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III.1 Informação – Fluído da Informatização

Pensando a “questão da informática” com M. Heidegger

Murilo Cardoso de Castro. Tese de Doutorado, UFRJ 2005.

Os teóricos da informática fazem uma distinção entre dado, informação, conhecimento e até incluem em suas elucubrações a sabedoria. Imaginam uma espécie de escala do mais elementar, o dado, ao mais complexo, a sabedoria. Cada escalão parece ter uma substancialidade, que depende do simples acumulo quantitativo da substância do escalão abaixo, e de uma intensificação das relações internas desta substância, neste acumulo.

Evidentemente esta escala só foi conjecturada no século XX, quando os termos e as noções de dado e de informação, passaram a ser utilizados com frequência na literatura científica, ganhando a partir desta uma vulgarização inigualável, a ponto de serem considerados termos dominantes ultimamente. Dominantes e supostamente entendidos por todos, desde sua elaboração científica no domínio da telecomunicação.

Após sustentar em 1938, uma tese sobre a aplicação da álgebra de Boole , aos circuitos de comutação elétrica, o engenheiro e matemático Claude Shannon, juntamente com seu colega dos laboratórios Bell nos Estados Unidos, Warren Weaver, formulou, ao longo dos anos 40, a chamada “Teoria da Informação”.

Nesta teoria, o termo informação era conceituado como o indicador da organização em uma mensagem, sem qualquer conotação com o significado da mesma mensagem; ou seja, a partir de conceitos aportados e adaptados da Termodinâmica, se definia informação, pela primeira vez, como um termo científico, estabelecendo ainda, através de fórmulas estatísticas e matemáticas, como poderia ser medida.

A teoria de Shannon, prescrita face um problema comunicacional que preocupava a emergente indústria das telecomunicações, determinou, além de seu campo imediato de aplicação, toda uma conceituação e nomenclatura, ao fixar componentes em um modelo voltado para o estudo de mensagens transitando em uma estrutura comunicacional, e promoveu desde então uma visão materialista e mecanicista da informação.

Mantido o modelo de Shannon, mas retirado qualquer suporte material para o canal de comunicação, por onde trafegam as mensagens entre emissor e receptor, passou a ser também celebrado um novo modelo, mais audacioso, no qual sujeito e objeto podem assumir respectivamente o lugar de receptor e de emissor, e a informação, além de designar uma espécie de fluxo místico entre ambos, se constitui em ente informacional, representando algo do receptor ou do emissor.

Este novo modelo, endossando e endossado por movimentos históricos, como o capitalismo, o cientificismo e o tecnicicismo, fomenta a tradução de qualquer objeto sensível ou não, que seja de interesse, de estudo, de pesquisa, de gestão ou de possível comercialização, em um conjunto suficiente de dados que o representem sob a forma de dados simbólicos, capazes de serem capturados, armazenados, processados e distribuídos, segundo procedimentos operacionais, também passíveis de serem codificados como algoritmos.

Por esta arriscada senda, desbravada por anos de especulação científica (lógico-matemática, teoria da informação, cibernética, teoria da complexidade) e de práxis (em pesquisa, em organização e em informatização), avança o processo de informatização: os objetos se desvanecem sob mediações informacionais-comunicacionais, e passam a ter sua “sombra” digital, computacional, tratada e manipulada por meio de sistemas formais, formulados em algoritmos; ou seja, o mundo se transfigura em dados simbólicos operados por instrumentos informacionais-comunicacionais. Progressivamente, os suportes e os produtos do trabalho humano são desconstruídos-reconstruídos segundo seus atributos informacionais-comunicacionais.

