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Criação

BRETON, Philippe. À l’image de l’homme. Du Golem aux créatures virtuelles. Paris: Seuil, 1995.

** O humano como criação **

1. A pergunta sobre o que é o homem ocupa uma posição fundamental em todas as culturas, pois as representações socialmente construídas do humano atravessam silenciosamente instituições, práticas e vínculos coletivos, podendo a própria emergência da cultura estar associada à capacidade humana de tomar a si mesma como objeto de interrogação.

  • A representação do humano opera de maneira tanto mais decisiva quanto menos explícita permanece.
  • A consciência que o homem desenvolve acerca de si próprio pode constituir simultaneamente um princípio de formação cultural e um fundamento do vínculo social.

2. As respostas oferecidas à questão do humano são difíceis de isolar porque nenhuma sociedade possui necessariamente uma representação antropológica única e coerente, mas antes um campo de disputa no qual concepções religiosas, seculares, arcaicas, progressistas e atéias coexistem, confrontam-se e combinam-se.

  • A representação do humano constitui uma formação plural e historicamente estratificada.
  • Concepções contraditórias podem permanecer simultaneamente presentes numa mesma cultura.
  • A definição social do homem resulta menos de um consenso do que da tensão permanente entre diferentes modelos antropológicos.

3. A controvérsia de Valladolid e as práticas indígenas destinadas a verificar a mortalidade dos conquistadores mostram que diferentes culturas recorreram a critérios próprios para decidir quem deveria ser reconhecido como plenamente humano, assim como antigas discussões sobre a existência de alma nas mulheres evidenciam que a fronteira da humanidade foi historicamente objeto de disputas concretas.

4. As representações do humano formam-se durante períodos longos, resistem às modas passageiras e resultam da combinação de discursos eruditos, saberes populares, literatura, filosofia e experiência cotidiana, de modo que a definição do homem constitui antes uma realidade antropológica e social difusa do que exclusivamente uma elaboração teórica.

  • Cada indivíduo recebe e combina múltiplos elementos culturais na formação de sua própria imagem do humano.
  • Filosofia e teoria participam desse processo, mas não possuem monopólio sobre ele.
  • O senso comum pode exercer influência social mais ampla do que concepções racionalmente elaboradas.

** Os desafios da representação do humano **

5. Toda definição de humanidade que exclua determinados homens contém potencialmente a possibilidade de sua perseguição e eliminação, como demonstra o racismo moderno e, de forma extrema, a ideologia nazista ao transformar uma concepção restritiva do humano em fundamento de políticas destinadas a fazer coincidir violentamente a população real com uma definição racial previamente estabelecida.

  • A representação inclusiva da humanidade reconhece a condição humana comum a todos os homens.
  • O racismo altera essa definição ao declarar implicitamente que determinados seres humanos não pertencem plenamente à humanidade.
  • A política de purificação racial converte uma definição antropológica excludente em programa material de violência.
  • A exclusão conceitual precede e legitima, nesse processo, a exclusão física.

** As respostas eruditas **

6. A representação do humano organiza-se segundo um eixo temporal, dedicado à origem e ao futuro do homem, e um eixo diferencial, voltado para as fronteiras que o distinguem dos animais, das máquinas e da natureza.

  • O eixo diacrônico pergunta de onde o homem vem e em que pode transformar-se.
  • A questão da perfectibilidade investiga se a condição humana é fixa ou modificável.
  • O eixo sincrônico procura determinar quais diferenças separam o humano dos demais seres.
  • As oposições entre natureza e cultura, homem e animal ou homem e máquina constituem formas particulares dessa investigação.

7. As religiões oferecem tradicionalmente respostas à origem humana e, nas tradições bíblicas, a criação estabelece simultaneamente uma hierarquia entre o homem e os demais seres e uma ordem fundada na preservação das fronteiras entre categorias da criação.

  • A narrativa do Gênesis apresenta o homem como criatura de Deus.
  • A atribuição de nomes aos animais por Adão afirma uma diferença entre humanidade e animalidade.
  • Seres híbridos tornam-se problemáticos porque atravessam fronteiras consideradas constitutivas da ordem criada.
  • As religiões do Livro vinculam a condição humana à dependência perante um criador e aos deveres decorrentes dessa condição.

8. A antropologia moderna concorre parcialmente com as respostas religiosas ao situar a origem humana na continuidade evolutiva com os animais, mas a própria definição das fronteiras entre humanidade e animalidade permanece controversa e móvel.

