Introdução
BEAUNE, Jean-Claude. Philosophie des milieux techniques. La matière, l’instrument, l’automate. Seyssel: Champ Vallon, 1998.
1. A trama de “A Guerra do Fogo”, de J.-H. Rosny, ilustra como a conquista de uma técnica — a máquina de fazer fogo obtida a partir de dois sílex — instaura entre o guerreiro e a natureza um vínculo transmissível pelo saber, fundando uma outra relação com o mundo que prefigura a passagem da caça errante à fixação em aldeias e entrepostos.
2. Em “A Guerra das Salamandras”, de Karel Čapek, a instrumentalização de bípedes aquáticos para a exploração de pérolas acaba por desencadear, a longo prazo, a conquista do mundo humano por salamandras robotizadas e humanizadas, alegoria de uma técnica que se volta contra seus criadores.
3. A primeira ferramenta do caçador provavelmente serviu também para golpear o semelhante, de modo que a guerra acompanha desde a origem toda reflexão sobre a técnica, manifestando-se hoje tanto nos armamentos quanto na retórica da “guerra comercial” herdada das instituições militares que fundaram boa parte do saber tecnológico ocidental.
4. A noção de “meio técnico” revela o paradoxo de uma civilização tecnicista que, apesar de ser movida pelas máquinas e pelo trabalho industrial, mantém quase total desconhecimento ou desprezo pelos saberes técnicos.
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o objeto técnico, apesar de visual e acessível, permanece pouco frequentado, ao contrário dos objetos de arte contemplados por multidões inertes
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a edição francesa carece de revistas técnicas de qualidade acessíveis ao grande público, ao contrário de países como Inglaterra, Estados Unidos, Alemanha ou Áustria
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a negligência do saber técnico parece proporcional ao próprio desenvolvimento industrial, deixando lacunas difíceis de localizar
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falta dignidade pedagógica ao domínio técnico, tradicionalmente relegado a alunos menos favorecidos ou filhos de imigrantes, ainda que essa mentalidade comece a mudar
5. A história das técnicas exige uma epistemologia própria que recuse o reducionismo às ciências físicas ou à economia, sendo particularmente difícil ao ocidental — marcado corporal e espiritualmente pelas máquinas — pensar a racionalidade técnica fora da linguagem fria da ciência.
6. As relações entre técnica e social revelam-se no estatuto do engenheiro, que frequentemente se torna gestor da sociedade tratando-a como máquina, e nas confusões em torno da ideia de progresso, cuja raiz é técnica mas cujo sentido geral permanece em aberto.
7. O vínculo entre técnica e natureza, sobretudo na perspectiva da “tecnologia cultural”, encontra em Leroi-Gourhan uma classificação fundada em critério natural e objetivo: os níveis de utilização do meio, ou seja, de desestruturação e resistência da matéria.
8. As categorias técnicas fundamentais consideram esse mesmo vínculo do ponto de vista da atividade técnica já realizada, interrogando como se chega, a partir de dados materiais iniciais, a determinado resultado, sempre relacionando indivíduo e grupo.
9. O meio técnico começa por um território e um espaço físico e humano já talhado pela história, pelas guerras e pelo Estado, sendo ao mesmo tempo matéria portadora de marcas e memórias imemoriais visíveis tanto na paisagem exterior quanto no corpo dos homens que nela vivem.
10. Toda antropologia técnica deveria partir da pré-história e das lembranças geológicas propostas pela paleontologia, já que os próprios objetos técnicos são memórias fiéis ao sílex primitivo, matriz comum de sua genealogia.
11. Essa continuidade entre natureza e cultura material funda a possibilidade de uma análise global, na qual a parte não é de natureza distinta do todo, mas porta, como um fonema, seu próprio sentido e valor.
12. Lévi-Strauss, em “Tristes Trópicos”, relaciona sua vocação antropológica ao fascínio juvenil pelas camadas geológicas, evocando um animismo necessário à análise do fenômeno técnico que não se reduza à mera aplicação da racionalidade científica.
13. A paisagem moldada pela mutação industrial é dominada pela cidade e pela fábrica, mas o espaço rural conserva sua importância, e a estética das máquinas abandonadas às ervas — comparável às esculturas de Henry Moore — revela um destino industrial ainda jovem em que a proximidade brutal entre artifício e natureza modificada, porém não vencida, se manifesta até no próprio corpo humano.
14. A questão técnica supõe que máquina e organismo guardam entre si mais do que simples semelhança anatômica, pois, segundo Canguilhem, a explicação do organismo pela máquina só nasce quando a engenhosidade humana constrói aparelhos capazes de dispensar o homem em sua ação, culminando no trabalho automatizado e desumanizado.
