Humano
BRETON, Philippe. À l’image de l’homme. Du Golem aux créatures virtuelles. Paris: Seuil, 1995.
** Uma representação do humano entre a psicologia e a política **
1. A representação informacional do humano formulada nos primórdios da inteligência artificial suscita simultaneamente a questão de sua origem cultural e a de sua capacidade de difusão social, pois permanece necessário determinar se Wiener e Turing produziram autonomamente essa concepção ou se seus escritos cristalizaram tendências antropológicas já presentes na sociedade.
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A origem da representação condiciona a interpretação de sua posterior influência cultural.
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A circulação da concepção informacional ultrapassou amplamente os limites da comunidade científica em que recebeu formulação explícita.
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A criatura artificial aparece, nessa perspectiva, como possível lugar de concentração e manifestação de concepções antropológicas socialmente mais difusas.
2. A amplitude dessas questões remete a uma antropologia geral das representações do humano, sendo plausível que os relatos de Wiener e Turing somente tenham adquirido tamanha importância porque correspondiam a disposições culturais já presentes muito além dos ambientes científicos.
3. A anterioridade das formulações informacionais de Wiener e Turing em relação à invenção efetiva do computador impede que a máquina seja considerada causa das concepções que posteriormente simbolizou, pois o computador surge antes como materialização técnica de uma representação cultural previamente constituída.
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Wiener formula seu paradigma em 1942 e Turing estabelece pressupostos decisivos já em 1936, antes da arquitetura computacional de 1945.
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A explicação determinista segundo a qual uma inovação técnica produziria posteriormente uma nova visão do homem inverte, nesse caso, a ordem histórica.
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A ciência funciona também como porta-voz de tendências culturais mais amplas, e não exclusivamente como fonte originária dessas transformações.
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A insistência dos próprios cientistas em reconhecer continuidades históricas reforça a inserção de suas propostas numa tradição anterior.
4. A origem cultural da representação informacional do homem constitui, portanto, uma questão antropológica fundamental que pode ser investigada mediante correspondências entre os textos científicos e outros campos da experiência social.
5. Uma primeira correspondência situa-se no domínio político, pois a definição informacional amplia a humanidade para além dos homens e mulheres biologicamente determinados e pode ser compreendida como inversão universalista das representações racistas que restringem a própria categoria do humano.
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O deslocamento das fronteiras antropológicas opera em sentido oposto ao racismo: em lugar de excluir homens da humanidade, admite a possibilidade de incluir outros seres em seu domínio.
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A figura do homem informacional pode funcionar como contraponto à afirmação de que determinados homens não seriam verdadeiramente humanos.
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As implicações políticas da criatura artificial tornam-se particularmente visíveis quando se examinam seus usos históricos nas narrativas de proteção, governo e mediação.
6. Uma segunda correspondência situa-se no domínio psicológico, pois a eficácia imaginária das criaturas depende de uma disposição prévia para reconhecer vida e humanidade no artifício, enquanto a fabricação artificial introduz também a possibilidade fantasmática de reproduzir o humano fora das modalidades biológicas e maternas.
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Um simples manequim pode produzir perturbação quando sua aparência se aproxima suficientemente da vida.
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O imaginário somente torna plausível aquilo para cuja aceitação existe alguma disposição cultural ou psicológica anterior.
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A criação artificial contém desde suas primeiras formulações uma alternativa à reprodução biológica.
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A possível supressão da mãe biológica coloca em questão as consequências últimas de uma cultura que concebe o humano primordialmente como ser criado.
** A criatura como figura da mediação **
7. A consideração das funções sociais desempenhadas pelas criaturas artificiais amplia significativamente sua interpretação, revelando que suas narrativas participam reiteradamente de debates políticos e sociais, embora essa dimensão tenha recebido pouca atenção nas análises tradicionais.
8. A criatura funciona frequentemente como figura metafórica por meio da qual problemas políticos contemporâneos são abordados indiretamente, especialmente conflitos relacionados à continuidade social, à exclusão, à proteção coletiva e ao exercício do governo.
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O golem aparece como resposta à ameaça antissemita contra a comunidade judaica.
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O casamento de Pigmalião com sua criatura envolve o problema da descendência e, sendo ele rei, da sucessão política.
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Robôs e computadores podem ser concebidos como auxiliares da administração humana ou, inversamente, como candidatos a tomar o poder.
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A representação do humano transportada pela criatura encontra-se, assim, diretamente ligada às formas históricas do vínculo social.
9. A problemática da criação e a dimensão política não são concorrentes, pois a finalidade atribuída à criatura — dominá-la, utilizá-la ou perder seu controle — introduz continuamente questões relativas à autoridade, ao poder e à organização coletiva.
10. A função recorrente de auxílio ou substituição do homem permite que as criaturas assumam tarefas sociais e políticas que os próprios humanos seriam incapazes de desempenhar adequadamente.
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As servas de ouro de Hefesto já exemplificam a criatura construída para compensar uma deficiência de seu criador.
