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Heidegger e McLuhan

HEIM, Michael. The metaphysics of virtual reality. New York: Oxford University Press, 1993.

Heidegger e McLuhan: O Computador como Componente

1. Heidegger, que sentiu a tecnologia como uma força avassaladora que desafia as máximas tranquilizadoras da moralidade tradicional e viu nela a raiz do mal do século XX, incluindo a catástrofe nazista alemã, morreu em 1976 sem testemunhar a proliferação do microcomputador, mas sua obra, que abrange o período anterior aos computadores e o presente cada vez mais informatizado, pode servir como um trampolim para compreender a nova situação das ciências e humanidades.

2. A imagem de Heidegger como um pensador solitário em sua cabana na montanha, inclinado sobre uma mesa de madeira com manuscritos cheios de anotações, alimenta a nostalgia, mas ele próprio sabia o quão rapidamente essa imagem se tornaria antiquada, e em 1967 ele temia que uma “crista crescente de informação” pudesse em breve engolir seus próprios escritos, questionando se o pensamento também terminaria no “negócio do processamento de informação”.

3. O computador começou a aparecer indiretamente nos escritos de Heidegger em meados do século XX, quando ele abordou o tema do pensamento calculador versus o pensamento meditativo, e a primeira conjunção concreta de Heidegger e computadores ocorreu em 1977, com uma pilha de impressões de computador listando discrepâncias textuais entre as várias edições alemãs de “Ser e Tempo”, o que destacou tanto a inevitabilidade de uma erudição tecnologicamente informada quanto a solidez dos medos de Heidegger.

4. A abordagem filosófica predominante para os perigos dos computadores era a do “computador como oponente” (computer as opponent), onde o computador aparece como uma inteligência rival que desafia o ser humano a um combate, e Hubert Dreyfus, aplicando a análise fenomenológica, argumentou que devemos delinear cuidadosamente o que os computadores podem e não podem fazer, para não nos tornarmos irrealistas sobre eles e cairmos em um mal-entendido sobre o tipo de seres que somos.

5. A linha de investigação do computador como oponente toma como paradigma o jogo de xadrez, colocando o humano em um duelo com o computador, com o vencedor reivindicando inteligência superior, e Dreyfus, ao observar um entusiasmo ilimitado pela pesquisa de inteligência artificial, baseou-se na crítica de Heidegger à tecnologia para estabelecer limites para a pesquisa que define a mente humana como um processador de informação.

6. Dreyfus aplicou a crítica de Heidegger à tecnologia aos computadores, mas concebeu o computador de forma muito restrita como um dispositivo de inteligência artificial, vendo-o apenas como oponente, e a questão mente-versus-computador, embora intrigante, não toca no que está acontecendo conosco através da informatização, pois o paradigma do xadrez nos distrai, fazendo-nos interpretar nossa relação com os computadores como confrontacional em vez de colaborativa.

7. Muito diferente do computador como oponente é o “computador como componente” (computer as component), onde o computador se tornou um ingrediente no conhecimento humano, tecido no tecido da vida cotidiana e da civilização ocidental, e a questão existencial-ontológica, em vez de perguntar sobre o poder do computador independentemente dos humanos, pergunta como a realidade muda à medida que se vive e trabalha com computadores.

8. O que Heidegger chamou de “essência da tecnologia” (das Wesen der Technik) infiltra-se na existência humana de forma mais íntima do que qualquer coisa que os humanos possam criar, e o perigo da tecnologia reside na transformação do ser humano, na qual suas ações e aspirações são fundamentalmente distorcidas, pois a tecnologia entra nos recessos mais íntimos da existência, transformando a maneira de conhecer, pensar e querer.

9. Em 1957, Heidegger já notava o impulso do domínio tecnológico penetrando no interior humano, onde o pensamento e a realidade se encontram na linguagem, e ele escreveu que a “máquina da linguagem” (Sprachmaschine) regula e ajusta antecipadamente o modo de uso possível da linguagem, e a verdade pode ser que a máquina da linguagem toma a linguagem sob sua gestão e assim domina a essência do ser humano.

10. O termo “máquina da linguagem” de Heidegger era uma designação provisória para o fenômeno incipiente do processamento de texto, e embora o processamento de texto não existisse como fenômeno cultural na vida de Heidegger, ele tinha um olho aguçado para as implicações filosóficas na mudança das tecnologias de escrita, vendo a tecnologia da escrita como uma pista para a relação humana com a linguagem e com a consciência como seres encarnados no mundo.

