Renascimento
CASSIRER, Ernst. Individu et cosmos dans la philosophie de la Renaissance. Paris: Minuit, 1983.
1. A hipótese hegeliana segundo a qual a filosofia de uma época encerra a consciência e a essência espiritual da totalidade de seu modo de ser não parece se verificar na filosofia do Proto-Renascimento.
2. A nova vida surgida nos séculos XIII e XIV em todos os domínios do espírito quase não encontra expressão no pensamento filosófico da época, ainda que a vida espiritual desses séculos, na poesia, nas artes plásticas, na política e na história, se desenvolva com impulso crescente e consciência cada vez mais aguda de constituir renovação espiritual, permanecendo o pensamento rigidamente preso às formas gerais da filosofia escolástica.
3. O ataque de Petrarca à filosofia escolástica no tratado De sui ipsius et multorum ignorantia testemunha o poder ainda inquebrantado dessa filosofia, pois o princípio que Petrarca lhe opõe não possui conteúdo nem origem filosóficos, sendo antes o novo ideal cultural da eloquência, dirigindo-se a crítica humanista não ao conteúdo dos tratados aristotélicos, mas ao seu estilo literário.
4. Essa crítica revoga progressivamente suas próprias hipóteses à medida que se amplia o âmbito dos conhecimentos humanísticos, obrigando a imagem escolástica de Aristóteles a recuar diante do verdadeiro Aristóteles obtido das fontes originais, opinando Leonardo Bruni que o próprio Aristóteles não reconheceria suas obras transformadas pelos escolásticos, assim como Acteão não foi reconhecido por seus próprios cães.
5. Nesse juízo de Bruni revela-se como o movimento humanista já ajusta paz com Aristóteles, pretendendo os humanistas apropriar-se de seu espírito e linguagem, sendo os problemas daí resultantes de caráter filológico mais que filosófico, como na discussão sobre traduzir o conceito aristotélico de bem supremo ou na polêmica sobre a grafia de entelequia.
6. Fora do estreito círculo humanista, a filosofia não alcança verdadeira renovação de métodos, não chegando a disputa pela prioridade da doutrina platônica ou aristotélica, travada na segunda metade do século XV, ao cerne dos pressupostos últimos, pois a medida comum empregada por ambos os partidos situa-se além do campo estritamente filosófico.
7. Essa disputa não representa contribuição verdadeira ao progresso da história espiritual, caindo ambos os partidos rapidamente na pretensão de fusão sincrética, sendo singular que a Academia de Florença, guardiã da autêntica herança platônica, tenha se mostrado a mais audaciosa nesse empenho.
8. Pico della Mirandola, chamado Princeps Concordiae, considerou finalidade capital do pensamento conciliar a filosofia escolástica com a platônica, entrando na Academia de Florença não como desertor do aristotelismo, mas como espião, persuadindo-se de que a discrepância entre Aristóteles e Platão residia mais nas palavras que na substância.
9. Com tais aspirações conciliatórias, os grandes sistemas filosóficos perdem sua fisionomia peculiar e afundam-se nebulosamente em única revelação primordial cristã-filosófica, invocando Marsilio Ficino o testemunho de Moisés, Platão, Zoroastro, Hermes Trismegisto, Orfeu, Pitágoras, Virgílio e Plotino, sugerindo isso que o impulso primitivo de delimitação vigorosa e individuação próprio da época não produziu efeito na filosofia ou decaiu logo em suas primeiras tentativas.
10. Essa circunstância talvez explique por que o historiador da cultura, obrigado a partir de casos particulares vigorosamente delineados, veja-se forçado a descartar os documentos filosóficos da época que não apresentem tal condição, não concedendo Jacob Burckhardt, em seu quadro da cultura renascentista, nenhum lugar à filosofia da época, sequer como momento particular do movimento geral do espírito.
11. Poder-se-ia tentar superar essa discrepância admitindo que, no conflito entre o investigador histórico e o filósofo da história, o veredicto deve favorecer o primeiro, devendo toda construção especulativa acomodar-se aos fatos concretos, mas tal juízo metódico geral não bastaria para compreender nem resolver semelhante desavença.
12. Ao descartar a filosofia renascentista, Burckhardt restringiu consideravelmente seu campo de estudo, pois o caráter escolástico conservado pela filosofia do Renascimento em todas as suas manifestações impede traçar linha divisória nítida entre pensamento religioso e pensamento filosófico, sendo a filosofia do Quattrocento essencialmente teologia concentrada nos três grandes problemas de Deus, Liberdade e Imortalidade.
13. Esses problemas agitaram a polêmica entre alexandrinistas e averroístas na escola de Pádua e constituíram o núcleo das especulações do círculo platônico florentino, tendo Burckhardt conscientemente renunciado a esses testemunhos por parecerem-lhe sobrevivência artificial de tradição já morta, sem conexão viva com as forças religiosas da época.
14. Cabe questionar se esse divórcio entre teoria e práxis do religioso corresponde à realidade ou é antes obra do próprio Burckhardt, não sendo próprio do espírito renascentista, tal como ele mesmo o desenhou, admitir tal separação, prestando-se antes teoria e práxis mútuo apoio e confundindo-se na vida real da época.
15. A crítica exercida sobre a obra de Burckhardt, a partir de investigações empíricas progressivas, concentrou-se particularmente nessa questão, apontando tanto a história da arte quanto a história política e geral do espírito para o deslocamento crescente dos limites entre Idade Média e Renascimento, contrariamente ao sustentado por Burckhardt.
16. Pode-se prescindir da tese de Henry Thode, que remonta os começos do Renascimento artístico ao início do século XIII e atribui a São Francisco de Assis a criação de novo ideal de piedade e o início do movimento artístico culminante no século XV, pois tal tese dificilmente se sustenta em plano rigorosamente científico.
17. A oposição entre o homem medieval e o homem renascentista mostrou-se cada vez mais fugidia à medida que se buscou precisá-la concretamente e progrediu a investigação biográfica particular sobre artistas, pensadores, eruditos e homens de Estado do Renascimento.
18. Segundo investigador experiente citado, o procedimento puramente indutivo aplicado à vida e ao pensamento das figuras dirigentes do Quattrocento, como Salutati, Poggio Bracciolini, Leonardo Bruni, Lorenzo Valla, Lorenzo de Médici ou Luigi Pulci, revela não convirem a esses personagens os caracteres tradicionalmente atribuídos ao Renascimento — individualismo, paganismo, sensualismo, ceticismo —, surgindo fisionomia totalmente distinta quando esses caracteres são compreendidos em conexão com o curso de vida desses homens e com o amplo fluxo da época.
19. Reunidos os resultados da investigação indutiva, ergue-se nova imagem do Renascimento, igualmente heterogênea em seus elementos de piedade e impiedade, bem e mal, anseio de glória eterna e prazer terreno, porém infinitamente mais complexa, devendo a história da filosofia apropriar-se dessas conclusões de Walser e da advertência que encerram.
20. A história da filosofia, sem renunciar à aspiração de generalidade, deve penetrar nos casos particulares e concretos até a última minúcia dos detalhes históricos, pois somente por esse aprofundamento pode garantir autêntica generalidade, exigindo-se universalidade de critério e orientação sistemáticos que não coincidam com a generalidade meramente empírica dos conceitos de gênero usados para delimitar cômodamente os períodos históricos.