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Narrativas modernas como Terminator e Robocop prolongam o motivo da criatura como instrumento de proteção em situações de crise.
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Em configurações mais amplas, a ação e a decisão política podem ser transferidas para uma instância não humana.
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O computador passa a ser imaginado como máquina de governar capaz de compensar a suposta incapacidade dos dirigentes humanos.
** O poder do criador **
11. A capacidade de produzir um ser artificial pode aparentemente servir como demonstração do poder de rabinos, sacerdotes, engenheiros ou cientistas, favorecendo a transferência moderna para os técnicos da antiga imagem religiosa do criador dotado de capacidades quase demiúrgicas.
12. A associação entre criatura e poder pessoal permanece, contudo, limitada, pois as tradições do golem proíbem explicitamente sua utilização em benefício privado do rabino e subordinam a capacidade criadora aos interesses coletivos, fazendo com que a sabedoria deva permanecer superior ao poder.
13. A proibição de utilizar o golem para fins privados mostra que a criatura deve servir à comunidade, e sua criação frequentemente implica até um movimento de apagamento do próprio criador, incompatível com a simples afirmação individual de autoridade.
14. A concepção de Turing radicaliza esse apagamento ao imaginar máquinas inteligentes capazes de substituir especialistas intelectuais e reduzir sua autoridade social, assim como a mecanização industrial substituíra anteriormente atividades artesanais.
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O computador poderia automatizar operações antes consideradas próprias do pensamento humano.
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A criatura torna-se instrumento de contestação da autoridade dos novos especialistas e tecnocratas.
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O criador permanece limitado à função de produzir a forma inicial, sem conservar necessariamente domínio sobre a criatura autônoma.
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A criatura apresenta uma humanidade aperfeiçoada e, ao fazê-lo, introduz uma reorganização possível das relações de poder.
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O imaginário da criação artificial converge, nesse ponto, com a tradição das utopias políticas.
** A criatura em socorro do homem **
15. O casamento de Pigmalião com a mulher artificial assegura-lhe uma descendência e adquire, por sua condição régia, uma significação política relacionada à sucessão e à prevenção das desordens que poderiam acompanhar uma crise dinástica.
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A criatura resolve uma insuficiência que ultrapassa a esfera privada.
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A tradição egípcia de estátuas animadas envolvidas na designação de sucessores apresenta outra forma antiga de mediação artificial em problemas de poder.
16. O golem introduz de maneira particularmente explícita a criatura artificial no campo dos acontecimentos históricos dramáticos, pois sua transformação em lenda acompanha o agravamento das perseguições contra as comunidades judaicas europeias no final da Idade Média.
17. A finalidade do golem deve ser compreendida a partir da necessidade coletiva de sobrevivência das comunidades judaicas ameaçadas, fazendo da criatura uma resposta artificial a uma situação histórica na qual os recursos humanos disponíveis parecem insuficientes.
18. A lenda situa a criação do golem em 1580, quando novas acusações de crime ritual ameaçavam os judeus, atribuindo-lhe a função de descobrir antecipadamente conspirações e desmascarar provas fraudulentamente fabricadas para incriminar a comunidade.
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O golem vigia os adversários e descobre suas intenções.
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Corpos destinados a serem introduzidos clandestinamente em espaços judaicos podem ser encontrados antes da execução do plano.
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Sua atuação neutraliza acusações construídas artificialmente para justificar perseguições.
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A criatura funciona como instrumento de defesa numa situação em que a verdade não consegue afirmar-se pelos meios sociais ordinários.
19. A proteção exercida pelo golem alcança também a segurança material da comunidade, como na narrativa em que prova alimentos suspeitos e sofre os efeitos do envenenamento, evitando uma catástrofe coletiva e contribuindo para a posterior intervenção do imperador Rodolfo II contra acusações de crime ritual.
20. A função essencial do golem não reside, portanto, na caricatura do servo mecânico incapaz de interromper uma tarefa, mas na proteção de uma comunidade ameaçada, sendo a criatura expressão da sobrevivência coletiva e não da ambição pessoal de seu criador.
** O golem como mediador **
21. A necessidade de uma criatura que não pertence nem ao domínio divino nem ao humano, e tampouco às identidades judaica ou cristã, manifesta a impossibilidade de os próprios homens resolverem adequadamente uma situação de conflito em que as posições sociais existentes impedem qualquer mediação eficaz.
22. A criação do golem nasce paradoxalmente do reconhecimento de uma impotência humana originária, pois somente a admissão de uma insuficiência diante da crise torna necessária a produção artificial de um mediador capaz de realizar aquilo que os homens envolvidos não conseguem fazer.
23. A recorrência do golem em momentos de perigo pode ser interpretada como figura da necessidade social da vigilância e da consciência do risco, transformando o medo não em simples sentimento a ser eliminado, mas em condição necessária para reconhecer e enfrentar ameaças reais.