  • A ausência de uma transição absolutamente determinada entre animal e homem mantém aberta a questão da origem.
  • Algumas concepções estendem a animais superiores propriedades anteriormente reservadas ao homem, como inteligência e linguagem simbólica.
  • Perspectivas ecológicas radicais enfatizam a continuidade entre humanidade e natureza.
  • Outras concepções situam na palavra propriamente humana uma ruptura qualitativa com o restante do mundo vivo.
  • A disputa sobre essas fronteiras constitui parte central dos conflitos em torno da representação do humano.

9. A pergunta pelo futuro humano envolve a alternativa entre uma natureza fixa e uma humanidade perfectível, estando as concepções políticas e técnicas historicamente associadas a diferentes projetos de transformação do homem.

  • O cidadão grego define-se também por oposição ao bárbaro.
  • A sociedade feudal organiza-se mediante uma representação específica do homem como sujeito.
  • O Iluminismo vincula o projeto político à ideia de liberdade e à discussão sobre a bondade natural.
  • As revoluções pressupõem frequentemente a possibilidade de construir ou recuperar um homem novo.
  • Toda transformação política radical implica, explícita ou implicitamente, determinada concepção daquilo que o homem pode tornar-se.

10. As grandes teorias políticas pressupõem necessariamente uma imagem do homem, podendo orientar sua transformação futura ou, como nas doutrinas nacionalistas e identitárias do século XIX, imaginar sua realização plena como retorno às raízes, à língua, ao sangue e ao território originários.

11. Mitos, sistemas filosóficos e grandes narrativas sociais estruturam-se em torno de definições determinadas do humano, que variam entre o homem renascentista colocado no centro do mundo, o homem-máquina das filosofias mecanicistas e o sujeito freudiano movido por forças inconscientes que somente podem ser apreendidas indiretamente.

  • O humanismo renascentista eleva o homem à condição de medida e centro da ordem mundana.
  • Descartes e La Mettrie contribuem para uma representação mecanicista da corporeidade humana.
  • Freud desloca o princípio explicativo da ação para forças internas que escapam parcialmente à consciência.
  • Sintomas, sonhos e lapsos tornam-se vias indiretas de acesso ao funcionamento profundo do sujeito.

12. As ciências médicas, as biotecnologias e a engenharia genética introduzem uma representação do homem como ser potencialmente modificável, cujo corpo e espírito poderiam ser aperfeiçoados mediante intervenções técnicas progressivamente capazes de superar doenças, alterar características hereditárias e até confrontar os limites impostos pela morte.

** Um objeto misto **

13. As criaturas artificiais ocupam uma posição singular no conjunto das representações do humano porque circulam simultaneamente entre conhecimentos especializados e imaginário popular, funcionando como mediadoras entre ciência, técnica e cultura cotidiana.

  • Estátuas animadas, autômatos e Frankenstein ingressaram amplamente no imaginário coletivo.
  • Conhecimentos eruditos são dramatizados e difundidos por meio das narrativas de criação artificial.
  • Questões provenientes do imaginário popular retornam, inversamente, aos ambientes científicos.
  • A criatura contribui também para formar imagens sociais positivas ou negativas do próprio cientista.

14. As criaturas artificiais não constituem o único veículo das representações antropológicas, mas oferecem um dos espelhos privilegiados pelos quais uma sociedade torna visível aquilo que entende como fundamentalmente humano, aparecendo por isso nos campos de atividade cultural que possuem maior legitimidade em cada época.

15. A extraordinária capacidade de adaptação histórica da criatura artificial manifesta-se em sua passagem sucessiva pela religião, pela técnica renascentista, pela literatura oitocentista e pela ciência contemporânea, tornando-a um objeto híbrido composto por uma estrutura narrativa relativamente permanente e por suportes culturais historicamente variáveis.

  • A religião forneceu inicialmente o horizonte dominante para a narrativa.
  • A técnica tornou-se progressivamente seu suporte a partir da Renascença.
  • A literatura do século XIX acolheu e transformou amplamente o motivo.
  • A inteligência artificial constitui sua principal manifestação científica contemporânea.
  • A permanência do motivo através de suportes tão distintos reforça sua interpretação como metáfora duradoura das representações humanas.

16. A compreensão da criatura como espelho antropológico permite deslocar a atenção de seu exotismo e de seu suporte histórico para a imagem de humanidade que ela transporta, distinguindo uma significação fundamental comum e, simultaneamente, importantes variações ocorridas durante aproximadamente dois milênios.

