Mão e Espírito
A Mão e o Espírito. Lisboa: Edições 70
Prefácio
1. Paul Broca, em estudo de anatomia comparada entre o homem e o macaco realizado por ocasião de um trabalho sobre a ordem dos primatas, sublinha estarmos muito longe de nos entendermos sobre o que é um pé e o que é uma mão, a tal ponto que quadrúmanos e quadrúpedes não fornecem as definições claras e distintas que se poderia esperar.
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ao procurar definir a mão, Broca cita a definição de Cuvier segundo a qual a constitui a faculdade de opor o polegar aos outros dedos para agarrar as coisas mais ínfimas
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essa definição não permite distinguir rigorosamente a mão do pé, havendo numerosos exemplos de mutilados que fizeram das extremidades de seus membros inferiores verdadeiros órgãos de preensão, além de espécies de quadrúmanos com mãos sem polegar ou com polegar não oponível
2. Ao se preferir a definição de Isidore Geoffroy Saint-Hilaire, que critica a de Cuvier ao descrever a mão como extremidade provida de dedos alongados, profundamente separados, muito móveis e flexíveis e por isso capazes de agarrar, somos forçados a reconhecer que tal definição se adequa igualmente aos pés dos papagaios ou dos camaleões.
3. Broca conclui então que, para verdadeiramente distinguir a mão do pé, é necessário fundamentar a distinção numa série de características anatômicas que incluam não apenas as extremidades dos membros, mas os próprios membros em sua totalidade, chegando ao final de sua análise à afirmação de que a mão, emancipada da grosseira função do pé, se torna adequada a uma multiplicidade de utilizações, sendo instrumento por excelência do tato, da preensão e do trabalho, e sendo o homem, único mamífero absolutamente bípede, também o único cuja mão é perfeita.
4. A direção desse movimento de pensamento merece ser cuidadosamente sublinhada, pois para distinguir a mão do pé foi necessário falar de membros anteriores e posteriores, dali passar a todo o organismo para diferenciar o andar dos macacos, que se apoiam na face palmar de suas mãos anteriores, do dos antropoides, verdadeiros bípedes que se apoiam, ao andar, sobre a face dorsal de suas mãos, sendo finalmente necessário chegar ao homem para encontrar a mão perfeita, a mão-modelo, de modo que é o homem, em sua totalidade, que faz a mão, tendo sido pelo homem que Broca teve acesso à mão, e não pela mão que teve acesso ao homem, pois a extremidade do membro torácico não pôde ser definida independentemente do próprio membro, este remetendo ao organismo total e este, por fim, ao andamento desse organismo.
5. O problema está precisamente em saber se esse andamento se limita a uma marcha, ou seja, a um tipo específico de locomoção, ou se traduz uma exploração cujas dimensões espaciais estão longe de esgotar sua natureza, pois andamento não significa apenas deslocação, mas também procura, adiantando-se a mão, no andamento do homem, ao próprio corpo, tentando o homem que agarra, ao mesmo tempo, agarrar-se a alguma coisa, e esperando o homem que toca, por sua vez, ser tocado, implicando toda manutenção uma intenção que a extensão do braço apenas prolonga, sendo por isso a mão, tal como a linguagem que muitas vezes ela marca com seus gestos, a grande exploradora das distâncias e da dimensão em cujo seio o homem se move e existe, colocando-se a questão de saber se a mão é a medida do homem por lhe dar, ao sair dele, uma preensão do mundo, ou se o define e limita, fazendo-o sentir a experiência de estar profunda e dolorosamente preso no mundo.
6. É conhecida a célebre afirmação de Aristóteles, criticando Anaxágoras, segundo a qual não é por ter mãos que o homem é o mais inteligente dos seres, mas é por ser o mais inteligente dos seres que o homem tem mãos, parecendo essa oposição de pontos de vista colocar o problema de saber se a sequência correta vai do preender ao compreender ou, ao contrário, do compreender ao preender, podendo qualquer das duas atitudes levar a raciocínios especiais sub-reptícios, sacrificando-se, ao tentar esclarecer um termo pelo outro, seja a finalismos demasiado fáceis que justificam a anatomia da mão, seja a evolucionismos antropomórficos, leia-se antropocêntricos, vítimas de uma ilusão de retrospectividade.
7. O compreender não é simples epifenômeno do preender, assim como o preender também não é simples aplicação executória do compreender, implicando ambos duas experiências situadas no próprio centro dessa exploração da Dimensão onde se move toda a existência humana, Dimensão que não representa apenas o quadro espacial das deslocações possíveis, mas se desvenda sobretudo como o entre-os-dois que toda consciência do outro implica, não sendo preender e compreender nem atividades puramente mecânicas nem especulações puramente intelectuais, mas aspectos desse esforço do homem por se recuperar e libertar de si mesmo.
8. É por isso que o que Platão diz sobre as mãos, ao narrar no Timeu a criação do mundo e do homem, é muito mais profundo do que uma interpretação literal do texto poderia fazer crer, pois o Demiurgo não deixou nenhum elemento nem qualidade fora do mundo e quis fazer dele um Vivente perfeito, único, isento de doença e de velhice, sendo por isso esse Mundo esférico e girando em movimento circular graças ao qual nunca sai de si, declarando Platão que, precisamente porque o Mundo se basta a si próprio, as mãos, que servem para agarrar ou afastar alguma coisa, não teriam nenhuma utilidade, não tendo o artista julgado necessário adaptar-lhe esses membros supérfluos, nem pés, nem qualquer aparelho apropriado para andar.
9. O mundo ignora, portanto, a distância, não estando condenado a errar para a esquerda, a direita, para cima, para baixo, para a frente ou para trás, sendo tudo bem diferente para o homem, cuja alma foi lançada aos instrumentos do tempo.
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a cabeça, parte mais divina do homem, circula sobre uma terra cheia de saliências e depressões de toda qualidade, sendo por isso necessário que recebesse um veículo portador prolongado por quatro membros
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essa é a função do corpo que, pela preensão e pelo apoio que seus membros lhe dão, é capaz de progredir pelos lugares que atravessa, transportando no alto a morada daquilo que há em nós de mais divino e sagrado, tendo sido pés e mãos que nos conduziram a todos
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a mão é assim aquilo com que o homem procura assegurar suas preensões, sendo a compreensão aquilo para que tendem as preensões sucessivas por meio das quais o homem explora o mundo, à semelhança da sinopse que é o limite para o qual tende o filósofo, para além de todos os pontos de vista parciais e limitados
10. A mão é assim, para Platão, aquilo com que o homem tenta orientar sua progressão, ao mesmo tempo que adquire a perigosa experiência da distância do mundo, mas, não sendo ele Argos de cem olhos, tampouco é Briareu de cem mãos, devendo toda mão que agarra escolher primeiro sua presa, descobrindo toda mão que toca que a superfície é o limiar de uma profundeza que permanece inacessível, e não transportando a vida a mão que modela.
11. É por isso que todas as mãos que manipulam materiais que vão transformando, todo agarrar que se prolonga em empreendimentos onde o utensílio permite dispensar a mão, não devem nos fazer esquecer o que há de simples, de profundamente trágico e de verdadeiramente significativo no gesto do homem que procura dar a mão a outro, ou tomar outra mão na sua, com o fim de alcançar uma experiência cuja própria impossibilidade lhe esclarece todo o sentido.
