0 Introdução
Pensando a “questão da informática” com M. Heidegger
Murilo Cardoso de Castro. Tese de Doutorado, UFRJ 2005.
Introdução
O termo “informática”, em sua etimologia, designa uma técnica, no caso, uma “técnica da informação”, ou como se costuma chamar, dada a incorreta assimilação de técnica e tecnologia, uma “tecnologia da informação”. Até aí nada de surpreendente. Diria mesmo que para muitos uma definição satisfatória do que é a informática, embora continue não dizendo nada sobre o que ela é.
Este simples exercício etimológico, embora insatisfatório em dizer aquilo que faz a informática ser o que é, no entanto, abre a possibilidade de formular melhor a questão “o que é a informática?”. À medida que se substitui um único termo dado por conhecido, pela composição articulada, por uma preposição “de”, de dois outros que também interessam esclarecer, abre-se um campo de questões. Cada termo sustenta uma noção muito própria, no mais das vezes supostamente conhecida. Oferece também a possibilidade de especular a identidade e a diferença entre técnica e tecnologia. E, mais que tudo, preenche o espaço de sentido de algo tão distante ontologicamente, porém tão próximo, tão íntimo, onticamente.
Por outro lado, este encaminhamento pela etimologia do termo informática, entendida como “tecnologia da informação”, pode ser enganosa e “velar” ao invés de “re-velar”, dar a ver ao mesmo tempo que volta a ocultar, a essência da informática. Especialmente quando o termo informática se associa nos dias atuais a: uma indústria, um setor da economia; um conjunto de profissionais que trabalham no desenvolvimento e manutenção deste setor econômico e seus produtos; e a parafernália de equipamentos e aplicativos produzidos por este setor, incluindo aqueles a serem incorporados, embutidos em outros produtos de outras indústrias.
Parafraseando Heidegger, pode-se até afirmar que a “essência da informática não tem nada de informática”. Este contraponto vai acompanhar ao longo desse questionamento, mas é possível adiantar que, de fato, a investigação da essência da informática, se faz no total reconhecimento originário, em Heidegger, de que a essência de algo é o que faz este algo ser o que é. Por conseguinte, o que faz a informática ser informática, nada deve à informática. Em outros termos, a informática enquanto produto, indústria ou especialistas não serve de acesso à questão “o que é a informática?”.
Tentando avançar pelo caminho aberto pela suposta etimologia do termo “informática”, tome-se sua pretensa definição, “técnica ou tecnologia da informação”. Chamar de técnica ou tecnologia, só é possível porque estes são dois termos que estranhamente confundiram suas noções desde o século XVIII. A tecnologia, que originariamente se referia ao “discurso da técnica”, segundo a própria etimologia do termo, veio indicar o produto, o resultado, da técnica propriamente dita. Enquanto isto, a técnica veio a referir, muitas das vezes, ao discurso, filosófico ou não, sobre ela mesma.
Hoje em dia, prevalece o termo técnica, afinado com a noção original de produção, de savoir-faire ou de “fazimento”. E, é justamente a técnica sob esta noção de “fazimento”, que tem sido sistematicamente referida, com eventuais iniciativas de reflexão sobre a técnica como tema filosófico, dado seu predomínio atual. Opta-se por uma posição entre estas iniciativas, tomando por eixo de pensamento a profunda meditação de Heidegger sobre a técnica, em especial a técnica moderna.
No tocante ao termo tecnologia, se tem um termo genérico reunindo todas as acepções de “fatos técnicos”, tais como, dentre as mais comuns: “artefato”, “dispositivo”, “instrumento”, “ferramenta”, “utensílio”. Esta designação pomposa de tecnologia, talvez porque cada vez mais em qualquer um dos “fatos técnicos” se reúna não apenas uma técnica, ou o substratum de um fazimento, mas diferentes técnicas, em uma espécie de coalescência, que assim dava forma concreta a um “discurso da técnica”.
