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Crítica da Tecnologia

FEENBERG, Andrew. The ruthless critique of everything existing: nature and revolution in Marcuse’s philosophy of Praxis. Brooklyn, NY: Verso, 2023.

A Crítica da Tecnologia

Uma Crítica Ambígua

1. A crítica marcuseana ao capitalismo avançado abarcava as questões clássicas da esquerda, intervindo ativamente em movimentos sociais, sendo para ele insuficiente opor-se a más políticas, devendo questionar-se todo o modo de vida que as sustenta, constituindo a crítica tecnológica aspecto fundamental desse modo de vida.

2. Publicado em 1964, quando marxismo e liberalismo unanimemente celebravam o progresso técnico, O Homem Unidimensional contrariava essa corrente, sendo hoje fácil associar suas ideias a uma tradição marxista de crítica tecnológica então praticamente invisível.

  • obras hoje clássicas como as de Lukács e Horkheimer/Adorno permaneciam então não traduzidas e fora de catálogo

3. Marcuse contribuiu para clima crescente de resistência à distopia tecnocrática, atacadas suas ideias como tecnofóbicas e anticientíficas, constituindo essa crítica o verdadeiro escândalo da obra tanto quanto sua política revolucionária.

4. Pretende-se demonstrar que essa crítica, embora radical, não implica hostilidade irracional à ciência, exigindo isso romper com a imagem amplamente aceita de Marcuse e com a peculiar estratégia retórica de suas obras tardias.

  • seu estilo constitui provocação consciente e recusa dos cânones acadêmicos, medindo-se sua eficácia pelo notável impacto alcançado, embora a compressão constante de ideias em formulações dramáticas por vezes obscureça o significado dos conceitos

5. A tese central afirma que ciência e tecnologia modernas estão essencialmente implicadas na dominação social, entendendo-se por dominação tanto a supressão externa quanto a forma interna de conformismo e autoritarismo, sendo a máquina base de novos tipos de supressão que somente ela torna possíveis.

6. O estilo dialético marcuseano explora ambiguidades terminológicas de modo simultaneamente esclarecedor e confuso, ao afirmar que ciência é política e tecnologia é ideológica, borrando a diferença essencial entre esses termos e sugerindo leitura irracionalista aparentada a críticas românticas da modernidade.

7. Contrariando essa leitura, Marcuse mantém porém a fé marxista no potencial libertador último da tecnologia, base material para superação da escassez, reprimido esse potencial pelo capitalismo através da luta contínua pela existência.

8. Para evitar interpretação irracionalista, Marcuse corrige suas afirmações mais fortes, sustentando simultaneamente neutralidade e caráter político da tecnologia, produzindo fórmulas mutuamente contraditórias que revelam teoria emaranhada nos próprios conceitos empregados.

  • afirma-se tanto que a racionalidade tecnológica liberta poderia servir ao socialismo quanto que a tecnologia não pode ser isolada do uso a que é destinada

9. Habermas interpretou essa ambiguidade como evidência de que Marcuse sempre acreditou na neutralidade tecnológica, enquanto Bergmann argumenta que, sem distinção entre recursos técnicos neutros e sua realização em tecnologias ideologicamente enviesadas, não haveria como sustentar noção de potencial reprimido a libertar sob o socialismo.

10. É lamentável que Marcuse não tenha chegado a formulação mais clara em resposta a seus críticos, propondo-se que suas dificuldades decorrem de sua crítica se apoiar em duas fontes independentes, ainda que relacionadas: a análise marxiana da adaptação da técnica ao capitalismo, e uma vertente ontológica mais próxima de Heidegger e Ellul.

  • essa segunda vertente sustenta que a razão técnica está adaptada a priori à manutenção da dominação social não apenas sob o capitalismo, mas essencialmente em si mesma

A Neutralidade da Tecnologia

11. Marcuse sustenta que a noção tradicional de neutralidade tecnológica não pode mais ser mantida, não sendo porém sua rejeição dessa tese tão categórica quanto parece, consistindo essa neutralidade, em primeiro lugar, na indiferença valorativa da técnica quanto aos fins a que pode servir.

  • exemplifica-se isso pelo slogan de que armas não matam pessoas, sendo essa concepção familiar e autoevidente

12. Um segundo sentido de neutralidade refere-se à indiferença tecnológica quanto à organização social, sobretudo quanto à distinção entre sociedade capitalista e socialista, sendo martelo ou turbina úteis em qualquer contexto social dotado de infraestrutura adequada.

13. Em terceiro lugar, a neutralidade cultural da tecnologia atribui-se a seu caráter racional e à universalidade da verdade que incorpora, permitindo em quarto lugar essa universalidade aplicar os mesmos padrões de medida a tecnologias empregadas em contextos distintos.

14. Contra essas visões, Marcuse afirma que a tecnologia é fundamentalmente enviesada em direção à dominação, formulando sua posição alternativa em três teses: a tecnologia tornou-se sistema total legitimador do capitalismo; a tecnologia e sua racionalidade não são politicamente neutras, impondo controle hierárquico na produção; a racionalidade científico-técnica está adaptada a priori à manutenção da dominação.

