Tecnologias intelectuais
LÉVY, Pierre. La machine univers. Paris: La Découverte, 1987.
1. Sem que fosse necessário ser utilizada pela maioria estatística dos indivíduos, a escrita constituiu por séculos a tecnologia intelectual motriz das civilizações, gerando com a disposição tabular dos signos uma nova exigência de lógica e simetria, até que a imprensa tornou possível o livre exame dos textos e a revolução científica.
2. A informática deve ser analisada, à semelhança da escrita, como tecnologia intelectual em sua dimensão empírica: microprocessadores e computadores são objetos materiais fabricados, manipuláveis e passíveis de dissecação e exame.
3. Para além dessa dimensão empírica, as máquinas de calcular, telas e programas contribuem a determinar o próprio modo de percepção e intelecção pelo qual conhecemos os objetos, constituindo assim a dimensão transcendental da informática.
A MEDIAÇÃO NUMÉRICA
4. Uma película de cálculo e informação codificada estende-se entre o corpo humano e o mundo técnico, condicionando a própria possibilidade do tecnocosmo enquanto mídia de mídias.
5. Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, a maior parte da população ativa dos países desenvolvidos passou a gerir signos, substituindo-se a comunicação ao labor físico e o sensório-simbólico ao sensório-motor na vigilância dos processos por meio de captadores.
6. O captador destrona os órgãos dos sentidos e o atuador torna os músculos inúteis, restando ao corpo sensório-motor sobretudo a esfera privada do esporte, do lazer e do jogo.
7. Desde seu surgimento a espécie humana afastou-se do dado natural bruto pela linguagem e pela técnica, processo acelerado pela urbanização, pela escrita e pelos transportes mecânicos, interpondo-se hoje a mediação numérica entre os sujeitos e o tecnocosmo.
8. Computadores governam hoje o tráfego aéreo, as redes ferroviárias, a distribuição de eletricidade e água, as usinas nucleares e inúmeros outros processos técnicos, afastando ainda mais o acesso direto às coisas.
9. A mediação numérica remodela atividades cognitivas fundamentais como a escrita, a leitura, a escuta, a composição musical, a visão, a concepção, o ensino e a aprendizagem, reestruturadas em novas configurações sociais.
ESCREVER
10. Os softwares de tratamento de texto permitem suprimir e reorganizar facilmente letras, palavras e parágrafos, acentuando a dimensão de matéria-prima do texto, agora recortado, retrabalhado e reempregado.
11. Esse destino de recombinação repercute sobre a redação original, exigindo textos modulares, frases autossuficientes e curtas, sendo essa tendência reforçada por softwares de correção que calculam índices de legibilidade e pela tradução automática.
12. O tratamento de texto permite ainda a atualização e personalização de textos-padrão a partir de arquivos automatizados, podendo-se imaginar textos plásticos recombinados por variáveis predefinidas, como ilustram os procedimentos combinatórios do Oulipo.
13. A informática autoriza pesquisas mais elaboradas ainda pouco exploradas, como os hipertextos de leitura interativa organizados em percursos múltiplos, podendo a distinção entre autor e leitor se apagar em favor de uma escrita coletiva e anônima.
ESCUTAR, COMPOR, TOCAR
14. Vive-se hoje mergulhado num novo universo musical povoado por timbres e efeitos sonoros produzidos por sintetizadores, muitos deles inéditos há poucas décadas.
15. Longamente incubada em grandes laboratórios de pesquisa, a música informática libertou-se deles com a fabricação em série de sintetizadores digitais programáveis, hoje presentes em quase todos os gêneros musicais.
16. Poucos músicos utilizam a composição automática pura, embora alguns, como Pierre Barbaud, limitem por rigor o papel do compositor à elaboração de um algoritmo que redige sozinho a partitura.
17. Existem linguagens de composição automática assemelhadas às linguagens evoluídas da informática clássica, sendo o compositor auxiliado por softwares que oferecem escolhas por menus e ajuda à orquestração.
18. Versões musicais da linguagem Logo permitem a crianças construir sequências sonoras por procedimentos encaixados, enquanto sistemas como o UPIC de Xenakis possibilitam compor a partir de entradas gráficas.