** O paradigma de um ser criado **

17. A característica fundamental compartilhada pelas criaturas artificiais consiste na identificação entre existência e criação, pois seu ser deriva integralmente do ato que as produz, ao mesmo tempo que sua constituição permanece dual, formada por uma dimensão material moldada pelo homem e por um princípio espiritual ou vital recebido de uma intervenção exterior.

  • A criatura não possui existência anterior ou independente de seu processo de criação.
  • O corpo resulta da fabricação humana.
  • A animação depende de uma instância distinta da simples manipulação material.
  • A estrutura matéria-espírito organiza persistentemente a representação dessas criaturas.

18. A permanência histórica da criatura como ser simultaneamente criado e dual sugere, caso ela seja compreendida como metáfora humana, uma concepção igualmente persistente do próprio homem como criatura constituída pela associação entre matéria e espírito.

19. O enfraquecimento moderno da concepção religiosa do homem como criatura divina não eliminou o paradigma mais geral do humano como ser criado, que permanece ativo inclusive em representações científicas aparentemente afastadas de pressupostos religiosos.

20. A associação entre existência humana e fabricação não constitui uma evidência universal, pois outras culturas concebem a origem do homem sem recorrer a um ato criador, como mostram tradições indígenas norte-americanas nas quais o humano é encontrado já existente dentro de uma concha, revelando o caráter histórico e culturalmente particular do paradigma ocidental da criação.

  • A ideia de que existir significa ter sido fabricado não decorre necessariamente da experiência humana.
  • Outras cosmologias podem conceber o homem como realidade preexistente ou descoberta.
  • A representação ocidental do homem criado deve, portanto, ser compreendida como construção histórica e não como verdade antropológica universal.

21. A formação histórica do paradigma ocidental do homem criado parece resultar da convergência de tradições anteriores que, em torno dos primeiros séculos da era cristã, produziram uma síntese cultural da qual emergiram figuras como Galateia e o golem, juntamente com uma concepção dualista da criação.

  • Diferentes tradições mediterrâneas contribuíram para a constituição do paradigma.
  • As primeiras criaturas artificiais condensam elementos provenientes de heranças muito anteriores.
  • A ideia do homem criado e a distinção entre matéria e espírito consolidam-se conjuntamente.

** As três fontes **

22. A fabricação de criaturas humanas pode ser compreendida como transformação histórica de práticas mais antigas relacionadas à construção de imagens divinas, mediante uma passagem da estátua portadora da presença de um deus para a figura produzida pelo homem e portadora de qualidades humanas.

23. Três grandes tradições contribuem para a formação desse paradigma: as estátuas espiritualmente animadas do Egito antigo, a concepção bíblica do homem criado por um Deus único e as narrativas greco-romanas de estátuas e seres artificiais produzidos por divindades.

  • A tradição egípcia estabelece a possibilidade de matéria aparentemente inerte receber uma presença espiritual.
  • A tradição bíblica define o próprio homem como ser moldado e animado por um criador.
  • A tradição greco-romana oferece numerosas narrativas de fabricação técnica de seres semelhantes aos vivos.
  • A convergência dessas concepções prepara a ideia posterior de um homem capaz de criar artificialmente um ser à sua própria imagem.

** As estátuas egípcias **

24. As crenças egípcias concebiam a sobrevivência do morto por intermédio do ka, seu duplo espiritual, que podia permanecer ligado a uma estátua capaz de desempenhar funções religiosas, sociais ou políticas e que, mediante recursos técnicos concretos, podia efetivamente mover-se ou emitir sons.

  • Estátuas participavam de profecias e decisões relacionadas à autoridade política.
  • Mecanismos artificiais podiam conferir movimento a corpos aparentemente inertes.
  • Técnicas semelhantes eram empregadas para produzir movimentos em elementos arquitetônicos dos templos.
  • A eficácia técnica e a significação religiosa não eram necessariamente percebidas como incompatíveis.

25. Os mecanismos encontrados em algumas estátuas egípcias mostram que movimentos e vozes podiam ser artificialmente produzidos, mas essa técnica não anulava sua significação espiritual, pois sacerdotes e fiéis reconheciam a mediação humana sem deixar de considerar a manifestação como expressão efetiva da divindade.

26. A distinção egípcia entre um corpo material e um duplo espiritual introduz uma estrutura dualista posteriormente reencontrada nas criaturas artificiais, embora exista uma diferença fundamental entre receber o espírito de um deus ou morto e adquirir uma existência artificial própria.