O desdobramento a seguir parte da expressão “técnica ou tecnologia da informação”, como a que mais se aproxima da informática enquanto “obra ou fato técnico”. Primeiro, inicia-se pelo necessário exame e distinção entre “técnica” e “tecnologia”, porém concluindo, neste caso, por seu uso indistinto, ressalvada as diferenças. Segundo, considera-se que apesar da relevância do termo técnica, e da possibilidade de investigação aprofundada do “que é a informática?”, através do entendimento que se possa alcançar da “essência da técnica”, especialmente em sua formulação em Heidegger, ainda assim não se alcançaria propriamente a “essência da informática”. Terceiro, atentando e discorrendo para o qualificador “da informação”, tanto pela soberania do termo “informação” como termo chave do sentido de ser da informática, como pelo uso da preposição “de” apontando à quididade e a destinação desta “obra ou fato técnico”, na e pela “informação”.
Antes, porém, do desdobramento visado, é preciso um exame esclarecedor sobre o uso que aqui se faz dos termos “ser”, em “o que é a informática?”, e “essência”, em a “essência da informática”. Não se está falando do mesmo ao usar uma ou outra. Fala-se de “o que é?”, de “ser”, quando se tenta se pôr à escuta do que Heidegger entende como tal, qual seja: “ser” é o verbo dos verbos, o verbo a ouvir em toda sua verbalidade, sua transitividade, e não como “o” ser, mesmo quando é necessário dizer “o” ser, ainda assim guarda seu sentido verbal, e não nominal, neste infinitivo substantivado (FÉDIER et al. 2013, p. 435).
“Ser” distingue-se de todo ente, como afirma o elaborado pensamento da chamada “diferença ontológica”. Não se pode alcançar “o que é a informática?” por mais investigação que se faça de qualquer equipamento ou aplicativo informático. A questão do ser, Seinsfrage, desde sua abertura na ontologia grega, obteve diferentes respostas, assim declinado em tantas “teses sobre o ser”, determinando cada uma o que ele é: Ideia (Platão), ser-em-obra (Aristóteles), força (Leibniz), ser-percebido (Berkeley), vontade (Schelling), vontade de poder (Nietzsche), tese (Kant) (ibid., p. 438). Heidegger retoma a questão segundo uma nova dimensão impensada, que a torna a “questão do sentido do ser”; questão que não pode ser rebatida sobre a primeira.
Fala-se de “essência”, na esteira do que Heidegger pensa enquanto Wesen, tradução alemã de essentia. O verbo wesen reúne dois verbos leben und weben, ser vivo e ser móvel, assim significando tramar, entrelaçar, tecer, estar à obra. É neste sentido que Heidegger convida a entender a palavra “essência”, que ao longo dos anos foi perdendo este significado e fixando-se em uma de-terminação, de-finição do que algo é. A essentia latina é, por sua vez, decalcada da palavra grega, ousia, que guarda ainda seu sentido primordial de “estância”, propriedade, patrimônio. Esta estância é propriamente a maneira de ser do ente, a maneira de ser do ser ele mesmo (ibid., p. 420-424). A tradução de Carneiro Leão (1995, p. 23) para Wesen realça todos esses sentidos na palavra “vigor” (“estrutura em que vigora a força do vigor”). Assim quando se diz “essência da informática”, diz-se algo da maneira de ser de qualquer de seus instrumentos, diz-se do vigor da informática.
“O que é a informática?” é a questão que orienta e motiva estas reflexões, que pretendem se dirigir para o não-comum. Eis, portanto, a questão que urge uma resposta incomum. Eis a questão da técnica, posta segundo sua manifestação mais atual e cotidiana, a informática. Eis a questão que exige um enfrentamento difícil com a questão maior: “o que é o ser humano?”. Eis a questão que reconhece a diferença ontológica entre ser e ente, neste caso o computador. Eis a questão que aborda a metafísica da Modernidade no “Absoluto Técnico”, a “representação” no “informático”.