24. O golem transcende sua situação histórica particular ao representar problemas fundamentais de exclusão, integração e comunicação entre comunidades, ocupando sistematicamente uma posição intermediária cuja função transitória explica sua incapacidade de permanecer definitivamente.
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Situa-se entre Deus e o homem ao receber forma humana e princípio de animação sagrado.
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Situa-se entre grupos humanos ao servir de intermediário em conflitos.
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Sua própria existência é temporária porque sua função consiste em transmitir, relacionar ou permitir uma passagem.
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O hebraico moderno conserva essa dimensão intermediária ao empregar o termo para o estágio de transformação entre lagarta e inseto.
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A tradição talmúdica situa igualmente Adão em estado de golem entre a matéria formada e o recebimento da alma.
25. A natureza transitória do golem encontra correspondência tanto nos ritos cabalísticos, em que sua construção era imediatamente seguida de desconstrução, quanto no pensamento atribuído ao Maharal de Praga, para quem o meio e a contradição constituem condições fundamentais da comunicação.
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A evocação mística não buscava produzir uma criatura permanente.
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Os rituais exigiam geralmente participação coletiva de duas ou três pessoas.
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A associação posterior do golem ao Maharal torna-se particularmente significativa diante da centralidade que seu pensamento atribui à mediação.
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O meio adquire valor por tornar possível a comunicação entre termos diferentes ou contraditórios.
26. Nas lendas posteriores, o golem torna-se claramente uma solução metafórica para uma impossibilidade social: somente um ser exterior aos grupos em conflito poderia revelar a fraude antissemita sem que seu testemunho fosse imediatamente invalidado por pertencer a um deles.
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Um judeu não possuiria autoridade social suficiente para demonstrar a manipulação diante dos acusadores.
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Um cristão disposto a desempenhar essa função mediadora dificilmente estaria disponível no contexto da perseguição.
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A criatura ocupa exatamente o lugar vazio produzido por essa impossibilidade.
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Sua existência responde simultaneamente à incapacidade de autodefesa, à necessidade absoluta de resistência e à ausência de auxílio exterior.
27. A eficácia do golem deriva de sua dupla exterioridade — nem homem nem deus, nem judeu nem cristão —, permitindo-lhe personificar um saber situado entre as comunidades e capaz de neutralizar rumores mediante conhecimento verificável.
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A criatura atua no espaço social intermediário entre o gueto e o restante da cidade.
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Seu poder não reside primordialmente na força física, mas na possibilidade de descobrir e demonstrar a verdade.
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O saber aparece como instância de regulação das relações intercomunitárias.
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O golem funciona, assim, como figura de intercessão capaz de restabelecer uma relação interrompida pela acusação e pela desconfiança.
28. A transformação antissemita do golem em monstro pode ser interpretada como reação contra sua função mediadora, pois a criatura que contribui para demonstrar a inocência dos judeus torna-se alvo simbólico daqueles que pretendem novamente legitimar sua exclusão, convergindo com determinadas formas românticas de hostilidade ao saber e à cabala.
29. A criatura exalta, em última instância, a capacidade humana de mediação, isto é, de atravessar diferenças identitárias e religiosas sem necessariamente suprimi-las, em direção a uma relação mais universal com o humano, enquanto sua existência denuncia simultaneamente a ausência social dessa capacidade.
** As máquinas contemporâneas de governar **
30. No século XX, a dimensão política das criaturas artificiais torna-se explícita tanto na representação negativa dos robôs que tomam o poder em Karel Čapek quanto na expectativa positiva dos fundadores da informática de que computadores possam substituir homens na administração racional da sociedade.
31. A hipótese de máquinas capazes de realizar tarefas intelectuais conduz imediatamente à possibilidade de sistemas destinados a coletar informações, prever comportamentos econômicos e sociais e participar da totalidade do processo decisório estatal.
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Informações sobre produção, mercados e comportamento humano poderiam alimentar sistemas de previsão.
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A decisão política passa a ser pensada como problema de processamento racional de informações.
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A máquina poderia atuar tanto em sistemas internacionais compostos por vários Estados quanto num governo planetário único.
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A proposta da máquina de governar nasce da convicção de que dirigentes e instituições tradicionais já não conseguem administrar adequadamente a crescente complexidade social.
32. A ideia de cérebro artificial associa-se desde sua origem à concepção de sociedades excessivamente complexas para a capacidade cognitiva humana, favorecendo projetos nos quais máquinas processariam problemas econômicos e políticos que ultrapassariam especialistas e governantes.
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A complexificação social é apresentada como justificativa para transferir decisões a sistemas artificiais.
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O computador torna-se candidato a pesar alternativas e não apenas a calcular quantidades.
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A inteligência artificial é imaginada como instrumento capaz de superar a limitação cognitiva dos burocratas e dirigentes.
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A escala mundial da economia e da política intensifica o argumento de que nenhum indivíduo pode abarcar sozinho todos os elementos relevantes.