15. Essas três teses contradizem a noção de senso comum sobre a neutralidade, mas Marcuse insiste também na possibilidade de transição ao socialismo através da reconstrução da tecnologia existente, pressupondo isso alguma forma de neutralidade, ainda que distinta da usual, colocando-se a questão de saber que tipo de neutralidade seria compatível com sua tese de dominação.

O Viés da Tecnologia

16. Críticos da tecnologia como Marcuse costumam ser acusados de irracionalismo, parecendo negar a neutralidade sugerir que a técnica pertence aos mitos compartilhados da sociedade, incompatível isso com seu marxismo, segundo o qual a ciência desenvolvida sob o capitalismo, embora enviesada, permanece válida.

17. Embora Marcuse nunca formule explicitamente sua compreensão alternativa da relação entre neutralidade e viés, sua teoria repousa sobre sua coexistência, não sendo o viés o oposto da neutralidade mas atravessando a distinção entre elementos ideológicos e científico-técnicos.

  • esse relato deriva da distinção hegeliano-marxista marcuseana entre o “abstrato” e o “concreto”, sendo o abstrato a parte isolada do todo a que pertence e o concreto a rede de relações que vincula as partes ao todo

18. A estrutura peculiar do capitalismo resulta nas partes abstratas aparecendo como coisas independentes e autossubsistentes, existindo cada ser humano, empresa ou agência governamental na realidade apenas através de suas conexões essenciais, mas parecendo separados.

  • Lukács introduziu o termo “reificação” para descrever esse aspecto, sendo reificada uma sociedade se sua estrutura obscurece sistematicamente as conexões internas entre seus vários setores

19. Nesses termos, as tecnologias das sociedades industriais avançadas exibem reificação típica, parecendo dispositivos técnicos neutros isoladamente, mas tornando-se visível seu papel social enviesado sob o capitalismo em contexto, exemplificando Marcuse a linha de montagem.

  • chama-se isso “viés formal”: dispositivo formalmente enviesado serve valor substantivo indiretamente através de sua “forma”, seu design técnico, em vez de diretamente através de gosto ou preconceito

20. A noção tradicional de neutralidade é unidimensional por abstrair de considerações contextuais, parecendo as tecnologias neutras isoladamente e de ponto de vista puramente técnico, sendo isso ilusão induzida por perspectiva estreita, buscando o método marcuseano recuperar os contextos perdidos.

  • argumenta que tecnologias e racionalidade técnica são inseparáveis de valores sociais apesar de incorporarem conhecimento objetivo da natureza com status epistemológico diferente de costumes ou crenças religiosas

21. Para Marcuse, valores operam no “ajuste” dos designs técnicos à sociedade em geral, produzindo a inovação capitalista tecnologias que servem à busca de lucro independentemente do custo humano e natural, explicando isso por que a reconstrução tecnológica é característica necessária da transição ao socialismo.

22. As duas primeiras teses sobre tecnologia fluem diretamente dessas considerações, refletindo as consequências do domínio de classe para a consciência social e o design tecnológico, resumindo o que se chamará “os momentos sociológicos” dessa crítica.

23. A terceira tese tem status diferente, atribuindo viés intrínseco à própria racionalidade científico-técnica, sendo essa a vertente mais radical, o “momento ontológico”, que visa descobrir as precondições quase transcendentais da possibilidade do viés formal.

O Momento Sociológico: Primeira Tese

24. Marcuse tentou primeiro explicar o impacto da tecnologia sob o capitalismo em ensaio de 1941, influenciado por Marx, Mumford e Veblen, explicando que as condições sociais que sustentavam a individualidade autônoma foram substituídas por ordem burocrática que impõe adaptação à sociedade.

  • a máquina desempenha papel nessa ordem ao impor conformidade ao dado, obediência aos fatos, moldando seu ensinamento pensamento e caráter e produzindo tipo de personalidade conformista

25. Isso difere bastante da abordagem marxiana, que criticava os danos sofridos pelos trabalhadores acorrentados à divisão estreita do trabalho, argumentando que a indústria exigia trabalhadores qualificados para máxima produtividade, mas que o capitalismo depende dos não qualificados para controlar trabalho e custos.

  • como a alienação se tornara obstáculo ao crescimento das forças produtivas, o objetivo normativo de sociedade mais humana era visto como congruente com o objetivo técnico de aumentar a produtividade

26. Marcuse argumenta que o capitalismo contemporâneo invalidou essa posição original marxiana: a organização capitalista da produção provou sua competência técnica, não podendo mais a racionalidade tecnológica servir de base para crítica das relações de produção prevalecentes.

  • o capitalismo agora institui cultura em que toda injustiça é endereçada por solução técnica de problemas dentro do sistema existente, substituindo a racionalidade técnica a normativa e matando a esperança de futuro radicalmente diferente

27. Sob essas novas condições, a racionalidade tecnológica torna-se o discurso legitimador da sociedade, resumindo Habermas esse aspecto: as forças produtivas deixam de funcionar como base de crítica das legitimações prevalecentes para tornarem-se base de legitimação.

