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História das ideias

LOVEJOY, Arthur. The Great Chain of Being. Harvard: Harvard University Press, 1964.

INTRODUÇÃO: O ESTUDO DA HISTÓRIA DAS IDEIAS

1. Estas conferências constituem primariamente uma tentativa de contribuição à história das ideias, termo aqui empregado em sentido mais específico e menos restrito que o de história da filosofia, diferenciando-se sobretudo pelo caráter das unidades de que se ocupa.

  • embora trate em grande parte do mesmo material que os demais ramos da história do pensamento, divide esse material de modo especial, agrupando-o de novas maneiras a partir de propósito distintivo
  • seu procedimento inicial assemelha-se, com as devidas ressalvas, ao da química analítica: recorta os sistemas filosóficos rígidos e individuais, decompondo-os em elementos componentes, suas ideias-unidade

2. O corpo total de doutrina de qualquer filósofo ou escola é quase sempre agregado complexo e heterogêneo — composto instável, embora cada novo filósofo, geração após geração, costume esquecer essa verdade melancólica; um dos resultados da busca pelas ideias-unidade nesse composto é o senso mais vivo de que a maioria dos sistemas filosóficos é original antes em seus padrões que em seus componentes.

  • o número de ideias filosóficas ou motivos dialéticos essencialmente distintos é, como se diz do número de piadas realmente distintas, decididamente limitado, embora as ideias primárias sejam consideravelmente mais numerosas que as piadas primárias
  • a aparente novidade de muitos sistemas deve-se apenas à novidade na aplicação ou arranjo dos velhos elementos que os compõem, tornando-se a história, quando isso se percebe, coisa muito mais administrável

3. Não se pretende sustentar que concepções essencialmente novas jamais emerjam na história do pensamento, mas tais acréscimos de novidade absoluta parecem bem mais raros do que às vezes se supõe, sendo tarefa do historiador de ideias individuais penetrar através das dissimilaridades de superfície até os ingredientes lógicos, pseudológicos ou afetivos comuns por trás delas.

4. Esses elementos nem sempre, ou usualmente, correspondem aos termos que costumamos empregar para nomear as grandes concepções históricas da humanidade: há quem tenha tentado escrever histórias da ideia de Deus, e é bom que tais histórias existam, mas a ideia de Deus não é ideia-unidade.

  • o Deus de Aristóteles quase nada tinha em comum com o Deus do Sermão da Montanha, ainda que, por um dos paradoxos mais estranhos e momentosos da história ocidental, a teologia filosófica da cristandade os tenha identificado
  • a concepção aristotélica do ser a quem deu o nome mais honorífico que conhecia era mera consequência de certo modo de pensar mais geral, espécie de dialética não peculiar a ele mas altamente característica do pensamento grego e quase estranha à mente judaica antiga

5. É a essa ideia anterior, ao mesmo tempo mais fundamental e mais variadamente operante, que o historiador de ideias aplicaria seu método de investigação, interessando-se especialmente pelos fatores dinâmicos persistentes, as ideias que produzem efeitos na história do pensamento, e não tanto pela doutrina formulada, coisa por vezes relativamente inerte.

  • motivos e razões parcialmente idênticos podem contribuir para a produção de conclusões muito diversas, e as mesmas conclusões substantivas podem, em períodos ou mentes diferentes, ser geradas por motivos lógicos ou outros inteiramente distintos

6. Não é supérfluo observar também que as doutrinas ou tendências designadas por nomes familiares terminados em -ismo raramente são unidades do tipo que o historiador de ideias busca discriminar, constituindo antes compostos aos quais seu método analítico precisa ser aplicado.

  • idealismo, romantismo, racionalismo, transcendentalismo, pragmatismo — esses termos problemáticos e frequentemente obscurecedores do pensamento representam, em regra, não uma doutrina, mas várias doutrinas distintas e muitas vezes conflitantes
  • o termo “Cristianismo”, por exemplo, não é nome de unidade única do tipo que o historiador de ideias específicas procura, sendo antes série de fatos que, tomados em conjunto, quase nada têm em comum além do nome

7. É próprio e necessário que historiadores eclesiásticos escrevam livros sobre a história do Cristianismo, mas ao fazê-lo escrevem sobre série de fatos cuja unidade é largamente unidade de nome, sendo necessário romper a casca que mantém a massa unida para ver as unidades reais, as ideias efetivamente operantes.