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A criatura informacional passa, assim, de auxiliar do homem a possível administradora de sistemas sociais inteiros.
33. A possibilidade de comunidades de animais sintéticos administrarem racionalmente empresas revela a dimensão explicitamente utópica dessas expectativas, nas quais o homem poderia superar suas próprias limitações dando origem a uma espécie informacional considerada mais apta a enfrentar a complexidade do mundo.
** A ressonância psicológica das criaturas **
34. A criação artificial possui profunda ressonância psicológica porque o automatismo pode ser vivido como arquétipo associado simultaneamente à criatividade, à autonomia, ao fascínio e à vontade de poder, paradoxalmente fazendo do ser regido por regras próprias uma imagem privilegiada da espontaneidade.
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A etimologia grega do automatismo remete àquilo que se move por si mesmo.
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A autonomia do autômato resulta justamente da internalização de regras que dispensam intervenção externa contínua.
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A criatura artificial miniaturiza o poder auto-organizador atribuído à natureza.
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O fascínio técnico conecta-se, portanto, a disposições psicológicas muito anteriores à informática contemporânea.
35. O desejo de estabelecer relações com parceiros artificiais demonstra outra dimensão psicológica do fenômeno, pois a previsibilidade e a artificialidade das regras da interação podem produzir uma sensação paradoxal de liberdade e favorecer investimentos afetivos ou eróticos dirigidos à criatura.
36. A criação artificial também pode conter a fantasia de reproduzir o humano sem participação feminina, substituindo o processo biológico e materno por uma operação técnica predominantemente masculina, o que torna indispensável considerar a dimensão psicológica e sexual da genealogia das criaturas.
** A emoção diante do artifício da vida **
37. As narrativas de criaturas artificiais são atravessadas por uma emoção específica diante da aparente passagem do inerte ao vivo, caracterizada por um estado de perturbação e assombro que não coincide simplesmente com as emoções ordinárias.
38. A fuga imediata de Victor Frankenstein quando sua criatura adquire vida exemplifica intensamente essa perturbação, associando horror, repugnância, criação e transgressão das fronteiras familiares e corporais.
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O êxito científico não produz satisfação, mas ruptura psicológica imediata.
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O sonho que transforma a noiva Elizabeth no cadáver da mãe vincula simbolicamente eros, maternidade, morte e decomposição.
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A transgressão realizada no laboratório repercute num imaginário em que fronteiras entre relações e gerações são igualmente dissolvidas.
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A criação desejada converte-se instantaneamente numa experiência subjetivamente insuportável.
39. Em Frankenstein, a emoção diante da vida artificial assume deliberadamente caráter negativo e sustenta a crítica à pretensão humana de fabricar seu semelhante, tornando o horror do criador parte essencial da significação da criatura.
40. Em O Homem da Areia, Nathanaël experimenta fascinação justamente pelas características artificiais de Olympia, deslocando para a mulher mecânica uma intensidade afetiva superior àquela dirigida à sua noiva humana.
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A aparência de cera e madeira que deveria denunciar a artificialidade torna-se fonte do fascínio.
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A paixão não resulta simplesmente de confundir Olympia com uma mulher natural.
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O caráter artificial participa positivamente da atração experimentada pelo personagem.
41. A passividade mecânica de Olympia é interpretada pelo apaixonado como profunda empatia, e sinais de inércia como o olhar vazio ou a mão fria são subjetivamente transformados em manifestações de vida, demonstrando que o desejo preenche imaginariamente aquilo que falta à criatura.
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O silêncio e a ausência de reação convertem-se em escuta perfeita.
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O olhar inexpressivo adquire calor sob a intensidade da projeção amorosa.
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A mão mecanicamente fria é percebida como progressivamente aquecida.
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A experiência do observador não elimina a artificialidade, mas produz sobre ela uma vitalidade imaginária.
** Uma paixão perturbadora **
42. A emoção dirigida à criatura artificial não constitui simples substituição de um objeto humano nem resultado de engano perceptivo, mas sentimento específico por um ser reconhecido como semelhante ao homem e simultaneamente produzido por uma via não humana.
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Realismo e exotismo permanecem combinados na experiência afetiva.
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Em Pigmalião, o desejo surge antes da animação da estátua.
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É precisamente o fascínio prévio pelo artifício que suscita o desejo de torná-lo ainda mais semelhante à vida.
43. A perturbação diante da vida artificial permanece constante através das épocas, assumindo valor positivo quando a criação é celebrada e negativo quando é representada como transgressão demoníaca, sem desaparecer com a passagem da literatura e da magia para os ambientes científicos.
44. As tartarugas cibernéticas do século XX provocam nos próprios pesquisadores uma expectativa emocional de proximidade da vida e da consciência, levando características técnicas elementares a serem interpretadas como sinais de uma interioridade emergente.
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Elsie e Elmer são percebidas como estando próximas de uma passagem decisiva à condição de seres vivos.
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A possibilidade de consciência é projetada sobre comportamentos ainda tecnicamente simples.