  • o problema já não é a incapacidade capitalista de usar efetivamente as tecnologias desenvolvidas, mas as consequências humanas catastróficas do uso efetivo dessas mesmas tecnologias

28. Não apenas o progresso técnico é distorcido pelas exigências capitalistas, mas o “universo do discurso” limita-se a colocar e resolver problemas técnicos dentro das restrições do interesse de dominação, eliminando a universalização dos modos técnicos de pensamento as condições subjetivas pressupostas pela teoria marxiana de luta emancipatória.

  • esse mundo não tem lugar para consciência crítica: é “unidimensional”, explicando isso por que Marcuse, diferentemente de Marx, ataca não apenas os interesses sociais dominantes mas também os próprios modos técnicos de pensamento

O Momento Sociológico: Segunda Tese

29. O século vinte viu a extensão da tecnologia a toda esfera da vida social, explicando Weber as consequências com sua teoria da racionalização, baseando-se a análise marxista marcuseana dessa teoria na distinção marxiana entre aspectos técnico e social da tecnologia sob o capitalismo.

  • segundo Marx, o capitalismo fundiu o impulso de aumentar a produtividade econômica com a manutenção do poder capitalista no local de trabalho, encontrando Marcuse fusão similar do técnico e do social na teoria weberiana da racionalização

30. O argumento marxiano decorre das consequências do divórcio entre trabalhadores e meios de produção, recaindo o controle do trabalho sobre os proprietários capitalistas, que devem conceber soluções tecnológicas e gerenciais para problemas de disciplina laboral.

  • as escolhas tecnológicas são determinadas pela busca de controle não apenas sobre a natureza, mas também sobre os seres humanos, procedendo o progresso técnico sob dupla meta, uma puramente técnica e outra socialmente específica

31. Isso explica como o mesmo Marx que previu a libertação da humanidade numa sociedade socialista tecnologicamente avançada pôde também escrever diatribes contra a divisão do trabalho e o uso de maquinário sob o capitalismo, sendo a ciência a mais poderosa arma para reprimir greves.

  • por contraste, o socialismo libertará a tecnologia de impor disciplina laboral hierárquica e permitirá à indústria moderna florescer

32. Weber generalizou a teoria marxiana do capitalismo para teoria mais ampla da modernidade, mas perdeu nesse processo o gume crítico de Marx, introduzindo os termos “substantiva” e “formal” para descrever dois tipos diferentes de racionalidade social.

  • a racionalidade “substantiva” é determinada por normas incorporando propósito, enquanto a “formal” caracteriza arranjos econômicos que otimizam calculabilidade e controle em vez do cumprimento de fins substantivos, sendo assim neutra quanto a fins

33. A distinção weberiana desdobra-se em seu relato das consequências sociais do progresso, exibindo sociedades pré-modernas baseadas em racionalidade substantiva viés explícito consagrado por hierarquia de funções divinamente atribuídas, havendo perfeita consistência entre a forma substantiva de racionalidade e os resultados sociais discriminatórios.

34. “Racionalização” refere-se à generalização da racionalidade formal na sociedade capitalista às custas dos modos substantivamente racionais de ação que prevalecem em sociedades tradicionais, não mais consagrando Deus a hierarquia social, substituída pela troca igual no mercado.

  • isso não tem o efeito democratizante esperado, favorecendo ao contrário a racionalidade formal novas formas de discriminação apesar de (ou por causa de!) sua neutralidade

35. A crítica marcuseana a Weber dissolve esse paradoxo por referência à teoria marxiana dos critérios duplos de progresso sob o capitalismo, mostrando que sua análise caiu presa da identificação da razão técnica com a razão capitalista burguesa.

  • acusa Weber de confundir critérios especificamente capitalistas de design e administração com a racionalidade enquanto tal, argumentando que a explicação weberiana do conceito geral de racionalidade econômica formal pressupõe implicitamente a separação entre trabalhadores e meios de produção como necessidade técnica

36. Esse pressuposto não se confina à sociologia weberiana mas é característica geral do pensamento reificado na sociedade capitalista, marcado indelevelmente aquilo que Marcuse chama “racionalidade tecnológica” pelo pressuposto de que a dominação é condição necessária para ação efetiva.

37. A fusão do técnico e do social molda também o design das tecnologias, não substituindo Marcuse, como alegam alguns críticos, crítica tecnológica por crítica ao caráter antagônico do capitalismo, mas argumentando que a tecnologia é sítio desse antagonismo.

  • propósitos e interesses específicos de dominação não são impostos à tecnologia “subsequentemente” e do exterior, entrando na própria construção do aparato técnico, sendo a tecnologia sempre projeto histórico-social

38. Aqui estamos no limiar da crítica ontológica, mas Marcuse oferece apenas indício da teoria mais elaborada de O Homem Unidimensional, resultando isso em impressão confusa: por um lado, Weber é acusado de confundir o técnico com o social, implicando possibilidade de separá-los.

  • uma vez eliminado o viés de classe, a consumação da razão técnica poderia bem tornar-se o instrumento para a libertação do homem, sendo essa a limitação do momento sociológico, gesticulando sua crítica em direção a ideal abstrato de razão técnica verdadeiramente neutra

39. Marcuse conclui porém sua discussão de Weber sugerindo que a própria noção de razão técnica é ideológica, sem contudo questionar a validade da ciência e da tecnologia, pensando poderem fornecer a base para sociedade socialista uma vez reconstruídas para apoiar objetivos diferentes.

