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Informática

LANCIANI, Albino. Phénoménologie et sciences cognitives. Paris: Association por la promotion de la phénoménologie, 2003.

O problema e o sentido da informática

1. A inteligência artificial constitui o ponto de chegada e a instância decisiva de verificação da filosofia cognitivista, pois nela os pressupostos fundamentais das ciências cognitivas são submetidos à possibilidade concreta de confirmação ou fracasso.

  • Os problemas teóricos que permanecem irresolvidos no cognitivismo tendem a remeter à inteligência artificial como justificação última capaz de confirmar suas novas concepções.
  • Os sucessos e fracassos da inteligência artificial exerceram influência positiva sobre o desenvolvimento das próprias teorias cognitivas, obrigando-as a modificar-se diante das limitações e dos resultados concretos da informática.
  • A importância filosófica da inteligência artificial ultrapassa suas realizações técnicas, pois uma redução significativa de suas possibilidades implicaria igualmente uma profunda revisão das expectativas e dos princípios teóricos cognitivistas.
  • As possibilidades da inteligência artificial tornam-se, nesse sentido, praticamente equivalentes às possibilidades das próprias ciências cognitivas, conforme a concepção já presente desde os primórdios da cibernética.

2. A investigação crítica da informática exige inicialmente determinar o método e os objetivos adequados à análise, eliminando os falsos objetivos que poderiam desviar a atenção dos pressupostos teóricos fundamentais que sustentam o empreendimento informático. :contentReference[oaicite:0]{index=0}

1. O nível da pesquisa e a diferença entre filosofia e ciência: eliminação dos “falsos objetivos”

3. A análise filosófica da inteligência artificial deve começar pela distinção entre as expectativas que uma disciplina científica formula acerca de seus objetos e a interpretação filosófica dessas mesmas expectativas, evitando que as possibilidades espetaculares atribuídas à informática sejam confundidas com demonstrações filosóficas.

4. Entre as previsões paradigmáticas de Herbert Simon encontrava-se a expectativa de que, em dez anos, um computador se tornaria campeão mundial de xadrez, salvo se os regulamentos impedissem sua participação.

5. Outra previsão estabelecia que, no mesmo intervalo de dez anos, um computador descobriria e demonstraria um novo e importante teorema matemático.

6. Também se previa que, em dez anos, a maioria das teses formuladas em psicologia assumiria a forma de programas de computador ou de comentários qualitativos sobre as características fundamentais desses programas.

7. O fracasso dessas previsões demonstra o caráter excessivamente otimista das expectativas formuladas por uma ciência ainda jovem, embora proclamações exageradas acerca do futuro não constituam particularidade das ciências cognitivas e apareçam repetidamente na história das ciências.

8. As proclamações divulgadas por especialistas da inteligência artificial tanto nos meios de comunicação quanto nas publicações científicas integram um sistema mais amplo de propaganda ideológica da ciência, especialmente desenvolvido depois de 1950, cuja investigação pertence sobretudo à sociologia dos costumes e práticas dos ambientes científicos.

9. A análise desse aspecto sociológico não constitui o objetivo principal da investigação, pois antes se torna necessário esclarecer a diferença fundamental entre uma abordagem científica e uma abordagem propriamente filosófica.

10. A filosofia deve interpretar as proclamações acerca das possibilidades da inteligência artificial como indícios de uma concepção subjacente do mundo e dos objetos, e não concentrar-se nem na polêmica em torno das previsões nem nos resultados técnicos particulares produzidos pela informática.

  • Uma determinada teoria orienta profundamente a autocompreensão humana.
  • Essa autocompreensão transforma novamente o próprio mundo, produzindo uma rede de relações e referências mediante a qual uma civilização constitui aquilo que reconhece como seu mundo e seu sentido.
  • A análise filosófica não deve fixar-se em programas particulares, realizações técnicas isoladas ou resultados concretos controversos da inteligência artificial.
  • A filosofia que procura acompanhar historicamente cada conquista científica permanece inevitavelmente atrasada em relação ao desenvolvimento das próprias ciências.

11. A tarefa filosófica consiste antes em esclarecer as razões e as tautologias simbólicas em torno das quais se estrutura a ciência contemporânea e o cognitivismo, tornando possível concluir que a chamada filosofia cognitiva dificilmente pode ser considerada filosofia em sentido próprio.

  • A filosofia deveria esclarecer os preconceitos e pressupostos que organizam a atividade científica.
  • A filosofia cognitiva permanece inscrita nas mesmas estruturas simbólicas e pressuposições que caracterizam a ciência cuja natureza pretende compreender.
  • Por compartilhar o mesmo horizonte conceitual de seu objeto, ela perde a distância crítica necessária à reflexão filosófica.