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O investimento emocional antecipa imaginariamente capacidades apenas consideradas potenciais.
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A percepção científica torna-se parcialmente moldada pelo desejo de que a antiga promessa da criatura finalmente se realize.
** A tentação do zoomorfismo **
45. O fascínio provocado pelas tartarugas sintéticas conduz ao zoomorfismo, mediante o qual objetos metálicos são interpretados como verdadeiros animais, constituindo uma etapa intermediária pela qual a máquina pode posteriormente receber atributos humanos.
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A comparação com animais naturais torna a criatura tecnicamente mais aceitável como ser vivo.
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O zoomorfismo funciona como preparação para a atribuição posterior de inteligência, personalidade e sociabilidade.
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A representação do animal artificial permanece subordinada ao projeto antropológico mais amplo de reproduzir o homem.
46. A descrição das tartarugas de Grey Walter constrói progressivamente sua identidade animal por meio de quatro operações: caracterização comportamental, reconhecimento de si e do outro, alimentação autônoma e atribuição de estados de humor e personalidade.
47. Elmer e Elsie são apresentados linguisticamente como membros sexuados de uma nova espécie, e seus componentes técnicos recebem denominações zoológicas como carapaça, cabeça e pescoço, convertendo uma célula fotoelétrica e uma estrutura mecânica em órgãos de um animal artificial.
48. Os movimentos de Elsie diante de obstáculos e espelhos são descritos como comportamentos animais intencionais, fazendo de respostas mecânicas a estímulos uma busca de saída, uma atração pela própria imagem e até uma espécie de dança diante do reflexo.
** Do zoomorfismo ao antropomorfismo **
49. A atribuição de humores e temperamentos às tartarugas completa sua transformação simbólica em animais individualizados e simultaneamente introduz características humanas na descrição de seu comportamento.
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Elsie recebe um temperamento instável descrito mediante estereótipos psicológicos e sexuais.
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Elmer é apresentado como estável, satisfeito e burguês.
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Modificações eletrônicas do ajuste da máquina são traduzidas como alterações de nervos, inteligência e personalidade.
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O funcionamento dos circuitos converte-se linguisticamente em caráter psicológico.
50. O percurso interpretativo realiza dois deslocamentos sucessivos: primeiro o objeto mecânico transforma-se simbolicamente em animal; depois esse animal recebe emoções e traços humanos, construindo uma continuidade progressiva entre artefato, animalidade e humanidade.
51. A descrição da interação entre duas tartarugas como dança e busca de companhia atribui-lhes uma sociabilidade própria de uma espécie, fazendo dos movimentos provocados por estímulos luminosos comportamentos gregários comparáveis aos de parceiros afetivos.
52. O entusiasmo científico em torno das tartarugas mostra que sua aparente ingenuidade é sobretudo resultado de um julgamento retrospectivo, pois a comunidade científica da época discutia seriamente se esses dispositivos reproduziam reflexos animais e considerava a construção de animais artificiais um problema de desenvolvimento técnico, não uma impossibilidade de princípio.
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As controvérsias incidiam principalmente sobre o grau de realização e o tempo necessário para aperfeiçoá-la.
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O objetivo de criar animais artificiais permanecia amplamente aceito.
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Projetos posteriores de animais domésticos artificiais demonstram a continuidade da finalidade apesar da mudança dos meios técnicos.
** As relações curiosas entre o homem e o computador **
53. O antropomorfismo reaparece na interpretação científica dos computadores quando falhas, instabilidades e limites dos sistemas são descritos mediante categorias orgânicas e psicológicas como temperamento, doença, neurose, loucura, fadiga e envelhecimento.
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A máquina recebe uma fisiologia metafórica.
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Respostas inadequadas a instruções contraditórias são comparadas a comportamentos neuróticos.
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Instabilidades operacionais tornam-se formas de loucura.
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Limitações técnicas podem ser interpretadas como sinais de afetividade artificial.
54. A relação cotidiana com o computador pode ser experimentada como interação entre dois seres relativamente autônomos, produzindo uma antropomorfização consciente na qual o usuário sabe que a máquina não é uma pessoa, mas simultaneamente sente sua presença como a de um parceiro familiar.
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A distinção entre reconhecimento racional e experiência afetiva permanece ativa.
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A interação prolongada pode enfraquecer subjetivamente as fronteiras entre interioridade humana e funcionamento da máquina.
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A criatura torna perceptível, sob forma exteriorizada, uma parcela da humanidade nela projetada.
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A força dessa experiência depende da crença de que a representação artificial possui algum grau de existência própria.
55. A antropomorfização não se limita a usuários isolados, mas participa do próprio imaginário profissional da inteligência artificial, no qual a finalidade declarada pode assumir proporções míticas de fabricação de uma inteligência ou espírito universal.
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Defensores radicais antecipam máquinas intelectualmente superiores ao homem.
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A inteligência artificial é apresentada como possível etapa posterior da evolução.
