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Mente

BARRETT, William. Death of the Soul. From Descartes to the computer. New York: Doubleday, 1986.

O Poder da Mente

1. A questão de saber se a mente pode ser reduzida à matéria, tal como colocada pelo materialismo, revela-se retórica e de significado impreciso, sendo mais produtivo perguntar, dentro dos limites da experiência, se a mente desempenha um papel ativo ou meramente passivo na vida humana, o que torna a resposta efetivamente contrária ao materialismo se for demonstrada sua atividade organizadora.

2. Immanuel Kant é escolhido como figura central por ter efetivamente trazido à tona o papel ativo e organizador da mente na experiência, em oposição aos empiristas britânicos que enfatizavam sua passividade, e um exemplo simples disso é a percepção seletiva e orientada para o futuro que ocorre em situações cotidianas, como uma conversa entre várias pessoas.

3. A construção dos números serve como um exemplo claro do poder da mente em trazer ordem à experiência, e a reflexão sobre a origem dos números, em culturas primitivas ou em um momento hipotético em que não existiam, mostra que a matemática não é uma entidade platônica subsistente, mas uma construção ativa da mente humana que exige continuidade de consciência e a presença de um “eu” (ego) para realizar a síntese entre passado, presente e futuro.

4. A síntese mental envolvida na construção de números é diferente do modelo de reflexo condicionado, pois é uma operação ativa da mente que visa a um fim ou estrutura planejada, trazendo à existência uma nova ordem e significado, e exige um “eu” que seja o mesmo ao longo do tempo, ainda que Kant, como filósofo crítico, limite esse “eu” a um ego formal e transcendental, suficiente para dar continuidade ao processo de pensamento, mas sem afirmar sua natureza como substância imaterial.

5. A visão de Kant sobre a matemática é que ela é essencialmente construtiva, pois lida com entidades construídas pela mente e seus métodos de pensamento são construtivos, o que se conecta à sua distinção entre proposições analíticas (que não acrescentam conhecimento) e sintéticas (que acrescentam conhecimento novo), uma distinção que, apesar das controvérsias, captura a diferença entre resultados matemáticos triviais e significativos.

6. A tentativa de Bertrand Russell de reduzir toda a matemática à lógica, tornando-a analítica e tautológica, é criticada, pois não explica a diferença entre teoremas triviais e significativos, e seu recurso a uma mente infinita para justificar a tautologia é inconsistente com uma posição positivista, enquanto Kant, com sua ênfase na finitude da mente humana, oferece uma compreensão mais adequada da matemática como uma atividade construtiva e inventiva.

7. A história confirma a visão de Kant, pois a lógica pouco progrediu desde Aristóteles, enquanto a matemática tem sido continuamente produtiva de novas descobertas, e mesmo a lógica moderna, por ser matemática, permite novas formas de construtividade, como demonstrado pelo teorema de Gödel, que depende de um dispositivo construtivo de numeração de expressões.

8. A filosofia da matemática de Kant não é essencialmente limitada por sua adesão à geometria euclidiana, pois sua visão de que a matemática lida com construções livres da mente pode abranger geometrias não-euclidianas, e a compreensão atual das fundações da matemática é um campo contestado, o que sugere uma fragmentação cultural mais ampla e a proliferação de verbalismo.

Ciência Moderna

9. A ciência moderna é o exemplo mais deslumbrante do poder construtivo da mente, e Kant, ao refletir sobre sua natureza, fornece uma visão revolucionária ao afirmar que a razão tem insight apenas sobre aquilo que produz segundo seu próprio plano, não se deixando conduzir passivamente pela natureza, mas compelindo-a a responder a perguntas formuladas pela própria razão.

10. A relação intrínseca entre ciência e tecnologia é destacada, pois o cientista não reflete passivamente os fatos, mas constrói modelos conceituais que não são encontrados na natureza e os impõe a ela, um exemplo é o conceito de inércia de Galileu, que é contrafactual em relação à experiência comum, mas serve como um padrão ideal para o cálculo de situações reais, mostrando que a ciência é tecnológica em sua própria origem, na formação de conceitos básicos.

11. O projeto de ciência-tecnologia é um fenômeno unitário e um projeto humano singular que marcou a história moderna, transformando profundamente a atitude humana em relação ao mundo, pois a humanidade deixou uma posição passiva para assumir um papel ativo e de comando sobre a natureza, buscando o poder e o domínio, o que Kant internaliza a partir da máxima baconiana de que “conhecimento é poder”.