Se dirigindo à Kojima Takehico nos anos 1963-1965, Heidegger escreve: ‘pela presente carta, trata-se unicamente de reconhecer o seguinte fato: que é precisamente o olhar em direção da exploração, quer dizer em direção do próprio da tecnologização do mundo, que mostra um caminho em direção ao próprio do homem, que distingue sua humanidade no sentido da reivindicação que se faz disto através do Ser’. 1)
Na obra de Heidegger, o pensar sobre a questão da técnica abre sentidos e desígnios, cuja escuta pressupõe um modo de ser engajando a existência por inteiro para tal pensar. Para sustentar a “questão da informática” é preciso muito mais que um saber, é preciso um verdadeiro ofício (ein Handwerk) e uma obra da mão (ein Werk der Hand) que demanda um longo exercício retomado incessantemente e afinado ao contato desta questão (HEIDEGGER, 1992, p. 89-90). O desafio da questão não está apenas no entendimento da meditação encaminhada por Heidegger, da essência da técnica enquanto com-posição (Ge-stell) e da “metafísica da Modernidade”, mas em ser capaz de enfrentar esta questão diante do próprio predomínio encobridor da técnica moderna.
Mas a pergunta nunca chega tarde e atrasada se nos sentirmos propriamente, como aqueles, cujas ações e omissões se acham por toda parte desafiadas e pro-vocadas, ora às claras ora às escondidas, pela com-posição. E sobretudo nunca chega tarde e atrasada a questão se e de que modo nós nos empenhamos no processo em que a própria com-posição vige e vigora. (HEIDEGGER, 1954/2002, p. 27)
Como diz um provérbio chinês, “uma longa jornada inicia-se com um primeiro passo”. Assim, o primeiro passo preparatório para responder à questão “o que é a informática?”, será a investigação desta espécie de técnica, a tecnologia da informação. Essa espécie, esse dar-se e propor-se específico desta tecnologia, cuja vigência encontra-se velada pelo deslumbramento ordinário com seus propalados prodígios.
É do verbo “we-sen”, viger, que provém o substantivo vigência. Wesen, essência, em sentido verbal de vigência, é o mesmo que “wahren”, durar e não apenas no sentido semântico, como também na formação fonológica. Já Sócrates e Platão pensaram a essência de uma coisa, como a vigência, no sentido de duração. (HEIDEGGER, 1954/2002, p. 33)
A questão sobre a essência da técnica vai orientar esta caminhada como um farol indicando o caminho seguro, porém a questão sobre o que é a tecnologia da informação vai ocupar os passos nessa direção. “O que é” entendido no sentido do exame do conjunto estrutural originário na com-posição que se revela nesta tecnologia, atentos aos aspectos emergentes na vigência da mesma.
Começando então pela identidade e diferença entre técnica e tecnologia, identificam-se duas palavras que estranhamente intercambiaram suas noções desde o século XVIII. A palavra tecnologia, que originalmente se referia ao “discurso da técnica”, veio indicar o instrumental ou o processo de aplicação deste instrumental em um “fazimento”, enquanto a palavra técnica passou a se referir aos procedimentos de realização, no sentido de “tornar real”, e também ao discurso específico sobre estes procedimentos.
Neste último sentido, hoje em dia, usa-se muito o termo técnica, afinado com sua noção original de arte, de savoir-faire ou de “fazimento”. Onde um fazimento original que era, ao mesmo tempo, desencobrimento, se distancia mais e mais do ser humano, como adverte Heidegger: “Sendo desencobrimento da dis-posição, a técnica moderna não se reduz a um mero fazer do homem” (HEIDEGGER, 1954/2002, p. 22).
Por outro lado, artefato, dispositivo, instrumento, ferramenta, utensílio são termos cada vez mais presentes no discurso contemporâneo, ganhando uma designação pomposa sob o termo único de tecnologia. Hoje em dia, em qualquer coisa designada por um deles, se reúne não apenas uma técnica, ou procedimento ou fazimento, mas uma coalescência de diferentes técnicas, representantes de diferentes fazimentos, em uma espécie de “discurso prático da técnica”, a tecnologia.