  • colocando-se então a questão: são apenas ideológicas em seu emprego capitalista, ou o são em si mesmas? e se isto último, como poderiam servir numa futura sociedade socialista?

40. Aqui está verdadeiramente a bifurcação de caminhos, tendo Habermas e seus seguidores elaborado versão da teoria crítica compatível com uma resposta, adotando as linhas principais do primeiro momento sociológico enquanto afirmam a neutralidade inerente da ciência.

  • infelizmente para quem adotou essa abordagem, o movimento ambientalista emergente contrariou essa tentativa de eliminar a crítica da razão instrumental da teoria crítica

41. O Homem Unidimensional vai além da crítica a Weber, atacando as raízes ontológicas do problema em teoria especulativa da razão mais seguramente protegida contra a ideologia tecnocrática, baseando-se essa crítica ontológica na recusa de separar a razão do arcabouço social e cultural em que opera.

O Momento Ontológico: Terceira Tese

42. Comecemos reconhecendo a intempestividade da crítica ontológica marcuseana, escrevendo ele no auge da ideologia tecnocrática, quando a ciência era amplamente considerada livre de valores, universal e beneficente, culpando-se más políticas, e não a ciência mesma, por suas aplicações ruins.

  • conservadores culturais como Heidegger e radicais como Marcuse discordavam, argumentando que a ciência era cúmplice de campos de concentração, bombas atômicas e propaganda midiática

43. A tese mais controversa marcuseana sustenta que existe conexão a priori entre racionalidade científico-técnica e dominação, tendo a ciência, por virtude de seu próprio método e conceitos, projetado e promovido universo em que a dominação da natureza permanece ligada à dominação do homem.

  • essa reivindicação chocante é condenada por muitos críticos, mesmo simpáticos como Habermas e Leiss, que a descartam como vestígio de romantismo

44. Embora existam problemas reais na crítica marcuseana da ciência, não deve ser tão facilmente descartada, podendo reformular-se sua noção do viés da racionalidade perguntando: qual a significância da disponibilidade geral de sistemas formais como disciplinas técnicas para aplicações que favorecem a dominação?

  • é perturbador seguir o argumento marcuseano até esse ponto porque não pensamos normalmente ciência e tecnologia como essencialmente implicadas em suas aplicações

45. O momento ontológico da crítica tem dois aspectos: primeiro, a orientação instrumentalista da “racionalidade tecnológica” reduz o ser, incluindo o humano, a matéria-prima e componentes de sistema, eliminando outras dimensões essenciais ao florescimento da vida, antecipado esse aspecto pela Dialética do Esclarecimento.

  • um segundo aspecto contrapõe essa redução tecnológica em termos de lógica amplamente hegeliana

46. Dada a óbvia filiação das considerações marcuseanas sobre ciência e tecnologia aos escritos anteriores de Horkheimer e Adorno, deve-se perguntar por que Husserl e o Heidegger tardio desempenham papel tão importante em O Homem Unidimensional.

  • a Dialética do Esclarecimento poderia interpretar-se como crítica da racionalidade instrumental enquanto tal, sugerindo isso que a razão em si é o problema, sem escape previsto, colocando isso problema para Marcuse, engajado também na projeção utópica de forma socialista de racionalidade

47. Os capítulos 5 e 6 de O Homem Unidimensional constituem resposta marxista ao ensaio heideggeriano “A Questão Concernente à Técnica”, começando ambos com discussão do conceito teleológico aristotélico de prática técnica e terminando com crítica da visão mecanicista moderna da natureza.

  • segundo Heidegger, e Marcuse concorda essencialmente, os gregos reconhecem as potencialidades da matéria que entra na prática técnica, enquanto os modernos tratam a natureza como estofo fungível ao incorporá-la ao sistema industrial

48. Husserl reivindica que a ciência moderna “galileana” refina práticas correntes no Lebenswelt de sua sociedade, introduzindo precisão em práticas ordinárias de medição e, nessa base, alcançando previsão e controle sobre seus objetos.

  • substitui-se mundo quantificado e ideal ao mundo concreto da experiência, consistindo esse mundo quantificado em formas e relações básicas manipuláveis independentemente da substância em que são descobertas, eliminando-se aspectos qualitativos e potencialidades

49. Heidegger amplifica a tese husserliana, argumentando que a ciência moderna projeta ideia quantificável de natureza intrinsecamente orientada ao controle técnico, chamando isso “plano fundamental” que antecipa antecipadamente os tipos de coisas que podem aparecer como objetos de pesquisa.

  • seu exemplo principal é a física, para a qual a natureza consiste em sistema autocontido de movimento de unidades de massa relacionadas no tempo e espaço, significando “movimento” apenas mudança de lugar em continuum uniforme

50. Heidegger argumenta ainda que a ciência moderna produz imagem ou representação que chama “imagem de mundo”, representação supostamente exaustiva da realidade, sendo essa modo unicamente moderno de compreender o real, tornando possível previsão e manipulação técnica.