19. Computadores pessoais equipados com microfone exibem em tela a partitura de uma improvisação instrumental, estabelecendo-se nova interação entre gesto, escuta e análise formal da estrutura musical.
20. Os sintetizadores digitais aproximam-se do ideal de máquina produtora de todos os sons, obrigando o compositor a explicitar intelectualmente uma sensibilidade e intuição antes reservadas ao intérprete, o que motiva o desenvolvimento de sistemas especialistas intérpretes.
21. Com o sintetizador digital, a execução torna-se exercício de transmissão de símbolos que dispensa o envolvimento direto do corpo, embora novos dispositivos de comando devolvam importância à respiração e à dinâmica gestual, abrindo caminho a hibridações inéditas entre instrumentos.
22. As técnicas da informática musical permitem registrar, sintetizar e modificar à vontade todos os elementos sonoros, incluindo o espaço de propagação do som, tornando-o matéria-prima trabalhável em suas estruturas mais finas.
23. A extrema formalização exigida dos pioneiros da composição automática provocou um choque teórico que obrigou a repensar a criação e o discurso musical.
24. Enquanto o compositor do século XIX inscrevia notas para um intérprete corporal, hoje todas as etapas da produção musical podem se reduzir à intervenção codificada sobre o modelo numérico de um sinal físico.
25. Sendo o som integralmente programável, dilui-se o lugar da interpretação num vasto rede de produção musical onde concebedores de máquinas, programadores, melodistas e ouvintes intervêm sem que se saiba exatamente quem interpreta o quê, sem garantia alguma de que o resultado seja música.
VER, IMAGEAR
26. Assim como a luneta astronômica, o microscópio e os raios X, a imagem digital amplia o campo do visível, dando a perceber modelos abstratos de fenômenos físicos, químicos, biológicos ou cosmológicos.
27. Imensas massas de dados numéricos, ilegíveis em tabelas estatísticas, tornam-se visíveis por tratamento gráfico apropriado, permitindo a arquitetos, urbanistas e designers examinar rapidamente por simulação tridimensional as consequências de suas decisões.
28. Estruturas e processos complexos antes apenas concebidos intelectualmente surgem agora diretamente na evidência sensível graças à imagem numérica, construindo-se uma nova interação entre os sentidos e a inteligência abstrata.
29. Prevendo-se interfaces gráficas generalizadas nas próximas décadas, deve-se pensar a mutação cultural informática à luz dessa nova ideografia, sabendo-se que toda imagem numérica é uma representação seletiva e codificada, não uma evidência imediata.
30. Diferentemente do mapa geográfico clássico, a imagem numérica convoca a exploração ativa do espectador por meio de intervenções efetivas, sendo essencialmente dinâmica ao permitir jogar tanto com escalas temporais quanto espaciais.
31. Pode-se imaginar uma interatividade levada ao extremo, como um voo sobre a Terra a partir de uma base de dados geográficos que permitisse viajar não apenas por escalas mas também entre diferentes tipos de representação e projeções cartográficas.
32. O horizonte da imagem numérica é essa janela utópica na qual todo o universo seria visível em todas as escalas e modos de representação imagináveis, com o espectador-operador podendo intervir sobre o próprio curso dos acontecimentos simulados.
33. Apagada a distinção entre espectador e criador de imagens, permanece a montante uma atividade de concepção e programação que define um vocabulário de base, cumprindo etapas obrigatórias de construção da imagem de síntese, ainda que o usuário de paletas gráficas seja apenas um elo de uma cadeia de criação que começa antes dele.
CONCEBER
34. Sistemas de concepção assistida por computador são hoje utilizados em laboratórios de química, escritórios de arquitetura e engenharia mecânica.
35. Ao liberar o concepteur de cálculos intermediários fastidiosos, os softwares de CAO tornam cada vez menos pertinente a divisão entre execução e concepção.
36. No caso de uma peça mecânica, o sistema de CAO permite observar sua rotação, obter vistas em corte e verificar seu ajuste a outras peças antes de qualquer construção efetiva.