Esse amálgama falaz entre as noções de técnica e de tecnologia é muito bem formulado por François Sigaut, ao apontar diferenças entre estes termos, no prefácio de um livro de ensaios do etnólogo André-Georges Haudricourt:
Se os dois termos podem ser tomados um pelo outro, é porque qualquer um dos dois não tem um sentido bem preciso para nossos contemporâneos. Porque, contrariamente a uma opinião bastante corrente, nossa vida quotidiana é cada vez menos marcada, menos formada e menos estruturada pela técnica. A técnica supõe o contato direto do homem com a natureza, com a matéria. Ora, as máquinas nos dispensam ou nos privam mais e mais deste contato, sem que o ensino geral (do qual as técnicas são excluídas) aporte qualquer compensação. O que cria esta ilusão, é que o capital de saber técnico acumulado em nossa sociedade é hoje em dia infinitamente maior do que jamais foi. Mas a parte de cada um de nós neste capital jamais foi tão desprezível. (apud SÉRIS, 1994, p. 4, grifo meu)
Quanto ao qualificador complementar “informação”, na expressão “tecnologia da informação”, tem-se aí o caso de uma noção que se libertou de seu cadinho semântico medieval ganhando o imaginário no final do século XX, envolta em uma nuvem de sentidos, aparentemente claros e óbvios. Justamente esta aparência de clareza de sentido, onde todos creem compartilhar um entendimento óbvio do que é informação, torna-se um dos desafios na investigação filosófica sobre a informática enquanto tecnologia da informação.
O que é informação e o que é informação na expressão “tecnologia da informação”? O sentido medieval de informare guardava a conotação clássica de moldar ou formar a matéria pela ação do artista, mas dirigida então à possível ação humana de aplicar ensinamentos em ou para a formação interior de um indivíduo. Para alguns autores, como Rafael Capurro, esta noção não teria mais o peso de seu significado original no entendimento atual da noção de informação.
Capurro (2003) lembra que foi após a segunda grande guerra que o termo “informação” ganhou presença na linguagem científica fixando sua noção em 1948, através da cibernética de Norbert Wiener (1894-1964) e do trabalho de Claude Shannon (1916-2001) sobre comunicação. A partir de seu sentido cibernético e informacional-comunicacional, foi elaborado nos anos 1950 pela nascente Ciência da Informação, firmando a noção de “conhecimento comunicado”.
É bem verdade que essa questão (a origem da informação) pouco preocupa os cibernéticos, mas isso precisamente porque, desde o começo, pelo menos no que diz respeito a Wiener e aos que o seguem, eles fizeram da informação uma grandeza física, tirando-a do domínio das transmissões de sinais entre humanos. Se todo organismo é cercado de informações, isso acontece porque há organização em toda parte ao seu redor, e essa organização, em razão até de sua diferenciação, contém informação. A informação está na natureza, e a sua existência é, portanto, independente da atividade desses doadores de sentido que são os intérpretes humanos. (DUPUY, 1995, p. 157)
A característica mais importante de um organismo vivo é sua abertura ao mundo exterior. Isso significa que ele é dotado de órgão de acoplamento que lhe permite recolher as mensagens do mundo exterior, as quais decidem a sua conduta futura. É instrutivo considerar isto à luz da termodinâmica e da mecânica estatística. (DUPUY, 1995, p. 151)
Ou seja, através da cibernética e da teoria da informação pensou-se encontrar a fórmula de materialização de algo denominado “conhecimento” que pode enfim ser transmitido como informação entre pessoas e máquinas, indiscriminadamente. Como afirmaria Heidegger, uma “dis-ponibilidade do des-encobrimento exploratório” da razão e da memória humanas, pela técnica moderna da informação.
A moderna noção de informação, especialmente na expressão “tecnologia da informação”, refere-se àquilo que se constitui na e pela tecnologia como uma representação digital de entes, atos ou fatos humanos, sob a configuração final de algoritmos operando sobre dados simbólicos. Esta configuração é assim capaz de “in-formar” uma representação do real em pessoas ou em outras tecnologias similares.