Cego, portanto, e cego de cegueira radical, é quem, vendo apenas formas processadas, não pode perceber a mesma realização superando as dicotomias pré-cibernéticas nas próprias diferenças cibernéticas. Trata-se do tipo de cegueira que o efeito de distorção da informatização espalha por toda parte nas sociedades informatizadas. De tanto processamento automático já não se consegue ver os processos essenciais. Tudo perde substância e profundidade, tudo se dimensiona em formas com funções politônicas, sejam binárias, sejam terciárias. A funcionalidade se torna um destino histórico de toda a humanidade. (CARNEIRO LEÃO, 1992, p. 97)

Na década de 50, o termo e noção de informação ganhou um novo impulso, com a comercialização dos primeiros computadores de “uso geral” e a aparente necessidade de formalização de duas ciências: da Computação e da Informação. A Ciência da Informação visava superar as limitações originais da teoria de Shannon, e fundar um campo epistemológico tendo como objeto a “informação”, e um elenco de questões sobre ela, tais como: uso; fontes; formas de extração, de representação e de processamento; atributos e sua mensuração; valor e proteção (STAMPER, 1985). Enquanto a Ciência da Computação reunia as formulações de calculabilidade, máquina de Turing, etc. em um conjunto de princípios de constituição básica da tecnologia da informação emergente.

A tendência a reificação da informação, adotada e celebrada também por biólogos e cientistas sociais, estatísticos e administradores, além de tornar o termo um equivalente de código ou dado simbólico, deixou de lado definitivamente, o significado original do termo informação. Segundo sua etimologia, o verbo informar, de origem latina, foi mais usado a partir do século XIV, e abrigou desde sua origem duas famílias de sentidos: primeiro, o sentido mais primordial, entre os gregos, de “dar uma forma a uma matéria”; passando a seguir, com a cultura latina, a significar também “dar conhecimento de alguma coisa a alguém”, à semelhança de dar forma ao conhecimento de alguém, como se conhecimento fosse uma substância, uma matéria. Este último sentido foi, por sua vez, privilegiado desde Descartes (LALANDE, 1993, p. 514).

Ao se tomar a informação como uma propriedade intrínseca do dado simbólico, e este último, como o formato codificado de um atributo da representação ideal de um objeto qualquer, valoriza-se sobremodo a possibilidade de coleta, captura, armazenamento e acumulação de representações digitais dos entes circundantes, a organização de seus atributos em modelos de dados, o seu processamento e transformação em diferentes formas de apresentação, e a sua distribuição e comercialização, como um bem material.

A informação considerada obtida na interação com tecnologias da informação é, portanto, uma espécie de enunciado sobre algo, sobre uma coisa; um “dito em direção à coisa” em uma modalidade digital; uma categoria no modo informacional-comunicacional. Este enunciado virtual se dá pela prévia formulação algorítmica do sistema de programação de uma tecnologia da informação, na dis-posição dos dados simbólicos, armazenados na tecnologia e que representariam os atributos de algo sob uma codificação digital. Por conseguinte, este “dito em direção à coisa” só pode se realizar após uma sequência de procedimentos que garantem a dis-ponibilidade da razão e da memória humanas sob a forma digital para sua exploração.

Heidegger indica caminhos por onde pensar a informação, enquanto enunciado em seu questionamento sobre “o que é uma coisa?”:

Característica, extensão, comparação, lugar, tempo, são determinações que, em geral, são ditas da coisa. Estas determinações indicam em que perspectiva as coisas se nos mostram, quando, no enunciado, nos dirigimos a elas e falamos delas, indicam os caminhos-do-olhar nos quais olhamos as coisas e a partir dos quais elas se nos mostram. Mas, na medida em que essas determinações são sempre colocadas sobre a coisa, a coisa é, de um modo geral e sempre, dita com elas, como aquilo que já está presente. Aquilo que, em geral, é dito sobre cada coisa, a este «dito em direção à coisa» e no qual a universalidade e a coisalidade da coisa se determinam, os Gregos chamam kategoria (kata-agorenein). Mas o que é dito deste modo não visa senão o ser-de-um-certo-modo, o ser-extenso, o estar-em-relação, o estar-ali, o estar-agora, que é próprio das coisas enquanto entes. Não podemos trazer para diante do olhar, nem muitas vezes, nem com a penetração suficiente, este estado-de-coisas agora evidenciado, nomeadamente o facto de que as determinações que constituem o Ser do ente e, portanto, da própria coisa, retiram o seu nome do enunciado acerca da coisa. Este nome para as determinações-de-ser não é uma designação como qualquer outra, mas, nesta designação das determinações-de-ser como modos da enunciabilidade, reside uma interpretação particular do Ser. O facto de, desde há muito tempo, as determinações do Ser serem chamadas, no pensamento ocidental, «categorias» é a expressão mais nítida do que já acentuámos: o facto de a estrutura da coisa estar em relação com a estrutura do enunciado. O facto de outrora e ainda hoje a doutrina escolar acerca do Ser do ente, a «ontologia», colocar como objectivo próprio a fixação de uma «doutrina das categorias», exprime a interpretação originária do Ser do ente, quer dizer, da coisalidade da coisa, a partir do enunciado. (HEIDEGGER, 1987/1992, p. 70)

