Virtualização
LÉVY, Pierre. Qu’est-ce que le virtuel? Paris: La Découverte, 1998 / O que é o Virtual? Rio de Janeiro: Editora 34, 1996.
A LEITURA, OU A ATUALIZAÇÃO DO TEXTO
1. Desde suas origens mesopotâmicas o texto constitui um objeto virtual que se atualiza em múltiplas versões, sendo a leitura uma resolução inventiva e singular do problema do sentido proposto pelas coerções e tensões do texto, distinta de uma mera realização entre possibilidades preestabelecidas.
2. Ler ou escutar um texto implica, antes de tudo, negligenciar ou deslê-lo, uma vez que palavras e fragmentos não captados ou não compreendidos permanecem como brancos e lacunas no percurso da leitura.
3. Ao mesmo tempo que o rasga pela leitura, o leitor amarrota o texto, relacionando entre si passagens correspondentes e recosturando os membros dispersos do discurso.
4. As passagens do texto mantêm entre si uma correspondência virtual que o leitor atualiza seguindo ou desobedecendo as instruções do autor, do editor e do tipógrafo, podendo produzir dobras interditas e outras geografias semânticas.
5. O trabalho da leitura consiste em rasgar, amarrotar, torcer e recosturar o texto para abrir um meio vivo onde o sentido se desdobra, sendo o espaço do sentido fabricado e atualizado somente ao ser percorrido.
6. Ao dobrar o texto sobre si mesmo, o leitor relaciona-o também a outros textos, discursos, imagens e afetos, deslocando o foco da unidade textual para a construção sempre inacabada de si mesmo.
7. Do texto propriamente pouco resta ao final da leitura, restando quando muito um retoque nos modelos de mundo do leitor ou a ressonância de fragmentos com sua arquitetura mnemônica pessoal.
8. Escutar, olhar e ler equivalem finalmente a construir-se, servindo o texto de vetor ou pretexto à atualização do próprio espaço mental do leitor.
9. Alguns fragmentos do texto são confiados aos povos de signos que nomadizam internamente, contribuindo, independentemente das intenções do autor, para reatualizar o mundo de significações que constitui o leitor.
A ESCRITA, OU A VIRTUALIZAÇÃO DA MEMÓRIA
10. A análise da leitura textual estende-se a outros tipos de mensagens complexas, devendo o termo texto ser entendido no sentido geral de discurso elaborado ou propósito deliberado.
11. Sem que a palavra hipertexto tenha ainda aparecido explicitamente, as funções de hierarquizar, selecionar e conectar zonas de sentido a uma memória de fundo já correspondem às funções do hipertexto informático.
12. Uma tecnologia intelectual, ao exteriorizar e virtualizar uma função cognitiva, reorganiza a ecologia intelectual em seu conjunto e modifica a própria função que deveria apenas auxiliar, como testemunham as relações entre escrita e memória.
13. O aparecimento da escrita acelerou um processo de artificialização e virtualização da memória iniciado com a hominização, constituindo uma heterogênese e não um simples prolongamento de uma função viva.
14. A semiobjetivação da memória no texto escavou uma distância entre o saber e seu sujeito, permitindo o desenvolvimento de uma tradição crítica capaz de recolocar o saber em questão.
15. Ao dessincronizar e deslocalizar a comunicação, a escrita exigiu o refinamento das práticas interpretativas na leitura e a construção de enunciados autossuficientes na redação, favorecendo mensagens de critério universal.
16. Com a escrita, o alfabeto e a imprensa, os modos de conhecimento teóricos e hermenêuticos passaram a prevalecer sobre os saberes narrativos e rituais das sociedades orais, estruturando uma ecologia cognitiva fundada na escrita estática.
17. O texto contemporâneo, fluido e desterritorializado nas redes eletrônicas, reconstitui em escala superior a copresença da mensagem e de seu contexto vivo característica da comunicação oral, aproximando seus critérios da conversação.
A DIGITALIZAÇÃO, OU A POTENCIALIZAÇÃO DO TEXTO
18. O novo texto digital possui características técnicas ligadas a uma dialética do possível e do real, a serem precisadas.
19. Diferentemente do texto impresso, integralmente manifesto sobre o suporte físico, o suporte digital não contém um texto legível mas códigos que a tela traduz, apresentando-se como janela para uma reserva potencial.
20. O termo apropriado para essa reserva é potencial, e não virtual, pois o suporte mecânico da informática oferece apenas uma combinatória finita e logicamente fechada, jamais um campo problemático, sendo o armazenamento uma potencialização e a exibição uma realização.