12. A filosofia cognitiva mostra-se incapaz de criticar efetivamente as ciências cognitivas ou as ciências em geral porque compartilha seus princípios fundamentais e limita-se essencialmente a organizar os resultados científicos em uma estrutura mais abrangente.

  • Os resultados produzidos pelas ciências são aceitos como garantidos pela própria autoridade científica.
  • A atividade filosófica reduz-se a ordenar conceitualmente os conhecimentos provenientes dos laboratórios.
  • Não se encontra uma dúvida propriamente filosófica acerca das teorias ou dos resultados científicos pressupostos pelo cognitivismo.
  • A gnosiologia construída a partir desses resultados permanece provisória, pois pode ser reorganizada a cada nova transformação do conhecimento científico.

13. A filosofia precisa buscar uma via diferente daquela função auxiliar e redundante que lhe é atribuída pelas ciências cognitivas, recusando-se a acompanhar passivamente o desenvolvimento científico e preservando a possibilidade de considerar a própria ciência como uma modalidade possível de conhecimento, e não como sua forma necessária e exclusiva.

  • A perseguição contínua dos resultados científicos transforma a filosofia em atividade de retaguarda.
  • A ciência tende a assumir um papel totalizante diante de todo conhecimento e particularmente diante das teorias do conhecimento.
  • A tarefa filosófica exige que a ciência seja também interrogada em seus fundamentos e não simplesmente aceita como horizonte necessário de toda compreensão.

14. A limitação da dúvida científica à apresentação de uma teoria alternativa capaz de explicar os mesmos resultados impede que a própria ciência seja interrogada enquanto formação particular do espírito, tornando problemática a própria denominação de “filosofia” aplicada ao cognitivismo.

15. A dúvida admitida pelas ciências e pela filosofia cognitivas permanece restrita aos limites determinados pela própria ciência, pois não pode assumir caráter metodológico ou geral e pressupõe a metodologia científica como única forma aceitável de conhecimento.

  • A própria ciência não pode ser colocada em dúvida enquanto princípio fundamental de conhecimento.
  • As ciências cognitivas procuram incorporar ao domínio científico a esfera humana que anteriormente resistia a essa assimilação.
  • Essa incorporação pretende conduzir a ciência a uma espécie de completude na qual nenhum campo legítimo de investigação permaneceria fora de seu alcance.

16. A investigação filosófica da informática não deve concentrar-se nos softwares mais recentes, cuja rápida transformação tornaria qualquer análise imediatamente ultrapassada, mas no problema mais geral da relação entre ciência, filosofia e informática.

  • A contínua produção de programas mais completos e eficientes demonstra a juventude e a vitalidade da informática, mas também torna insuficiente qualquer crítica fundamentada exclusivamente em realizações técnicas particulares.
  • A análise de programas antigos já foi desenvolvida de maneira significativa por Hubert Dreyfus, Terry Winograd e Fernando Flores.
  • Dreyfus examinou especialmente a primeira inteligência artificial e a chamada inteligência artificial forte, fundada na identificação entre cérebro e computador.
  • A análise dos programas então apresentados como demonstrações da inteligência das máquinas revelou erros, ingenuidades e pressuposições insustentáveis.
  • A resposta recorrente às objeções fenomenológicas consiste em reconhecer os erros iniciais como limitações de uma fase juvenil já superada pelo desenvolvimento posterior da informática.

17. A crítica filosófica da informática deve ser simultaneamente menos específica e mais ambiciosa do que a avaliação de programas particulares, dirigindo-se ao próprio sentido da especulação informática, aos seus fundamentos e às possibilidades filosóficas da explicação e da modelização computacionais.

18. A análise crítica não se dirige ao trabalho técnico dos engenheiros informáticos ou dos matemáticos que implementam novas arquiteturas e softwares, mas às concepções de mundo que antecedem esse trabalho e às interpretações de mundo posteriormente extraídas de seus resultados.

  • A atividade matemática e informática pode produzir legitimamente novas caracterizações formais e novas possibilidades técnicas.
  • O problema filosófico encontra-se na visão de mundo da qual essas análises retiram seus pressupostos.
  • Igualmente problemática é a visão de mundo construída posteriormente mediante a interpretação filosófica dos resultados técnicos.
  • Esses momentos anterior e posterior constituem propriamente o conteúdo filosófico da reflexão sobre a inteligência artificial.
  • A filosofia cognitiva tende a limitar-se à justificação de pretensões científicas e técnicas cuja natureza é apenas impropriamente filosófica.
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