  • a conexão entre ciência e tecnologia reside no plano fundamental original que expõe a natureza tanto à representação científica quanto ao controle tecnológico

51. Para Heidegger, ciência moderna e antiga têm concepções radicalmente diferentes de natureza, sendo a visão antiga, exemplificada pela Metafísica aristotélica, derivada do crescimento biológico, correspondendo estreitamente à ontologia cotidiana do mundo da vida.

  • os gregos identificavam a essência da realidade não com uma imagem mas com um processo, encontrando natureza autocriadora e automovente consistindo de coisas relativamente estáveis que realizam potencialidades intrínsecas através da mudança

52. Na visão heideggeriana, a imagem científica moderna da natureza elimina automovimento e potencialidade intrínseca, sendo a natureza sem sentido e utterly dependente do sujeito para o qual serve como matéria-prima dominada através de controle instrumental.

  • chama Heidegger a redução do mundo a recursos manipuláveis de Gestell, “enquadramento”, diferindo a tecnologia moderna da techné por não envolver interação mútua entre sujeito e objeto na realização de potencialidades

53. Como notado antes, O Homem Unidimensional segue o mesmo padrão do ensaio heideggeriano, discutindo o capítulo 5 o conceito aristotélico de essência e sua relação com a potencialidade, considerando o capítulo 6 então a tecnologia moderna em termos muito similares aos de Heidegger.

  • não usa Marcuse a terminologia heideggeriana, mas seu argumento repete a preocupação heideggeriana com a universalização da instrumentalidade

54. A discussão marcuseana da ciência segue mais ou menos as linhas traçadas por Husserl e Heidegger, argumentando também que a ciência se baseia em conceito de natureza que a expõe à quantificação e controle, citando Heidegger sobre o homem moderno tomar a totalidade do ser como matéria-prima para produção.

  • a ciência moderna elimina a potencialidade intrínseca em favor de fatos mensuráveis, sendo as essências agora descartadas como meros preconceitos culturais, entregando-se ciência e tecnologia aos poderes sociais e econômicos prevalecentes

55. Tanto Heidegger quanto Marcuse concordam que não há diferença fundamental entre ciência e tecnologia, não podendo a ciência ser separada de suas aplicações, propondo-se em termos contemporâneos crítica da tecnociência.

  • a ciência da natureza desenvolve-se sob o a priori tecnológico que projeta a natureza como instrumentalidade potencial, estofo de controle e organização

56. São essas semelhanças entre as críticas marcuseana e heideggeriana coincidência? isso é improvável, dada a fama de Heidegger à época, tendo lido todos os envolvidos com a filosofia continental, e certamente Marcuse, “A Questão Concernente à Técnica”.

  • os capítulos 5 e 6 respondem a Heidegger incorporando aspectos da ontologia fenomenológica ao marxismo, criando teoria original com aspecto político ausente nesses fenomenólogos

57. Aquilo que Marcuse chama “unidimensionalidade” é a generalização do instrumentalismo como senso comum, substituindo ideias e atitudes normativamente carregadas que antes moldavam a relação cotidiana com o mundo, sendo isso politicamente significativo.

  • as potencialidades do mundo social obscurecem-se onde este é reduzido a vasta coleção de fatos mensuráveis sujeitos a controle técnico, tratadas essas potencialidades agora como meros valores subjetivos

Excurso: Heidegger ou Marcuse

58. Em 1949, Heidegger declarou que a agricultura é hoje indústria alimentar mecanizada, em essência o mesmo que a produção de cadáveres nas câmaras de gás e campos de extermínio, o mesmo que o bloqueio e a fome de países, o mesmo que a produção de bombas de hidrogênio.

  • a tecnologia, lamenta ele, obliterou o sujeito humano e ocluiu o “pertencimento necessário do homem ao revelar”, não havendo escape dessa condição

59. Pode ser tentador interpretar Marcuse nessa veia, descartando ele reformas menores do sistema por apenas perpetuarem a unidimensionalidade, podendo sua “Grande Recusa” ser tomada por rejeição completa da sociedade tecnológica.

  • o argumento é porém bastante diferente: enquanto para Heidegger a emergência dos valores como correlato da tecnologia é episódio na história do ser, Marcuse preocupa-se com os procedimentos sociais que reduzem potencialidades a valores

60. Para Marcuse, certos valores têm conteúdo “transitivo” indicando as potencialidades bloqueadas da sociedade, contendo a persistência desse conteúdo, apesar dos esforços para eliminá-lo, promessa, abrindo O Homem Unidimensional reconhecendo ambiguidade entre desespero e esperança.

61. O Gestell heideggeriano, o esqueleto matemático de sociedade tecnificada, não é tão contingente, sendo quase total, sem conteúdo transitivo oculto, não podendo para ele a ação alterar o revelar tecnológico, parecendo acreditar que tentativa de mudá-lo simplesmente reproduziria seu domínio.