  • O corpo da estátua constitui um suporte material.
  • O princípio espiritual pode ingressar nesse suporte e eventualmente abandoná-lo.
  • O golem conservará uma estrutura análoga ao permanecer simples argila antes de receber o princípio que o anima.
  • Essa concepção amplia o domínio possível da vida para além dos organismos naturais.
  • A criatura artificial posterior diferencia-se, contudo, porque seu princípio vital não corresponde simplesmente à presença de uma divindade preexistente.

27. O animismo pode constituir uma fonte ainda mais antiga da ideia de criação artificial ao admitir que a alma se aloje em elementos naturais ou materiais, estrutura que reaparece em Pinóquio, cuja madeira possui vida antes mesmo de adquirir forma antropomórfica.

** O texto da Bíblia **

28. A genealogia da criatura artificial permanece estreitamente ligada às narrativas sobre a origem do homem e do universo, encontrando no Antigo Testamento uma das principais matrizes culturais das concepções posteriores de criação.

29. Embora o Antigo Testamento não apresente propriamente um ser artificial fabricado pelo homem, sua descrição do humano como criatura materialmente moldada e posteriormente animada por Deus oferece metáforas, imagens e estruturas conceituais transferíveis para as futuras narrativas de criação artificial.

  • O homem bíblico é simultaneamente fabricado e animado.
  • O gesto divino de criação oferece um modelo passível de posterior imitação humana.
  • As metáforas bíblicas da fabricação tornar-se-ão particularmente importantes na tradição do golem.

30. A condenação bíblica das imagens cultuais manifesta-se exemplarmente no episódio do bezerro de ouro, no qual a fabricação de uma representação material da divindade constitui violação grave da ordem monoteísta e provoca a ameaça de destruição do povo que a produziu.

31. A localização do episódio do bezerro de ouro no contexto da saída do Egito sugere uma ruptura deliberada com práticas egípcias de representação material do divino, estabelecendo no monoteísmo hebraico uma concepção de Deus como fundamentalmente irrepresentável.

32. A proibição de representar o divino não impede necessariamente a criação artificial, porque existe uma diferença decisiva entre produzir uma idola que pretenda incorporar Deus e fabricar um ser situado abaixo da divindade, permanecendo homens e criaturas humanas no mesmo lado da fronteira que os separa do Criador.

33. A Bíblia contém diversas imagens do homem como matéria fabricada, inclusive no Salmo 139, em que o termo posteriormente associado ao golem designa uma condição embrionária ou ainda informe, e na tradição talmúdica que descreve o próprio Adão como golem durante a fase em que possuía matéria corporal, mas ainda não alma.

  • O vocabulário bíblico fornece uma conexão direta entre formação humana e matéria incompleta.
  • O golem pode designar um estágio intermediário entre matéria organizada e ser plenamente vivo.
  • A tradição posterior encontrará nessas passagens elementos para pensar a fabricação artificial do humano.

34. A possibilidade da criatura artificial deve ser procurada não apenas em referências explícitas, mas nas metáforas bíblicas da criação que forneceram estruturas conceituais para imaginar posteriormente o homem reproduzindo o gesto criador.

35. A criação de Adão a partir da argila transforma o oleiro numa metáfora privilegiada da relação entre Deus e o homem, como ocorre em Jeremias, onde Israel aparece diante de Deus como barro submetido às mãos daquele que lhe dá forma.

36. A metáfora da olaria enfatiza a dependência absoluta da criatura perante o criador, negando à matéria fabricada qualquer autoridade para contestar o ato pelo qual recebeu sua forma.

37. A condição humana é apresentada como resultado direto de um ato de modelagem divina no qual as mãos do Criador conferem unidade à matéria.

38. A origem argilosa do homem implica igualmente seu possível retorno à matéria terrestre da qual foi produzido.

39. A analogia entre a criação divina e o trabalho artesanal torna imaginável a passagem conceitual do homem criado ao homem criador, permitindo que práticas mágico-religiosas posteriores reproduzam o gesto de moldar argila como tentativa de aproximar-se do segredo da criação.

** A Antiguidade greco-romana **

40. A cultura greco-romana fornece outra matriz decisiva da criatura artificial por meio de estátuas animadas, autômatos e seres antropomórficos fabricados pelos deuses, embora a criação artificial propriamente humana somente apareça plenamente quando Pigmalião produz Galateia.