37. Alguns sistemas dão acesso ao conjunto de soluções aceitáveis dentro das restrições iniciais de um problema, permitindo obter e registrar automaticamente o desenho de novas peças a partir de peças semelhantes já existentes.
38. Se conceber consiste em determinar soluções realizáveis entre a multidão de possíveis, examinar sua concordância com o conjunto e testá-la repetidamente até satisfação, então uma máquina está em condições de “conceber”.
39. Nenhum programa conhecido é ainda capaz de desenhar sozinho um circuito ou motor a partir de restrições básicas, mas os progressos da informática tendem a essa performance.
40. Para que os esforços dos programadores pudessem se aplicar, foi preciso antes considerar a inteligência humana como processo mecanizável.
41. Distinguindo-se a execução da concepção apenas pelo baixo nível de energia física exigido, decidir e conceber equivalem essencialmente a percorrer seletivamente um itinerário lógico até uma solução aceitável, segundo a hipótese operatória do programador.
42. A multiplicação dos instrumentos de auxílio à concepção e à decisão visa, sem alcançá-lo completamente, substituir o homem pela máquina, anunciando também uma democratização da decisão técnica complexa.
43. Instaura-se assim um continuum de concepção que vai do criador do sistema de CAO ao usuário final, sendo a competência propriamente humana deslocada para a formalização do saber-fazer, como ilustra a aventura dos sistemas especialistas.
A ENGENHARIA DO CONHECIMENTO
44. Os sistemas especialistas são programas destinados a substituir um especialista humano, contendo o conhecimento de profissionais confirmados numa base de regras e metarregras sobre a qual atua um motor de inferência.
45. O engenheiro cognitivo é o especialista responsável por transferir a expertise do homem para a máquina, explicitando e formalizando o saber-fazer implícito do profissional experiente.
46. A inteligência artificial deparou-se com o problema da representação do conhecimento, estendendo-se hoje a formalização a domínios vagos, incertos e parcialmente desconhecidos da vida cotidiana.
47. A formalização repercute sobre os próprios saber-fazer que organiza, levando o especialista do saber-fazer ao saber-dizer o que faz e permitindo-lhe fazer progredir sua disciplina.
48. Quase todas as vantagens da formalização revertem-se em otimização da comunicação, seja entre humanos e máquinas, entre representações e realidade, ou entre disciplinas distintas.
49. A nova definição social do conhecimento incorpora a aptidão à formalização e à explicitação das práticas como componente essencial da competência.
ENSINAR, APRENDER
50. A utilização multiforme dos computadores no ensino se espalha pela escola, pela casa e pela formação profissional, prenunciando uma redefinição da função docente.
51. É razoável supor que dentro de algumas décadas o manejo de linguagens procedurais ou declarativas fará parte da educação básica, como já ocorre com a linguagem Logo em fins pedagógicos.
52. Antes mesmo de influir sobre o aluno, o uso dos computadores obriga os professores a repensar o ensino de sua disciplina na elaboração de programas de ensino assistido.
53. O computador constitui também um instrumento de precisão para a pesquisa em pedagogia, permitindo registrar detalhadamente os percursos, atrasos e erros dos alunos.
54. Quando se trata de assimilar um conjunto predefinido de conhecimentos factuais, a máquina pode substituir integralmente o professor humano; nos demais casos, ela distende a relação dual entre mestre e aluno, tornando o professor um animador de aprendizagem.
55. Entre os diversos tipos de programas didáticos, os mais numerosos fundam-se no ensino programado, no qual a informação é dividida em módulos elementares percorridos no ritmo próprio do aluno.
56. Graças aos programas de simulação, o estudante interage com modelos de processos complexos incontroláveis em escala real, adquirindo um conhecimento prático do comportamento desses modelos numéricos.
57. A interrogação de bancos de dados para obtenção de referências ou informações tornar-se-á em breve parte normal do mecanismo de aquisição de conhecimentos.
58. Para uma corrente pedagógica, a prática da programação estruturada constitui excelente iniciação ao pensamento algorítmico e modelizante, favorecendo até o desenvolvimento intelectual de crianças pequenas.
59. Na programação estruturada, é o aluno que faz o computador calcular, atravessando as etapas de análise funcional, análise orgânica e programação propriamente dita.
