Linguagem da Informática
LANCIANI, Albino. Phénoménologie et sciences cognitives. Paris: Association por la promotion de la phénoménologie, 2003.
2. Questões de língua e questões de linguagem
1. O computador apresenta-se inicialmente como uma espécie de tabula rasa que, por meio da programação, transforma operações binárias compostas por sequências de 0 e 1 em aplicações complexas, deixando entretanto quase inteiramente desconhecido para o usuário comum o nível intermediário que conecta a matemática binária às funcionalidades concretas dos programas.
-
Programas de processamento de texto, manipulação de imagens ou reconhecimento de objetos diferem sobretudo pela complexidade quantitativa dos recursos computacionais exigidos.
-
Memória RAM, capacidade de processamento e armazenamento condicionam velocidade, resolução e desempenho, mas não modificam a natureza fundamental das operações computacionais.
-
A compreensão cotidiana do computador oscila entre um conhecimento elementar de sua base binária e a capacidade prática de utilizar aplicações.
-
O processo pelo qual sequências binárias se tornam operações aparentemente significativas, como perguntar se um documento deve ser salvo, permanece geralmente desconhecido.
2. A distância entre uma sequência binária e uma pergunta significativa formulada por um computador evidencia a existência de um nível intermediário cuja natureza precisa ser esclarecida. :contentReference[oaicite:0]{index=0}
3. Antes de explicar esse nível intermediário, torna-se necessário examinar o próprio significado atribuído ao conhecimento de um computador, distinguindo diferentes sentidos presentes em afirmações como conhecer um computador, saber utilizá-lo ou saber utilizar a Internet.
4. A compreensão cotidiana do computador costuma inverter o sentido rigoroso do conhecimento, pois a capacidade de navegar na Internet e utilizar determinados programas passa a ser tomada como equivalente ao conhecimento do próprio computador.
5. O computador assume socialmente o estatuto ontológico de um instrumento disponível, comparável a uma geladeira ou televisão e pertencente à Zuhandenheit, enquanto seus processos internos permanecem indiferentes ao usuário, criando um vazio de compreensão que pode posteriormente ser projetado sobre a própria compreensão do ser humano.
-
O usuário normalmente se interessa pelos dados de entrada e de saída sem problematizar as operações intermediárias realizadas pela máquina.
-
A existência de processos internos é vagamente conhecida, mas não constitui problema para o uso cotidiano do equipamento.
-
Esse vazio permite formular uma analogia entre o desconhecimento dos estados internos do computador e o desconhecimento dos próprios estados corporais.
-
Perguntas sobre conhecer e utilizar um computador podem, assim, ser transpostas para perguntas sobre conhecer o próprio braço ou utilizá-lo em atividades como jogar tênis.
6. A equivalência entre conhecer o próprio braço e conhecer um computador conduz perigosamente à objetificação do corpo e, em seguida, do cérebro, permitindo que a autocompreensão humana seja reduzida à fórmula segundo a qual o ser humano seria apenas um conjunto organizado de neurônios.
-
O desconhecimento dos estados internos do braço é assimilado ao desconhecimento dos estados internos do computador.
-
O braço passa então a ser compreendido como objeto disponível entre outros objetos do mundo.
-
A mesma operação aplicada ao cérebro conduz à concepção de Francis Crick segundo a qual o ser humano seria apenas um conjunto de neurônios.
-
Essa redução depende previamente da naturalização integral da existência humana.
-
Depois das descentralizações produzidas por Copérnico e Darwin, a redução neuronal representa uma nova destituição da singularidade humana.
-
O comportamento humano passa a ser concebido como resultado de hardware suficientemente complexo associado ao software apropriado.
-
O materialismo radical deixa de aparecer como hipótese a demonstrar e passa implicitamente a funcionar como tese já estabelecida.
-
Toda a construção depende da pressuposição de que “conhecer” possui o mesmo sentido quando aplicado ao próprio corpo e quando aplicado a um objeto técnico.
7. A diferença entre a relação com o próprio corpo e a relação com objetos como computadores ou martelos é fundamental, pois o corpo vivido não se apresenta originariamente mediante uma relação conceitual e não pode ser recomposto a partir da simples soma analítica de suas partes.
-
A explicação conceitual do corpo constitui uma abstração que o transforma em objeto separado da experiência própria.