12. O projeto de ciência-tecnologia representa uma transformação positiva do ser humano, abrindo as portas para um conhecimento sem precedentes sobre o mundo e gerando expectativas de progresso social, embora essas esperanças tenham recuado atualmente, dando lugar a certo desespero e niilismo em relação ao futuro.

13. A ironia suprema da história moderna é que a estrutura que mais enfaticamente exibe o poder da mente leva à depreciação da mesma, por meio do materialismo científico, que vê a mente como um brinquedo passivo de forças materiais, fazendo com que a prole se volte contra seu progenitor, e essa dúvida sobre a mente constitui um dos grandes desafios que a civilização moderna terá que enfrentar.


A Finitude da Mente

1. A compreensão habitual da finitude humana é predominantemente quantitativa, referindo-se aos limites de tempo e espaço que se percorre, mas Kant introduz uma noção de finitude qualitativa, segundo a qual a mente humana está constituída de tal modo que não pode apreender conceitualmente as questões de significado último que lhe dizem respeito.

2. A distinção entre finito e infinito é comumente tratada como de fácil compreensão, mas o significado do infinito só pode ser apreendido pela mente finita como um processo sem termo, sem fim, e Kant estabelece que, para um conceito ser legítimo e ter significado, deve ser possível representá-lo por meio de alguma intuição concreta, derivada das percepções sensoriais, que ocorrem no quadro do espaço e do tempo.

3. Diferentemente da tradição platônica, que via a mente como capaz de se elevar do mundo sensível para um mundo inteligível, Kant concebe o pensamento como uma reorganização e síntese do mundo dos sentidos, operando sempre no âmbito da experiência sensível, o que confere à mente uma função essencialmente pragmática, voltada para a organização da experiência e, por extensão, para a tecnologia, como uma extensão das faculdades sensoriais.

Deus

4. O impacto mais sensacional do pensamento de Kant para seus contemporâneos foi a destruição das provas tradicionais da existência de Deus, o que marcou uma mudança revolucionária na relação do homem moderno com Deus, e essa crítica decorre diretamente de sua compreensão da natureza da mente humana, seus poderes e limitações, especialmente no que tange à formação de conceitos significativos.

5. O argumento de Leibniz para a existência de Deus, que parte dos seres contingentes e invoca o princípio da razão suficiente para postular um Ser Necessário, é refutado por Kant com a alegação de que esse princípio, ou o de causalidade, é estendido ilegitimamente para além da esfera da experiência possível, pois, embora funcione no quadro da experiência, não pode ser invocado fora dele, uma vez que os conceitos perdem sua nitidez nesse domínio transcendente.

6. Kant questiona se o próprio conceito de Ser Necessário é definido e significativo, pois a definição verbal de “não contingente” não fornece um conteúdo definido, nem um meio de construí-lo por intuições, permanecendo como uma fórmula vazia, e essa exigência de construtibilidade para o significado retorna nos debates contemporâneos sobre os fundamentos da matemática.

7. Ao afirmar que a ideia de Deus não tem conteúdo positivo e definido, Kant não a declara “sem significado” no estilo positivista, mas a distingue de um conceito científico estrito, situando-a em outra ordem da mente, e a humanidade existe dentro da questão de Deus, não podendo escapar dela, ainda que a ciência nunca possa responder a essa pergunta, o que representa a finitude radical da razão.

8. A incapacidade da razão de responder à pergunta sobre por que existe algo em vez de nada, uma questão que ela própria coloca, revela uma finitude que não é um limite externo, mas uma lacuna no centro da própria razão, e o exemplo da teia da aranha serve como símbolo dessa condição: a mente humana tece a teia brilhante de seus conceitos científicos, mas não pode dar um passo além dela.

9. A estrutura da mente em Kant não deve ser entendida como andares externos uns aos outros (sensibilidade, entendimento e razão), mas como círculos concêntricos que se penetram mutuamente, de modo que a razão, que lida com ideias transcendentais, não é externa à percepção sensorial, mas a penetra, pois toda percepção ordinária faz parte de um contexto maior e, em última instância, da totalidade de tudo o que é.

10. A questão de Deus não é meramente especulativa, pois emoções como a angústia sobre o significado da vida, exemplificada pela confissão de Tolstói, apontam para além do mundo dos fatos empíricos e conceitos claros, e não podem ser respondidas por dados factuais, sugerindo que os sentimentos podem ter uma profundidade metafísica inacessível à razão, apontando para outras vias em direção a Deus, como a experiência moral e a sensibilidade à beleza da natureza.

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