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informatica:ei:ii-3

II.3 O meio e o dar-se da informática

Pensando a “questão da informática” com M. Heidegger

Murilo Cardoso de Castro. Tese de Doutorado, UFRJ 2005.

Segundo Françoise Dastur (1998), Heidegger pensou o mundo inicialmente como resultado da projeção do Dasein, em “Ser e Tempo” (1986/2006). Já, na “Carta sobre o Humanismo” (1966), o mundo foi então pensado como “clareira do ser”, identificado ao próprio ser mesmo, o que implica não haver nada além dele. Para finalmente em sua conferência “A Coisa” (1954/2002), e outros textos da mesma época, defini-lo como Geviert, como Quatrinca ou União dos Quatro (terra, céu, deuses e mortais).

O mundo circundante cotidiano, apresentado em “Ser e Tempo”, configura-se segundo uma atitude determinada pela relação entre Dasein e ente intramundano, a ocupação (Besorgen). A ocupação é então um conceito ontológico à partir do qual se pode entender o comportamento prático, que constitui o modo de acesso básico ao ente intramundano, que não é assim o simplesmente dado, mas o instrumento aqui à mão fazendo parte inseparável de um todo instrumental. Após mais de trinta páginas consagradas a apreender o mundo enquanto mundo, Heidegger (1986/2006, p. 137) conclui: “Nestas análises, expôs-se apenas o horizonte em que se pode buscar o mundo e a mundanidade”.

Na elaboração posterior, em “Sobre a Essência do Fundamento” (2000), Heidegger reconhece em uma nota, que sua análise do mundo circundante em “Ser e Tempo” seria uma primeira determinação do fenômeno, com valor apenas preparatório face à investigação necessária sobre o que é mundo. Seus avanços posteriores no pensar e expor esta questão, denunciam os limites da ontologia instrumentalista na definição do mundo circundante.

O aprofundamento e a abertura dada por Heidegger à noção de mundo são suficientes para demonstrar um outro caminho, oposto, seguido na trajetória adotada pelo Dasein na aplicação do instrumento informático, constringindo o mundo circundante ao meio técnico-científico-informacional. Fica evidente a redução significativa imposta pela ocupação informacional-comunicacional pro-posta no uso da tecnologia da informação, na constituição deste novo meio.

Como Um-weltlichkeit, como circum-mundanidade e circa-mundanidade – sistema não aparente de “entornos” (circum) nos quais o ente é praticado “com vista à” (circa) – a mundanidade se anuncia somente como o cerne que assombra da maneira mais próxima, quer dizer também a mais inaproximável, o Dasein. Dito de outra forma, como sistema de ligação do ente que se retira enquanto totalidade “ela mesma” e só deixa discernir, no brilho desta retirada, conjuntos de ligações que ainda não são o mundo – ou que já são o não-ainda do mundo. (GRANEL, 1972, p. 148)

Através da conjunção de interesses, métodos e técnicas deste meio, a tecnologia da informação insinua-se como estandarte de um novo Discurso do Método, “o discurso do método informacional-comunicacional”. Não um discurso geral e metafísico, mas um concretamente encarnado em um engenho, pretensamente capaz de mimetizar, mais e mais, as modalidades de racionalização e memorização formalizadas desde o início da Modernidade.

Se a informática é método, é preciso reconhecer que nenhum método é inocente. Não há como separar método de pressupostos metafísicos, ontológicos e epistemológicos. Um método jamais é inocente, mesmo que não aparente abrigar nenhuma filosofia. Não poderá ser nunca a configuração de um discurso sobre coisas e homens, na medida em que estabelece uma ordem e esta demanda um fundamento. A informática como método dis-põe da das regras cartesianas da decomposição e recomposição, em uma démarche procedural, divide problemas em subproblemas, su-põe a ordem e a im-põe dis-pondo “dados” para seu tratamento automático. E quando o método cartesiano não funciona, busca a heurística, pro-põe formalismos para uma ars inveniendi, se volta para Leibniz e as figuras da recorrência, da rede, da tábua de múltiplas entradas (CHAZAL, 1995).