-
A decomposição corporal em pernas, nervos, músculos e demais componentes produz objetos espaciais, mas não restitui o caráter de “meu” corpo.
-
A simples recomposição das partes não recupera a unidade vivida, dificuldade parcialmente reconhecida pelas teorias das propriedades emergentes.
-
A concepção cartesiana do corpo como res extensa pode ser aplicável a objetos técnicos, mas não descreve adequadamente o corpo próprio.
-
Em termos fenomenológicos, a existência corporal é Leib, corpo vivido, e não simplesmente Körper, corpo físico.
8. A persistência cognitivista na concepção do ser humano como conjunto de neurônios conduz a uma alternativa radical: abandonar essa filosofia como falsa ou procurar demonstrar experimentalmente que uma estrutura neuronal adequadamente organizada e implementada pode imitar o comportamento humano, inclusive em situações como o jogo de Turing.
9. A filosofia do “nada além de” reduz o cérebro a um conjunto de neurônios, o sujeito a um sistema emergente e o braço a um objeto, remetendo a confirmação definitiva dessa série de reduções ao eventual êxito da inteligência artificial.
2.1 Nada além de: a interpretação da linguagem da informática
10. A introdução filosófica da informática deve ser compreendida a partir da hipótese fundamental da filosofia do “nada além de”, cuja estrutura precisa ser examinada com maior precisão.
11. O intervalo de desconhecimento existente entre a utilização cotidiana do computador e sua base matemática binária é preenchido pela programação.
12. O problema fundamental não consiste simplesmente na passagem entre o nível binário e o nível de utilização, mas na interpretação dessa passagem, pois o significado atribuído às operações computacionais repercute diretamente na autocompreensão humana.
13. A interpretação das relações entre informática e compreensão humana pode desenvolver-se segundo duas direções complementares.
14. A direção ascendente parte das operações efetivamente realizadas pelo computador e alcança a interpretação posterior dessas operações pelo usuário.
15. A direção descendente parte da prática e das categorias do usuário, especialmente dos teóricos das ciências cognitivas, para descrever funções do cérebro humano mediante funções elaboradas originalmente no domínio da informática.
16. A interação entre as direções ascendente e descendente realiza-se mediante transformações linguísticas nas quais certos termos são abstraídos de seus sentidos cotidianos, modificados pela prática informática e posteriormente reinseridos na linguagem comum com novas significações.
-
As expressões linguísticas podem sofrer contrações ou expansões semânticas ao serem incorporadas à informática.
-
Os significados cotidianos são inicialmente afastados para que os termos possam adquirir acepções técnicas compatíveis com operações algorítmicas.
-
Os termos tecnicamente transformados retornam posteriormente à linguagem cotidiana.
-
Nesse retorno, categorias da vida comum passam a ser reinterpretadas segundo práticas algorítmicas.
-
A análise precisa acompanhar simultaneamente as direções ascendente e descendente dessas transformações.
-
Os conceitos de informação e memória constituem exemplos privilegiados desse processo.
2.2 Informação e memória: metáforas ou incompreensões radicais?
17. O conceito de informação constitui o próprio núcleo nominal da informática e pode deslocar-se do simples tratamento eletrônico de dados para interpretações epistemológicas nas quais operações computacionais passam a ser entendidas como modelos do próprio conhecimento.
-
O processamento de informações pode produzir novos dados pertinentes a domínios específicos, como ocorre nas previsões meteorológicas.
-
A interpretação dessas operações pode ser ampliada até transformar processos informáticos em modelos de conhecimento.
-
Esse deslocamento torna-se particularmente importante nas teorias baseadas em redes neuronais.
-
O conceito de informação empregado nesse processo raramente é submetido a exame conceitual adequado.
18. A teoria da informação formulada por Claude Shannon em 1948 possui natureza matemática e não semântica, tratando da capacidade dos canais de transmissão para transportar dados e diferindo profundamente do significado cotidiano de informação.
19. Shannon empregava informação e comunicação em sentido deliberadamente restrito e sintático, mas as interpretações posteriores ampliaram progressivamente esses conceitos até expressões como “sociedade da informação”, nas quais o próprio conteúdo semântico das informações tende a desaparecer.
-
A concepção original ocupa-se de estruturas de transmissão sem levar em conta o significado dos conteúdos.