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A antiga tradição de animar matéria morta reaparece no interior de comunidades matemáticas e informáticas.
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O computador converte-se no novo instrumento pelo qual se pretende produzir mente.
56. A linguagem técnica dos criadores reforça essa personificação ao atribuir aos programas intenções, esforços, inteligência, estupidez, capacidade comunicativa e desorientação, fazendo do vocabulário mental humano parte ordinária da descrição informática.
57. O envolvimento dos hackers com os computadores pode assumir intensidade comparável a experiências sexuais, narcóticas ou místicas e favorecer a escolha das máquinas como universo relacional alternativo à intimidade humana.
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A identificação com o computador é favorecida por sua condição de máquina pensante e interativa.
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A autonomia da máquina pode ser deliberadamente ampliada por aqueles que desejam experimentar uma alteridade artificial.
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A relação oferece companhia sem determinados riscos subjetivos atribuídos à intimidade com outras pessoas.
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Comunidades tecnológicas podem chegar a imaginar máquinas inteligentes como participantes pertencentes ao mesmo universo social dos humanos.
** O amor pelos seres artificiais **
58. A possibilidade de amar criaturas artificiais, inclusive sexualmente, constitui uma das manifestações mais intensas e delicadas da ressonância psicológica dessas figuras, prolongando uma tradição histórica muito anterior às tecnologias contemporâneas.
59. A célebre estátua nua de Afrodite em Cnido tornou-se objeto de forte investimento erótico, dando origem a relatos de peregrinos apaixonados e até de contatos sexuais com a imagem, tradição que reaparece posteriormente em narrativas sobre relações semelhantes com estátuas masculinas.
60. A statuofilia aproxima-se do pigmalionismo ao deslocar o desejo para figuras imóveis ou passivas semelhantes ao corpo humano, relacionando-se também, em determinadas interpretações, a práticas em que o objeto erótico é um corpo privado de atividade própria.
61. A dimensão erótica da criatura artificial ultrapassa, contudo, a simples atração pela passividade, pois pode compreender relações imaginariamente recíprocas com seres artificiais ativos e autônomos.
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A vitalidade atribuída ao artifício permite imaginar uma verdadeira relação com um parceiro não humano.
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O problema relevante não é apenas clínico, mas cultural: a capacidade de conferir realidade imaginária ao vínculo com a criatura.
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O desejo dirige-se a um ser artificial precisamente enquanto figura dotada de semelhança humana e diferença ontológica.
62. A longa história dos autômatos sexuais demonstra a tentativa persistente de fabricar parceiros artificiais destinados explicitamente às práticas eróticas, enquanto a literatura amplia essas possibilidades imaginando dispositivos dotados de mecanismos complexos de exclusividade, proteção ou punição.
63. A ficção científica e o discurso contemporâneo sobre cibersexo prolongam uma tradição antiga que associa sexualidade e artifício, tornando apenas tecnicamente novas relações imaginárias que acompanham há séculos estátuas, autômatos e outras representações do humano.
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A novidade tecnológica não corresponde a uma novidade antropológica do desejo.
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O universo mecânico pode ser interpretado como profundamente marcado por imagens da reprodução.
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O automatismo alcança, assim, dimensões inconscientes e noturnas da imaginação humana.
** Produção ou reprodução? **
64. O sentimento de paternidade manifestado por alguns criadores revela que a fabricação de seres artificiais pode ser vivida como substituição simbólica da reprodução biológica, convertendo produção técnica em ato de geração.
65. Embora essa metáfora paternal não apareça com a mesma força nas histórias antigas de Pigmalião ou do golem, sua importância nas narrativas modernas ilumina retrospectivamente uma dimensão potencialmente presente em toda criação artificial.
66. A denominação de paternidade permanece insuficiente para descrever o fenômeno, mas exprime claramente a fantasia de que homens privados da capacidade feminina de gestação poderiam gerar descendência por intermédio das máquinas.
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A criatividade técnica assume vocabulário explicitamente reprodutivo.
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A expressão de dar à luz uma ideia torna manifesta a aproximação simbólica entre produção intelectual e procriação.
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A máquina oferece um meio alternativo de criação de descendência fora do processo biológico.
67. Frankenstein explicita essa fantasia ao imaginar que uma nova espécie reconheceria seu fabricante como criador e fonte de sua existência, oferecendo-lhe uma gratidão superior àquela normalmente dirigida pelos filhos aos pais.
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A fabricação de vida é representada como paternidade radicalizada.
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O criador espera fundar uma nova geração.
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Ciência, iluminação do mundo e geração de descendentes tornam-se dimensões de um mesmo empreendimento.
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A criatura inaugura potencialmente uma linhagem inteiramente dependente de um único fundador.
68. A satisfação paternal converte-se em medo quando Frankenstein percebe que a criação de uma companheira permitiria à criatura reproduzir-se autonomamente e fundar uma espécie fora de seu controle, transformando a descendência desejada numa possível ameaça às gerações humanas.