O “metá” contido em “método” (“metà-hodós”) diz “de acordo com”, “junto de”, i. é, “de acordo com” ou “junto de” o caminho. […] Entre método e fazer, ou seja, entre método e ação ou atividade, há uma conexão de ordem fundamental ou essencial - um co-pertencimento. […] A pergunta pelo método disso ou daquilo é a pergunta pelo modo de fazer ou mesmo do fazer-se disso ou daquilo. Assim, o método é o movimento de exposição disso do qual o método é método! Há, então, um co-pertencimento entre método e a própria coisa em questão que, na verdade, é o copertencimento ou a mesmidade da coisa e do seu fazer-se, do seu instaurar-se ou expor-se, i. é, do seu vir-a-ser isso que ela é. (FOGEL, 1999, p. 31)

A tecnologia da informação é composta por instrumentos “feitos-para”. A relação entre um instrumento e sua propriedade de “ser-feito-para” não tem o caráter de uma adjudicação acidental entre um suporte e uma função, mas indica a unidade concreta e indissociável de suporte e de função, no instrumento. O complexo instrumental no engenho de representação, assim como nos remetimentos de seus instrumentos a outros no meio técnico-científico-informacional, está implicado de antemão em sua função de representação da razão e da memória humanas. Mais que implicado, a co-define, e esta função assim determinada perfaz uma totalidade única com seu suporte tecnológico, formando o engenho de representação.

No uso do engenho o meio técnico-científico-informacional se faz presente, à medida que a tecnologia se faz ausente. Quando a tecnologia se torna presente e até se apresenta como um obstáculo ao uso, costuma-se acusar o ser humano, usuário da tecnologia, de total despreparo e incompetência. Esta é mais uma indicação da redução do mundo imediato ao meio, levando consigo o ser humano como dis-posição e dis-positivo associado à aplicação da informática; o “mau funcionamento” do ser humano, como dis-posição e dis-positivo do engenho, justifica as razões do insucesso.

A tecnologia da informação precisa ser tomada, manipulada até o ponto de utilidade máxima e sustentada diante do ser humano. Este dis-positivo de representação deve ser mobilizado por uma ocupação informacional-comunicacional, no constituir-se do dar-se e propor-se da informática, realizando o “jogo de articulação dos quatro modos de responder e dever, que deixam chegar à vigência o que ainda não vige”, a informatização. Neste processo, dis-posições e dis-positivos de um meio são também acionados.

A demonstração fenomenológica do ser dos entes que se encontram mais próximos se faz pelo fio condutor do ser no mundo cotidiano, que também chamamos de modo de lidar no mundo a com o ente intramundano. Esse modo de lidar já sempre se dispersou numa multiplicidade de modos de ocupação. Como se viu, o modo mais imediato de lidar não é o conhecimento meramente perceptivo e sim a ocupação no manuseio e uso, a qual possui um “conhecimento” próprio. A questão fenomenológica vale, sobretudo, para o ser dos entes que vêm ao encontro nessa ocupação. (HEIDEGGER, 1986/2006, p. 114-115)

O Dasein na ocupação informacional-comunicacional na situação de uso da tecnologia da informação é um modo particular de ser-no-mundo, denominado ser-no-meio. No lidar com os instrumentos que com-põem esta tecnologia segue-se um método informacional-comunicacional, onde um jogo de conceitos e linguagem determina o dar-se e propor-se da informática em uma situação dada. Na peculiaridade desta ocupação arregimentam-se também outros instrumentos ou elementos do meio técnico-científico-informacional.

Dada a natureza de engenho de representação, da tecnologia da informação, a configuração digital de qualquer ente é definida pelo método informacional-comunicacional como caminho único e universal. A transposição da razão e da memória segundo as dis-posições e dis-positivos do engenho, para sua posterior exploração, é assegurada pelo método que dirige os procedimentos e a codificação desta dis-ponibilidade sob a forma dados simbólicos (representando a memória), passíveis de serem manipulados por “programas de computador” (representando a razão).

