User Tools

Site Tools


pensadores:lakoff:pf:start

Filosofia na carne

LAKOFF, George; JOHNSON, Mark. Philosophy in the flesh: the embodied mind and its challenge to Western thought. New York: Basic Books, 1999.

Introdução: quem somos?

Como a ciência cognitiva reabre questões filosóficas centrais

1. A mente encontra-se inerentemente corporificada, o pensamento permanece em grande parte inconsciente e os conceitos abstratos são amplamente metafóricos, de modo que essas descobertas da ciência cognitiva encerram mais de dois milênios de especulação filosófica a priori e transformam definitivamente a filosofia.

2. A consideração conjunta e detalhada dessas três descobertas contradiz elementos centrais da filosofia ocidental e exige uma revisão profunda tanto da filosofia analítica anglo-americana quanto da filosofia pós-moderna.

3. A reconstrução da filosofia a partir das descobertas empíricas acerca da mente exigiria o abandono de algumas das pressuposições filosóficas mais arraigadas da cultura ocidental, cujas transformações são examinadas detalhadamente na obra.

4. A compreensão da mente possui consequências decisivas porque as crenças filosóficas fundamentais permanecem inseparáveis da concepção de razão, tradicionalmente considerada a característica definidora dos seres humanos.

  • A razão compreende a inferência lógica, a investigação, a resolução de problemas, a avaliação, a crítica e a deliberação sobre a ação.
  • Ela também possibilita compreender a si mesmo, as outras pessoas e o mundo.
  • Uma transformação radical da concepção de razão implica uma transformação igualmente radical da compreensão do ser humano.
  • As pesquisas empíricas revelam que a racionalidade humana difere profundamente daquela descrita pela tradição filosófica ocidental.

5. As descobertas da ciência cognitiva impõem uma nova compreensão da razão.

6. A razão não é desencarnada, mas emerge da estrutura do cérebro, do corpo e da experiência corporal.

  • A corporificação não significa apenas que um corpo seja necessário para raciocinar, mas que a própria estrutura da razão deriva das particularidades corporais.
  • Os mecanismos neurais e cognitivos responsáveis pela percepção e pelo movimento também produzem os sistemas conceituais e as formas de raciocínio.
  • A compreensão da razão exige o estudo dos sistemas visual e motor e dos mecanismos gerais de integração neural.
  • A razão não constitui uma propriedade transcendente do universo nem de uma mente separada do corpo.
  • Sua formação depende das características do corpo humano, da estrutura neural do cérebro e do funcionamento cotidiano no mundo.

7. A razão possui caráter evolutivo, pois as formas abstratas de raciocínio utilizam modalidades de inferência perceptiva e motora já presentes em outros animais.

  • A razão não transcende a natureza animal, mas se desenvolve a partir dela.
  • A continuidade evolutiva transforma a relação humana com os demais animais.
  • A racionalidade não constitui uma essência que separa absolutamente os seres humanos dos outros animais, mas os situa em continuidade com eles.

8. A razão não é universal no sentido transcendente de integrar a estrutura do universo, mas constitui uma capacidade compartilhada pelos seres humanos em virtude das características comuns de sua corporificação.

9. A razão não é inteiramente consciente, pois a maior parte de seu funcionamento ocorre de modo inconsciente.

10. A razão não é puramente literal, mas amplamente metafórica e imaginativa.

11. A razão não é desapaixonada, pois permanece envolvida emocionalmente.

12. A transformação da compreensão da razão possui grandes proporções e implica uma mudança correspondente na concepção do ser humano, uma vez que as descobertas acerca da mente contradizem as principais concepções filosóficas clássicas da pessoa.

13. A pessoa dualista cartesiana, formada por uma mente separada e independente do corpo, dotada da mesma razão transcendente e desencarnada de todos os demais seres humanos e capaz de conhecer integralmente a própria mente pela reflexão, não existe.

  • A mente é inerentemente corporificada.
  • A razão é estruturada pelo corpo.
  • Como a maior parte do pensamento é inconsciente, a mente não pode ser plenamente conhecida pela autorreflexão.
  • O conhecimento da mente exige investigação empírica.

14. A pessoa kantiana radicalmente autônoma, dotada de liberdade absoluta e de uma razão transcendente capaz de determinar corretamente as leis morais, também não existe.