60. São essencialmente as etapas de análise funcional e orgânica que são consideradas formadoras no plano intelectual, habituando o estudante ao rigor e à explicitação clara de seus modelos da realidade.
61. Seymour Papert propõe não apenas usar as máquinas para transmitir antigos conteúdos de ensino, mas explorar ao máximo as novas possibilidades pedagógicas, permitindo à criança experimentar modelos de procedimentos sistemáticos.
62. Papert e outros pesquisadores de inteligência artificial, como Minsky e Simon, consideram a informática uma ciência da descrição, sendo a aprendizagem do método cartesiano nela redescoberta como necessidade prática.
63. Pode-se imaginar que futuras técnicas pedagógicas se fundem na formalização, pelo próprio aluno, das regras elementares de seu raciocínio num domínio particular.
64. Desde o início do século XXI, as crianças aprenderão a ler e escrever em máquinas de tratamento de texto, familiarizando-se com simulações, sistemas especialistas e o manejo de bancos de dados.
65. Todas essas evoluções no domínio da educação são congruentes com as modificações observadas em outras atividades cognitivas, preparando para a nova cultura informatizada.
AS NOVAS LINGUAGENS
66. Ninguém previa, há cinquenta anos, a sofisticação atual do diálogo entre homens e máquinas, cujo principal problema reside na diferença entre linguagens formais e línguas naturais, estas últimas tolerando ampla margem de ambiguidade.
67. As linguagens formais apresentam-se como regras estritas de transformação de cadeias de símbolos, movendo-se num universo puramente sintático mais próximo de um mecanismo do que de um texto em língua natural.
68. A curta história do diálogo entre homens e computadores pode ser lida como esforço para preencher o fosso entre linguagens formais e línguas naturais, por meio de tradutores intermediários e novos dispositivos de entrada e saída.
69. As linguagens de programação evoluídas como Fortran, Cobol e Basic marcaram a primeira etapa desse abrandamento, seguidas pelas linguagens descritivas e declarativas, multiplicando-se hoje os dialetos de software especializados em vez de convergir para uma linguagem universal.
70. A diversificação das linguagens de programação aproxima a manipulação informática da percepção direta do usuário, tornando central a dimensão do diálogo e aproximando a programação das belas-artes.
71. A concepção de linguagens de programação constitui uma espécie de meta-escrita comparável à arquitetura, na qual o concepteur estrutura um espaço de funções cognitivas aberto à apropriação do usuário.
72. O aspecto mais espetacular do aprimoramento do diálogo com os computadores concerne ao comando vocal e à síntese da fala, ainda limitados a vocabulários restritos em contextos fixos.
73. Assim como os dialetos naturais, a “fala de máquina” será cada vez mais aprendida por exploração progressiva, multiplicando-se crioulos e pidgins intermediários entre línguas naturais e linguagens formais.
LIVROS E BANCOS DE DADOS
74. Aprender, ensinar, informar-se, conceber, ler, escrever e comunicar são atividades potencialmente redefinidas pela informática, tornando-se essencial a aptidão à formalização dos saber-fazer.
75. Reconhecer essas transformações não implica prever a substituição universal das tecnologias antigas pelas novas, ainda que estas mudem de sentido ao serem inseridas numa nova configuração midiática.
76. Interrogando-se o estatuto da escrita sob o regime da difusão em rede, os dados dos bancos de informação são construídos para serem tratados, exigindo codificação uniforme e severa normalização.
77. A informação em linha deve ser exaustiva e atualizada, sendo os bancos de dados menos memórias que espelhos fiéis do estado presente de uma especialidade ou de um mercado.
78. Em suma, a informação em linha é ultraespecializada, modular e acessada seletivamente, tendo por uso primordial a obtenção estratégica do dado mais confiável no menor tempo.
79. Na época da informação torrencial, relembra-se o antigo estatuto mágico do livro, quando a verdade filosófica ou religiosa se dava a ler e a página escrita ordenava e entregava o sentido.