  • As estátuas móveis já pertencem ao imaginário filosófico antigo.
  • Hefesto fabrica seres com aparência e capacidades humanas.
  • Prometeu e Pandora pertencem a narrativas gregas de criação não biológica.
  • A passagem decisiva ocorre quando a fabricação deixa de pertencer exclusivamente aos deuses e passa às mãos de um homem.

41. As servas douradas de Hefesto descritas por Homero reúnem aparência feminina, inteligência, voz, força e capacidade de trabalho, antecipando diversas características posteriormente atribuídas aos autômatos e robôs antropomórficos.

42. Hefesto também fabrica dispositivos automáticos não antropomórficos capazes de locomover-se autonomamente, mostrando que a imaginação técnica antiga já concebia objetos artificiais dotados de movimentos coordenados e respostas a comandos.

43. A criação de Pandora reúne quase todos os componentes posteriormente presentes na criatura artificial — matéria argilosa, fabricação técnica e princípio vital exterior —, mas permanece anterior à categoria propriamente dita porque o artífice é ainda uma divindade e não um homem.

** Uma concepção dualista **

44. A animação de Pandora pelos ventos e a criação bíblica de Adão pelo sopro divino exprimem uma estrutura dualista na qual a matéria organizada permanece insuficiente enquanto não recebe um princípio vital exterior e superior.

  • A matéria e o espírito ocupam posições hierarquicamente distintas.
  • O corpo humano pode estar completamente formado sem que isso baste para constituir vida.
  • O sopro introduz aquilo que transforma a matéria em ser vivo.
  • Essa estrutura reaparecerá continuamente nas narrativas posteriores de criaturas artificiais.

45. A criação bíblica do homem à imagem de Deus estabelece uma estrutura de semelhança entre criador e criatura que oferece um antecedente decisivo para o posterior projeto humano de criar seres à sua própria imagem.

46. O mundo greco-romano também admite uma relação dual entre matéria e espírito, permitindo múltiplas formas intermediárias nas quais imagens, sacerdotes e outros suportes corporais tornam presente uma divindade.

  • Uma estátua pode carregar o espírito divino.
  • Uma estátua pode receber vida por intervenção de uma divindade.
  • Um ser humano pode funcionar como presença corporal de um deus.
  • Os flamines romanos exemplificam essa função de mediação viva entre sociedade humana e esfera divina.

47. A própria existência de sacerdotes capazes de corporificar a presença divina pode ter reduzido inicialmente a necessidade de imagens cultuais materiais, enquanto a relação etimológica entre a designação sacerdotal e o sopro reforça simbolicamente a associação entre vida, presença espiritual e animação.

48. A narrativa de Pigmalião torna-se mais compreensível nesse horizonte de transferência da presença divina para a matéria, embora Galateia acabe inteiramente humanizada, restando do sagrado apenas a intervenção que permite ao corpo fabricado pelo homem tornar-se efetivamente vivo.

49. As primeiras tradições do golem reproduzem a mesma lógica dualista ao exigir que o corpo de argila, depois de moldado, receba inscrições sagradas capazes de introduzir nele o princípio de vida.

50. O nome divino e as fórmulas religiosas funcionam como mediadores entre a matéria moldada e a vida, permitindo que a concentração espiritual do rabino transforme o corpo inerte numa criatura temporariamente animada.

51. Textos medievais judaicos confirmam a persistência dessa concepção ao relacionar a criação artificial à combinação ritual de letras e nomes divinos, pela qual uma forma humana material poderia receber vida.

** Da intervenção divina ao domínio da criação **

52. As primeiras criaturas artificiais condensam uma concepção duradoura do ser como realidade criada e dual, formada pela articulação entre matéria e espírito, mas as diferentes épocas modificam significativamente a maneira pela qual interpretam cada componente dessa estrutura.

53. As variações históricas ocorrem tanto na característica humana privilegiada pela forma da criatura quanto na natureza da força exterior responsável por torná-la autônoma.

  • Galateia concentra a representação humana na beleza.
  • Os autômatos privilegiam movimento e funcionamento mecânico.
  • O computador concentra-se na inteligência.
  • A transformação mais profunda ocorre na interpretação do princípio que faz a criatura passar da condição de objeto para a de ser autônomo.

54. A origem da autonomia das criaturas passa historicamente por três grandes modalidades: intervenção divina, conhecimento científico e emergência informacional baseada em aprendizagem e auto-organização.