O enunciado é um modo de discurso segundo uma perspectiva. No caso da informação, do enunciado, do “dito em direção à coisa”, pela tecnologia da informação em interação com o ser humano, trata-se de um discurso informacional-comunicacional. Onde estes qualificadores denotam um método que inicia pela desconstrução do visado, segundo uma perspectiva informacional-comunicacional, em seus atributos e nos algoritmos que tratam estes atributos segundo uma mímesis do visado. A posterior codificação destes atributos em dados simbólicos, a captura destes dados simbólicos para a forma digital e seu armazenamento na tecnologia. Para então, consumindo o método, realizar a reconstrução do visado dis-posto para exploração em sua mímesis digital.

O enunciado é um modo de legein - dirigir-se a qualquer coisa, enquanto qualquer coisa. Isto significa: acolher qualquer coisa como tal. Ter qualquer coisa como qualquer coisa e entrega-la como tal, diz-se, em latim, reor, ratio: daí ratio se ter tornado a tradução de logos. O simples enunciado dá, ao mesmo tempo, a forma fundamental em que visamos a coisa e pensamos algo acerca dela. A forma fundamental do pensamento e, em consequência, o pensar, é o fio condutor da determinação da coisalidade da coisa. As categorias determinam, em geral, o Ser dos entes. Perguntar pelo Ser dos entes, pelo que é e como é, em geral, o ente, é a primeira tarefa da filosofia; perguntar deste modo é filosofia do mais alto nível, é primeira e autêntica filosofia, proto philosophia, prima philosophia.

Eis o que é essencial: o pensamento como simples enunciar, o logos, a ratio, é o fio condutor para a determinação do Ser do ente, quer dizer, para a determinação da coisalidade da coisa. «Fio condutor» tem, aqui, o seguinte significado: os modos de enunciabilidade conduzem o olhar em direcção à determinação da presença, quer dizer, em direcção ao Ser dos entes. (HEIDEGGER, 1987/1992, p. 71)

Pela descontrução-reconstrução do logos de uma coisa através da praxis informacional-comunicacional este “fio condutor” para determinação do ser do ente se perde. O que já se exigia de extra-ordinário nesta empreitada, se tornou agora impossível através da informatização. Resta apenas o contato com os fantasmas informacionais que eventualmente são puras “ficções calculadas”. A tecnologia da informação, enquanto dis-positivo de representação do logos apresenta-se como um sintetizador de ilusões informacionais-comunicacionais. (1949/1962, p. 366) apresenta a técnica moderna como produção de “ficções calculadas”. Heidegger denomina “cálculo” o projeto, próprio a vontade de poder, de “pôr em ordem” a totalidade do ente e a ordenar sobre os planos de uma representação sem consideração ao aspecto, preexistente a todo projeto técnico, daquilo que se apresenta de si mesmo.

Para Milet (2000, p. 152-153), a produção de ficções calculadas ameaça o “aberto”, enquanto doação invisível que expõe os entes na ordem do visível, e assim os “põe em risco”, ao mesmo tempo em que lhes assegura um lugar e um tempo onde podem manifestar seu séjour. O risco é duplo.

Primeiro porque os entes aparecem assim como objetos para representação que se atém ao aparente e não a essência das coisas. Esta obliteração do invisível é que libera a possibilidade do projeto da tecnologia moderna da informação-comunicação. Segundo, porque a objetivação guarda ainda uma dependência, em seu fundo, da fenomenalidade do objeto, que, de si mesmo, oferece sua própria entidade à intuição. Assim as ficções calculadas anunciam o desenraizamento da técnica em relação a este solo de evidências (ibid.).

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