8. Esses grandes movimentos e tendências, esses -ismos convencionalmente rotulados, não são via de regra os objetos últimos do interesse do historiador de ideias, mas apenas seu material inicial; de que tipo são então os elementos, as unidades dinâmicas primárias e recorrentes, que ele busca? São bastante heterogêneos, mencionando-se aqui alguns tipos principais.

Primeiro tipo: pressupostos implícitos

9. Há, primeiro, pressupostos implícitos ou incompletamente explícitos, hábitos mentais mais ou menos inconscientes operando no pensamento de um indivíduo ou geração — as crenças tão evidentes que são antes tacitamente pressupostas que formalmente expressas e argumentadas, os modos de pensar tão naturais e inevitáveis que não são escrutinados com olho de autoconsciência lógica.

  • há, por exemplo, diferença praticamente muito importante entre os esprits simplistes, mentes que habitualmente supõem soluções simples para os problemas com que lidam, e as habitualmente sensíveis à complexidade geral das coisas
  • os representantes do Iluminismo dos séculos XVII e XVIII eram manifestamente caracterizados, em grau peculiar, pela presunção de simplicidade, sendo em grande medida época de esprits simplistes, com consequências práticas das mais momentosas

10. A suposição de simplicidade combinava-se, em algumas mentes, com certo senso da complexidade do universo e consequente depreciação dos poderes do entendimento humano, o que a princípio pareceria inteiramente incongruente com ela, mas na realidade não era.

  • uma das peças retóricas edificantes favoritas do período era o alerta de Pope contra a presunção intelectual, indagando se um coração pervasivo poderia olhar através de toda a estrutura, seus laços e dependências, ou se uma parte poderia conter o todo
  • essa pose de modéstia intelectual foi característica quase universalmente prevalente do período, trazida à moda talvez mais por Locke que por qualquer outro

11. Locke insistia que o homem deve tornar-se habitualmente consciente das limitações de seus poderes mentais, contentando-se com aquele “entendimento relativo e prático” que é o único órgão de conhecimento que possui, podendo os homens encontrar matéria suficiente para ocupar suas cabeças sem se queixar da estreiteza de suas mentes.

12. Mas embora esse tom de crescente diferença, essa modéstia ostentosa no reconhecimento da desproporção entre o intelecto humano e o universo, fosse uma das modas intelectuais mais prevalentes de boa parte do século XVIII, frequentemente se acompanhava de presunção extrema quanto à simplicidade das verdades necessárias ao homem e a seu alcance.

  • “Simplicidade, nobilíssimo ornamento da verdade”, escreveu John Toland caracteristicamente, sendo para ele e muitos de seu tempo a simplicidade quase atributo necessário de qualquer concepção que estivessem dispostos a aceitar como verdadeira
  • quando Pope exortou seus contemporâneos a “Conhece-te, pois, a ti mesmo! Não presumas sondar a Deus! O próprio estudo da humanidade é o homem”, implicava também que o homem é entidade razoavelmente simples

13. Supondo a natureza humana coisa simples, o Iluminismo também, em regra, supunha simples os problemas políticos e sociais, e portanto fáceis de resolver: livrar a mente do homem de alguns erros antigos, purgar suas crenças das complicações artificiais dos “sistemas” metafísicos, e sua excelência natural se realizaria.

  • as duas tendências mencionadas provavelmente remontam a raiz comum: a limitação do alcance da atividade do interesse humano era ela mesma manifestação de preferência por esquemas simples de ideias
  • quando se passa ao Período Romântico, encontra-se o simples tornando-se objeto de suspeita e mesmo detestação, sendo o que Friedrich Schlegel caracteristicamente chamou eine romantische Verwirrung a qualidade mais valorizada em temperamentos, poemas e universos

Segundo tipo: motivos dialéticos

14. Essas suposições endêmicas, esses hábitos intelectuais, são frequentemente de tipo tão geral e vago que podem influenciar o curso das reflexões do homem sobre quase qualquer assunto; classe de ideias de tipo aparentado pode ser chamada de motivos dialéticos.