  • Nas primeiras narrativas, a vida é concedida por uma divindade convocada pelo criador humano.
  • Entre a Renascença e o início do século XX, a ciência assume progressivamente o lugar da instância animadora.
  • No século XX, a própria inteligência passa a ser concebida como propriedade emergente de sistemas informacionais capazes de aprender.
  • Cada modalidade corresponde a uma representação histórica distinta do próprio homem.
  • A transformação da criatura acompanha, portanto, a transformação das concepções de humanidade.

** Criatura de Deus **

55. Nos primeiros séculos da era cristã, a representação dominante do homem como criatura de Deus encontra correspondência nas narrativas artificiais em que o homem modela uma forma, mas somente a intervenção divina pode efetivamente conferir-lhe vida.

56. O cristianismo medieval combateu inicialmente as antigas práticas pagãs relacionadas às estátuas animadas, destruindo imagens associadas à presença de divindades e procurando romper com uma tradição religiosa que atribuía vida espiritual à matéria figurativa.

  • A expansão cristã confrontou diretamente cultos herdados do mundo antigo.
  • A destruição de imagens de divindades constituiu uma forma de eliminar os antigos suportes materiais do sagrado.
  • A posterior veneração de imagens cristãs demonstra, entretanto, a dificuldade de suprimir inteiramente práticas populares associadas à representação material do religioso.

57. A crença popular na vitalidade das imagens permaneceu ativa no cristianismo, embora redirecionada principalmente para figuras pertencentes ao novo universo religioso, preservando parcialmente o antigo motivo da matéria capaz de carregar uma presença espiritual.

58. O cristianismo também reinterpretou muitas antigas divindades e estátuas como manifestações demoníacas, introduzindo progressivamente a figura da criatura artificial monstruosa e maligna que adquiriria particular importância na literatura do século XIX.

59. O judaísmo preservou uma reflexão própria sobre a criação sem acompanhar integralmente essa demonização, enquanto o golem passou gradualmente dos círculos místicos para narrativas populares que lhe atribuíram funções sociais e históricas mais amplas.

60. A correspondência entre o homem como criatura submetida a Deus e os seres artificiais dependentes da intervenção divina faz dessas criaturas um espelho narrativo da própria antropologia religiosa, pois Deus permanece, em última instância, tanto o criador dos homens quanto a fonte da vida das criaturas fabricadas pelos homens.

** O autômato, figura do humano **

61. O desenvolvimento dos autômatos possui raízes antigas, mas somente a partir da Renascença sua história técnica passa a convergir plenamente com o tema antropológico da criatura artificial.

  • A literatura antiga já apresenta seres mecânicos semelhantes ao homem.
  • Sistemas de retroação eram utilizados em dispositivos como clepsidras.
  • Teatros automáticos colocavam figuras humanas e divinas em movimentos programados complexos.
  • As descrições de Heron de Alexandria mostram mecanismos capazes de deslocamento, iluminação, circulação de líquidos, música e dança automática.

62. Heron de Alexandria desenvolveu máquinas cênicas complexas baseadas em água, fogo, polias e mecanismos automáticos, prolongando tradições associadas a Ctesíbio que posteriormente circularam no mundo árabe e bizantino.

  • Autômatos antigos podiam reunir simultaneamente movimento, som e efeitos hidráulicos.
  • O conhecimento dessas técnicas foi preservado parcialmente por traduções árabes.
  • Os mundos árabe e bizantino conservaram e desenvolveram autômatos, especialmente aves mecânicas e fontes animadas.

63. Na Europa ocidental, os primeiros autômatos medievais claramente documentados aparecem sobretudo a partir do século XII sob a forma de figuras humanas mecânicas instaladas em igrejas e campanários.

64. A história técnica dos autômatos poderia sugerir que o desejo de reproduzir o homem nasceu primordialmente da própria técnica, mas essa interpretação transformaria prematuramente toda figura mecânica antropomórfica em manifestação consciente do projeto de criar um homem artificial.

  • Hefesto poderia então aparecer como arquétipo do técnico criador.
  • A religião seria apenas uma etapa intermediária de um projeto essencialmente técnico.
  • As metáforas artesanais presentes nos textos religiosos poderiam ser interpretadas como vestígios dessa origem.
  • Essa leitura, embora sedutora, simplifica excessivamente a relação histórica entre automatismo e criatura artificial.

