Forma simbólica como fundamento da comunicação
A forma simbólica como fundamento da comunicação (E. Cassirer)
1. Considerar a forma simbólica em geral, e mais precisamente a linguagem, como fundamento da comunicação humana implica compreender que a linguagem não é um simples instrumento de comunicação, pois tratá-la como meio pressuporia a possibilidade de definir fora dela realidades que por ela entrariam em comunicação, possibilidade cuja origem permaneceria inexplicável.
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as apories de uma teoria puramente comunicativa do signo residem na dificuldade de definir de modo unívoco conteúdos primeiros e signos adequados a esses conteúdos
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sair da língua exige primeiro estar nela, sob pena de recair em concepção monádica da separação dos seres, que só uma harmonia metafísica poderia fazer comunicar
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a Filosofia das formas simbólicas, filosofia da linguagem na tradição inaugurada por Humboldt, responde à exigência de uma teoria do conhecimento fundada em dado incontestável, implicando ainda ontologia que confere à língua privilégio no ser
2. A concepção epistemológica corrente da língua situa-se na tradição empirista ou racionalista, vendo nela a análise psicológica moderna simples instrumento ligado, como sistema de signos, a um mundo estranho de imagens e conceitos já postos, supondo assim, sem questionamento, primeira objetivação do ser e separação entre interno e externo, sujeito e objeto.
3. A reflexão mais radical sobre essa objetivação foi realizada por Kant, que trata os conceitos como funções imutáveis do espírito humano, questionando-se, contudo, se essa função conceitual não seria aspecto particular e historicamente recente de função mais geral, a função simbólica, que encontra na linguagem sua forma mais acabada e é ela mesma constitutiva de sentido, meio no qual as consciências se comunicam e recebem seu próprio conteúdo.
4. Cassirer afirma que o signo não serve apenas à comunicação de um conteúdo de pensamento já fixado, mas é instrumento pelo qual esse conteúdo se forma e ganha plena determinação.
5. Dessa maneira levantam-se os principais obstáculos que uma teoria do conhecimento do outro encontra, obstáculos que a impedem de conceber plenamente uma comunicação das consciências psicológicas segundo seu conteúdo.
6. A distinção entre objetivo e subjetivo é superada porque a língua, ao ser portadora simultânea do sentido e do conteúdo de consciência, estabelece uma ponte entre sujeito e objeto, determinando o segundo e objetivando o primeiro.
7. A separação entre o domínio sensível e o inteligível ou conceitual também é superada, pois a língua não desempenha apenas papel de formação de conceitos, mas atua igualmente, em relação ao sensível, como formadora de sentido, constituindo uma das aquisições mais decisivas da filosofia de Cassirer para a psicologia contemporânea.
8. Segundo Cassirer, a língua é mais concreta que o sensível, não sendo reflexo deste, mas constituindo a consciência sensível ao operar sobre ela uma doação de sentido.
9. Não se pode opor comunicação puramente intelectual, usando a língua como meio espiritual entre ideias, e comunicação sensível remetendo por signos a intuições individuais incomunicáveis, respondendo a filosofia da linguagem tanto ao racionalismo quanto ao empirismo por uma conversão de perspectivas.
10. O conhecimento, como a língua, o mito e a arte, não se comportam como simples espelho refletindo imagens de um dado interno ou externo, mas constituem fonte de luz, condição do ver, origem de toda forma.
11. O conhecimento simbólico não deve ser tomado como recurso inferior, substituto de conhecimento objetivo mais perfeito, cogitatio caeca leibniziana, pois se a forma simbólica é considerada origem do próprio sentido, o objeto só nos é dado e constituído pelo símbolo, superando-se assim o dilema da variação histórica das intuições vividas e da comunicação de seu sentido.
12. A forma simbólica constitui, ao mesmo tempo que seu cumprimento, o limite de todo conhecimento e de toda comunicação, limite de determinação e de limitação, distinguindo-se essa concepção da limitação psicológica subjetiva de Dilthey e do limite transcendental kantiano por situar-se no âmbito de uma antropologia cultural.
13. Segundo Cassirer, o conhecimento humano não pode em nenhum lugar prescindir de imagens e signos, sendo justamente por isso caracterizado como humano, ou seja, limitado e finito, em oposição ao ideal de um entendimento perfeito, originário e divino.
14. Essa observação assume importância teórica ao situar a filosofia das formas simbólicas frente às demais teorias do limite do conhecimento inter-humano, colocando-se a questão de saber se a limitação simbólica deve ser interpretada como negativa ou positiva, ou seja, se a riqueza acumulada na qual a vida humana se objetiva representa descoberta da própria realidade ou véu lançado sobre sua essência.
