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Atual-Virtual

LÉVY, Pierre. Qu’est-ce que le virtuel? Paris: La Découverte, 1998 / O que é o Virtual? Rio de Janeiro: Editora 34, 1996.

1. A oposição corrente entre real e virtual, que associa o real à existência tangível e o virtual à ausência de existência ou à ilusão, contém uma parcela de verdade mas é demasiado grosseira para fundamentar uma teoria geral.

2. Derivada do latim virtualis e de virtus, força ou potência, a noção filosófica de virtual designa o que existe em potência e tende a atualizar-se sem ainda ter se concretizado, opondo-se rigorosamente não ao real, mas ao atual.

3. Distinguem-se possível e virtual: o possível já está inteiramente constituído e apenas aguarda realização sem alteração de sua natureza, constituindo um real latente cuja diferença frente ao real é puramente lógica.

4. Diferentemente do possível estático, o virtual corresponde ao complexo problemático, ao nó de tendências e forças que acompanha uma entidade e demanda um processo de resolução chamado atualização, sendo essa problemática parte constitutiva da própria entidade.

  • a semente carrega em si o problema de fazer brotar a árvore, devendo coproduzi-la a partir de suas coerções próprias e das circunstâncias encontradas
  • a entidade tanto produz suas virtualidades quanto é constituída por elas, sendo o nó de tensões e questões parte essencial de sua determinação

A ATUALIZAÇÃO

5. A atualização constitui a solução inventiva de um problema, não contida previamente no enunciado, produzindo qualidades novas e um devir que realimenta o virtual, distinguindo-se assim da simples realização de um possível.

  • a execução lógica de um programa informático corresponde ao par possível/real, enquanto a interação entre humanos e sistemas informáticos corresponde à dialética entre virtual e atual
  • a redação de um programa trata originalmente de um problema, enquanto sua atualização em situação de uso desencadeia dinâmicas coletivas imprevistas
  • o real assemelha-se ao possível, ao passo que o atual não se assemelha ao virtual, mas lhe responde

A VIRTUALIZAÇÃO

6. A virtualização define-se como o movimento inverso da atualização, uma passagem do atual ao virtual que não desrealiza a entidade, mas desloca seu centro de gravidade ontológico da solução atual para um campo problemático mais geral.

7. A virtualização de uma empresa substitui a organização física fixa por uma rede de coordenação eletrônica, transformando as coordenadas espaço-temporais do trabalho num problema permanentemente reconfigurado, e não numa solução estável.

8. Enquanto a atualização parte de um problema rumo a uma solução, a virtualização parte de uma solução dada rumo a um novo problema, fluidificando distinções instituídas e configurando-se, tanto quanto a atualização, como vetor de criação de realidade.

NÃO ESTAR PRESENTE: A VIRTUALIZAÇÃO COMO ÊXODO

9. Retomando a intuição do senso comum de que o virtual frequentemente “não está presente”, aborda-se agora o desprendimento do aqui e agora como uma das principais modalidades da virtualização.

10. A empresa virtual dispersa seus elementos de modo nômade, tornando pouco pertinente sua localização geográfica precisa.

11. O texto, ao apresentar-se como atualização de um hipertexto de suporte informático desterritorializado e ubíquo, não possui lugar próprio, ainda que os acontecimentos de sua leitura e navegação sejam sempre localizados.

12. O tema do virtual como não presença, ilustrado pelo livro Atlas de Michel Serres, remete a vetores de virtualização anteriores à informatização (imaginação, memória, conhecimento, religião) e dialoga criticamente com a filosofia heideggeriana do ser-aí.

  • a etimologia latina de existir, a partir de sistere e do prefixo ex, sugere um sair de uma presença, em contraste com a ênfase alemã do Dasein sobre a atualização

13. Uma comunidade virtual organiza-se por afinidade de interesses e problemas por meio de sistemas telemáticos, prescindindo de um lugar de referência estável e reinventando uma cultura nômade de baixa inércia relacional.

14. Ao se virtualizarem, pessoas, coletividades, atos e informações desengatam-se do espaço físico e da temporalidade do relógio, sem se tornarem totalmente independentes de suportes físicos, submetendo a narrativa clássica de unidade de tempo e lugar a fenômenos de ubiquidade, simultaneidade e sincronização.

  • os coletivos mais desterritorializados da tecnociência, das finanças e dos meios de comunicação são também os que estruturam a realidade social com maior força

15. A transformação de uma coerção pesadamente atual, como a hora e a geografia, em variável contingente confirma a desterritorialização como uma das vias régias da virtualização.

NOVOS ESPAÇOS, NOVAS VELOCIDADES

16. Antes de examinar a abertura de novos meios de interação pela virtualização, evidencia-se a pluralidade constitutiva dos tempos e espaços, cada forma de vida e cada sistema de comunicação ou transporte instaurando seu próprio sistema de proximidades práticas.

17. Diferentes sistemas de registro e transmissão constroem ritmos e velocidades de história distintos, multiplicando os espaços contemporâneos e transformando os humanos em nômades que saltam entre redes, forçados a uma heterogênese constante.

18. A virtualização por desconexão em relação a um meio particular remonta à própria história da vida, sendo a invenção de novas velocidades de locomoção, segundo Joseph Reichholf, o primeiro grau da virtualização.

19. A aceleração das comunicações e o crescimento da mobilidade física constituem a mesma onda de virtualização, evidenciada pelo peso econômico crescente do turismo e das infraestruturas de deslocamento, sem que a comunicação venha a substituir o deslocamento físico.

20. Assim como a revolução dos transportes cobrou degradações do ambiente tradicional, cabe interrogar o preço subjetivo pago pela virtualização informacional, retendo que a virtualização não apenas acelera processos conhecidos ou suprime tempo e espaço, mas inventa velocidades e espaços-tempos qualitativamente novos.

O EFEITO MOEBIUS

21. Além da desterritorialização, associa-se à virtualização um efeito Moebius de passagem contínua entre interior e exterior, privado e público, próprio e comum, subjetivo e objetivo, mapa e território, autor e leitor.

22. No caso da empresa virtual, o teletrabalhador transforma seu espaço privado em espaço público e vice-versa, fractalizando as fronteiras entre essas noções e questionando também os próprios critérios de pertencimento à organização.

  • o continuum entre assalariado clássico, free lancer, consultor e independente fiel recoloca constantemente a questão de para quem se trabalha
  • a mutualização de recursos, informações e competências tece frequentemente ligações mais fortes entre coletivos mistos do que os vínculos formais dentro de uma mesma entidade jurídica

23. Por deslocar o ser para a questão, a virtualização põe em causa a identidade clássica fundada em definições e exclusões, configurando-se sempre como heterogênese e acolhimento da alteridade, a ser distinguida de seu contrário, a alienação reificante.

24. Essas noções serão desenvolvidas nos capítulos seguintes a partir de três casos concretos: as virtualizações contemporâneas do corpo, do texto e da economia.

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