  • A razão originada no corpo não pode transcender a corporificação.
  • Os aspectos universais da razão decorrem das características comuns dos corpos, cérebros e ambientes humanos.
  • A presença dessas características universais não demonstra a existência de uma razão separada do corpo.
  • A variação significativa entre sistemas conceituais impede que a razão seja considerada inteiramente universal.

15. A corporificação da razão limita a liberdade humana, pois os sistemas conceituais e as formas possíveis de raciocínio permanecem condicionados pela constituição corporal e neural.

  • Uma vez aprendido, o sistema conceitual torna-se neuralmente constituído no cérebro.
  • Não existe liberdade para pensar qualquer coisa de modo absolutamente independente dessas estruturas.
  • A autonomia e a liberdade absolutas postuladas por Kant não se sustentam.
  • Não existe fundamento puramente filosófico e a priori para uma moralidade universal.
  • Nenhuma razão pura e transcendente pode produzir leis morais universalmente válidas.

16. A pessoa utilitarista, cuja racionalidade consistiria na maximização econômica da utilidade, não corresponde ao funcionamento dos seres humanos reais.

  • A maior parte dos raciocínios não se encontra sob controle consciente nem é percebida conscientemente.
  • A razão utiliza protótipos, enquadramentos e metáforas.
  • Os seres humanos raramente empregam uma racionalidade econômica capaz de maximizar sistematicamente a utilidade.

17. A pessoa fenomenológica capaz de descobrir, somente pela introspecção, tudo o que existe para conhecer acerca da mente e da experiência constitui uma ficção.

  • O inconsciente cognitivo funciona de maneira ampla, rápida e automática.
  • Não existe acesso consciente direto às suas operações nem à maior parte do pensamento.
  • A reflexão fenomenológica possui valor para revelar a estrutura da experiência.
  • Entretanto, deve ser complementada pela investigação empírica do inconsciente cognitivo.

18. A pessoa pós-estruturalista concebida como sujeito completamente descentrado, para o qual todo significado seria arbitrário, inteiramente relativo e exclusivamente contingente do ponto de vista histórico, também não existe.

  • A corporificação faz com que os sistemas conceituais dependam amplamente de características comuns dos corpos e dos ambientes humanos.
  • Uma parcela significativa dos sistemas conceituais é universal ou amplamente compartilhada entre línguas e culturas.
  • Os sistemas conceituais não são totalmente relativos nem resultam apenas de contingências históricas.
  • A relatividade conceitual e a contingência histórica existem, mas permanecem limitadas pela experiência corporal compartilhada.
  • A corporificação comum produz um eu amplamente centrado, embora não monolítico.

19. A pessoa fregeana pressuposta pela filosofia analítica, cujo pensamento teria sido separado do corpo, não corresponde a nenhum ser humano efetivo.

  • A corporificação participa da produção do significado.
  • O significado não é puramente objetivo nem exclusivamente determinado pelo mundo exterior.
  • A linguagem não corresponde diretamente ao mundo sem a participação da mente, do cérebro e do corpo.
  • Os sistemas conceituais originam-se da experiência corporal, e o significado encontra-se fundamentado no corpo.
  • Como grande parte dos conceitos é metafórica, o significado não é inteiramente literal.
  • A teoria clássica da verdade como correspondência direta entre enunciados e mundo é inadequada.
  • A verdade é mediada pela compreensão corporificada e pela imaginação.
  • Essa mediação não torna a verdade puramente subjetiva, pois a corporificação compartilhada possibilita verdades comuns e estáveis.

20. A pessoa computacional, cuja mente funcionaria como um programa independente capaz de operar em qualquer suporte adequado, não existe.

  • A mente não produz significado apenas mediante a recepção, manipulação regrada e emissão de símbolos desprovidos de significado.
  • Os sistemas conceituais humanos emergem dos corpos vivos, são formados por eles e recebem deles sua significação.
  • As estruturas neurais produzem sistemas conceituais e linguísticos que não podem ser adequadamente explicados por sistemas formais limitados à manipulação simbólica.

21. A pessoa chomskiana, para a qual a linguagem seria sintaxe pura e forma independente do significado, do contexto, da percepção, da emoção, da memória, da atenção, da ação e da comunicação dinâmica, igualmente não existe.

  • A linguagem humana não constitui uma inovação inteiramente genética e isolada.
  • Seus aspectos centrais emergiram evolutivamente de sistemas sensoriais, motores e neurais também presentes em outros animais.