  • pode-se encontrar muito do pensamento de indivíduo, escola ou geração dominado por certa virada de raciocínio, artifício de lógica, suposição metodológica, que se explícita equivaleria a proposição ampla e importante em lógica ou metafísica
  • coisa que constantemente reaparece, por exemplo, é o motivo nominalista — a tendência, quase instintiva em alguns homens, a reduzir o significado de todas as noções gerais a enumeração dos particulares concretos e sensíveis que caem sob essas noções

15. Isso se mostra em campos bastante remotos da filosofia técnica, e em filosofia aparece como determinante em muitas outras doutrinas além daquelas costumeiramente rotuladas nominalismo; grande parte do pragmatismo de William James testemunha a influência desse modo de pensar sobre ele, embora no pragmatismo de Dewey desempenhe papel muito menor.

  • há também o motivo organísmico, o hábito de supor que, havendo complexo de um tipo ou outro, nenhum elemento desse complexo pode ser compreendido, ou pode de fato ser o que é, à parte suas relações com todos os demais componentes do sistema a que pertence

Terceiro tipo: susceptibilidades ao pathos metafísico

16. Outro tipo de fator na história das ideias pode ser descrito como susceptibilidades a diversas espécies de pathos metafísico, causa influente na determinação de modas filosóficas e tendências especulativas tão pouco considerada que não encontra nome reconhecido.

  • o 'pathos metafísico' exemplifica-se em qualquer descrição da natureza das coisas, qualquer caracterização do mundo a que se pertence, em termos que, como as palavras de um poema, despertam através de suas associações um tom de sentimento congenial ao filósofo ou seus leitores
  • para muita gente, a leitura de um livro filosófico costuma ser apenas forma de experiência estética, mesmo tratando-se de escritos aparentemente destituídos de todo encanto estético externo

17. Há, em primeiro lugar, o pathos da pura obscuridade, a beleza do incompreensível, que tem, receio, servido bem a muitos filósofos junto a seu público, ainda que inocentes de pretender tal efeito; a frase omne ignotum pro mirifico explica concisamente boa parte da voga de várias filosofias.

  • aparentado a isso está o pathos do esotérico: quão excitante e bem-vinda é a sensação de iniciação em mistérios ocultos! E quão eficazmente certos filósofos — notadamente Schelling e Hegel há um século, e Bergson em nossa própria geração — satisfizeram esse anseio humano
  • M. Rageot declara que, a menos que se renasça em certo sentido, não se pode adquirir aquela intuition philosophique que é o segredo do novo ensinamento; M. Le Roy escreve sobre o véu que se rasga subitamente diante da mente do leitor de Bergson

18. Esses dois tipos de pathos inerem menos aos atributos que dada filosofia atribui ao universo do que aos atributos que atribui a si mesma — ou que seus devotos lhe atribuem; devem-se dar, por isso, alguns exemplos de pathos metafísico em sentido mais estrito.

  • variedade potente é o pathos eternalista, o prazer estético que a mera ideia abstrata de imutabilidade nos proporciona, bem conhecido dos grandes poetas filosóficos, ilustrado pelos versos familiares do Adonais de Shelley: “O Um permanece, os muitos mudam e passam”
  • não é evidente por si mesmo que permanecer para sempre inalterado deva ser considerado excelência, mas através das associações que a mera concepção de imutabilidade desperta, uma filosofia que fala de realidade sem variação encontra ressonância em nossas naturezas emocionais

19. Os versos de Shelley exemplificam também outra espécie de pathos metafísico, muitas vezes conjugada à anterior — o pathos monista ou panteísta; que dizer que Tudo é Um proporcione a tanta gente satisfação peculiar é, como observou James, coisa bastante intrigante, não havendo nada mais belo ou venerável no numeral um que em qualquer outro número.

  • psicologicamente, a força do pathos monista torna-se em certo grau inteligível quando se considera a natureza das respostas implícitas que a fala sobre unidade produz: proporciona, por exemplo, bem-vinda sensação de liberdade, triunfo sobre as incômodas cisões das coisas
  • quando filosofia monista declara que somos parte da Unidade universal, libera-se todo um complexo de respostas emocionais obscuras, capaz de dissolver o cansativo senso de personalidade separada

20. Distinto do pathos monista é o voluntarista, embora Fichte e outros tenham conseguido uni-los: aqui é a resposta de nossa natureza ativa e volitiva que se desperta pelo caráter atribuído ao universo total com o qual nos sentimos consubstanciais.

