Reducionismo
FRINDTE, Wolfgang. Against Narrow-Mindedness and Chauvinism – Journeying Through Absurd Times with Paul K. Feyerabend. Wiesbaden: Springer Fachmedien Wiesbaden, 2026.
1. A questão fundamental consiste em compreender como perspectivas que empobrecem a riqueza do mundo e retiram valor da existência humana conseguem adquirir tamanho poder.
2. Feyerabend ocupou-se dessa questão até o fim da vida, e sua investigação foi publicada postumamente em Conquista da abundância, obra organizada por Bert Terpstra e traduzida para o alemão como A destruição da diversidade.
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A primeira parte reúne três versões de um manuscrito no qual Feyerabend trabalhou até a morte.
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A segunda parte contém uma seleção de ensaios anteriormente publicados.
3. A obra reconstrói momentos decisivos do desenvolvimento da cultura ocidental nos quais concepções complexas do mundo, repletas de interpretações da realidade, foram substituídas por poucos conceitos abstratos e representações estereotipadas.
4. A questão central não consiste simplesmente em constatar que a diversidade das concepções de mundo foi destruída historicamente, mas em explicar como o mundo rico, colorido e exuberante foi dividido entre um domínio ainda dotado de vida e outro privado das propriedades e dos acontecimentos que conferem sentido à existência.
5. Sob uma perspectiva psicológica, procura-se compreender por que os seres humanos não aceitam a riqueza do mundo tal como se apresenta, mas procuram organizá-la e simplificá-la mediante categorias.
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Pessoas, objetos, acontecimentos e processos são classificados em conjuntos abstratos segundo características compartilhadas.
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A categorização reduz a complexidade das múltiplas dimensões da realidade.
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A simplificação torna o mundo mais previsível e controlável.
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Estudos evolucionários indicam que essa capacidade pode ter proporcionado vantagens de sobrevivência aos seres humanos e, de modo mais amplo, aos primatas.
6. O caso de Solomon Shereshevski, descrito pelo neuropsicólogo Alexander R. Luria, exemplifica as dificuldades provocadas pela incapacidade de selecionar, esquecer e categorizar impressões sensoriais.
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Sua disposição sinestésica permitia armazenar e reproduzir grande quantidade de impressões individuais.
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A sobreposição contínua dessas impressões produzia sofrimento, pois quase nada podia ser esquecido ou abstraído.
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A tentativa de deixar de perceber conscientemente os numerosos estímulos mostra que existem situações nas quais a diversidade das impressões precisa ser bloqueada para que a realidade possa ser simplificada.
7. O problema principal não se limita aos mecanismos psicológicos da abstração e da diversidade sensorial, mas se concentra na formação histórica de estruturas teológicas, filosóficas e científicas que negaram a riqueza do mundo e a substituíram por abstrações.
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O afastamento do senso comum e da experiência cotidiana em direção a conceitos abstratos produziu vantagens.
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Essas vantagens foram posteriormente deformadas.
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As contradições fundamentais desse processo transformaram a abstração em uma ameaça à própria riqueza da existência.
8. A investigação da ascensão do racionalismo procura compreender suas vantagens, transformações e deformações, concentrando-se especialmente na emergência da filosofia e da ciência na Grécia antiga.
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Entre 800 e 30 a.C., teria ocorrido, segundo a compreensão ocidental, uma revolução nas formas de conhecimento.
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A linguagem das epopeias homéricas é analisada em contraste com o racionalismo de Xenófanes.
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A justificação lógica da permanência do ser em Parmênides é relacionada à sua influência sobre a física moderna.
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A suposta descoberta da perspectiva central por Filippo Brunelleschi permite examinar as relações entre relativismo e realismo.
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Os estudos de caso são situados nos contextos culturais, políticos e tecnológicos de suas épocas.
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O progresso filosófico, científico e artístico revela-se ambíguo, pois os seres humanos não apenas representam abstratamente o mundo, mas também o transformam.
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Toda imitação ou representação recria os acontecimentos e modifica aquilo que se considera objeto permanente da atenção.
9. O ensaio final da segunda parte critica um documento assinado, entre outros, por Gadamer, Derrida e Rorty, no qual se solicitava aos governos e parlamentos a introdução do ensino de filosofia e de sua história em todas as escolas.
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A iniciativa não enfrentava diretamente os problemas concretos do tempo, como guerra, violência, fome, doenças e catástrofes ambientais.
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Uma condenação explícita dos crimes e assassinatos e um apelo à intervenção dos governos teriam demonstrado de maneira mais clara a preocupação da filosofia com os seres humanos.
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A relevância pública da filosofia depende de sua capacidade de responder ao sofrimento efetivo e às injustiças presentes.
10. Em sua última obra, Feyerabend apresenta-se como um pensador capaz de imaginar um mundo melhor e mais feliz, defendendo o aumento da diversidade sem recorrer a uma retórica patética ou a uma postura obstinada.
