. (ibid., p. 100)
A constituição designada como ser-em-o-mundo, embora composta refere-se a uma unidade, ainda que considere a multiplicidade de momentos estruturais que compõem esta constituição. Heidegger (ibid., p. 99) ressalta os seguintes: “ser-em”, “em-o-mundo” e “o ente que sempre é, segundo o modo de ser-em-o-mundo”. O meio é esta interface imediata, transparente, deste modo de ser, que se evidencia em negrito no existencial ser-em-o-mundo. Poderia se formular o existencial como ser-meio-mundo.
O que é dito em termos de ser-em pode ser afirmado ainda mais ontologicamente sobre o meio. O ser-meio é e habita, ek-siste em existência, verbaliza-se como ser e estar. A analogia com o raio luminoso e seu plano de reflexão, pode servir desde que não se faça do plano de reflexão objeto e do raio sujeito. Serve também para ressaltar a verticalidade ser e a horizontalidade meio, no encontro de uma cruz, que nos transporta para a quatrinca aristotélica citada no capítulo I. Com o noûs ao centro da cruz, tem-se nos quatro braços, as quatro formas de atividades da alma de expressar a verdade: techne, episteme, phronesis e sophia.
Cada uma dessas formas significa um nível de ser, que se manifesta como um nível de ser-meio. A primeira forma, techne, está aberta ao encontro do ser-à-mão (Zuhandenheit) e a segunda forma, episteme, está aberta ao encontro do ser-diante-da-mão (Vorhandenheit). Ambas se compõem em uma razão tecnocientífica, techne/episteme, que predomina intensamente na Modernidade, regendo todo fazimento humano (poiesis). A “metafísica da Modernidade”, a “re-presentação”, garante a explosão da “informação”, através de dis-posições e dis-positivos, que assim compõem as “ficções calculadas” na atualidade de ser-o-Aí. O meio advém técnico-científico-informacional, como brilhantemente designado pelo geógrafo Milton Santos (1995), e como examinar-se-á a seguir.