-
O desenvolvimento posterior da inteligência artificial ampliou semanticamente termos originalmente concebidos de maneira restrita.
-
A expressão “sociedade da informação” exemplifica essa expansão sem que se esclareça suficientemente aquilo que conta como conteúdo da informação.
-
O processo pode novamente ser compreendido segundo movimentos ascendentes e descendentes.
20. Na direção ascendente, que parte do dispositivo para o usuário ou programador, o conceito de informação é dividido entre sinal e conteúdo, embora a legitimidade dessa separação raramente seja submetida a investigação rigorosa.
21. Na direção descendente, a separação entre sinal e conteúdo reforça a interpretação de que o computador efetivamente processa informação, permitindo considerar a dimensão semântica como secundária ou dispensável e estender esse modelo a domínios como a genética.
-
O funcionamento computacional é interpretado como capaz de produzir resultados semanticamente relevantes apesar de operar sem significação.
-
A semântica passa a ser concebida como algo que poderia emergir de operações puramente sintáticas.
-
Na genética, estruturas descritas sintaticamente como códigos passam a ser interpretadas como determinantes semânticos da constituição dos organismos.
22. A noção de sociedade da informação torna-se possível quando todas as informações são tratadas como globalmente equivalentes por poderem ser reduzidas a sequências binárias, mas essa equivalência transforma uma abstração metodologicamente legítima em uma redução indevida da semântica à sintaxe.
23. A compreensão sintática da natureza também oferece o espaço conceitual para explicar propriedades emergentes em redes neuronais, pressupondo que estruturas semânticas possam nascer das regras puramente sintáticas de estabilização dos sistemas.
-
O mundo é concebido como possuidor de relevância semântica, mas de uma estrutura fundamentalmente sintática de existência e expressão.
-
As propriedades emergentes aparecem como possibilidade de recuperar a semântica a partir da organização sintática.
-
A própria noção de sintaxe depende, entretanto, de sua tradução matemática.
-
A matemática passa assim a funcionar como justificação última da possibilidade de reduzir os fenômenos cognitivos a estruturas formais.
24. A sintaxe pode ser integralmente expressa em matemática binária e, portanto, reduzida ao tratamento matemático de símbolos definidos segundo as propriedades dos sistemas lógico-formais, tornando-se estritamente uma modalidade de cálculo.
25. A confiança cognitivista na capacidade universal da sintaxe repousa em um pressuposto decisivo: a possibilidade de abstrair estruturas sintáticas e aplicá-las a fenômenos aparentemente semânticos precisaria ser legitimada por alguma propriedade mais fundamental.
26. A possibilidade de expressar toda sintaxe matematicamente transfere implicitamente para ela a capacidade de abstração e universalização própria da matemática, transformando a sintaxe numa espécie de adaptação matemática e preparando uma operação semelhante sobre o conceito de memória.
27. A memória constitui um dos temas mais complexos da filosofia, da literatura, da psicologia e da psicanálise, envolvendo a constituição e a dinâmica do próprio eu, de modo que seu significado humano possui amplitude incomparavelmente maior do que o significado atribuído à memória informática.
28. Na informática, memória designa principalmente suportes nos quais sequências binárias podem ser armazenadas, abrangendo dispositivos como disco rígido, RAM e ROM e sendo frequentemente explicada mediante a analogia de uma biblioteca organizada por volumes e catálogos.
-
O disco rígido conserva sequências organizadas de dados.
-
A memória RAM mantém temporariamente dados enquanto o computador permanece em funcionamento.
-
A ROM armazena dados utilizados em operações iniciais do sistema.
-
A organização do armazenamento pode ser comparada a catálogos hierarquicamente estruturados para permitir o acesso a informações específicas.
29. A memória informática e a memória humana diferem profundamente porque a primeira é precisamente localizada, replicativa e submetida à alternativa rígida entre presença e ausência de dados, enquanto a segunda é distribuída, adaptativa e capaz de produzir relações que ultrapassam a simples reprodução.
-
Cada dado informático possui endereço determinado e recuperável de maneira exata.
-
Um computador recupera um dado armazenado ou, caso ele tenha sido apagado ou nunca registrado, não pode simplesmente recriá-lo como lembrança.
-
A memória computacional reproduz repetidamente a mesma combinação de sinais previamente registrada.
