Metafísica da Realidade Virtual
HEIM, Michael. The metaphysics of virtual reality. New York: Oxford University Press, 1993.
Introdução
1. A contemplação da paisagem das Montanhas Rochosas canadenses, enquanto se escreve em um computador, revela o paradoxo de artistas e escritores, em um refúgio para as artes, planejarem e construírem protótipos de realidade virtual e mundos artificiais, preparando-se para “decolar” da natureza para um espaço eletrônico.
2. O processador de texto, visto filosoficamente em livro anterior, cria uma nova relação com os símbolos, a linguagem e, por extensão, com a realidade, e um aspecto dessa nova realidade é um poderoso mecanismo de feedback que agora sustenta a cultura, formando um ciclo de feedback instantâneo por meio de links globais de computadores.
3. A infraestrutura da informação surge em um momento crucial, trazendo uma dimensão cibernética que permite discussão e crítica de tecnologias iminentes, como a realidade virtual, e a rede eletrônica captura tudo antes que chegue ao mercado, estabelecendo uma nova relação simbiótica com a tecnologia, onde nem o humano nem a máquina dominam.
4. A realidade virtual (VR) nasceu nessa dimensão cibernética e, desde seu estágio embrionário, tem estado sob constante observação e discussão social, permanecendo uma questão focal de debate interdisciplinar e leigo, mesmo antes de emergir completamente da pesquisa e desenvolvimento.
5. A experiência imersiva da realidade virtual em 1989, ao invés de sentar diante de uma tela com teclado ou mouse, usando um capacete e uma luva, fez o “sismógrafo filosófico” do autor disparar, revelando que as mudanças de realidade encontradas no uso anterior do computador eram sutis em comparação com a mudança ontológica agressiva e substituta da VR.
6. O termo “mudança ontológica” (ontological shift) refere-se a uma mudança no mundo sob os pés, no contexto inteiro no qual o conhecimento e a consciência estão enraizados, e a ontologia é o esforço para desenvolver uma visão periférica pela qual se percebe e articula o pano de fundo oculto dos seres, o mundo ou contexto em que se tornam reais e significativos.
7. Os capítulos deste livro espelham a progressão da realidade digital para a virtual, analisando como as atividades diárias em computadores digitais moldam a leitura e a busca por informações, e cada capítulo geralmente oferece sugestões sobre como preservar os melhores aspectos da realidade pré-digital para equilibrar a tecnologia que está mudando a realidade dada.
8. O Capítulo 1, “Infomania”, resume a mudança dramática na produção e armazenamento da linguagem escrita na década de 1980, onde cerca de 80% da linguagem escrita passou a existir em forma digital, e o artigo foi publicado em várias revistas e jornais.
9. O Capítulo 2, “Lógica e Intuição”, argumenta que todo o arcabouço psíquico muda com o uso de computadores para ler e escrever, e a busca através da selva digital altera a relação entre lógica e intuição, traçando a nova divisão de tarefas ao relembrar a batalha entre abordagens lógicas e intuitivas, com o filósofo G. W. Leibniz como figura central.
10. O Capítulo 3, “Céu do Hipertexto”, explora como o hipertexto, com seu apelo cinestésico, proporciona uma navegação prazerosa, mas tece uma ilusão perigosa de onisciência divina, cobrando um preço por suas altas velocidades, e o ensaio foi apresentado como uma palestra eletrônica e publicado em um jornal eletrônico.
11. O Capítulo 4, “Processamento do Pensamento”, revela que o software tem uma “agenda oculta” e, ao examinar mais de perto uma aplicação específica, o “esboçador” (outliner), descobre-se como o software reestrutura o processo de pensamento, e os esboçadores computadorizados revelam a agenda oculta subjacente a todos os tipos de software.
12. O Capítulo 5, “Heidegger e McLuhan: O Computador como Componente”, conecta dois gigantes intelectuais que viram a tecnologia como a questão central do século XX, com Heidegger dando à tecnologia um status de realidade e McLuhan descobrindo que nenhum significado escapa da malha dos meios eletrônicos, e ambos viram que o computador representaria menos perigo como inteligência artificial rival do que como um componente íntimo do pensamento e trabalho cotidianos.
13. Os capítulos posteriores exploram a mudança de terreno, a passagem da realidade digital para a virtual, começando com o Capítulo 6, “Da Interface ao Ciberespaço”, que traça a lógica do desenvolvimento técnico e a lógica do sentimento nos usuários humanos, marcando a mudança de teoria da realidade digital para a virtual.
14. O Capítulo 7, “A Ontologia Erótica do Ciberespaço”, explora as compensações (trade-offs) da mudança para mundos virtuais, inspirado na ficção de William Gibson que popularizou o termo “ciberespaço”, e o ensaio foi apresentado na Primeira Conferência sobre Ciberespaço e publicado em um livro editado por Michael Benedikt.
15. O Capítulo 8, “A Essência da VR”, argumenta que a profundidade da experiência de realidade virtual requer uma compreensão de estatura filosófica e religiosa, pois se trata de uma mudança profunda nas camadas da vida e do pensamento humano, algo metafísico.
16. O Capítulo 9, “Verificação da Realidade Virtual”, é uma versão revisada de um artigo sobre a metafísica da realidade virtual, que foi apresentado em uma conferência em São Francisco e publicado em uma revista comercial e em uma reimpressão.
17. O Capítulo 10, “A Palestra do Café Eletrônico”, descreve uma palestra dada no Electronic Café International em Santa Monica para o primeiro encontro do Southern California Virtual Reality Special Interest Group, com um link televisivo para um café irmão no Arizona, e a palestra foi dada por ocasião do filme “O Exterminador do Futuro” (Lawnmower Man), que celebra os efeitos especiais da VR.
18. A abordagem subjacente do autor é descrita por seu filho como “Tecno-Taoísmo” (Techno-Taoism), uma análise que aceita um certo grau de inevitabilidade na adoção da tecnologia, enquanto tenta incorporar um equilíbrio deliberado, aprendido com práticas taoístas, para iluminar os fenômenos e aprofundar a compreensão de onde a humanidade está e para onde se dirige.
19. O autor oferece os ensaios na esperança de que a filosofia amada desperte de seu sono e volte a irradiar e se mover lindamente, como fez em séculos passados, e o desafio agora é conhecer a si mesmo e determinar como a tecnologia deve se desenvolver e afetar a sociedade em que cresce.