21. Um hipertexto constitui uma matriz de textos potenciais dos quais alguns se realizam pela interação com o usuário, não havendo diferença lógica entre um texto possível da combinatória e um texto real exibido na tela.
22. O virtual só surge com a entrada da subjetividade humana no circuito, quando emergem simultaneamente a indeterminação do sentido e a propensão do texto a significar, tensão resolvida pela interpretação na leitura.
23. O leitor em tela é mais ativo que o leitor em papel, pois ler em tela implica, antes mesmo de interpretar, enviar um comando ao computador para realizar parcialmente o texto na superfície luminosa.
24. Considerado apenas como ferramenta de produção de textos clássicos sobre suporte fixo, o computador não difere ontologicamente de instrumentos anteriores, mas, considerado como matriz digital interativa, abre um novo universo de criação e leitura de signos.
25. Reduzir o computador a um instrumento a mais de produção sobre suporte fixo equivale a negar sua fecundidade cultural própria, ligada ao aparecimento de novos gêneros interativos.
26. O computador constitui essencialmente um operador de potencialização da informação, calculando a partir de um estoque de dados um número indefinido de manifestações visíveis, audíveis e tangíveis conforme a demanda dos usuários, sendo toda leitura em computador uma edição singular.
O HIPERTEXTO: VIRTUALIZAÇÃO DO TEXTO E VIRTUALIZAÇÃO DA LEITURA
27. Um ato de leitura constitui uma atualização das significações de um texto, enquanto a hipertextualização opera o movimento inverso, transformando o texto inicial em problemática textual, o que só permite falar propriamente de virtualização quando se consideram os acoplamentos entre humanos e máquinas.
28. Longe de constituírem fenômenos homogêneos, a potencialização e a virtualização do texto apresentam extrema diversidade decorrente da natureza da reserva digital inicial, do programa de consulta e do dispositivo de comunicação.
29. Um texto linear clássico, mesmo digitalizado, não é lido como um verdadeiro hipertexto nem como um sistema gerador automático de textos interativos.
30. O leitor estabelece com o programa de leitura e navegação uma relação mais intensa que com a tela propriamente, variando fortemente as operações intelectuais conforme as funções de pesquisa, vínculo e personalização oferecidas pelo programa.
31. O suporte digital permite ainda novos tipos de leitura e escrita coletivas, estendendo-se um continuum entre a leitura individual e a navegação em vastas redes anotadas por múltiplos participantes.
32. A passagem do texto atualizado ao hipertexto constitui uma virtualização que transforma o texto atual em uma das figuras possíveis de um campo textual móvel e reconfigurável, multiplicando as ocasiões de produção de sentido.
33. A invenção progressiva de espaços em branco, pontuação, parágrafos, sumários, índices e notas de rodapé compõe uma antiga aparelhagem de leitura artificial que estrutura os textos além de sua linearidade.
34. O hipertexto, a hipermídia e o multimídia interativo prolongam esse processo de artificialização da leitura, constituindo uma objetivação e exteriorização dos próprios processos humanos de leitura e interpretação.
35. Cabe indagar que diferença separa o sistema de leitura artificial já estabilizado nas páginas impressas do que se inventa hoje em suportes digitais.
36. Descrito por oposição ao texto linear, o hipertexto constitui-se de nós de informação e de ligações entre esses nós que efetuam a passagem de um a outro.
37. A leitura de uma enciclopédia clássica já é de tipo hipertextual, mas o suporte digital diferencia-se por permitir pesquisa e navegação em segundos e por associar sons, imagens e textos numa mesma mídia.
38. A digitalização introduz uma revolução copernicana na leitura, pois não é mais o navegador que se desloca fisicamente no hipertexto, mas o próprio texto que se torna móvel e caleidoscópico diante do leitor.
39. Segundo uma abordagem complementar, a hipertextualização tende à indistinção entre leitura e escrita, colocando em loop a intimidade do autor e a estranheza do leitor numa passagem contínua já presente, de outro modo, na leitura e na redação clássicas.
40. Do lado do leitor, definido o hipertexto como espaço de percursos possíveis, o navegador participa da redação ao determinar a organização final do texto que lê.
41. O navegador pode tornar-se autor de modo mais profundo ao participar da estruturação do hipertexto e criar novas ligações, sendo esses percursos por vezes reforçados ou enfraquecidos coletivamente pelos próprios sistemas de navegação.