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caso se trate de véu, a última palavra caberia à renúncia a toda determinação, à intuição existencial desligada de conteúdo histórico, ao puro nada da mística
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como Rickert, Cassirer não considera que a comunicação mais profunda se exprima no silêncio, mas sim no seio da cultura, existindo conflito necessário entre vida e cultura resolvido apenas no plano da própria cultura
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o objetivo da filosofia não é retroceder diante das criações culturais, mas compreendê-las em seu princípio formador e torná-las conscientes, elevando-se a vida acima da existência natural para encontrar seu acabamento na forma do espírito
15. Existe, contudo, diferença importante entre a concepção iluminista de cultura e a concepção cassireriana, pois esta última abre-se a formas diferentes da cultura racional, como as formas míticas, igualmente ricas de sentido humano, permanecendo assim marcada pela tendência relativista da teoria das visões de mundo de Dilthey.
16. Todas essas interrogações remetem a problemática comum: qual critério permite afirmar que a forma simbólica é fundamento de si mesma, sendo esse ponto de partida evidente do conhecimento também um princípio, e como seria possível decidir sobre isso.
17. Para elucidar esse problema essencial, é necessário aprofundar a noção central da função da linguagem como fenômeno universal da consciência em geral, superando a pressuposição corrente de distância entre a língua como veículo e uma consciência de conteúdo próprio, já que a língua não emana de uma concepção de mundo anterior a ela, mas é justamente ela quem porta essa Weltansicht, no sentido introduzido por Humboldt.
18. A língua tampouco constitui, no interior de uma cultura dada, convenção entre os homens para se comunicarem, não podendo o arbítrio dos signos ser interpretado como resultado de tal convenção, mas apenas como afirmação de diferença entre a universalidade natural, limitada a sinais, e a universalidade cultural.
19. Em seu conteúdo significante, a língua implica presença imediata dos indivíduos uns aos outros, sendo a comunicação concebida como vínculo entre sujeitos já isolados apenas formação posterior, conforme texto de Humboldt segundo o qual os homens se compreendem não por trocarem signos das coisas, mas por tocarem cada um o mesmo elo da cadeia de suas representações sensíveis, fazendo ressoar em cada um conceitos correspondentes a partir desse contato.
20. Uma representação objetiva do mundo e uma consciência da interioridade não podem ser definidas como pontos imutáveis de referência fora dessa cadeia do significante, que nunca se apresenta como totalidade fechada, mas como movimento e abertura, devendo a forma simbólica, a língua, ser tomada não como resultado de operação, mas como atividade, energeia.
21. Coloca-se então a questão da natureza dessa atividade e de sua relação com a subjetividade em geral, questão que certas concepções contemporâneas do relativismo cultural, por incontestável que seja seu aporte, não podem eludir.
22. A filosofia de Cassirer conduz a questionar a evidência da subjetividade, pois o sujeito falante ao qual habitualmente se vincula a língua só se constitui histórica ou geneticamente, do ponto de vista psicológico, no próprio campo da forma simbólica, aparecendo tanto as categorias do objeto quanto as categorias subjetivas no desenvolvimento de uma forma linguística.
23. Cassirer refuta a concepção especulativa, ainda presente em Humboldt, segundo a qual o eu seria dado primeiro do qual as demais pessoas derivariam por lógica gramatical, demonstrando tratar-se de reconstituição lógica e conceitual, e não de experiência linguística real, sendo o eu, sob sua forma pronominal, formação posterior a outras maneiras de exprimir o sentimento de si.
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estudos de Mauss e Leenhardt sobre a conquista progressiva do eu a partir de operações concretas, como o dom, confirmam a ausência de paralelismo entre categorias gramaticais modernas e a constituição linguística e psicológica do universo das pessoas
24. A língua, enquanto produção humana, não admite a constituição subjetiva atribuída por certa via lógica em direção a origens concebidas como formas originárias, sendo estas na verdade abstrações da pensamento especulativo, aparecendo a categoria abstrata apenas ao termo de processo de diferenciação entre objetividade e subjetividade originalmente unidas, sendo particularmente a história linguística do eu puro, ligado pela filosofia clássica à consciência primordial, a de uma forma discursiva cuja unidade abstrata se destacou progressivamente, atingindo em Kant o mais alto grau de consciência dessa abstração.
25. Coloca-se assim problema decisivo relativo à realidade de uma consciência pura ou transcendental definida por forma pronominal, não podendo a língua fundar-se nessa categoria abstrata, ela mesma tomada na trama linguística, gozando antes a língua, em relação à subjetividade transcendental, de autonomia constituinte.
26. Tampouco a língua resulta de processo empírico entre individualidades dotadas primitivamente de simples consciência sensível, pois se a palavra falada fosse mera expressão de representação individual permaneceria presa aos limites dessa consciência, sem força capaz de elevar-se acima dela, surgindo porém o verbo sonoro em atividade comum e possuindo desde a origem sentido verdadeiramente universal.