80. Após três ou quatro séculos de transição, a informação operacional passou ao primeiro plano, expressando-se esse movimento no desenvolvimento dos bancos de dados sem que a velha escrita seja suprimida, mas antes multiplicada em páginas impressas.
81. Programas para classificar livros e livros sobre informática alimentam-se mutuamente, ainda que a lógica da informação operacional prevaleça socialmente sobre a lógica da interpretação.
82. O índice de valor e autoridade antes atribuído aos livros desloca-se hoje para o computador e a documentação automática, passando a linguagem a ser governada pelo cálculo.
SISTEMAS DE CONTROLE
83. Linguagem, medida, número e cálculo são tão antigos quanto a humanidade, constituindo instrumentos que descrevem o mundo sem lhe pertencer nem ter ação direta sobre ele.
84. Ainda assim, graças a essas representações numéricas e verbais, os homens ordenam o universo e agem de modo infinitamente mais eficaz que os animais, sendo a linguagem instituidora do próprio mundo humano.
85. Aritmética e fala pertencem a uma classe de objetos que são simultaneamente mapas, ferramentas de transformação, organizadores sociais e fontes instituintes.
86. A escrita integra esse conjunto de operadores paradoxais, servindo tanto de registro da fala quanto de instância de julgamento desta, associando-se à emergência do Estado e inaugurando a história.
87. Um relógio, além de informar a hora, organiza e sincroniza o tempo social, constituindo um operador social fundamental que substitui os ritmos tradicionais por uma temporalidade uniforme e mensurável.
88. Como língua, aritmética, escrita e medida do tempo, a informática pertence ao grupo dos sistemas ideais de controle, transformando o trabalho, a comunicação e o conhecimento e instituindo uma nova era antropológica.
89. Tal como uma língua organiza a memória social, os computadores calculam, raciocinam, testam e regulam sobre toda sorte de códigos, sendo a essência do computador uma operação sobre o tempo à velocidade da luz.
90. A informática concentra e potencializa todos os sistemas ideais de controle que a precederam, multiplicando à velocidade da luz o feixe dos mais antigos poderes simbólicos da espécie humana.
A ERA PÓS-HISTÓRICA
91. Uma cultura se identifica menos a um estoque de crenças do que à reiteração contínua de um tipo particular de tratamento e transmissão da informação.
92. Distinguem-se as civilizações históricas das culturas pré-históricas pelo aparecimento da escrita, papel do modo de registro que se reflete também na constituição dos mitos nas sociedades orais.
93. A própria literatura é secretada pela reiteração contínua de operações simbólicas, sendo cada texto uma leitura de leituras anteriores que a escrita instaura em jogos explícitos de referência e diferença.
94. Assim como a escrita transpôs a cultura oral para um novo tempo, a informática recodifica os antigos conteúdos culturais para novos circuitos de tratamento e comunicação, erigindo-se em matriz cultural.
95. A informática constitui o ponto de articulação de uma cultura por operar em segundo grau, calculando recursivamente a otimização de procedimentos e atuando diretamente sobre a administração dos homens e a pesquisa científica.
96. Desde quatro séculos, a generalização da economia de mercado e o acoplamento entre ciência, técnica e indústria aceleraram o curso da história humana, sendo essa aceleração mantida pela informática no plano cultural do tratamento da informação.
97. Enquanto as línguas dividem os homens e os alfabetos os distinguem menos, os sistemas de tratamento automático da informação os reúnem absolutamente numa carga cultural universal e uniforme.
98. A civilização da informação operacional transmuta em algoritmos os conteúdos das culturas precedentes, subordinando-os a seus próprios fins e alimentando-se cada vez mais de dados captados diretamente por seus próprios sensores.
99. Medindo-se conjuntamente a nova temporalidade, o salto no tratamento das informações e a universalidade envolvida pela cultura informática, a comparação com a passagem da pré-história à história autoriza falar de uma entrada na era pós-histórica.
100. A nova constelação do cálculo orienta a aventura humana sem surgir como corpo estranho à sociedade, sendo antes um produto desta que a estrutura reciprocamente.
101. O estudo consagra-se justamente a esse movimento cultural de grande amplitude que carrega a informática, do qual os computadores constituem apenas o desfecho instrumental.