  • não há ação recíproca do ôntico sobre o ontológico, podendo no máximo preservar sentido da possibilidade de alternativa através de reflexão filosófica enquanto se aguarda “um Deus” para nos salvar

62. Mas na medida em que a versão marxista marcuseana da ontologia depende da prática social, não pode manter separação tão nítida entre os níveis ontológico e ôntico, ocorrendo, como na teoria lukacsiana da reificação, a interação entre níveis através de lutas pelas quais atores sociais intervêm na constituição da sociedade.

63. Para Marcuse, essas lutas devem culminar em novo conceito de razão, nova disposição ontológica orientada à vida e capaz de guiar a transformação da ciência e da tecnologia, mas diferentemente de Lukács, com sua confiança na luta de classes, não tem estratégia para quebrar o domínio da racionalidade tecnológica.

  • durante sua vida, a luta de classes revolucionária foi derrotada, tendo emergido apenas os primeiros movimentos de novas formas de resistência

64. Como poderia ter ido essa reconstrução? talvez Marcuse tivesse revisado sua crítica ontológica em vista das forças sociais que impõem restrições ambientais à indústria e humanizam disciplinas técnicas como a prática médica.

  • essa contestação pública inesperada da ciência e tecnologia pressupõe as conquistas científicas mas as incorpora a disciplinas e procedimentos reformados orientados por preocupação com a vida, uma coisa é certa: não teria confundido produção industrial com o holocausto

Aberturas Epocais

65. A decisão marcuseana de recorrer à fenomenologia numa crítica social da ciência é intrigante, por que não simplesmente dizer que a ciência é ideologia capitalista sem enfeites? usa de fato o termo “ideologia” para descrever ciência e tecnologia.

  • essa é tática retórica poderosa mas confusa, sendo a ideologia usualmente entendida como epistemologicamente “particular”, relacionada a classe, cobertura para interesses especiais, essencialmente falsa

66. Para criticar a ciência em nível fundamental, e não apenas usos ou abusos específicos, Marcuse precisa elaborar tipo diferente de relato histórico, querendo mostrar que a ciência é moldada por sua época capitalista mas também universal para sua época.

  • ciência e tecnologia caem numa lacuna entre universal e particular, verdade e falsidade, precisando Marcuse de algo como os paradigmas de Kuhn ou as epistemes de Foucault

67. Existem diferentes modos de construir tal teoria, propondo Heidegger o que chamou “história do ser”, segundo a qual cada época cai sob horizonte específico de inteligibilidade, sendo essa teoria interessante mas baseada em conceito especulativo de ser como fonte das disposições epocais.

68. O marxismo também tem concepção epocal baseada na história dos modos de produção, mas a relação dessa concepção com a ciência natural nunca foi plenamente esclarecida, tendo Marx abandonado rapidamente sua crítica inicial da ciência nos Manuscritos.

  • ele e Engels acreditavam que, embora as ciências naturais fossem produtos históricos da época capitalista, permaneciam válidas, ao contrário da herança filosófica e das ciências sociais burguesas

69. História e Consciência de Classe de Lukács foi a primeira tentativa dentro do marxismo de alcançar explicação teórica penetrante para o viés da racionalidade sob o capitalismo, desenvolvendo o conceito de “reificação” o conceito marxiano de fetichismo da mercadoria.

  • Lukács identifica “forma de objetividade” geral que molda percepção e ação na sociedade capitalista, reduzindo os objetos da experiência cotidiana a fatos isolados

70. O pensamento reificado obscurece o caráter dialético da vida social e o papel do sujeito na constituição do mundo social, expondo a sociedade ao mesmo tipo de racionalidade científico-técnica que prevalece no estudo da natureza.

  • isso poderia ter aberto caminho a crítica geral da racionalidade científico-técnica, mas Lukács confina seu ataque às ciências sociais e às instituições capitalistas

71. Marcuse estende a crítica da reificação à ciência e à tecnologia, que agora têm função política no capitalismo avançado, ligando a racionalidade formal da ciência à dominação de classe, afirmando que a ciência corresponde a mundo específico de experiência essencialmente relacionado a sujeito correspondente.

  • essa é a tese husserliana do fundamento da ciência no mundo da vida, introduzindo Marcuse, tal como historiciza o “princípio de realidade” freudiano, história no mundo da vida fenomenológico moldado pelo capitalismo

72. A análise marcuseana difere assim da heideggeriana ao argumentar que a concepção instrumentalista da natureza deve-se não à modernidade enquanto tal, mas especificamente a sua forma capitalista, referindo-se ao conceito sartreano de “projeto”.

  • o projeto capitalista é previsão e controle, redução do real a estofo fungível disponível para exploração e mercantilização, sendo esse mundo “unidimensional”

73. A experiência é socialmente construída sob o a priori de um projeto, não sendo esse porém o a priori transcendental kantiano, trazendo Marcuse-o à terra como “modo específico de ver dentro de contexto prático finalístico”.

  • a construção reflete o sistema econômico hegemônico, subjazendo assim as práticas sociais capitalistas o conceito unidimensional de mundo objetivo

74. O que precisamente isso significa? a resposta é a ideia galileana despojada das qualidades primárias da natureza, caracterizadas por relações calculáveis e previsíveis entre unidades exatamente identificáveis, sendo essa a fonte daquilo que Marcuse chama “horizonte instrumentalista da física matemática”.