  • tudo isso nada tem a ver com a filosofia como ciência, mas tem muito a ver com a filosofia como fator histórico, pois não foi principalmente como ciência que a filosofia atuou na história
  • a susceptibilidade a diferentes espécies de pathos metafísico desempenha grande papel tanto na formação de sistemas filosóficos quanto na causação parcial da voga e influência de diferentes filosofias entre grupos ou gerações

Quarto tipo: semântica filosófica

21. Outra parte da tarefa do historiador de ideias, se pretende reconhecer os fatores genuinamente operantes nos grandes movimentos de pensamento, é indagação que se pode chamar semântica filosófica — estudo das palavras e frases sagradas de um período ou movimento, visando esclarecer suas ambiguidades.

  • é em grande parte por causa de suas ambiguidades que as meras palavras são capazes dessa ação independente como forças na história; um termo, uma frase, que ganha aceitação porque um de seus significados é congenial às crenças prevalecentes, pode ajudar a alterá-las
  • a palavra 'natureza' é, nem é preciso dizer, o exemplo mais extraordinário disso, e o tema mais fecundo para as investigações da semântica filosófica

Quinto tipo: o princípio específico em estudo

22. O tipo de 'ideia' com que nos ocuparemos é, contudo, mais definido e explícito, portanto mais fácil de isolar e identificar com confiança que os anteriormente mencionados: consiste em proposição ou 'princípio' específico único, expressamente enunciado pelo mais influente dos primeiros filósofos europeus, junto com proposições ulteriores supostas ser seus corolários.

  • essa proposição foi tentativa de resposta a questão filosófica que era natural ao homem formular, revelando afinidade lógica natural com outros princípios originalmente avançados na reflexão sobre questões bastante diferentes, que consequentemente se aglutinaram a ela

O método: rastreamento através das províncias do pensamento

23. Em segundo lugar, qualquer ideia-unidade que o historiador assim isole, ele busca em seguida rastrear através de mais de uma — em última análise, através de todas — as províncias da história em que figura em grau importante, sejam elas chamadas filosofia, ciência, literatura, arte, religião ou política.

  • o postulado de tal estudo é que o funcionamento de dada concepção precisa, para ser plenamente compreendido, ser rastreado conectadamente através de todas as fases da vida reflexiva dos homens em que essas operações se manifestam
  • a jardinagem paisagística, por exemplo, parece tópico bastante remoto da filosofia; contudo, em certo ponto, sua história torna-se parte de qualquer história verdadeiramente filosófica do pensamento moderno

24. A voga do chamado “jardim inglês”, que se espalhou tão rapidamente pela França e Alemanha depois de 1730, foi, como mostraram M. Mornet e outros, a ponta fina da cunha do Romantismo, ou de um tipo de Romantismo, sendo o Deus do século XVII, como seus jardineiros, sempre geometrizante, ao passo que o Deus do Romantismo era aquele em cujo universo as coisas cresciam selvagens e sem poda.

  • a preferência pela irregularidade, a aversão ao inteiramente intelectualizado, o anseio por échappées em distâncias enevoadas fizeram sua primeira aparição moderna em grande escala no início do século XVIII sob a forma da nova moda em jardins de prazer

25. Embora a história das ideias seja, nesse sentido, tentativa de síntese histórica, isso não significa que seja mero conglomerado, e menos ainda que aspire a unificação abrangente de outras disciplinas históricas; ocupa-se apenas de certo grupo de fatores na história, e apenas na medida em que se pode vê-los operar naquilo comumente considerado divisões separadas do mundo intelectual.

  • a realização mesmo parcial de tal programa faria muito para dar pano de fundo unificador necessário a muitos fatos hoje desconectados, ajudando a abrir portões nas cercas erguidas entre departamentos como os de filosofia e literaturas modernas

26. A maioria dos professores de literatura talvez admitisse prontamente que ela deve ser estudada sobretudo por seu conteúdo de pensamento, sendo o interesse da história da literatura em grande parte como registro do movimento das ideias que afetaram a imaginação, emoções e comportamento dos homens.

  • as ideias na literatura reflexiva séria são, naturalmente, em grande parte ideias filosóficas diluídas, crescimentos de sementes espalhadas por grandes sistemas filosóficos que talvez tenham deixado de existir
  • mas, por falta de treinamento adequado em filosofia, estudantes e mesmo eruditos historiadores de literatura frequentemente não reconhecem tal ideia quando a encontram, felizmente condição que rapidamente se altera para melhor

27. Por outro lado, os que investigam ou ensinam a história da filosofia às vezes têm pouco interesse numa ideia quando ela não veste trajes filosóficos completos, propensos a desconsiderar seus desdobramentos ulteriores nas mentes do mundo não filosófico; mas o historiador de ideias, embora frequentemente busque a emergência inicial de uma concepção em sistema filosófico ou religioso, buscará suas manifestações mais significativas na arte e sobretudo na literatura.