69. A metáfora filial reaparece nas tartarugas de Grey Walter, colocadas narrativamente no mesmo plano que uma criança humana e apresentadas como irmãos por terem sido produzidas pelo mesmo casal.
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A equivalência linguística entre criança e máquina aproxima reprodução biológica e fabricação técnica.
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O desenvolvimento ainda rudimentar das máquinas pode ser justificado por sua suposta infância.
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A criatura passa a integrar metaforicamente a estrutura familiar.
70. A participação feminina na fabricação técnica não restaura propriamente a reprodução sexuada, pois a mulher aparece como assistente científica e não como parceira biológica, mantendo o ato de criação artificial fundamentalmente separado da união reprodutiva entre dois seres humanos.
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Quando duas figuras participam da criação, suas funções podem reproduzir a estrutura tradicional entre modelador e instância exterior de animação.
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Em seu princípio, a fabricação da criatura permanece um ato humano singular e não uma reprodução sexual.
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A criação artificial adquire, assim, caráter simbolicamente hermafrodita.
** Uma concepção sem pecado **
71. A máquina de calcular de Blaise Pascal pode ser interpretada como reprodução mecânica de uma parte do cérebro humano e sua apresentação ao mecenas como ato de criação no qual a geração técnica substitui simbolicamente a descendência biológica.
72. A linguagem empregada por Pascal em sua dedicatória permite associar sua posição criadora à imagem de uma concepção sem relação sexual, enquanto a trajetória de Turing oferece outra configuração biográfica em que produção técnica e ausência de descendência convencional permanecem simbolicamente próximas.
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A geração artificial pode ser imaginada como criação sem pecado da carne.
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A máquina ocupa o lugar de uma descendência produzida pela inteligência.
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A situação de Turing é posteriormente atravessada de maneira trágica pelas normas sociais referentes à sexualidade e reprodução.
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A perseguição judicial por sua homossexualidade e a castração química conferem à questão da reprodução uma dimensão histórica concretamente dramática.
73. A criação artificial expressa, nesse registro, uma transgressão psicológica pela qual a reprodução é deslocada para fora do acasalamento sexual, tornando-se obra de um indivíduo e transferindo a geração da carne para um espaço técnico e simbólico ainda marcado pelas categorias de pecado e culpa.
74. Fotografias de inventores acompanhados por seus filhos biológicos e suas criaturas eletrônicas tornam particularmente visível a equivalência simbólica entre reprodução natural e fabricação técnica, demonstrando a ampla penetração cultural dessa representação no século XX.
75. A composição fotográfica que torna a mãe biologicamente secundária enquanto aproxima o engenheiro de seu filho eletrônico sugere uma divisão segundo a qual a mulher responde pela vida biológica e o homem reivindica a capacidade de produzir uma nova forma de vida mediante técnica e ciência.
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A presença ou ausência da mãe no enquadramento adquire significação simbólica.
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A colaboração feminina no laboratório pode ser representada como assistência ao criador masculino.
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A criatura eletrônica aparece como descendência paralela ao filho biológico.
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A iconografia popular reproduz, assim, a oposição entre maternidade natural e paternidade tecnológica.
76. A transformação simbólica da mulher de mãe em assistente pode ser interpretada como manifestação extrema do desejo masculino de monopolizar a reprodução, embora essa lógica conduza paradoxalmente não apenas à supressão da mulher, mas à possível substituição do próprio homem por uma nova espécie artificial.
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A produção técnica procura apropriar-se de uma função anteriormente dependente da diferença sexual.
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As versões mais radicais do projeto imaginam a espécie humana como etapa transitória da evolução.
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Homens e mulheres desapareceriam igualmente depois de criarem seres mais adaptados.
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A criação artificial culminaria, assim, numa nova gênese em que o criador humano prepara sua própria superação.
** Conclusão **
77. A história das criaturas concebidas à imagem humana permanece aberta e prepara novas formas narrativas, organizadas em torno de conceitos tecnológicos ainda imprecisos cuja intensa circulação pública anuncia uma nova transformação do antigo motivo.
78. As chamadas autoestradas da informação apresentam-se como macrosistemas técnicos planetários destinados a conectar indivíduos e fazer circular universalmente conteúdos digitalizáveis, constituindo o ciberespaço como novo ambiente possível das criaturas artificiais.
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A rede tende idealmente à conexão ponto a ponto entre todos os indivíduos.
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Informação e comunicação tornam-se a matéria circulante do novo sistema.
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A denominação ciberespaço preserva explicitamente a filiação com a tradição cibernética.
79. As tecnologias virtuais acrescentam a esse sistema a capacidade de fabricar imagens e estímulos sensoriais, permitindo tanto reproduzir situações existentes quanto construir mundos e personagens inteiramente ficcionais.
