User Tools

Site Tools


pensadores:barrett:it:start

Ilusão da Técnica

BARRETT, William. The illusion of technique: a search for meaning in a technological civilization. 1st ed ed. Garden City, N.Y: Anchor Press, 1978.

1. O início de um livro remonta a um momento muito anterior a qualquer experiência específica que possa ser apontada como seu ponto de partida.

2. Uma coluna de Anthony Lewis publicada no New York Times em fevereiro de 1974 relata a conversa com um cientista comportamental soviético em Leningrado, que aguardava o momento em que técnicas científicas determinariam por completo a estrutura do novo homem soviético, eliminando para sempre a possibilidade de dissidência.

3. Lewis, jornalista pouco dado a alarmismos quanto à União Soviética, mostra-se impressionado pela conversa e pergunta o que ocorreria com indivíduos como Soljenytsin, recebendo a resposta categórica de que simplesmente não haveria mais Soljenytsins.

4. A leitura simultânea de Arquipélago Gulag revela que os métodos brutais e não científicos usados contra dissidentes já anteciparam, de modo tosco, o ideal de prevenir a dissensão antes mesmo que ela ocorra, moldando a mente para que jamais surja o espírito rebelde.

5. Essas técnicas de modelagem da conduta são também o tema central da obra de B. F. Skinner, cuja leitura ainda não realizada nesse momento suscita um diálogo imaginário entre Soljenytsin e o próprio Skinner, tomado como equivalente estadunidense do conductista soviético anônimo.

6. Publicados em época próxima e ambos best-sellers, os dois livros constituem um contraponto surpreendente ao tratarem, cada um a seu modo, do tema da liberdade como o problema central da época.

7. Enquanto Skinner nega metafisicamente a possibilidade de liberdade em qualquer sistema político, tratando o ideal de personalidade autônoma como reliquia perniciosa a ser eliminada, essa postura acaba por revestir-se de consequências políticas inevitáveis.

8. Soljenytsin oferece o quadro horripilante de milhões privados de liberdade, tendo sido ele mesmo preso e exilado por defender essa causa, ao passo que o pensador que denigre a liberdade individual recebe as maiores honras acadêmicas em um país livre, evidenciando tempos estranhos.

I

9. Numa sociedade dominada pela técnica, os cientistas comportamentais buscam impor uma tecnologia da conduta que, segundo Skinner, já estaria disponível e pronta para ser aplicada.

10. Em contraste com o determinismo físico do século XIX, imposto pela natureza e pelas leis moleculares, o determinismo atual é imposto pelos técnicos, sendo a tecnologia da conduta, e não mais a física, a principal arma do arsenal determinista.

  • a mente humana que cria as técnicas de condicionamento acaba encerrada na prisão por ela mesma projetada

11. Cada época concebe suas ideias contra uma imagem dominante de fundo: o determinismo newtoniano apoiava-se na imagem dos corpos celestes em movimento inalterável, enquanto o determinismo recente tem como pano de fundo o computador e a aspiração de simular por completo a mente humana.

12. William Blake denunciava os grilhões forjados pela mente, visíveis nas vidas atrofiadas das ruas de Londres, e essa mesma imagem ressurge, sob outra aparência, na afeição contemporânea pela tecnologia da conduta.

13. O determinista é movido por um impulso intelectual obstinado que, não encontrando respaldo na natureza, passa a produzir seres humanos mecânicos, disfarçando essa obstinação com promessas de eficiência social e eliminação de neuroses, ainda que grilhões continuem sendo grilhões.

14. Qualquer defesa da liberdade precisa, portanto, examinar a natureza, o alcance e os limites da técnica, tema central tanto para a filosofia quanto para as incertezas de toda uma civilização tecnológica insegura de seus próprios poderes.