  • sob esse horizonte, nada tem potencialidades inerentes, estando tudo sujeito à manipulação tecnológica, sendo a ciência assim essencialmente tecnológica em sua base

75. Note-se que o instrumentalismo, nesse sentido, não é a única relação técnica possível, respondendo outras relações como cultivo e criação artística às potencialidades de seus objetos, podendo empregar métodos similares aos da ciência num contexto organizado em torno dessas potencialidades.

76. A crítica marcuseana da ciência não é a crítica ideológica usual, não refletindo seus princípios básicos qualquer ideia substantiva ligada a classe específica, tendo viés mais sutil: sua própria neutralidade quanto a valores é seu viés.

  • essa neutralidade elimina a noção de potencial através da qual certos valores eram concedidos realidade objetiva na concepção teleológica tradicional, sendo isso ver o mundo como matéria-prima: negar potencialidades é deixar espaço livre de exploração

77. A atribuição da ascensão da ciência a sistema socioeconômico específico sugere a possibilidade de mudança através de ação política, acreditando Marcuse que revolução modificaria não apenas arranjos econômicos mas o próprio ser.

  • o socialismo integraria ciência e arte em nova tecnologia mais benigna e respeitosa da natureza, sendo isso o revival de algo como a antiga techné, com ela a recuperação da ideia teleológica de potencialidade banida da ideia científica moderna de natureza

Lógica Transcendental como Crítica

78. O ensaio marcuseano de 1941 “Algumas Implicações da Tecnologia” descreve a cisão entre razão crítica e técnica no capitalismo contemporâneo, retomando O Homem Unidimensional esse tema, dependendo aqui seu tratamento de sua ontologia dialética.

  • baseada esta na distinção entre universais “substantivos” e “lógico-matemáticos” ou “formais”, assemelhando-se essa abordagem a lógica transcendental que estuda a relação entre lógica e experiência

79. A teoria marcuseana dos universais formais depende de sua interpretação da lógica formal, referindo-se esses universais a qualidades e quantidades abstratas que podem aparecer em proposições como “S é P”, determinando essa estrutura lógica formal tipo específico de conhecimento.

  • nessa lógica formal, o pensamento é indiferente a seus objetos, tornando-se sujeitos às mesmas leis gerais de organização e cálculo, mas o fazem como signos ou símbolos fungíveis, em abstração de sua “substância” particular

80. Universais formais descontextualizam seus objetos e evacuam seu “conteúdo”, sua natureza essencial, reduzindo-os a conjunto de qualidades e quantidades acidentais classificáveis e quantificáveis segundo a função que servem num sistema de controles instrumentais.

  • assim, em vez de identificar as potencialidades essenciais de seus objetos, o formalismo os expõe a manipulação técnica extrínseca, não sendo isso acidente mas pertencendo à própria essência desse modo de abstração

81. Por contraste, a lógica dialética trabalha com universais substantivos, envolvendo estes idealização, redução de contingência que possibilita a conceitualização de uma essência, não se referindo a essência de universais sociais como paz, liberdade e justiça diretamente a suas instanciações dadas.

  • expressam antes potencialidades históricas que vão além dos fatos limitados da vida em qualquer sociedade existente, sendo essas potencialidades para Marcuse não meramente ideais mas imanentes nas próprias coisas, onde aparecem como contradições internas

82. A teoria dos universais substantivos depende de forma única de realismo conceitual, não sendo as coisas particulares isoladas e independentes, mas suas conexões essenciais perceptíveis apenas através de conceitos, sendo estes idênticos e diferentes ao mesmo tempo dos objetos reais da experiência imediata.

  • segundo Marcuse, os conceitos dialéticos refletem exigência de liberdade implícita na filosofia desde o início, tendo o pensamento filosófico sido bloqueado e distorcido ao longo da história pelas realidades esmagadoras da escassez e dominação

83. A filosofia sofre assim o mesmo destino da imaginação e da criação artística, sendo em todos esses domínios a exigência de realidade melhor embotada através da marginalização das visões perigosas em que a verdade tenta brilhar.

  • a realidade contradiz a verdade metafísica e artística, sujeita a compreensão puramente formal, sendo o dado entregue, em termos hegelianos, à “faticidade imediata”

84. Do ponto de vista do pensamento formal, os universais substantivos que revelam as potencialidades do ser aparecem como mera fantasia, refletindo-se a cisão entre essas lógicas na cisão correspondente entre razão e imaginação, fato e valor, realidade e arte.

  • o “conteúdo” que a dialética identifica como apontando para potencialidades suprimidas é redefinido como mero “valor”, subjetivo e arbitrário, sem validade normativa

85. Aqui está o núcleo do argumento marcuseano: universais formais são livres de valor no sentido de que não prescrevem os fins dos objetos que constroem conceitualmente como meios, mas são carregados de valor em sentido mais profundo.

  • a própria concepção de valor da qual os universais formais são “livres” é ela mesma produto do processo abstrativo em que o formalismo suprime potencialidades, não sendo assim o formalismo neutro quanto à alternativa entre atual e potencial, mas enviesado em direção ao atual

86. Metodologicamente, esse viés aparece na recusa, ou incapacidade, de integrar história e contextos sociais como cena de desenvolvimento, restringindo a abstração formal seu alcance ao objeto artificialmente isolado e reificado tal como imediatamente aparece.