  • como disse Whitehead, “é na literatura que a perspectiva concreta da humanidade recebe sua expressão”; é distinguindo e analisando primeiro as ideias maiores que reaparecem repetidamente, observando cada uma como unidade recorrente em muitos contextos, que melhor se ilumina o pano de fundo filosófico da literatura

Terceiro princípio: contra a departamentalização por nacionalidades

28. Terceiro: em comum com o chamado estudo da literatura comparada, a história das ideias expressa protesto contra as consequências frequentemente resultantes da divisão convencional dos estudos literários e outros históricos por nacionalidades ou línguas.

  • há razões boas e óbvias para que a história de instituições e movimentos políticos se divida por linhas nacionais, mas mesmo esses ramos ganharam em precisão através do reconhecimento crescente da necessidade de investigar eventos num país para compreender as causas reais de eventos noutro
  • o esquema de divisão existente é em parte acidente histórico, sobrevivência da época em que a maioria dos professores de literaturas estrangeiras eram primariamente mestres de idiomas

29. Assim que o estudo histórico da literatura é concebido como investigação minuciosa de qualquer processo causal, deve inevitavelmente desconsiderar fronteiras nacionais e linguísticas, pois nada é mais certo que grande proporção dos processos a investigar desconsidera essas linhas.

  • havia sem dúvida, no geral, mais em comum, em ideias fundamentais, gostos e temperamento moral, entre um inglês educado típico e um francês ou italiano do final do século XVI do que entre um inglês daquele período e um inglês dos anos 1730, 1830 ou 1930
  • como disse Friedrich Schlegel há muito tempo: as partes regionais da poesia moderna, arrancadas de seu contexto e consideradas como todos individuais e autônomos, são inexplicáveis, só ganhando sustentação e significado umas através das outras

Quarto princípio: as ideias no pensamento coletivo

30. Quarto: outra característica do estudo da história das ideias, tal como se deseja aqui definir, é que se ocupa especialmente das manifestações de ideias-unidade específicas no pensamento coletivo de grandes grupos de pessoas, não apenas nas doutrinas de pequeno número de pensadores profundos.

  • busca investigar os efeitos desses fatores isolados nas crenças, preconceitos, devoções, gostos, aspirações correntes entre as classes educadas ao longo de toda uma geração, ou muitas gerações
  • é, em suma, mais interessado em ideias que alcançam ampla difusão, que se tornam parte do acervo de muitas mentes — característica que frequentemente intriga estudantes nos departamentos de literatura atuais

31. Alguns estudantes sentem-se repelidos ao serem chamados a estudar escritor cuja obra, como literatura, está hoje morta, ou tem valor extremamente ligeiro segundo os padrões estéticos presentes; mas se o historiador da literatura deve ocupar-se de tais questões, o escritor menor pode ser tão importante quanto — muitas vezes mais importante que — os autores hoje considerados obras-primas.

  • disse o Professor Palmer, com igual verdade e felicidade: “As tendências de uma época aparecem mais distintamente em seus escritores de categoria inferior do que nos de gênio dominante”
  • a compreensão histórica mesmo dos poucos grandes escritores de uma época é impossível sem conhecimento de seu pano de fundo geral na vida intelectual e valorações morais e estéticas comuns daquela época

Quinto princípio: os processos de mudança intelectual

32. Finalmente, é parte da tarefa eventual da história das ideias aplicar seu próprio método analítico distintivo na tentativa de compreender como novas crenças e modas intelectuais são introduzidas e difundidas, ajudando a elucidar o caráter psicológico dos processos pelos quais mudanças na voga das ideias ocorrem.

  • a esse ramo amplo, difícil e importante da interpretação histórica, o método aqui discutido só pode dar uma contribuição entre muitas, mas contribuição necessária, pois o processo dificilmente se torna inteligível antes de discriminadas as naturezas das ideias separadas que nele figuram como fatores

O programa das conferências

33. Estas conferências pretendem exemplificar, em pequena medida, esse tipo de investigação histórico-filosófica, discriminando não uma ideia única e simples, mas três ideias tão estreita e constantemente associadas, ao longo da maior parte da história ocidental, que frequentemente operaram como unidade, produzindo concepção conjunta expressa por termo único: “a Grande Cadeia do Ser”.

