Naturalizações cognitivistas
LANCIANI, Albino. Phénoménologie et sciences cognitives. Paris: Association por la promotion de la phénoménologie, 2003.
** As naturalizações cognitivistas: psicologia e filosofia **
1. A psicologia cognitiva constitui um campo heterogêneo, formado por contribuições provenientes de diferentes áreas de pesquisa, cuja análise filosófica pode prescindir dos resultados clínicos, fisiológicos, neurofisiológicos, farmacológicos e terapêuticos particulares para concentrar-se nos pressupostos conceituais que estruturam a própria disciplina.
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A multiplicidade das abordagens torna impossível esgotar todas as formas assumidas pela psicologia cognitiva.
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Os resultados obtidos em aplicações médicas ou psicológicas não constituem o objeto fundamental dessa investigação.
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A eficácia terapêutica não permite, por si mesma, decidir acerca dos pressupostos filosóficos da psicologia cognitiva, pois a avaliação dos resultados permanece estreitamente relacionada à estrutura teórica global da disciplina.
2. Toda teoria da realidade apresenta uma circularidade fundamental, pois ao procurar compreender a realidade também participa da determinação daquilo que será reconhecido como real, selecionando determinados fenômenos e organizando-os segundo suas próprias categorias.
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A seleção dos fenômenos considerados relevantes orienta inevitavelmente a própria teoria.
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A realidade científica deve ser compreendida como realidade constituída relativamente a determinado quadro teórico.
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Cabe à filosofia conservar consciência dessa condição, independentemente de ela interessar explicitamente ou não aos cientistas.
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Desde Platão permanece aberta a possibilidade de procurar fundamentar a realidade mediante uma teoria situada além do próprio mundo empírico.
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Uma teoria dessa natureza, entretanto, deixa de poder ser verificada nos mesmos termos de uma teoria científica e não dispõe de experimentação capaz de estabelecer diretamente sua validade.
3. A psicologia cognitiva e, em sua base, a filosofia cognitiva apresentam uma orientação fortemente reducionista que procura eliminar tudo aquilo que poderia resistir à categorização cognitivista, razão pela qual sua crítica não pode apoiar-se simplesmente nos resultados produzidos pelo próprio quadro teórico, mas deve dirigir-se aos pressupostos e às operações de redução que antecedem esses resultados.
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O conflito pode ser interpretado como oposição entre abordagens qualitativas e quantitativas da realidade.
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Os resultados cognitivistas constituem consequências dos pressupostos que previamente delimitam aquilo que pode aparecer como objeto legítimo de investigação.
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A questão decisiva encontra-se, portanto, na legitimidade das reduções realizadas antes da obtenção dos resultados.
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A pretensão originária do cognitivismo consistia não apenas em alcançar o núcleo da realidade, mas em admitir que nenhum fenômeno pudesse, em princípio, escapar às suas categorias.
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Herbert Simon exprime radicalmente essa confiança ao prever que a maior parte das teses psicológicas poderia assumir a forma de programas de computador ou de comentários qualitativos sobre características desses programas.
4. A análise filosófica da psicologia cognitiva torna-se decisiva porque nela reaparecem, explícita ou implicitamente, as teses fundamentais do cognitivismo e se manifesta uma determinada concepção do ser humano que ultrapassa a psicologia individual e alcança sua compreensão como membro de uma comunidade.
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A psicologia cognitiva constitui uma expressão privilegiada da filosofia cognitiva aplicada.
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A inteligência artificial desempenha, paralelamente, a função de verificação extrema das pretensões cognitivistas.
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A psicologia deve assim ser examinada como realização de uma filosofia frequentemente implícita e não apenas como disciplina experimental autônoma.
5. A filosofia cognitiva combina elementos provenientes de diferentes tradições filosóficas mediante uma composição eclética que frequentemente isola conceitos de seus contextos originários e os reorganiza em relações ocasionais, tornando difícil estabelecer dependências diretas e rigorosas entre os filósofos tradicionais invocados e as formulações cognitivistas posteriores.
6. Apesar dessa heterogeneidade, grande parte da filosofia cognitiva pode ser situada no horizonte geral do materialismo, desde que esse materialismo seja diferenciado internamente e compreendido inicialmente como uma posição reducionista destinada a substituir as teorias dualistas das relações entre corpo e espírito por uma concepção monista de orientação materialista.
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A classificação geral como materialismo constitui apenas um primeiro nível de análise.
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É necessário distinguir diferentes graus e formas desse materialismo segundo a consciência filosófica de seus pressupostos e a intensidade de suas reduções.
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A orientação fundamental precede as diferentes subescolas cognitivistas e consiste em reduzir as interpretações dualistas do corpo e do espírito a uma estrutura monista materialmente orientada.
7. A posição cognitivista caracteriza-se fundamentalmente pela dissolução do dualismo mediante a naturalização de tudo aquilo que ultrapassa a dimensão estritamente física, processo que tende a eliminar precisamente as características tradicionalmente consideradas específicas do espírito e obriga a confrontar desde o início os elementos fundamentais da psicologia humana.
8. Diante da multiplicidade de problemas pouco considerados pela filosofia cognitiva, torna-se necessário isolar seus elementos fundamentais e retomar seu ponto de partida, particularmente a abertura conceitual que ela precisa estabelecer e justificar em relação à psicologia.
9. O primeiro ponto fundamental é constituído pelo problema da relação entre corpo e espírito, interpretado pelo cognitivismo como núcleo das filosofias anteriores e frequentemente reduzido à oposição dualista exemplarmente representada por Descartes, cuja superação assume caráter programático e indispensável.
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Grande parte da tradição filosófica anterior é reinterpretada sob a categoria geral do dualismo.
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Descartes converte-se no representante paradigmático dessa concepção.
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A rejeição cognitivista do dualismo não aparece como simples preferência teórica, mas como requisito necessário para a construção de uma explicação naturalizada da mente.
10. O dualismo permanece influente no pensamento ocidental contemporâneo apesar de suas dificuldades, aparecendo explicitamente em filosofias e teologias espiritualistas e implicitamente em numerosas ideologias humanistas e mesmo em determinadas concepções nominalmente materialistas.
11. O segundo ponto fundamental consiste na redução sistemática do espírito à natureza, comum às diferentes variantes da filosofia cognitiva e caracterizável globalmente como uma forma internamente coerente de materialismo redutor.
12. O terceiro ponto fundamental situa a psicologia na interseção entre a filosofia cognitiva e a inteligência artificial, pois a primeira encontra na psicologia uma realização prática vinculada concretamente ao ser humano, enquanto a segunda representa a prova extrema das premissas cognitivistas mediante a possibilidade de produzir artificialmente aquilo que essas premissas afirmam constituir a cognição.
13. A investigação do projeto cognitivista deve, portanto, começar pela questão das relações entre corpo e espírito no interior da orientação decididamente materialista que caracteriza sua filosofia.