Essa representação armazenada nos circuitos eletrônicos de uma tecnologia da informação se constitui a partir da dissolução do objetivado em um conjunto de atributos que o definem como dados numéricos ou categorizados, ou, como se costuma denominar, como dados simbólicos, passíveis de serem operados por algoritmos que completam a re-presentação dos atos ou fatos humanos, objetivados.
Esse sentido de informação, como uma representação constituída artificialmente, é um perigoso simulacro do sentido original de informação. Escamoteia todo esse processo metodológico de apreensão e de dissolução do objetivado em um conjunto de dados simbólicos, que doravante passa a ser o modo de acesso a qualquer ente. Pior ainda, escamoteia também o “meio” imediato onde impera o “método” que faz o visado, o objetivado, dissolver-se e coagular-se em representação, sob a forma de dado simbólico. Este meio, que será examinado no capítulo II, é o chamado “meio técnico-científico-informacional” (SANTOS, 1995), que Heidegger pressentia o predomínio em 1966: “Não vivemos a não ser em condições técnicas” (apud MILET, 2000).
Segundo sua nova versão cibernética e comunicacional, a noção de informação aparenta ser um conceito neutro e simplório daquilo que se dá na relação entre pessoas e máquinas. Juntamente com esta noção, adota-se também o comportamento singular de intercambiar, na referência a pessoas ou máquinas, termos de aplicação exclusiva a seres humanos, como linguagem, memória, cálculo, interpretação, símbolo, etc. Tudo indica que a reificação do humano no “cérebro eletrônico” ou na moderna “inteligência artificial” obedece à busca por um denominador comum, onde aquilo que se dá na interação entre máquinas, a simples troca de mensagens, é este denominador.
Neste percurso de investigação e de reflexões, a leitura de Heidegger, em particular de seu pensar sobre a questão da técnica orienta as primeiras observações sobre a informática enquanto “técnica da informação”. No contraponto com a leitura de Heidegger, busca-se, por outro lado, entender o “dar-se e propor-se da informática” na realização do processo moderno de informatização, ou de “maquinação informacional-comunicacional”; maquinação (Machenschaft) entendidida como “o acabamento incondicionado do ser enquanto vontade de poder” (HEIDEGGER, 2000a, p. 156), como “a absolutização da vontade no interior do espaço de realização da metafísica da técnica e a assunção da instrumentalização como virtude fundamental desta vontade”.
A informatização não é, pois, simples efeito da informática e sua expansão. A informática é que nasceu da informatização. O que está em jogo é um processo totalitário de realização. Neste nível abre-se todo um outro horizonte para se pensar o vigor histórico da informatização em sua essência de poder, tanto para a libertação como para a dominação. É o horizonte da realidade em movimento de realização. Aqui no palco da história, o real se faz espetáculo e demonstra o potencial de suas virtualidades de ser e parecer, de não ser e vir a ser. (CARNEIRO LEÃO, 1993, p. 95)
Essa realização da informatização, no dar-se e propor-se da informática, sinaliza, mais uma vez, o meio, enquanto um “mundo reduzido” onde este “dar-se” realiza-se, torna-se real. As reflexões de Heidegger sobre “ser-no-mundo”, instrumento, “mundo circundante” e mundanidade, já indicam, de algum modo, este “meio da manualidade informacional”.
As condições de possibilidade do dar-se da informática, no e pelo meio que garante sua manifestação e proliferação, leva a confirmação da ontogenia comum da tecnologia da informação e deste meio técnico-científico-informacional, no processo global da informatização, cujos qualificadores serão adiante elaborados.