Na ocupação informacional-comunicacional da tecnologia da informação dis-põe-se sobre a tecnologia da informação, o Dasein e seu mundo circundante, reduzido ao meio. No computador, tudo se registra como um simulacro informacional-comunicacional do ser-no-mundo, constituindo uma nova unidade, ser-no-meio-técnico-científico-informacional.

A constituição progressiva e interativa de um processo de informatização se dá por essa dis-posição contínua do ser-no-mundo na ocupação informacional- comunicacional. Capturado em termos de dados simbólicos e instruções lógicas, armazenados na tecnologia da informação, as determinações do ser do Dasein devem agora ser vistas e compreendidas a priori com base na constituição ontológica de um ser-no-meio, parafraseando Heidegger.

O meio constituinte-constituído pela tecnologia é a dis-ponibilidade informacional-comunicacional; um modo em que vige e vigora tudo que o desencobrimento explorador realizou pela trans-posição da razão e da memória humanas em dis-posições e dis-positivos na informatização.

A tecnologia da informação, pela manipulação do Dasein, que busca seu “posicionamento”, segundo o “método”, reflete este mesmo Dasein e o mundo circundante, sempre segundo uma problemática; ou seja, segundo a abordagem, a interpretação e a tradução de um problema qualquer, criado de modo paradoxal pelo próprio meio técnico-científico-informacional. Instala-se assim uma espécie de autismo; uma triangulação recursiva entre meio-problema-tecnologia.

O problema emerge do meio dis-posto segundo uma formulação direcionada para sua configuração como problemática de natureza informacional-comunicacional. Parte de sua solução já está, por sua vez, nas dis-posições e dis-positivos da tecnologia da informação pronta para ser ativada.

O ser humano tem, no entanto, a ilusão de conduzir e arregimentar os instrumentos do engenho na solução de um problema informacional-comunicacional, promovendo como causa efficiens a coalescência das demais causas responsáveis neste dar-se e propor-se da informática. Mas, de fato, algo no estatuto original do engenho, sobre o qual se constitui este dar-se e propor-se, parece estar, o tempo todo, guiando e iluminando o caminho.

A natureza da tecnologia da informação, fundada em seu estatuto técnico, operando em sintonia com a com-posição que ilumina o meio onde a ocupação informacional-comunicacional se dá, aponta assim algo da máxima relevância. A tecnologia enquanto engenho de representação, está dis-posta para responder a qualquer problemática, bastando apenas ser acionada e manipulada por um ser humano, que se dis-ponha de modo subserviente a seu estatuto técnico.

O dar-se e propor-se da informática constitui-se segundo um ser-no-meio seguindo um método informacional-comunicacional, em uma ocupação própria, nivelada e ditada pelo estatuto técnico da tecnologia da informação, suas dis-posições e dis-positivos, e, certamente pela com-posição que ilumina o meio onde ocorre este dar-se e propor-se.

É assim que a estrutura de dados simbólicos, a linguagem de programação e as características técnicas do equipamento, enquanto dis-posições e dis-positivos, manipulam a conformação dos dados que nele são registrados e as possibilidades de tratamento destes dados, segundo a funcionalidade prevista na construção tecnológica.

As dis-posições e dis-positivos que compõem o engenho, segundo sua constituição a priori pelo meio, ordenam e limitam o poder e as possibilidades de qualquer ocupação informacional-comunicacional, que assim abdica de sua situação de ser-no-mundo para a pobre situação de ser-no-meio-técnico-científico-informacional, produzido e produtor da tecnologia.

Um reflexo implica em uma superfície de reflexão, que, de acordo com sua capacidade de reflexão e sua forma, ordena e determina a conformação deste reflexo. Ao mesmo tempo, qualquer reflexo é propiciado também por uma luz que assim vem garantir toda esta reflexão.

Essa imagem pode ser entendida como uma metáfora da tecnologia, do meio e da com-posição. A essência da técnica que ilumina e colore todo o meio, propicia que o reflexo de algo sobre a tecnologia se dê em conformação com a natureza técnica-científica-informacional do meio e da técnica. Sem ser diretamente visto, o mundo circundante do Dasein, se restringe ao meio.

