Metáfora
LAKOFF, George; JOHNSON, Mark. Philosophy in the flesh: the embodied mind and its challenge to Western thought. New York: Basic Books, 1999.
Metáfora Primária e Experiência Subjetiva
1. A vida mental subjetiva é enorme em escopo e riqueza, e muito da maneira como se conceitua experiências subjetivas abstratas, como importância, similaridade, dificuldade e moralidade, vem de outros domínios de experiência, principalmente domínios sensório-motores, através do mecanismo cognitivo da “metáfora conceitual” (conceptual metaphor), que permite usar a lógica física de, por exemplo, agarrar um objeto para raciocinar sobre compreensão.
2. A teoria integrada da metáfora primária tem quatro partes: a teoria da “confluência” (conflation) de Johnson, segundo a qual experiências subjetivas e sensório-motoras são tão regularmente confundidas na primeira infância que associações entre os domínios são automaticamente construídas; a teoria da metáfora primária de Grady, onde metáforas complexas são “moleculares”, feitas de partes “atômicas” chamadas metáforas primárias; a teoria neural da metáfora de Narayanan, onde as associações são realizadas neuralmente em ativações simultâneas que resultam em conexões neurais permanentes; e a teoria da “mistura conceitual” (conceptual blending) de Fauconnier e Turner, onde domínios conceituais distintos podem ser coativados para formar novas inferências.
3. A implicação esmagadora da teoria integrada é que se adquire um grande sistema de metáforas primárias automática e inconscientemente, simplesmente funcionando de maneiras mais ordinárias no mundo cotidiano desde os primeiros anos, e não há escolha nisso, pois devido à maneira como as conexões neurais são formadas durante o período de confluência, todos pensam naturalmente usando centenas de metáforas primárias.
4. A metáfora “Mais É Para Cima” (More Is Up) surge de uma correlação na experiência cotidiana normal, como derramar mais água em um copo e ver o nível subir, e durante o período de confluência, quantidade e verticalidade não são vistas como separadas, e associações entre elas são formadas, resultando em um mapeamento entre o conceito sensório-motor de verticalidade (domínio fonte) e o julgamento subjetivo de quantidade (domínio alvo).
5. O trabalho de Johnson sobre confluência, usando o corpus Shem, mostrou que, antes de usar a metáfora “Conhecer É Ver” (Knowing Is Seeing), a criança passa por um estágio em que os domínios de conhecer e ver são “conflados” (conflated), e casos metafóricos como “Eu vejo o que você quer dizer” estão ausentes nesse estágio, desenvolvendo-se posteriormente, após a diferenciação dos dois domínios conceituais.
6. A teoria de Grady postula que confluências precoces na experiência cotidiana levam à formação automática de centenas de metáforas primárias, cada uma simples e um componente atômico da estrutura molecular de metáforas complexas, que são formadas através de “mistura conceitual” (conceptual blending) convencional, encaixando pequenas peças metafóricas em grandes totais.
7. Exemplos de metáforas primárias incluem “Afeição É Calor” (Affection Is Warmth), “Importante É Grande” (Important Is Big), “Feliz É Para Cima” (Happy Is Up), “Intimidade É Proximidade” (Intimacy Is Closeness), “Ruim É Fedido” (Bad Is Stinky), “Dificuldades São Cargas” (Difficulties Are Burdens), “Categorias São Contêineres” (Categories Are Containers), “Similaridade É Proximidade” (Similarity Is Closeness), “Escalas Lineares São Caminhos” (Linear Scales Are Paths), “Organização É Estrutura Física” (Organization Is Physical Structure), “Ajuda É Suporte” (Help Is Support), “Tempo É Movimento” (Time Is Motion), “Estados São Localizações” (States Are Locations), “Mudança É Movimento” (Change Is Motion), “Ações São Movimentos Autopropelidos” (Actions Are Self-Propelled Motions), “Propósitos São Destinos” (Purposes Are Destinations), “Propósitos São Objetos Desejados” (Purposes Are Desired Objects), “Causas São Forças Físicas” (Causes Are Physical Forces), “Relacionamentos São Cercamentos” (Relationships Are Enclosures), “Controle É Para Cima” (Control Is Up), “Conhecer É Ver” (Knowing Is Seeing), “Compreender É Agarrar” (Understanding Is Grasping) e “Ver É Tocar” (Seeing Is Touching).
8. Uma metáfora primária como “Mais É Para Cima” é incorporada de três maneiras importantes: a correlação surge do funcionamento incorporado no mundo, o domínio fonte vem do sistema sensório-motor do corpo, e a correlação é instanciada no corpo através de conexões neurais, que são estabelecidas na primeira infância durante períodos de confluência.
9. Na teoria neural de Narayanan, a ativação flui em ambas as direções entre as redes fonte e alvo, mas as inferências fluem em apenas uma direção, do domínio sensório-motor para o domínio de julgamento subjetivo, porque o sistema neural sensório-motor tem mais capacidade inferencial, e a assimetria da metáfora conceitual primária surge porque os resultados das inferências fluem em uma direção apenas.
10. As metáforas primárias são parte do “inconsciente cognitivo” (cognitive unconscious), adquiridas automática e inconscientemente através do processo normal de aprendizado neural, e quando as experiências incorporadas no mundo são universais, as metáforas primárias correspondentes são universalmente adquiridas, explicando a ocorrência generalizada em todo o mundo de muitas metáforas primárias.
11. As metáforas primárias não são o resultado de um processo consciente de interpretação em vários estágios, mas sim uma questão de mapeamento conceitual imediato via conexões neurais, e se é um ser humano normal, inevitavelmente se adquire uma enorme variedade de metáforas primárias simplesmente por estar no mundo, movendo-se e percebendo constantemente.
12. As metáforas primárias, de uma perspectiva neural, são conexões neurais aprendidas por coativação, estendendo-se por partes do cérebro entre áreas dedicadas à experiência sensório-motora e áreas dedicadas à experiência subjetiva, e a maior complexidade inferencial dos domínios sensoriais e motores dá às metáforas um caráter assimétrico, com inferências fluindo em apenas uma direção.
13. Do ponto de vista conceitual, as metáforas primárias são “mapeamentos entre domínios” (cross-domain mappings), de um domínio fonte (sensório-motor) para um domínio alvo (experiência subjetiva), preservando a inferência, e a notação convencional para uma metáfora conceitual, como “Similaridade É Proximidade” (Similarity Is Proximity), é apenas um nome para um mapeamento, uma realidade nos níveis neural ou conceitual.
14. Embora existam conceitos literais, como conceitos de nível básico e conceitos de relações espaciais, conceitos de experiência e julgamento subjetivos, quando não estruturados metaforicamente, são relativamente empobrecidos e têm apenas uma estrutura “esquelética” mínima, e uma metáfora primária adiciona estrutura inferencial sensório-motor, e sem metáfora, o pensamento abstrato é virtualmente impossível.
15. Embora seja ocasionalmente possível pensar sem metáfora sobre experiência e julgamento subjetivos, isso quase nunca acontece, pois não há escolha quanto a adquirir e usar metáforas primárias; simplesmente por funcionar normalmente no mundo, adquire-se e usa-se automaticamente e inconscientemente um vasto número de tais metáforas, que são uma consequência da natureza dos cérebros, corpos e do mundo habitado.
