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Hipertexto

HEIM, Michael. The metaphysics of virtual reality. New York: Oxford University Press, 1993.

Céu do Hipertexto

1. O hipertexto, definido por um manual como uma “facilidade” onde todo texto na tela se torna um menu de apontar-e-clicar para comandos, permite que o usuário coloque o cursor sobre qualquer palavra ou frase e recupere todos os outros contextos contendo essa mesma palavra ou frase, realizando buscas nodais ou relacionais em alta velocidade.

2. O HyperCard da Apple Computer, lançado em 1987, foi o primeiro hipertexto comercialmente disponível, usando “pilhas” (stacks) de cartões eletrônicos indexados que são automaticamente inter-relacionados, permitindo referências cruzadas instantâneas e transformando textos em um “hipertexto” onde tudo se relaciona com tudo, uma “intertextualidade eletrônica” ou “supertexto”.

3. O termo “hiper” refere-se a uma dimensão adicional, e no hipertexto, palavras e frases têm uma dimensão extra, como cristais com facetas infinitas, onde a literatura sequencial de textos fisicamente separados dá lugar a uma “textualidade contínua” (continuous textuality), promovendo uma alfabetização baseada em saltos de intuição e associação.

4. O salto intuitivo no hipertexto é comparável ao movimento de naves espaciais na ficção científica através do “hiperespaço” (hyperspace), onde a percepção linear perde o controle da série de movimentos discerníveis, e o salto, em vez do passo, torna-se o movimento característico no hipertexto.

5. O estilo de “Finnegans Wake”, de James Joyce, com suas teias de alusões e referências complexas, é uma antecipação do hipertexto, e a estrutura hermenêutica do romance, que dobra-se sobre si mesma linguisticamente, corresponde à forma do hipertexto, sugerindo que a obra encontra uma “segunda vida” nos computadores.

6. O hipertexto oferece um teste prático para as teorias da literatura, como a teoria da intertextualidade, que afirma que todo texto é um derivado de aspectos culturais preexistentes, e um experimento em sala de aula usando hipertexto para analisar textos de 1667 revelou que algumas noções, como referências a casamento aberto, não podiam ser rastreadas até outros textos, sugerindo possível originalidade.

7. O termo “hipertexto” surgiu nas especulações de Ted Nelson na década de 1960, que, ao tentar escrever um livro de filosofia sistemática, encontrou dificuldades em organizar suas ideias no formato de livro convencional e viu nos computadores a maneira de organizar a leitura e a escrita do futuro, definindo hipertexto como “escrita não sequencial com movimento livre do usuário”.

8. A suposição de que a filosofia deve ser sistemática é recente, surgindo com o racionalismo dos séculos XVII e XVIII, e antes desse período, pensadores como Tomás de Aquino criavam diálogos com sua cultura em vez de sistemas fechados, e quando Nelson conectou seu livro de filosofia aos computadores, ele minou o formato de livro que pensava estar escrevendo.

9. O hipertexto, inicialmente concebido por Nelson como notas de rodapé dinâmicas ou “links” (links) que trariam material de referência imediatamente para a tela, revelou-se muito mais do que uma ferramenta de referência, pois o “link” indica a presença implícita de outros textos e a capacidade de alcançá-los instantaneamente, e com o “salto”, todos os textos estão virtualmente co-presentes, e a noção de texto original colapsa.

10. A ideia de uma “língua universal” (characteristica universalis) de Gottfried Leibniz, que fundou a lógica moderna como a ciência dos símbolos, previa um sistema universal de símbolos para todas as ciências, e seu trabalho continha seminalmente o conceito de hipertexto, pois ele acreditava que uma linguagem compartilhada poderia absorver todas as noções humanas em um cálculo lógico, permitindo que discordâncias fossem resolvidas através de operações lógicas.

11. Por trás da língua ideal de Leibniz está um modelo pré-moderno de inteligência humana que se mede contra um ser que conhece as coisas perfeitamente, a “visão de Deus” (visio Dei), onde o conhecimento humano deve emular a cognição intuitiva onisciente da divindade, que vê tudo de uma só vez, sem desdobramento temporal ou etapas lineares.

12. A lógica moderna de Leibniz, ao absorver a lógica tradicional em um sistema de símbolos que pode ser aplicado tanto a circuitos de comutação eletrônica quanto a argumentos em linguagem natural, abre caminho para o “salto” pós-moderno do pensamento, e o hipertexto, ao emular um acesso divino às coisas, permite que o usuário salte através da rede de conhecimento em algo como um presente eterno, mas essa vitória sobre o tempo e o espaço é meramente simbólica.

13. Os usuários de hipertexto sentem-se flutuando na ilusão de que esse estilo de leitura supera todos os estilos anteriores, mas se o salto ganha domínio sobre os passos lógicos, a alfabetização em hipertexto pode epitomizar a mentalidade pós-moderna, onde a informação é codificada de maneiras que não dependem da alfabetização tradicional, e a “realidade” muitas vezes se torna mais oca do que a configuração verbal.

14. Na era da informação, a tarefa parece ser o inverso da de nossos ancestrais, que acumulavam conhecimento lentamente, pois agora, dado um fluxo constante de informações, é necessário ser cético em relação a estruturas que estreitam seu fluxo, e o hipertexto ajuda a navegar na maré de informações, mas a aceleração sentida do tempo pode revelar algo “agitado” ou mesmo “patológico” (hyper) sobre a psique, e a esperança é que a “hiperinundação” pós-moderna não corroa a gravidade da experiência por trás dos símbolos.

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