Esta luz que dá visibilidade e colorido a tudo, interpretada como a com-posição, evidencia e legitima, a seu modo, a própria técnica. Da mesma maneira, o meio técnico-científico-informacional sob a luz da com-posição, constituinte e constituído pela tecnologia da informação-comunicação, evidencia e legitima este enquanto engenho de representação, e o dar-se e propor-se da informática.

Este meio dita, por sua vez, o “problema” que orienta o dar-se e propor-se da informática. Ou seja, a perspectiva de adoção da tecnologia em uma situação iluminada pela com-posição. Este problema se apresenta à montante deste dar-se e propor-se, em consonância com a “problemática”, que leva ao uso de uma tecnologia para sua solução, à medida que considera todo e qualquer problema como passível de uma leitura em termos de uma solução de natureza informacional-comunicacional.

Ao longo da aplicação e uso do engenho, o problema se apresenta, por sua vez, transfigurado em desafio metodológico e técnico na constituição do dar-se e propor-se da informática. Este desafio toma conta e enreda o ser-no-meio de tal maneira que este sucumbe a toda e qualquer reflexão sobre “o que” está fazendo ou constituindo, dada à exigência de decidir e responder, a todo momento, a questões de tipo “como” fazer para implementar a solução do problema, em termos informacionais-comunicacionais.

O engenho de representação, na base da solução informatizada do problema, configura até mesmo “o que” é preciso pensar e decidir e o “como” pensar e decidir de acordo com as disposições e dis-positivos do engenho.

Por fim, à jusante do dar-se e propor-se da informática, o problema se apresenta em termos de tentativas de conciliação dos resultados obtidos por este dar-se e propor-se, ou seja, em termos de conciliação desta constituição em si mesmo com o discurso que deve enquadrá-los. Sob a mesma luz que ilumina o meio isto se dá de maneira facilitada, e até mesmo garantida.

Os resultados obtidos se conformam à produção intelectual geral, na medida em que a informatização avança e universaliza o discurso do método informacional. Os discursos se conciliam sobre um método único, tendo como eixo norteador “o discurso do método informacional”. As divergências são aparentes já que os fundamentos são os mesmos.

A problemática que, em grande parte, emana da luz que ilumina o meio, e assim dita a configuração informacional-comunicacional do problema em um dar-se e propor-se da informática, deve ser bem analisada. Esta problemática adota a tecnologia enquanto engenho de representação, re-velando de certa maneira o meio. Ela pode também oferecer indícios das modalidades de atualização das virtualidades da tecnologia em um específico dar-se e propor-se da informática.

O problema, que só tem sentido, no meio iluminado pela com-posição, se define enquanto tal pelas propriedades que adquire em sua formulação informacional-comunicacional. O discurso do método informacional ganha seu lugar privilegiado na ciência, orientando toda e qualquer disciplina segundo uma abordagem única. O sonho do método universal se materializou, ou melhor dizendo, se “maquina”, no sentido de “traçar com artifícios” sua instituição. A “máquina universal”, cristalização do “método universal”, doravante guia a constituição de qualquer dar-se e propor-se da informática, reduzida progressivamente à ação direta do ser humano que a “anima”.

Não há uma simples potencialização do ser humano como apregoam os entusiastas da informatização, mas o forte risco de uma despontencialização. O pensar sobre esta despontencialização carece de ser feito com a máxima urgência. As gerações que se desenvolvem sob esta despontencialização, sem questionar a essência da técnica, podem estar diante de uma perda lamentável sem salvação: a de sua essência humana, a de sua alma.

Mas o que é salvar? O que se tem em vista, nessa perspectiva, quando se diz essência? […] Salvar é, nesse registro, preservar o essencial a (ou em) algo, liberando-o, deixando sua essência aflorar, deixando-o ser segundo sua essência. Salvar é portanto atitude de liberação, inteiramente outra, por conseguinte, que a exploração desmesurada que predomina emulada pela armação tecnológica. (BICCA, 1999, p. 167-168)

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