80. As criaturas artificiais reaparecem no interior dessas tecnologias sob uma forma mais ampla do que aquela privilegiada pela inteligência artificial, pois deixam de ser apenas máquinas destinadas a simular capacidades intelectuais e passam a reproduzir globalmente aparência, movimento e comportamento humanos.
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A informática continua sendo a infraestrutura indispensável de sua produção.
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A criatura virtual recupera dimensões corporais abandonadas pelo projeto de inteligência puramente informacional.
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A antiga busca de uma réplica humana volta a integrar simultaneamente aspecto e comportamento.
81. Apresentadores virtuais e duplicações digitais de atores demonstram a possibilidade de construir réplicas numéricas capazes de reproduzir voz, aparência, movimento e expressão de indivíduos reais, substituindo em determinadas cenas o próprio corpo humano por seu duplo computacional.
82. A rápida aplicação das tecnologias virtuais ao domínio sexual prolonga coerentemente a genealogia das criaturas eróticas, fazendo do cibersexo uma nova forma técnica de interação entre um ser humano e um parceiro imaginário mediado por redes computacionais.
83. A interatividade parece conferir novidade radical à criatura virtual ao permitir que ela responda e intervenha na relação como verdadeiro parceiro, mas reproduz a recorrente convicção histórica de que a tecnologia presente finalmente realizará aquilo que todas as formas anteriores apenas aproximaram.
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Cada geração reconhece continuidade com os antecessores ao mesmo tempo que proclama possuir os meios decisivos que lhes faltavam.
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Autonomia e capacidade de resposta constituem agora os critérios pelos quais a criatura virtual pretende superar estátuas e autômatos anteriores.
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A promessa de realização definitiva permanece estruturalmente idêntica.
84. A efetividade técnica das experiências virtuais e de determinados contatos sexuais mediados por dispositivos não elimina seu caráter de continuação histórica, mesmo quando a interação produz sensações corporais reais e não apenas representação imaginária.
85. Relações eróticas efetivas com parceiros artificialmente animados pela imaginação existem há milênios, de modo que os dispositivos eletrônicos contemporâneos modificam principalmente o suporte sensorial dessa experiência, sem transformar sua estrutura antropológica fundamental.
86. A questão decisiva reside menos na novidade dos meios técnicos do que na continuidade histórica da criatura e nas transformações da representação do humano que cada uma de suas novas formas torna perceptíveis.
87. A genealogia das criaturas permite investigar aspectos centrais das definições culturais do humano, e as formas virtuais contemporâneas indicam uma transformação suficientemente profunda para diferenciá-las tanto das criaturas antigas quanto da própria inteligência artificial clássica.
88. O enfraquecimento da inteligência artificial como principal suporte do desejo de produzir uma criatura semelhante ao homem decorre parcialmente de sua incapacidade persistente de realizar uma inteligência comparável à humana, enquanto suas realizações concretas em auxílio à decisão se tornam instrumentos informáticos cotidianos e perdem sua aura de criaturas.
89. Sistemas automáticos de decisão, controle de tráfego e transporte deixaram de ser percebidos como portadores de consciência artificial, mas a transformação fundamental que desloca o imaginário da criatura para outros suportes ultrapassa a simples banalização tecnológica dessas aplicações.
90. A inteligência artificial clássica corresponde a uma representação do homem como sujeito individual e relativamente monádico que comunica informação a outros indivíduos, enquanto a representação contemporânea tende a deslocar a humanidade para a dimensão coletiva e social.
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A máquina inteligente clássica era pensada como indivíduo ao redor do qual se aguardava a emergência de consciência.
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A comunicação conectava posteriormente entidades concebidas como unidades autônomas.
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A crescente valorização da natureza coletiva do pensamento altera progressivamente esse modelo.
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O humano passa a ser definido menos pela inteligência de uma consciência isolada e mais por sua inserção constitutiva numa rede social.
91. A concepção de Harry Collins radicaliza essa transformação ao localizar o conhecimento no grupo social e não no indivíduo, fazendo do computador inteligente uma prótese destinada a integrar-se não a um organismo humano isolado, mas ao organismo mais amplo constituído pela coletividade.
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A sociedade não pode ser reduzida à simples soma de indivíduos independentes.
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O saber emerge das práticas e relações coletivas.
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A máquina deixa de aspirar necessariamente à condição de indivíduo artificial autônomo.
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Sua função pode consistir em integrar e ampliar capacidades cognitivas distribuídas socialmente.
92. A história das criaturas artificiais revela sucessivas superações de definições reducionistas do homem — beleza, movimento, inteligência ou individualidade —, fazendo com que cada novo projeto exponha simultaneamente um aumento de conhecimento e a descoberta de dimensões anteriormente ignoradas da complexidade humana.
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A inadequação de cada réplica revela os limites da representação antropológica que a orientou.
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A busca de maior fidelidade conduz continuamente a modelos mais abrangentes do humano.
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O progresso na fabricação das criaturas corresponde, paradoxalmente, tanto à expansão do saber quanto à consciência crescente daquilo que permanece desconhecido.