II

15. A origem deste livro não se reduz à conjunção fortuita entre a coluna de jornal e a leitura de dois autores contemporâneos, mas decorre de um estudo mais amplo da filosofia do século XX, concentrado em três figuras representativas: Ludwig Wittgenstein, Martin Heidegger e William James.

16. Wittgenstein representa a chamada filosofia analítica, embora seu procedimento seja essencialmente sintético e intuitivo, fundado em lampejos de inspiração mais do que em dialética laboriosa.

17. Heidegger representa a fenomenologia e o existencialismo de modo tão singular que a classificação é apenas provisória, sendo, num sentido mais profundo do que o de Sartre, existencial a seu próprio modo.

18. James figura como exemplar do pragmatismo, distinguindo-se pelo tom pessoal e desinibido de seu filosofar e por sua ousada aposta na crença religiosa.

19. O equilíbrio entre esses três pensadores heterodoxos não resultou de intenção deliberada, mas da atração pessoal exercida por cada um, sendo preferível seguir aquilo que genuinamente atrai a tentar antecipar o juízo do futuro sobre as reputações do presente.

20. Um agradecimento final é devido à coluna de Lewis, sem a qual a leitura paralela de Soljenytsin e Skinner não teria ocorrido, e este livro, além de explorar pensadores contemporâneos, constitui também um argumento em favor da liberdade humana.

21. Kant apontou Deus, a liberdade e a imortalidade como as três grandes perguntas filosóficas, atribuindo à liberdade certa prioridade por estar mais diretamente ao alcance da experiência, abrindo caminho, a partir dela, para as outras duas questões.

22. Um bosquejo preliminar do pensamento desses três filósofos é oferecido como guia para a exploração que se segue.

23. A lição extraída da obra de Wittgenstein reside no fracasso da lógica formal em determinar sozinha uma filosofia, tendo de ceder, em certo ponto, às percepções do senso comum, o que revela os limites gerais da técnica e reconduz à condição humana da decisão e da criatividade.

24. As técnicas humanas não operam no vazio, mas configuram um novo ambiente material e social, colocando o ser humano em nova relação com a natureza, o cosmos e consigo mesmo, como a explosão da bomba atômica deixou entrever sem que se tenha compreendido filosoficamente o alcance do ocorrido.

  • ao adquirir domínio sobre os entes por meio da tecnologia, perde-se o sentido do Ser, na formulação de Heidegger

25. Heidegger serve de guia útil para essas questões, uma vez que o tema da tecnologia conduz seu pensamento a uma confrontação direta com a era moderna, podendo-se imaginar uma sociedade técnica futura incapacitada, por seu próprio pensamento técnico, de compreender o sentido que perdeu.

26. Cabe à filosofia, nesse ponto, não fornecer respostas, mas manter vivas as perguntas.

27. Embora Wittgenstein e Heidegger sejam, em certos momentos, pensadores de categoria religiosa, nenhum dos dois ultrapassa esse limiar, e a questão da liberdade exige avançar além dele para explorar o direito do indivíduo ao risco da crença religiosa, sem a qual nenhuma defesa filosófica da liberdade estaria completa.

28. William James é escolhido como companheiro nessa etapa por ter feito da vontade de crer seu tema central e por ser, ao contrário de Heidegger e Sartre, o último filósofo moderno a apresentar o indivíduo em suas necessidades e opções concretas, e não como estrutura de possibilidades ou ausência abstrata.

29. A dimensão social da liberdade, embora inevitavelmente presente ao se escrever sobre o tema, fica fora do escopo direto deste trabalho, sendo abordada apenas indiretamente em dois capítulos finais, já que o interesse central recai sobre a pergunta metafísica da liberdade individual, ainda que, ao final, essa questão não possa ser inteiramente separada da liberdade política.

pensadores/barrett/it/start.txt · Last modified: by 127.0.0.1

Except where otherwise noted, content on this wiki is licensed under the following license: Public Domain
Public Domain Donate Powered by PHP Valid HTML5 Valid CSS Driven by DokuWiki