Quem reflete sobre este processo reconhecerá logo que a proposta, sempre repetida, da técnica dominada pelo homem procede de um modo de representação que se move apenas nas zonas fronteiriças daquilo que é atualmente. Superficial também é a observação que o homem de hoje em dia se tornou escravo das maquinas e dos aparelhos. Pois é uma coisa fazer tais observações, mas é totalmente outra sobre isto refletir e pesquisar, não somente em que medida o homem de nossa época está submetido à técnica, mas ainda em que medida ele deve se conformar à essência da técnica, em que medida se prenunciam, nesta conformidade, possibilidades mais originais tocando uma existência (Dasein) livre do homem. A construção do mundo pela técnica e a ciência estende suas próprias pretensões até o enquadramento de todas as dis-ponibilidades (Bestand) que em um tal mundo se esforçam por vir a luz. (HEIDEGGER, 1957/1962, p. 75)
Já na terceira parte, com essa noção de meio, muito própria desta reflexão, devidamente estabelecida, cabe o estudo da informatização agindo como principal catalisador deste meio, orientando em sua ontogenia o “engenho de representação” no dar-se e propor-se da informática. A informatização reúne e dispõe o que será denominado e examinado, a “matematização”, a “logicização” e a “industrialização da memória” (STIEGLER, 1994 e 1996), no dar-se e propor-se da tecnologia da informação.
Neste percurso vislumbra-se a morfogênese da tecnologia da informação enquanto fenômeno essencial dos Tempos Modernos. Uma tecnologia cuja natureza assemelha-se mais e mais a um “dis-positivo geral de representação”, ou melhor, a um “engenho universal de representação”, em perfeita consonância com a metafísica da Modernidade; definida esta metafísica através de uma acepção do ente e de uma explicação da verdade, peculiar dos Tempos Modernos, qual seja, a “representação”.
A última parte desse estudo analisa, portanto, a questão da representação, como a própria razão de ser da informática, enquanto tecnologia da informação, buscando a possível identidade da essência da técnica moderna com a essência da metafísica moderna, à medida que o “processo fundamental dos Tempos Modernos é a conquista do mundo enquanto imagem concebida”; onde a representação é a pedra de toque capaz de converter o real em objeto informacional-comunicacional.
Lá onde o Mundo se torna imagem concebida (Bild), a totalidade do ente é compreendida e fixada como aquilo sobre o qual o homem pode se orientar, como aquilo que vale consequentemente recolher e ter diante de si, aspirando assim fixa-lo, em um sentido decisivo, em uma representação. “Weltbild”, o mundo na medida de uma “concepção”, não significa, portanto uma ideia de mundo, mas o mundo ele mesmo apreendido como aquilo do qual se pode “ter ideia”. O ente em sua totalidade é, portanto, tomado agora de tal maneira que só é verdadeiramente e somente ente na medida que é detido e fixado pelo homem na representação e na produção. Com o advento da “Weltbild” se realiza uma intimação decisiva quanto ao ente em sua totalidade. O ser do ente é doravante pesquisado e descoberto no ser-representado do ente. (HEIDEGGER, 1949/1962, p. 117).
Como afirma Carneiro Leão (1992, p. 93), “a provocação para pensar que nos traz hoje a avalanche da informática, reside na ambivalência vespertina, concentra-se na ambiguidade transitiva da informatização”. A questão da técnica formulada por Heidegger torna-se hoje a questão da informática. A essência da informática é a Gestell não apenas como vislumbrada por Heidegger na técnica moderna, mas acima de tudo como realidade do cotidiano.
Conceber a sua essência enquanto o que dá à técnica moderna das máquinas a verdade e a necessidade internas; portanto não segundo um conceito (uma representação universal) do fato agora justamente dado que denominamos “técnica”; também não o que pensa na mesma direção, esta “técnica” enquanto fenômeno da “cultura”; pois a “cultura” mesma pertence a essência técnica concebida metafisicamente. Esta é a verdade da subjetividade, subjetividade concebida enquanto entidade do ente.
Consequência desta “técnica” essencial é o matemático das ciências, o “sistema”, a “dialética”.
Portanto também não buscar algo como o “elemento técnico” (de maneira meramente adequada aos aparelhos e ao funcionamento) em meio às ciências, à arte, à política, como se estas ainda fossem além disto propriamente algo diverso. O outro e o próprio é exatamente o “elemento técnico” compreendido metafisicamente, sim histórico-ontologicamente. A “técnica” assim compreendida encontra-se em conexão com a techne que emerge da physis e pressupõe e propaga o encobrimento desta última. (HEIDEGGER, 2000a, p. 156)