65. A hipótese de uma origem puramente técnica enfrenta o fato de que os autômatos antigos não integravam ainda um projeto explícito de fabricação do homem e que as criaturas permaneceram durante séculos subordinadas a uma concepção dualista, até que a filosofia mecanicista moderna começou a conceber o corpo vivo como máquina autônoma.

  • Descartes compara explicitamente o organismo vivo a um mecanismo cujo princípio corporal de movimento pode funcionar independentemente da alma.
  • A morte passa a ser compreendida como falha do mecanismo corporal e não como ação direta da alma.
  • La Mettrie radicaliza essa tendência ao reduzir a própria alma a uma noção dispensável.
  • A representação do homem-máquina transforma profundamente as concepções eruditas da condição humana, apesar da resistência religiosa.

** Criatura da ciência **

66. A Renascença inaugura uma secularização progressiva da criatura artificial na qual a ciência e a técnica passam a substituir a intervenção divina, enquanto o movimento mecânico assume a posição de característica privilegiada da vida humana a ser reproduzida.

  • O projeto continua orientado para a produção de um ser à imagem do homem.
  • A qualidade escolhida como essencial desloca-se da beleza ou da simples forma antropomórfica para o movimento.
  • O conhecimento científico passa a ocupar o lugar anteriormente reservado às forças sobrenaturais.
  • A criatura torna-se, assim, expressão das novas concepções mecanicistas do homem.

67. A secularização desenvolve-se em duas etapas contrastantes: inicialmente, entre a Renascença e o fim do século XVIII, a criação artificial simboliza o domínio benéfico do homem sobre a natureza; posteriormente, no século XIX, torna-se símbolo romântico da pretensão perigosa da ciência de substituir a criação divina.

  • A primeira fase associa conhecimento científico, progresso e poder crescente sobre processos naturais.
  • A segunda enfatiza monstruosidade, transgressão e consequências destrutivas da ambição científica.
  • A oposição entre essas fases traduz um conflito mais profundo sobre a identidade do homem depois do enfraquecimento de sua definição como criatura divina.

** A secularização do golem **

68. A partir da Renascença, o golem abandona progressivamente o contexto estritamente místico das práticas religiosas e ingressa no domínio das lendas populares, adquirindo uma duração, uma autonomia narrativa e funções sociais que não pertenciam às experiências espirituais primitivas.

69. Entre os séculos XVII e XVIII, o golem aproxima-se progressivamente do imaginário do autômato e participa de uma nova equivalência entre homem e máquina, enquanto o saber científico substitui magia e oração como explicação possível dos mecanismos da vida.

  • A ciência moderna alimenta a expectativa de que os processos vitais possam ser inteiramente conhecidos.
  • O movimento mecânico torna-se modelo privilegiado da vida.
  • Alguns criadores veem nessa possibilidade a promessa positiva de fabricar seres artificiais.
  • Outros interpretam a mecanização como degradação da humanidade.
  • O homem continua sendo representado como ser criado, mas sua origem passa a ser disputada entre criação divina e criação científica.
  • A criatura artificial torna-se instrumento privilegiado da disputa moderna sobre Deus, ciência e natureza humana.

** O domínio da criação **

70. A secularização do autômato transfere para o homem a responsabilidade de explicar integralmente aquilo que produz, pois uma criatura privada de alma divina exige que o próprio mecanismo da criação seja compreendido e dominado, colocando enorme pressão sobre a concepção mecanicista do humano.

71. Os autômatos iluministas precisavam ocultar seus mecanismos para manter a aparência de criaturas vivas, pois seu efeito dependia menos da exposição da engenharia do que da produção da ilusão de uma presença humana artificial.

  • Os mecanismos dos autômatos de Jaquet-Droz eram deliberadamente escondidos.
  • A ocultação sustentava a aparência misteriosa do androide.
  • A musealização posterior inverte essa relação ao privilegiar precisamente a contemplação do mecanismo.
  • A história da técnica tende a valorizar os meios de funcionamento, enquanto a criatura original dependia de sua invisibilidade.

72. O pato de Vaucanson exemplifica a ambiguidade entre demonstração técnica e pretensão de reproduzir a vida, pois sua alegada digestão natural foi apresentada como prova de domínio científico sobre um processo vital cujo mecanismo real permanecia cuidadosamente obscuro.

73. A revelação de que o pato não digeria verdadeiramente os alimentos, mas utilizava matéria previamente preparada para simular a defecação, demonstra a distância entre a capacidade mecânica efetivamente alcançada e a reprodução do organismo natural anunciada ao público.