-
A memória humana apresenta funcionamento menos preciso, porém muito mais flexível e generalizador.
30. Gerald Edelman caracteriza a memória cerebral, em contraste com as memórias eletrônicas, como imprecisa, mas dotada de enorme capacidade de generalização.
31. A oposição entre memória humana e memória informática não permite concluir que a maior precisão replicativa das máquinas torne sua memória superior, pois a memória humana possui atividade generalizadora integrada ao ser-no-mundo, inexistente nos dispositivos passivos de armazenamento.
-
A memória humana participa ativamente das relações do sujeito com o mundo.
-
A memória eletrônica destaca-se pela precisão da reprodução, mas essa propriedade não corresponde à totalidade do fenômeno humano da memória.
-
A comparação fundada exclusivamente na precisão constitui uma superposição linguística decorrente do princípio redutor do “nada além de”.
-
Identificar memória com simples armazenamento e catalogação de dados representa uma redução radicalmente inadequada.
32. A memória deve ser compreendida como componente constitutivo do ser-no-mundo e somente pode ser isolada do tecido integral da vida mediante abstração, inclusive quando considerada em seu nível biológico.
33. A memória biológica não deve ser confundida com os mecanismos fisiológicos necessários à sua constituição, como as modificações sinápticas, nem pode ser concebida como simples cópia ou traço codificado do objeto lembrado.
34. As múltiplas relações pelas quais a memória participa das diferentes atitudes humanas diante do mundo ultrapassam aquilo que um computador realiza objetivamente, tornando insuficientes as concepções cognitivas que procuram aproximá-la de estruturas de dados ou redes neuronais.
-
Diversas dimensões constitutivas da memória humana não encontram equivalentes nas estruturas informáticas de dados.
-
A representação do armazenamento como biblioteca favorece a concepção das lembranças como objetos arquivados que podem sofrer alterações por falhas do hardware.
-
Sistemas conexionistas introduzem modelos de memória adaptativa capazes de lidar melhor com dados incompletos e ruído de fundo.
-
Esses sistemas representam progresso técnico importante em relação à inteligência artificial clássica.
-
A melhoria técnica, porém, não modifica necessariamente o pressuposto conceitual fundamental pelo qual memória continua sendo tratada funcionalmente.
-
Para a engenharia, importa que um sistema produza resultados melhores segundo determinados objetivos; para a psicologia e a filosofia, importa saber se esse funcionamento realmente representa de modo mais adequado a memória humana.
35. A comparação entre memória de armazenamento e memória adaptativa somente parece suficiente quando se adota um funcionalismo abrangente que reduz a memória à capacidade de um sistema ajustar-se às variáveis externas, deixando de considerá-la como elemento da constituição progressiva de um mundo.
-
O critério cognitivista inspirado pela inteligência artificial mede a memória pela adaptação funcional do software.
-
A amplitude existencial da memória é substituída pela eficácia na resposta a condições externas.
-
Expressões publicitárias como “máquina de lavar inteligente” ou “porta inteligente” exemplificam a extensão dessa concepção funcional de inteligência.
36. A objeção segundo a qual adaptação caracteriza tanto a inteligência quanto a evolução exige cuidadosa análise epistemológica, pois concentra diversos equívocos presentes nas interpretações da inteligência artificial.
37. A interpretação da evolução como adaptação orientada introduz implicitamente um conceito finalista, pois somente a presença de um objetivo permite atribuir comportamento a uma sequência de operações computacionais.
-
Um computador não possui comportamento próprio mais do que uma pedra possui comportamento.
-
A atribuição de comportamento depende da definição prévia de um objetivo segundo o qual suas operações serão interpretadas.
-
Mesmo quando parece perseverar em determinado comportamento, o processo computacional permanece rigorosamente algorítmico.
38. O computador realiza exclusivamente cálculos de maneira indiferente ao significado de suas operações, não existindo diferença essencial, do ponto de vista da atividade calculadora, entre executar somas elementares ou resolver complexas equações diferenciais.
-
A máquina não possui finalidade intrínseca.
-
Todo objetivo precisa ser explicitamente introduzido pela programação.
-
Na ausência de instruções programadas, nenhuma atividade orientada ocorre por iniciativa própria do computador.
