Lógica
HEIM, Michael. The metaphysics of virtual reality. New York: Oxford University Press, 1993.
Lógica e Intuição
1. Pensar no computador difere de pensar com papel e lápis ou na máquina de escrever porque o computador não coloca apenas outra ferramenta ao alcance, mas constrói um novo ambiente de informação no qual a mente respira uma atmosfera diferente, e o acúmulo de arquivos e o acesso a bancos de dados podem levar à “infomania”.
2. A esperança de que o computador ajude a limpar a bagunça de informações que ele próprio gerou se concretiza em buscas de dados que encontram referências em instantes, mas para realizar essas buscas, o usuário precisa apenas de uma lógica de busca elementar que pode ser aprendida em cerca de uma hora, geralmente usando a lógica booleana.
3. A lógica booleana, explicada de forma simples, usa os operadores AND, OR e NOT para refinar as buscas, e embora os manuais simplifiquem sua complexidade, o uso frequente dessa lógica no computador logo se tornará uma segunda natureza para as pessoas letradas, escondendo a distorção que introduz na vida psíquica.
4. A lógica booleana, baseada na obra de George Boole e exibida graficamente nos diagramas de Venn, constitui uma conquista central da lógica moderna que fundamenta os sistemas computacionais, e ela funciona como uma metáfora para a era do computador, mostrando como a humanidade interroga tipicamente o mundo da informação.
5. A lógica booleana é uma álgebra de classes que manipula fórmulas para simbolizar relações lógicas entre grupos de coisas com certas propriedades, e antes de Boole, a lógica era o estudo de declarações diretas sobre coisas referidas intuitivamente, mas após Boole, a lógica se tornou um sistema de símbolos puros, invertendo a relação tradicional entre linguagem direta e linguagem simbólica.
6. O termo “lógica simbólica” foi introduzido por John Venn, que criou a exibição gráfica das fórmulas de Boole, e com a matemática como base, a lógica moderna pôde apresentar argumentos linguísticos dentro de um sistema formal total, onde a consistência sistêmica se torna mais importante do que a referência direta às coisas da experiência.
7. A prioridade do sistema sobre a relevância, um sinal da infomania, abre caminho para a primazia da informação, pois o conhecimento deve ser reduzido a unidades homogeneizadas para se tornar manipulável, e a lógica booleana, ao tratar os termos como variáveis algébricas que podem ser conjuntos vazios, opera com um distanciamento intrínseco da experiência humana direta, mapeando apenas relações entre classes.
8. A lógica booleana, ao assumir que os termos não carregam “importância existencial”, permite mapear declarações sobre qualquer coisa, independentemente de existir ou não, e essa abstração coloca o usuário em um novo afastamento do assunto, direcionando-o para longe da textura do que está sendo explorado.
9. A lógica moderna, ao contrário da lógica aristotélica tradicional que pressupõe um sujeito real ao qual os termos se referem, opera em um domínio de pura formalidade e desapego abstrato, sem conexão inerente com as coisas percebidas diretamente, e essa distância existencial é ainda maior do que a abstração inerente a qualquer lógica.
10. Quando os computadores convertem automaticamente a entrada em bytes algébricos, o usuário é poupado da dor de traduzir sua linguagem para o sistema da lógica moderna, e essa tradução invisível desliza a linguagem de uma consciência direta das coisas para o mundo desapegado da distância lógica, oferecendo o poder do controle sem o esforço da tradução.
11. A lógica booleana marca um passo gigante na relação da espécie humana com o pensamento e a linguagem, pois com o texto eletrônico a vida mental entra em uma “alta velocidade”, e a busca booleana, ao usar palavras-chave para escanear o vasto armazenamento de conhecimento, mantém uma distância cibernética das fontes, observando o mundo através de “funis” estreitos.
12. A “meditação” recomendada para refinar as estratégias de busca, embora prudente, serve apenas para calcular e construir um túnel de pensamento mais estreito, ao contrário da meditação genuína que, como na filosofia do “nada” (mu no ronri) de Kitaro Nishida, esvazia a mente de especificidades para abrir a percepção a novos insights.
13. O estado mental mais relaxado e natural, onde o pensamento é “apenas uma maneira de divagar” (musing), permite que as coisas emergam de forma não planejada, e a “divagação” (musing) é um fluxo suave e subconsciente que organiza as coisas de forma criativa, sendo o pensamento consciente apenas um subconjunto dessa mente criativa.
14. A busca em livros, em contraste com a varredura booleana, ocorre no modo de “divagação” (musing), onde o navegador (browser) abraça a surpresa e a serendipidade, forjando conexões inesperadas, enquanto a busca booleana aprimora o controle racional consciente, mas perde a exposição fértil a caminhos abandonados e ao passado histórico, sacrificando a mente intuitiva.
15. A lógica de busca booleana, como as longas horas diante da tela do computador que causam miopia sensorial, corta a visão periférica da mente, e a visão do mundo do pensamento se torna achatada por um distanciamento abstrato, perdendo a rica profundidade da visão natural.
16. Embora as buscas booleanas sempre usem palpites e suposições holísticas para começar, esses palpites são colocados a serviço de uma lógica esquelética, e para equilibrar a lógica computacional, não se deve abandonar os livros durante o lazer, pois a busca serendipitosa através dos livros enriquece de maneiras imprevisíveis, levando a descobertas que podem derrubar as perguntas originais.
17. As bibliotecas, como repositórios de intuições de inúmeros autores, são os últimos museus da linguagem armazenada, mas estão se tornando centros de informação, e quando os livros se tornam meras fontes de informação, perdem a atmosfera de lazer contemplativo e prazer atemporal, e como museus da vida alfabética, eles devem ser reivindicados como lugares para “brincar com as musas”, equilibrando a lógica computacional com as graças da intuição.