74. A obscuridade mantida por Vaucanson em torno do funcionamento do pato revela que seu verdadeiro projeto de criatura artificial habitava justamente a distância entre aquilo que a técnica conseguia realizar e aquilo que ainda se esperava que pudesse realizar, mais do que os autômatos concretamente construídos.

75. As narrativas oitocentistas continuam supondo resolvido o segredo da animação artificial sem explicar precisamente seus mecanismos, como ocorre em Frankenstein, cuja posterior tradição cinematográfica preencherá a lacuna atribuindo à eletricidade a função de fluido vital.

  • Mary Shelley descreve detalhadamente muitos aspectos da atividade de Frankenstein, mas preserva o mistério do procedimento animador.
  • A narrativa necessita pressupor a solução do problema sem demonstrá-la tecnicamente.
  • O cinema torna visível aquilo que o romance havia mantido indeterminado.
  • A eletricidade assume retrospectivamente o lugar simbólico do princípio vital.

76. A Eva Futura procura superar a imagem tradicional do autômato mediante a confiança nas novas conquistas científicas e elétricas, apresentando a futura criatura eletro-humana como realização tecnicamente superior às antigas tentativas, mas termina novamente obrigada a recorrer a uma instância não técnica para conferir verdadeira vida ao corpo artificial.

  • A precisão científica moderna é apresentada como capaz de produzir simulacros quase perfeitos.
  • A eletricidade aparece inicialmente como princípio privilegiado da nova criatura.
  • O corpo artificial supera os antigos mecanismos visíveis dos autômatos.
  • Apesar desse avanço, a técnica continua incapaz de explicar ou produzir integralmente a interioridade da criatura.

** A reação romântica **

77. A substituição do criador transcendente pelo conhecimento científico alimentou uma reação romântica que transformou a criatura monstruosa em crítica ideológica às pretensões da ciência e à modernidade iluminista, chegando também a reinterpretar negativamente o golem em discursos associados ao antissemitismo.

  • A capacidade científica de criar vida é tomada como pretensão ilegítima de ocupar o lugar da criação divina.
  • A criatura monstruosa passa a representar os perigos da modernidade.
  • O golem é associado, em certas leituras hostis, ao cosmopolitismo, ao desenraizamento e ao universalismo.
  • O antissemitismo apropria-se assim da criatura para atacar os judeus como supostos portadores da modernidade.

78. Frankenstein singulariza-se nesse conjunto ao utilizar a criatura como instrumento para representar a solidão produzida por uma concepção de humanidade que deposita na ciência a esperança de alcançar o segredo da vida, articulando o problema da criação artificial às transformações modernas do vínculo social.

79. A trajetória de Victor Frankenstein apresenta a descoberta científica como processo de isolamento progressivo, no qual o pesquisador rompe seus vínculos familiares, amorosos e profissionais até alcançar uma solidão extrema que funciona como condição simbólica para compreender e reproduzir aquilo que acredita ser a essência da vida.

  • A busca do segredo vital assume características de experiência quase mística.
  • A ruptura dos vínculos sociais acompanha o aprofundamento da investigação.
  • A solidão absoluta aparece como processo de purificação intelectual.
  • O mecanismo técnico preciso da criação torna-se secundário diante da representação antropológica de um homem que pretende compreender isoladamente a própria essência.

80. Depois de criada, a criatura de Frankenstein reproduz e intensifica a solidão de seu criador ao procurar inutilmente constituir vínculos com outros homens, tornando-se monstruosa apenas depois de repetidas rejeições provocadas por sua aparência.

  • A criatura nasce moralmente boa e procura inicialmente ajudar os outros.
  • Sua aparência impede que seja reconhecida e incorporada à sociedade humana.
  • A monstruosidade não constitui sua natureza originária, mas resulta da exclusão social.
  • A criação artificial aparece como resposta inadequada à necessidade humana de relação.

81. A rejeição universal transforma a criatura inicialmente benevolente em ser violento e torna sua reivindicação de uma companheira uma tentativa desesperada de escapar à solidão, culminando numa perseguição entre criatura e criador pelos espaços polares que simbolizam a destruição completa do vínculo social.

82. A questão da criatura artificial desloca-se finalmente da dependência perante um criador divino para o problema moderno da constituição dos vínculos entre consciências livres, preparando o surgimento de uma nova representação do homem como ser informacional cuja figura técnica privilegiada será o computador comunicante.

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