  • seus objetos podem ser usados, mas não transformados, podendo ser adaptados aos propósitos sociais dominantes, mas não transcendidos rumo à realização de potencialidades superiores numa sociedade possível melhor

87. Isso explica por que o viés formal é aspecto intrínseco dos sistemas formais, ignorando, ao abstrair objetos de seus contextos, a dimensão da realidade que aponta para “possibilidades reais” de desenvolvimento progressivo.

  • o viés formal surge quando os objetos assim conceitualizados são integrados a mundo real de contingências históricas, revelando-se então a abstração do conceito do objeto de seu conteúdo material como precondição de dominação

88. Marcuse conclui que formalização e funcionalização são, antes de toda aplicação, a “forma pura” de prática societária concreta, aplicando essa lógica a ciência e tecnologia em geral: o sistema hipotético de formas e funções torna-se dependente de outro sistema, universo pré-estabelecido de fins.

  • o que parecia extraneous, estranho ao projeto teórico, mostra-se parte de sua própria estrutura, revelando-se a objetividade pura como objeto para subjetividade que fornece o Telos, os fins, não havendo na construção da realidade tecnológica ordem científica puramente racional

89. Enquanto universais formais coexistem com a “segunda dimensão” dos universais substantivos, a cultura reflete as contradições da sociedade de classes, podendo formular-se potencialidades transcendentes da sociedade nessa cultura dividida, ainda que apenas em forma religiosa, artística ou metafísica.

  • com a emergência do capitalismo, essas potencialidades são cada vez mais interpretadas em termos históricos, podendo a crítica social finalmente tornar-se consciência de massa e conduzir a mudança revolucionária

90. Nas sociedades industriais avançadas, porém, argumenta Marcuse, a segunda dimensão é cada vez mais substituída por conceitos extraídos do aparato da racionalidade tecnológica, sendo o pensamento e a ação transcendentes bloqueados conforme todo aspecto da vida social é articulado exclusivamente através de universais formais.

  • crises e injustiças sociais já não exigem mudança fundamental mas são interpretadas como problemas técnicos, funcionando modos padrão de ação e organização, que pressupõem dominação, como restrições a priori sobre as “soluções” oferecidas

91. O elo entre essa forma de instrumentalismo e a dominação torna-se aparente no paradoxo das sociedades avançadas, cada vez mais efetivas em controlar não apenas a natureza mas também os seres humanos, avançando todo progresso no poder do pensamento formalista também a supressão dos seres humanos.

  • em seu extremo mais absurdo, o formalismo puro pode algum dia materializar-se na destruição da terra através do exercício desenfreado do poder técnico em guerra nuclear

Conclusão: Neutralidade como Viés

92. O mercado não faz favoritismos, e ninguém controla seus movimentos, não sendo porém mediador neutro dos desejos humanos, tendo dinâmica própria com efeitos independentes de seu papel em unir compradores e vendedores, alguns desses efeitos desastrosos.

  • a ideia marxiana de socialismo baseava-se em crítica dessas consequências e na esperança de que agente consciente, o proletariado, pudesse construir mundo melhor

93. Marcuse suplementa a crítica marxiana da economia política com crítica dos sistemas técnicos do capitalismo, sistemas que agora constituem o mundo social junto com, e em certa medida no lugar de, o mercado, despedaçando essa nova crítica a ilusão de neutralidade.

  • administrações, tecnologias e disciplinas técnicas que organizam a vida nas sociedades industriais exibem vieses similares aos que Marx identificou no capitalismo de seu tempo, mas agora penetram todo domínio da vida social

94. O conceito weberiano de racionalização foi avanço importante na compreensão dos novos desenvolvimentos, mas pressupôs controle a partir de cima, excluindo assim a priori qualquer organização mais democrática da sociedade.

  • argumenta Marcuse que a fonte do viés da racionalização weberiana é a separação entre trabalhadores e meios de produção sob o capitalismo, podendo essa crítica implicar a neutralidade de razão técnica hipotética purificada de viés de classe

95. Mas segundo a crítica ontológica, o viés da racionalização é consequência da própria natureza da razão técnica, sendo esta neutra em certo nível, mas sua própria neutralidade a subordina à dominação e assim a vincula à sociedade de classes.

  • essa solução ao enigma entre neutralidade e viés é paradoxal: onde a crítica irracionalista da razão tenta minar a reivindicação científica de neutralidade mostrando-a véu ideológico, Marcuse argumenta que é a própria neutralidade da ciência que fornece o elo entre instrumentalismo e dominação

96. Essa interpretação ligaria o projeto científico, antes de toda aplicação, a projeto societário específico, vendo o elo precisamente na forma interna da racionalidade científica: é precisamente seu caráter neutro que relaciona a objetividade a Sujeito histórico específico.

  • com isso, Marcuse fecha o círculo teórico e demonstra que a neutralidade é ela mesma forma de viés, não sendo sua crítica da racionalidade científico-técnica irracionalista mas aberta a forma dialética alternativa de racionalidade
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