42. Os leitores podem ainda modificar ligações e nós, conectando hiperdocumentos entre si, prática em pleno desenvolvimento na World Wide Web, que faz de todos os textos públicos partes de um mesmo hipertexto em crescimento.
43. Escrita e leitura trocam assim seus papéis, de modo que estruturar o hipertexto já é ler, e atualizar um percurso documental já é contribuir para uma escrita interminável, tornando toda leitura, a partir do hipertexto, um ato de escrita.
O CIBERESPAÇO, OU A VIRTUALIZAÇÃO DO COMPUTADOR
44. Antes de abordar a desterritorialização do texto, cabe evocar a virtualização do próprio computador, hoje dissolvido no ciberespaço como zona de trânsito de signos vetorizados.
45. A informática contemporânea desconstrói o computador enquanto máquina isolada para dar lugar a um espaço de comunicação navegável centrado nos fluxos de informação.
46. Componentes informáticos idênticos circulam entre marcas e dispositivos diversos, e um computador em rede pode recorrer às capacidades de outros computadores e aparelhos distantes, de modo que suas funções se tornam distribuídas e pulverizadas por todo o tecnocosmo, configurando-se um único computador universal, disperso e virtual: o próprio ciberespaço.
A DESTERRITORIALIZAÇÃO DO TEXTO
47. Na construção coletiva do hipertexto da World Wide Web, distinguem-se conceitualmente a reserva textual amorfa e endereçável, de um lado, e as estruturas subjetivas de percurso e vínculo que a organizam, de outro.
48. Cada indivíduo ou organização é incitado não apenas a aumentar o estoque textual mas também a propor um ponto de vista subjetivo sobre o conjunto, manifesto sobretudo nas ligações externas das home pages.
49. Como qualquer ponto do ciberespaço é diretamente acessível a partir de qualquer outro, tende-se a substituir cópias de documentos por ligações hipertextuais, bastando que o texto exista fisicamente uma única vez para integrar múltiplos percursos semânticos.
50. No mundo digital a distinção entre original e cópia perde pertinência, misturando-se as próprias noções de unidade, identidade e localização.
51. Vínculos hipertextuais podem remeter a dados atualizados em tempo real, de modo que o hipertexto, alimentado por captadores, nunca é duas vezes o mesmo, abrindo-se ao fluxo cósmico e à instabilidade social.
52. Os dispositivos hipertextuais desterritorializaram o texto, fazendo emergir um texto sem fronteiras nítidas nem interioridade definível, mais próximo do movimento do pensamento que das ideias imutáveis.
53. O texto continua subsistindo, mas a página, esse campo cercado de margens herdado da argila mesopotâmica, apaga-se lentamente sob a inundação informacional.
54. A digitalização estabelece um imenso plano semântico coletivamente produzido e retomado, movimento de desterritorialização ainda hoje contido pelas formas econômicas e jurídicas herdadas do período precedente.
55. A mesma análise vale para as imagens, reunidas virtualmente num único hiperícone sem limites, e para as músicas do ciberespaço, compostas a partir de bancos sonoros em polifonia ou cacofonia coletivas.
56. A interpretação já não remete exclusivamente à intenção de uma interioridade autoral, mas à apropriação singular de um navegador que solicita ao texto fazê-lo pensar aqui e agora, alimentado por sua virtualidade.
RUMO A UMA RESSURGÊNCIA DA CULTURA DO TEXTO
57. Consistindo a leitura em hierarquizar, selecionar e construir redes semânticas, as técnicas digitais de hipertextualização e navegação configuram uma virtualização técnica dos próprios processos de leitura.
58. A digitalização imprime ao texto e à leitura um novo impulso e uma profunda mutação, podendo-se imaginar que documentos impressos futuros sejam apenas projeções parciais de hipertextos online mais ricos, o que também sugere a possibilidade de novos sistemas de escrita explorando o suporte dinâmico, como anunciam ícones informáticos e simulações gráficas interativas.
59. Contrariamente ao anúncio do fim do escrito por certos profetas da desgraça, o texto digitalizado, fluido e não linear apenas se diferencia do impresso clássico sem extingui-lo.
60. Não devendo ser confundida com a imprensa, o papel ou a estrutura linear fechada, a cultura do texto encontra nas redes digitais um imenso desenvolvimento, como se a virtualização contemporânea desvelasse subitamente a própria essência do texto e sua aventura apenas começasse agora.