15. A história das técnicas, viva e múltipla, remete constantemente às próprias representações do observador, tendo a revolução industrial produzido “monstros” como a imagem moderna da infância e a redefinição técnica da morte em 1973, ecoando a tríade formulada por Octavio Paz — sexo, trabalho e morte — como estrutura fundamental de toda sociabilidade técnica.
16. A cultura consiste, segundo Hegel, em extrair a natureza de si mesma, de modo que as técnicas exprimem a sociedade “à distância”, constituindo uma totalidade simbólica organizada equivalente aos mitos e às formas de parentesco.
17. O quadro de reflexão permanece o das relações Natureza/Cultura, exigindo que se evite tanto o empirismo pontilhista quanto o reducionismo cientificista, mediante o recurso a categorias lógicas propriamente tecnológicas, sobretudo a de totalidade.
18. A ideia de “meio técnico” ultrapassa a de meio cultural ao aprofundar a referência à natureza no sentido da vida, concebendo a técnica como tática vital em que o ato fabricador se afirma como organizador da existência.
19. A relação entre órgão e ferramenta, pensada como “tática vital”, revela duas totalidades nunca totalmente coextensivas nem totalmente independentes, de modo que dependência ou autonomia absolutas implicariam redução teórica ou mecanicismo excessivo.
20. Todo ato humano, mesmo o mais ritualizado — do poço escavado para saciar a sede ao suplício do funil —, permanece tecnicamente vinculado a uma necessidade natural nunca de todo perdida, ainda que desviada por infinitas modalidades sociais; a cultura ocidental privilegia entre os sentidos a visão, como atestam as metáforas ópticas que atravessam toda a filosofia do conhecimento.
21. As doutrinas da finalidade comparam o trabalho da natureza ao de um artesão inteligente, mas os verdadeiros evolucionistas darwinianos insistem nas pequenas variações aleatórias, de modo que tanto o finalismo quanto o evolucionismo mecanicista revelam-se igualmente antropomórficos, ainda que este último dissimule melhor esse traço.
22. É possível ler a relação entre objeto técnico e órgão vivo “ao contrário”, tomando o objeto cibernético como modelo intelectual do órgão, sabendo-se porém que todo objeto ou organização técnica constitui uma memória que contém, valida e explica os estágios tecnológicos anteriores.
23. As ciências do homem giram em torno da determinação entre normal e patológico, criando um conflito entre constatação factual e juízo de valor, como ilustra o exemplo do relógio cartesiano cuja anormalidade pode ser definida tanto teleologicamente quanto estatisticamente.
24. O horizonte conceitual da técnica oscila entre a perspectiva física, orientada por ordem e regularidade, e a perspectiva biológica vitalista, centrada na irregularidade e na individualidade, oposição que ultrapassa a metodologia para condensar visões globais e ideológicas do homem.
25. O indivíduo configura-se como “erro da razão” justamente porque a diferença é sua regra, sendo o vivente tanto mais vivo quanto mais fluido e adaptativo, ao passo que o gênero técnico seria tanto mais técnico quanto mais rígido e normalizado, isto é, mais próximo da morte.
26. Não existe patológico técnico propriamente dito, segundo Canguilhem, salvo no caso do artifício que dissimula um homem, como o autômato jogador de xadrez de Maelzel, ou no da máquina perfeita e autorreprodutora imaginada por von Neumann, sendo a coerência do meio técnico buscada antes nas ligações entre sistemas técnico, científico, econômico, estético e social.
27. Os objetos técnicos devem ser retirados da fria necessidade de sua figuração racional, já que carregam e geram imagens, constituindo um imaginário técnico que vai da magia simples da ferramenta às máquinas celibatárias, aos autômatos e às máquinas de ficção científica.
28. As visões globais e sistemáticas do meio técnico apoiam-se na noção de sistema técnico formulada por B. Gille, segundo a qual todas as técnicas dependem umas das outras em diversos graus, constituindo coerências analisáveis em termos de ligação e equilíbrio.
29. Permanece em aberto onde situar a fronteira entre a fixidez biológica e a fluidez cultural, caso o critério distintivo da técnica humana resida numa capacidade de escolha e adaptação mais flexível.
30. A ideia de meio exige, à maneira de von Uexküll, distinguir o “Umgebung” — meio físico neutro — do “Umwelt” — meio de comportamento próprio ao organismo —, sem supor a priori que o meio animal seja neutro e o humano, colorido, o que conduz a duas questões sobre analogias entre objetos técnicos e órgãos e sobre condutas animais que antecipam comportamentos humanos, no campo da biônica.
31. A classificação dos utensílios fabricados pelo homem exige um referente que distinga, de um lado, os objetos puramente artificiais e, de outro, os instrumentos que apresentam semelhanças anatômicas e funcionais com órgãos de seres vivos.