22. As concepções filosóficas clássicas da pessoa estimularam a imaginação e produziram conhecimentos importantes, mas não podem ser mantidas após o reconhecimento do inconsciente cognitivo, da corporificação da mente e da natureza metafórica do pensamento.

23. A nova compreensão da mente recoloca de maneira urgente a questão acerca do que constitui um ser humano.

Formular questões filosóficas exige empregar a razão humana

24. A formulação de questões filosóficas deve reconhecer a condição humana e a inexistência de qualquer acesso privilegiado a uma razão puramente objetiva ou transcendente.

  • O pensamento utiliza necessariamente mecanismos cognitivos e neurais humanos comuns.
  • Como grande parte do pensamento é inconsciente, a filosofia a priori não oferece acesso direto e privilegiado ao conhecimento da mente nem à constituição da experiência.

25. A investigação filosófica emprega uma razão formada pelo corpo, um inconsciente cognitivo inacessível diretamente e um pensamento metafórico do qual se possui pouca consciência.

  • Como o pensamento abstrato é majoritariamente metafórico, as respostas às questões filosóficas também sempre foram e continuarão sendo amplamente metafóricas.
  • Essa condição não é positiva nem negativa em si mesma, mas decorre das capacidades da mente humana.
  • O pensamento metafórico constitui o principal instrumento de produção da compreensão filosófica.
  • As metáforas também limitam e condicionam as formas que a filosofia pode assumir.

26. A reflexão filosófica desvinculada da ciência cognitiva não descobriu nem investigou detalhadamente os aspectos fundamentais da mente examinados pela obra.

  • Alguns filósofos reconheceram parcialmente esses fenômenos.
  • A ausência de métodos empíricos impediu que sua validade fosse estabelecida e que seus detalhes fossem investigados.
  • Sem confirmação empírica, essas descobertas não foram incorporadas à corrente filosófica dominante.

27. O inconsciente cognitivo, a corporificação da mente e o pensamento metafórico exigem não apenas novas concepções da razão e da pessoa, mas também uma nova compreensão da própria atividade de formular questões filosóficas.

O que está envolvido na formulação e na resposta às questões filosóficas?

28. A reabertura das questões filosóficas fundamentais exige um método de investigação, sua aplicação aos conceitos filosóficos básicos, o exame das filosofias anteriores e o enfrentamento das grandes questões acerca da pessoa, da moralidade e da estrutura causal do universo.

29. A obra realiza um primeiro movimento em cada uma dessas áreas para oferecer uma visão geral da reconstrução possível da filosofia, empregando métodos provenientes da ciência cognitiva e da linguística cognitiva, apresentados em sua primeira parte.

30. A segunda parte examina cientificamente conceitos filosóficos fundamentais que toda filosofia precisa enfrentar, entre os quais tempo, acontecimentos, causalidade, mente, eu e moralidade.

31. A terceira parte inicia o estudo da própria filosofia sob a perspectiva da ciência cognitiva.

  • Os métodos analíticos são aplicados à metafísica grega, incluindo os pré-socráticos, Platão e Aristóteles.
  • Também são examinadas a teoria cartesiana da mente, a psicologia das faculdades do Iluminismo, a teoria moral de Kant e a filosofia analítica.
  • A análise cognitiva permite compreender a organização interna dessas construções intelectuais.
  • Torna-se possível explicar por que filosofias profundamente distintas pareceram intuitivas para muitas pessoas ao longo dos séculos.
  • São abordados problemas contemporâneos da filosofia, da linguística e das ciências sociais.
  • Recebem atenção especial a filosofia analítica anglo-americana, a linguística chomskiana e o modelo do agente racional empregado na economia e na política externa.

32. A quarta parte sintetiza as conclusões da investigação acerca do que são os seres humanos e de sua condição existencial.

33. A filosofia resultante aproxima-se da experiência concreta e, fundamentada na compreensão empírica da corporificação da mente, constitui uma filosofia encarnada que considera aquilo que os seres humanos fundamentalmente são e podem tornar-se.

pensadores/lakoff/pf/start.txt · Last modified: by 127.0.0.1

Except where otherwise noted, content on this wiki is licensed under the following license: Public Domain
Public Domain Donate Powered by PHP Valid HTML5 Valid CSS Driven by DokuWiki