11. As críticas de Heidegger à máquina de escrever, que a viam como uma destruição da palavra ao remover a escrita do reino essencial da mão, são um pouco deslocadas agora que o computador pessoal substituiu a máquina de escrever mecânica, pois o processador de texto guia a mão para um processo não-mecânico, e o elemento eletrônico desloca a qualidade da ação para outro nível, permitindo uma formulação de ideias com impessoalidade e uma direção e flexibilidade inimagináveis com a máquina de escrever.

12. Heidegger temia corretamente que o texto digital eletrônico pudesse absorver sua própria obra, e se o computador já transformou a postura epistêmica das ciências naturais, ele está transformando as humanidades também, e o processador de texto é a “calculadora do humanista” (calculator of the humanist), automatizando a composição, armazenamento e transmissão de palavras escritas, afetando a maneira como se usa a linguagem em geral.

13. A tecnologia do computador é tão flexível e adaptável aos processos de pensamento que logo é considerada menos uma ferramenta externa e mais uma “segunda pele” ou “prótese mental” (mental prosthesis), e Heidegger, como um “determinista suave”, aceitava o destino enquanto estudava maneiras diferentes de absorver seu impacto, uma atitude que o aproximava do filósofo canadense da comunicação Marshall McLuhan.

14. Tanto Heidegger quanto McLuhan viram conexões íntimas entre a tecnologia da informação e a maneira como a mente funciona, e ambos consideravam o poder mais impressionante da tecnologia em sua intimidade recém-adquirida com a linguagem, pois quando uma tecnologia toca a linguagem, ela toca a humanidade onde ela vive.

15. McLuhan, que via a tecnologia como um ambiente invisível cujo conteúdo é sempre a tecnologia antiga, e Heidegger, que via a questão da tecnologia como ontológica, não sobre a proliferação de dispositivos, mas sobre o mundo como pano de fundo contra o qual as coisas aparecem, ambos enfatizaram a necessidade de entender o pano de fundo invisível em vez de apenas seu conteúdo.

16. McLuhan notou a afinidade entre as ideias de Heidegger sobre a linguagem como um dado filosófico transcendental e a cultura organizada eletronicamente, e ele sugeriu que as ideias de Heidegger têm maior apelo para uma cultura que já deixou para trás a mentalidade linear e individualista das culturas letradas ou impressas.

17. Para obter uma visão específica de como o processador de texto altera os processos de pensamento e o senso de realidade, Walter J. Ong, um estudante de McLuhan, fornece uma ajuda mais precisa, tratando das “psicodinâmicas” (psychodynamics) - as mudanças na mentalidade - que ocorrem na história ocidental à medida que novas tecnologias para o armazenamento da linguagem se tornam proeminentes.

18. Ong traça duas grandes mudanças no armazenamento do conhecimento: a mudança oral-para-letrada e a mudança quirográfica-para-impressa, e seus estudos, juntamente com os de Eric Havelock, fornecem material concreto para distinguir diferentes épocas históricas por suas maneiras características de simbolizar, armazenar e transmitir verdades.

19. De acordo com Heidegger, a verdade do Ser torna-se, com Platão, uma questão de tipificação e formas padronizadas, e com o domínio da verdade proposicional e da tipificação, a verdade como processo de desvelamento/velamento (Entbergen/Verbergen) desaparece, e o “nada” oculto só se torna aparente quando todo o mundo se torna uma grade rígida de formas padronizadas, e o paradoxo é que cada ganho em inteligibilidade fixa traz consigo uma perda correspondente de vivacidade, pois devido à finitude, todo ganho também implica uma possibilidade perdida.

20. A teoria da transformação cultural inspirada em McLuhan, embora traga à tona o impacto do processador de texto, carece de um sentido pungente de perda ou de uma percepção das “compensações” (trade-offs) nas transformações históricas finitas, e a visão de Ong, com seu otimismo cristão hegeliano, vê na rede global de rádio, televisão e cinema uma maneira de reintegrar uma humanidade fragmentada, mas omite a avaliação crítica que só pode ocorrer no momento existencial.

21. Heidegger, por outro lado, lembra das compensações inevitáveis na história, negando a possibilidade de uma soma integrativa de um único ponto de vista absoluto, e sua noção de deriva histórica permite uma análise crítica da escrita computadorizada, investigando as implicações de uma tecnologia específica em toda a sua ambiguidade, sem precisar impor um fechamento de pró ou contra, aceitação ou rejeição total.

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