27. Sendo a língua o domínio primitivo do surgimento do sentido em sua face concreta, ela escapa, tal como o sentido, a uma constituição psicológica, constituindo atividade autônoma que só depende de si mesma.
28. Apresenta-se então novo problema: essa atividade, na ausência de ato de nascimento determinável do ponto de vista de uma psicologia preexistente da consciência interna, precisa corresponder a algum conteúdo, sob pena de permanecer meramente formal, existindo entre a língua como forma e o psiquismo como conteúdo modo de ligação que a psicologia não pode explicar, mas antes pressupõe.
29. Segundo Cassirer, as palavras da língua não refletem determinações estáveis da natureza ou do mundo da representação, mas desenham as linhas diretrizes de sua determinação, não estando a consciência da totalidade sensível passivamente diante da língua, mas sendo por ela penetrada e preenchida com sua própria vida interior.
30. A língua goza de interioridade própria, mais primitiva que a interioridade psíquica, mostrando a evolução das formas simbólicas que sua constituição essencial não reside na reprodução do mundo externo no interno, nem na projeção de um mundo interno formado sobre o externo, mas no fato de que, por sua mediação, interno e externo, Eu e realidade, obtêm sua determinação e delimitação recíprocas.
31. Chega-se assim à ideia de natureza substancial da língua sobre cujo fundo se determinam os processos espirituais, devendo a palavra ser compreendida em sentido mítico como ser e força substanciais antes de sê-lo em sentido ideal como órgão do espírito.
32. Essa explicação, contudo, só é válida em certo plano e sob certo ponto de vista, contrário à tese que reduz a língua a mero instrumento não constitutivo de comunicação, sendo necessário, para aprofundar as noções de substancialidade, interioridade e atividade, recorrer a noções que ultrapassam o quadro estrito da análise linguística, sejam personalistas, ao afirmar que a língua procede, como o mito, da experiência fundamental e da forma originária da atividade pessoal, sejam funcionais, ao afirmar que é o fazer, e não o simples contemplar, que constitui o ponto central da organização espiritual do real.
33. Tais noções mantêm a presença e a resistência do significado frente ao significante, indicando quão difícil é sustentar a ideia de um poder constitutivo do significante, dificuldade que se agrava quando se pretende, como faz Cassirer, conservar validade a certos conceitos psicológicos dentro de teoria que, em sua orientação profunda, marca superação necessária de toda psicologia.
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essa orientação exigiria, para atingir plena coerência, crítica mais radical da atitude antropológica
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do ponto de vista de uma teoria do conhecimento, a teoria de Cassirer conduz a contradições: psicologismo se a língua é tomada como atividade pessoal, e atividade sem suporte, um fazer sem origem determinável, se tomada como atividade livre ou anônima
34. Questiona-se se, sendo o significante totalmente imanente ao significado, este não se reduziria à própria forma do significante, de modo que nada existiria fora dessa forma e nada seria, no fundo, comunicado no ato de comunicação, aproximando-se paradoxalmente essa filosofia da linguagem de uma teoria nominalista e empirista do signo verbal.
35. Para Cassirer trata-se apenas da constituição de um sentido, mas o sentido vazio e irreal precisa ser preenchido, recorrendo o filósofo a noções psicológicas já existentes que lhe parecem satisfazer a exigência de conteúdo postulada por todo sentido, apresentando essa fusão do linguístico e do psicológico aparência de solução dialética que, no entanto, desemboca em fenomenalismo radical excluindo todo em si de seu campo de pesquisa sem propriamente reduzi-lo.
36. Os problemas de comunicação exprimem-se mais facilmente para uma filosofia da linguagem no nível do mito do que em um mundo já objetivado para pluralidade de sujeitos, tendo Cassirer, ao evidenciar a equivalência funcional entre conceito e mito como formas simbólicas, destruído certas ilusões do objetivismo, permanecendo porém a descoberta do conceito e da aplicação do pensamento científico ao objeto como estágio novo nas relações humanas, cuja compreensão já não pertence apenas a uma filosofia da linguagem.
37. Assim como em Dilthey a teoria das visões de mundo esbarra na necessidade de descobrir ponto de vista absoluto e universal sob o qual essas visões possam ser percebidas como tais sem conseguir realizar tal conversão presa no psicologismo, também em Cassirer a consciência imanente à língua ou à forma simbólica não pode escapar a essa imanência nem justificar como essa forma estabelece vínculo entre subjetividades, podendo a condição de realização do sujeito representar, ao contrário, condição de alienação ou de relativização radical das perspectivas, permanecendo em aberto a exigência de decidir sobre a origem do sentido e de situar, sob o significante, o lugar de um sujeito que, compreendido psicologicamente, se esquiva — sendo a esse ponto que a fenomenologia de Husserl inscreve seu próprio discurso.