32. As definições clássicas distinguem a ferramenta, definida pelo uso direto e natural, da máquina, ferramenta capaz de fazer ferramentas, e do instrumento, ferramenta artificial ligada a funções artesanais.
33. Diversos órgãos animais sugerem, por forma ou função, as ferramentas criadas pelo homem, compartilhando inclusive o mesmo vocabulário, o que autoriza falar de ferramentas naturais ou biológicas.
34. Órgãos animais funcionam como verdadeiras ferramentas — dentes, dispositivos de fixação, órgãos elétricos e luminosos, entre outros —, chegando a natureza, em certos casos como o do vaga-lume, a antecipar soluções ainda buscadas pela técnica humana, como demonstra a comparação entre o botão de pressão do caranguejo e o humano.
35. O argumento da fixidez da ferramenta animal não basta para distinguir a ferramenta biológica da artificial, pois, como a mão humana, patas e mandíbulas constituem dispositivos generalizados capazes de múltiplas ações — à semelhança da faca —, enquanto órgãos hiperespecializados vinculam os seres a um meio preciso.
36. As ferramentas biológicas fazem corpo com o animal como um órgão essencial, existindo porém alguns casos, como o da formiga costureira e de certa vespa, em que o inseto emprega um utensílio externo a si mesmo.
37. O emprego de ferramentas externas ocorre sobretudo entre os macacos e chimpanzés, que lançam pedras e galhos ou utilizam bastões para alcançar objetos e alimentos.
38. Assim como a ferramenta fabricada, a ferramenta biológica possui causalidade própria, obedecendo a leis físicas e químicas específicas, como demonstram o farol luminoso dos peixes, os órgãos elétricos e a cápsula da papoula.
39. Há semelhança, mas não continuidade, entre ferramenta natural e ferramenta humana, pois a primeira é interna ao organismo e contemporânea de sua causa, enquanto a segunda é exterior, dependente de uma causalidade externa ligada à liberdade e às potencialidades culturais de utilização.
40. Essa aparente linha de demarcação entre homem e animal é posta em xeque pelos complexos tecnológicos modernos, nos quais o homem funciona como uma engrenagem determinada por uma causalidade externa, conforme já assinalava Marx ao descrever o operário como “apêndice de carne numa máquina de aço”, revelando também o caráter filosoficamente questionável da distinção entre causalidade interna e externa.
41. A noção de meio deve ser reavaliada a partir da distinção quantitativa, não qualitativa, entre ferramenta humana e animal, encontrando paradigma na experiência de Head, que ao seccionar um nervo cutâneo revelou duas formas distintas de sensibilidade.
42. A sensibilidade protopática, rígida e estereotipada, e a sensibilidade epicrítica, adaptável e múltipla, integram-se numa mesma organização sensorial em que o nível arcaico é mascarado pelo elaborado, funcionando como metáfora paradigmática para pensar a distinção entre instinto e inteligência.
43. Bergson define o instinto acabado como faculdade de utilizar instrumentos organizados e a inteligência acabada como faculdade de fabricar instrumentos inorgânicos, distinção que constitui, na verdade, variante da tradicional separação filosófica entre corpo e alma.
44. A comparação entre o macaco e o homem no domínio técnico carece de critérios rigorosos, restando a adaptação ao meio como única norma relativa capaz de avaliar os comportamentos.
45. Lévi-Strauss observa, nas “Estruturas Elementares do Parentesco”, que os sentimentos considerados mais nobres da natureza humana, como o terror religioso e a ambiguidade do sagrado, são justamente os mais facilmente identificáveis entre os antropoides.
46. O ato humano realiza-se segundo um sistema de valores não específico e emotivo, enquanto a ação da máquina obedece a um critério concreto de objetos avaliados, opondo valores a alvos.
47. A ausência de “valores” na máquina liga-se intimamente à ausência de liberdade, colocando em questão o problema da consciência, que separa o homem da máquina salvo processos sobreacrescentados.
48. A busca de modelos mecânicos para compreender a estrutura e o funcionamento dos órgãos justifica-se, segundo Canguilhem, porque a representação mecânica do ser vivo não se reduz a mecanismos meramente cinemáticos.
49. As máquinas cibernéticas, dotadas de memória e capacidade de decisão, parecem distantes das “ferramentas orgânicas”, mas essa distância talvez não seja tão grande quanto sugere um olhar superficial.
50. A ferramenta biológica demonstra uma finalidade de fato inconteste, cumprindo sempre, mais ou menos corretamente, um trabalho determinado, independentemente de sua complexidade ou custo energético, o que coloca em questão o próprio sentido da noção de utilidade fora da esfera humana.