39. A diferença entre operações computacionais aparentemente inteligentes e simples cálculos reside na interpretação humana do papel desempenhado pelo software no mundo, e não em alguma finalidade interna ao próprio programa.
-
Um sistema automático destinado a detectar minas pode ser programado para evitar determinados objetos.
-
O significado de “mina”, “perigo” ou “evitar uma explosão” pertence ao mundo e aos objetivos humanos.
-
O computador manipula as operações correspondentes sem compreender o significado existencial ou prático que lhes é atribuído.
40. As teorias e expectativas da inteligência artificial repousam, assim, sobre uma espécie de finalismo reprimido, pois a avaliação de que um sistema produz resultados melhores que outro somente faz sentido mediante a presença de objetivos previamente estabelecidos.
41. Os resultados computacionais não são intrinsecamente melhores ou piores, mas apenas consequências de sequências de cálculos, sendo o objetivo externo aquilo que lhes confere significado e permite julgá-los como corretos ou incorretos.
-
Nenhum software é finalizado por si mesmo.
-
A finalidade pertence à interpretação e aos propósitos humanos que enquadram as operações da máquina.
-
A distinção valorativa entre resultados depende, portanto, de critérios que não estão contidos nos cálculos enquanto tais.
42. O reconhecimento da dependência interpretativa permite retornar ao problema das relações entre linguagem e informática, revelando que as reduções linguísticas realizadas pelas ciências cognitivas e pelas teorias da inteligência artificial manifestam insuficiências profundas da filosofia cognitiva.
-
Mudanças de significado parecem ocorrer sem consciência explícita de seu caráter redutor.
-
Se essas transformações fossem deliberadamente ocultadas, seria necessário atribuí-las à má-fé.
-
A própria inconsciência das mudanças semânticas cria dificuldades adicionais para uma filosofia que pretende explicar cognitivamente os processos mentais.
-
A sucessão de deslocamentos semânticos não reconhecidos demonstra a fragilidade das filosofias desenvolvidas no paradigma cognitivista.
43. Os deslocamentos semânticos cognitivistas desenvolvem-se em três fases: abstração de uma palavra de seu contexto cotidiano, preenchimento do vazio resultante com operações informáticas e reinserção do termo na vida cotidiana com o novo conteúdo algorítmico.
-
Na primeira etapa, palavras são separadas das redes de sentido que possuíam originalmente.
-
Na segunda, as operações realizadas pelo computador passam a fornecer o novo conteúdo do conceito reduzido.
-
Na terceira, esse conceito transformado retorna ao uso cotidiano e passa a reorganizar a compreensão dos fenômenos humanos.
-
A identificação de pensamento com manipulação linguística de símbolos permite a John Haugeland concluir que, sendo o computador um manipulador privilegiado de símbolos, ele constituiria uma máquina privilegiada de pensar.
-
Essa perspectiva dificulta qualquer diálogo efetivo com as ciências humanas que se recusem a ser absorvidas pelo paradigma computacional.
-
As disciplinas humanas acabam ameaçadas de desaparecimento ou reformulação integral, como exemplifica a redução churchlandiana da psicologia à folk psychology.
44. A pretensão abrangente das ciências cognitivas configura uma tentativa de instituir um paradigma destinado a substituir os demais, mas a sucessão de operações de abstração, esvaziamento e preenchimento somente permanece legítima enquanto seu caráter abstrativo for explicitamente reconhecido.
-
Cada uma dessas operações pode ser metodologicamente admissível quando compreendida como abstração.
-
O problema surge quando o resultado reconstruído é apresentado como identidade efetiva com o fenômeno originalmente considerado.
-
A recomposição final produz, nesse caso, uma identidade falsa entre o conceito cotidiano e o conceito tecnicamente reformulado.
-
A crítica filosófica deve, portanto, dirigir-se à legitimidade dessa passagem e não simplesmente aos resultados técnicos obtidos.
45. A interpretação filosófica da inteligência artificial torna-se falsa quando os significados linguísticos das demais disciplinas são previamente esvaziados, formalizados segundo necessidades computacionais e posteriormente reapresentados como se sua significação verdadeira tivesse sido descoberta.
-
A filosofia cognitiva opera de maneira abrangente sobre os vocabulários das demais disciplinas.
-
A formalização binária necessária às máquinas transforma-se indevidamente em modelo universal da significação.