  • o exemplo será necessariamente inadequado, mesmo como tratamento do tópico específico escolhido, restrito não só por limitações de tempo mas pela insuficiência do conhecimento do conferencista
  • ainda assim, tentaremos rastrear essas ideias até suas fontes históricas nas mentes de certos filósofos, observar sua fusão, notar algumas de suas influências mais importantes em muitos períodos e campos diversos, e talvez, ao fim, extrair uma moral filosófica do relato

Três advertências

34. A primeira advertência relaciona-se ao próprio programa esboçado: o estudo da história das ideias está cheio de perigos e armadilhas, tendo seu excesso característico, pois, visando à interpretação e unificação, pode facilmente degenerar em espécie de generalização histórica meramente imaginativa.

  • porque o historiador de uma ideia é compelido, pela natureza de seu empreendimento, a reunir material de vários campos de conhecimento, fica inevitavelmente sujeito, em ao menos algumas partes de sua síntese, aos erros que espreitam o não especialista

35. As outras advertências dirigem-se aos ouvintes: nosso plano de procedimento exige que tratemos apenas de parte do pensamento de qualquer filósofo ou época, não devendo essa parte jamais ser confundida com o todo, nem confinaremos nossa visão somente às três ideias conectadas que são o tema do curso.

  • sua significação filosófica e operação histórica só podem ser compreendidas por contraste, sendo a história a ser contada em grande parte história de conflito entre essas ideias e série de concepções antagônicas, algumas delas seus próprios descendentes
  • nada do que se disser deve ser interpretado como exposição abrangente de qualquer sistema doutrinário ou das tendências de qualquer período

36. Finalmente, é evidente que, ao tentar relatar assim a biografia de uma única ideia, faz-se pesada exigência à catolicidade dos interesses intelectuais dos ouvintes, sendo obrigatório considerar episódios na história de várias disciplinas geralmente supostas ter pouco em comum entre si.

  • a história das ideias não é, portanto, assunto para mentes altamente departamentalizadas, sendo perseguida com certa dificuldade numa época de mentes departamentalizadas
  • pressupõe também interesse pelos funcionamentos do pensamento humano no passado mesmo quando estes são, ou parecem a muitos de nossa geração ser, equivocados, confusos ou mesmo absurdos

37. A história da filosofia e de todas as fases da reflexão humana é, em grande parte, história de confusões de ideias, não sendo exceção a essa regra o capítulo aqui examinado, o que a alguns de nós não a torna menos interessante nem menos instrutiva por isso.

  • sendo o homem, para bem ou para mal, por natureza e pelo impulso mais distintivo de sua natureza, animal reflexivo e interpretativo, sempre buscando rerum cognoscere causas, o registro das reações de seu intelecto sobre os fatos brutos de sua existência sensível constitui parte essencial da história natural da espécie que a si mesma nomeou, um tanto lisonjeiramente, homo sapiens

38. Embora a busca humana de inteligibilidade na natureza e em si mesmo frequentemente, como a busca de alimento do rato enjaulado, não tenha encontrado fim, perdida em labirintos errantes, mesmo os erros iluminam a natureza peculiar, os anseios, as dotações e as limitações da criatura que neles incorre.

  • podem também servir para lembrar-nos que os modos dominantes de pensamento de nossa própria época, que alguns entre nós tendem a considerar claros, coerentes, firmemente fundamentados e finais, dificilmente parecerão aos olhos da posteridade possuir qualquer desses atributos
  • pois embora tenhamos mais informação empírica à disposição, não temos mentes diferentes ou melhores, sendo, afinal, a ação da mente sobre os fatos que constitui tanto a filosofia quanto a ciência — e, em grande parte, constitui os próprios 'fatos'

39. Aqueles que não se importam com a história natural do homem em sua atividade mais característica, que não têm curiosidade nem paciência para seguir o funcionamento de outras mentes procedendo de premissas que não compartilham, devem em justiça ser advertidos de que grande parte da história aqui contada lhes será sem interesse.

  • por outro lado, é justo advertir também que, sem familiaridade com essa história, nenhuma compreensão do movimento do pensamento no Ocidente, na maioria de suas províncias principais, é possível
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