51. As hipóteses mecanicista e finalista disputam a origem das construções biológicas dotadas de finalidade de fato, sendo o computador exemplo de máquina de intenção mecanicista que, por sua finalidade interna ligada à circulação da informação, funciona também como órgão.
52. As máquinas mais complexas não renegam sua origem instrumental e orgânica, como demonstra o autômato japonês capaz de reconhecer e simular expressões faciais humanas com notável taxa de acerto.
53. A prótese, tradicionalmente pensada como substituição de um órgão por um instrumento, ganha nova configuração com Norbert Wiener, que concebe músculos comandados por nervos, superando a contradição bergsoniana entre máquina e vivente, num contexto em que reflexos condicionados e hábitos revelam-se verdadeiras próteses cotidianas.
54. A aprendizagem consiste em adquirir hábitos, e a educação constitui verdadeiro exercício ortopédico que transforma um mecanismo exterior em mecanismo interiorizado.
55. Máquina e morte estabeleceram novas relações a partir do momento em que vivente e mecânico deixaram de ser contraditórios, gerando o paradoxo de uma vida em grande parte automática cuja interiorização prometeria, paradoxalmente, libertar da angústia e da morte.
56. O organismo distingue-se da máquina por quatro atributos essenciais — interconexão, totalidade, autossuficiência e reprodução —, mas o desenvolvimento do mecanicismo reduziu progressivamente essa distância, culminando na máquina autorreprodutora teorizada por von Neumann e nas questões contemporâneas sobre clonagem.
57. O perigo da máquina para o homem, historicamente associado à revolta operária contra o desemprego, atinge hoje todas as classes sociais e levanta questões deontológicas médicas e militares, alimentando o mito de uma cultura suicida por hiper-racionalização e seu contramito de que toda cultura só se afirma pela técnica.
58. O livro “La Technique”, de J.-P. Séris, introduz o problema do caráter inexplicável da eficácia técnica, que exige explicação múltipla e flutuante, remetendo à teoria da magia de Mauss e Hubert e ao significante flutuante de Lévi-Strauss.
59. Distinguem-se duas técnicas: a técnica normatizada e mensurável, própria da aplicação científica e da economia, isenta de mistério, e a outra técnica, marcada pela passagem inexplicável de matéria bruta a objeto real e funcional, ilustrada pelo exemplo cartesiano dos óculos e pelas diversas “técnicas sem ciência”.
60. Esse mistério aproxima a técnica da arte, atravessando toda experiência criativa mesmo nas ergonomias mais voltadas ao rendimento, de modo que arte e técnica formam, com a ciência, um triângulo em que cada termo conserva sua autonomia.
61. O artesão exemplifica esse mistério ao só ter certeza do êxito quando o objeto real efetivamente se realiza, podendo perder-se em inúmeros caminhos possíveis ou absorver-se na contemplação obsessiva de sua própria obra, mistério que nem a ciência, nem a arte, nem a metafísica ou a religião conseguem dissolver.
62. O vertiginoso desenvolvimento das ciências médicas e biológicas, marcado por sucessivas mudanças de paradigma desde Hipócrates até o clone contemporâneo, não encontrou correspondência equivalente na relação com o corpo, que permanece nosso grande desconhecido, como atestam tanto a desconfiança platônica quanto a imagem cristã do corpo morto e crucificado, condição da virtualidade que hoje se prolonga nas técnicas de imagem eletrônicas e midiáticas.
63. Alguns princípios elementares orientam a análise do mistério técnico: a impropriedade radical dos termos técnico, científico e estético entre si; a permanência dessa estranheza mesmo após o exame histórico; a necessidade de situar o objeto técnico entre mito e utopia; a exigência de reconduzir o sentido ao objeto individual e funcional; a coextensividade da questão da prática com o mistério inicial; e o caráter por vezes terrificante dessa falta estruturante, que D. Parrochia aproxima, em “Le Réel”, do real lacaniano como aquilo que nenhuma presença verbal consegue efetivamente velar.
64. Desse mistério — entre desejo e falta — abre-se e fecha-se ao mesmo tempo o espaço do sentido técnico e prático, no qual o objeto, tecido de mito e utopia, é simultaneamente engolido pela máquina, como o operário de “Tempos Modernos”, e rejeitado por ela, evocando a devoção alquímica dos antigos companheiros por suas “Mães” de ofício; o objeto técnico permanece assim carregado de sentido e de desconhecimento, jamais plenamente alcançado em seu ser, e é justamente esse vínculo entre matéria e morte — entre o calor que a técnica proporciona às mãos e o frio que ela desperta no espírito — que constitui o verdadeiro objeto deste livro.