-
Surge implicitamente a ideia de reconstruir todo o conhecimento e até a humanidade a partir de estruturas compatíveis com a numeração binária.
-
As ciências passam a ser compreendidas como sistemas de manipulação simbólica.
-
As ciências humanas tornam-se usos inadequados de conceitos que a formalização cognitivista pretende redefinir.
-
A psicologia é eliminada quando se pressupõe que nenhuma psyché propriamente dita necessita ser explicada.
-
O comportamento humano aparece finalmente como mecanismo potencialmente imitável por um computador suficientemente bem programado.
46. As concepções informáticas participam da autocompreensão contemporânea ao favorecer interpretações segundo as quais até o sofrimento psíquico pode ser reduzido a problemas de hardware e de equilíbrio químico.
-
O mal-estar mental torna-se defeito funcional de um mecanismo corporal.
-
A restauração da saúde é concebida como simples reajuste químico do sistema.
-
O eu deixa de participar constitutivamente de processos como luto e sofrimento psíquico.
-
A redução funcional simplifica a explicação ao transferir o problema do sujeito para o mecanismo.
-
Essa simplificação ameaça tornar o próprio eu teoricamente desnecessário.
47. A supressão do eu harmoniza-se com o modelo da inteligência informática, que também não possui um eu, fazendo com que a vida humana seja progressivamente interpretada segundo as características das máquinas em vez de as máquinas serem compreendidas a partir da vida.
-
A definição cognitivista de inteligência torna-se cada vez menos uma hipótese científica e cada vez mais uma opção metafísica.
-
A inteligência é definida segundo aquilo que uma máquina mecânica poderia hipoteticamente possuir no futuro.
-
Como essa inteligência algorítmica prescinde do eu, o próprio eu passa a ser considerado redundante.
-
O algorítmico é reconhecido automaticamente como paradigma da inteligência, enquanto o biológico e o humano somente seriam inteligíveis se algum progresso futuro demonstrasse sua coincidência com esse modelo.
48. A redução computacional também transforma profundamente a compreensão da história, que deixa de constituir dimensão fundamental do ser-no-mundo e passa a ser concebida como simples cronologia de sequências causais formalizáveis.
-
Os acontecimentos históricos são organizados em séries cujos termos seguintes aparecem como resultados causalmente derivados dos anteriores.
-
A história pode então ser representada segundo estruturas análogas às funções matemáticas.
-
Essa transformação decorre novamente da inversão do sentido originário da linguagem promovida pela concepção computacional.
49. A crítica de Heidegger caracteriza esse processo como uma transformação na qual a representação da linguagem deixa de ser determinada pelo falar humano e passa a ser determinada pelo modo como o computador calcula e é metaforicamente concebido como “falando”, produzindo uma assimilação do próprio fenômeno linguístico ao modelo computacional.
50. Diante dos fracassos e da insuficiência dos resultados inicialmente prometidos, os teóricos da inteligência artificial modificaram suas abordagens segundo duas direções principais.
51. Sem abandonar a premissa de que seres humanos e computadores seriam máquinas simbólicas, a inteligência artificial procurou flexibilizar as relações entre símbolos e desenvolver novas abordagens lógicas capazes de tornar a programação menos rigidamente dependente da estrutura binária ou pelo menos mais manejável.
52. As teorias das propriedades emergentes estimularam novas interpretações filosóficas frequentemente constituídas por combinações ecléticas de perspectivas distintas, que podem representar tanto uma ampliação coerente do ecletismo cognitivista quanto tentativas de preservar um paradigma progressivamente pressionado por suas contradições internas.
-
As novas interpretações procuram responder às dificuldades surgidas no interior dos modelos anteriores.
-
A multiplicação de referências filosóficas pode ser entendida como característica estrutural do ecletismo cognitivista.
-
Também pode indicar uma tentativa de salvar um paradigma incapaz de resolver suas próprias contradições.
-
Em termos kuhnianos, o acúmulo dessas dificuldades pode indicar limites à possibilidade de conservar indefinidamente o paradigma cognitivista.
53. A conclusão da análise deverá concentrar-se nessas transformações recentes da inteligência artificial e das ciências cognitivas para esclarecer de maneira global o significado e os limites filosóficos do problema da inteligência artificial.
