Cálculo absoluto de todas as coisas
MILET, Jean-Philippe. L’Absolu Technique. Heidegger et la question de la technique. Paris: Editions Kimé, 2000.
** A questão da técnica como questão do “cálculo absoluto de todas as coisas” **
1. A sabedoria do jardineiro de Goethe, segundo a qual se pode forçar a natureza (Natur) mas não a constranger, remete à experiência grega da técnica (techne), em que a arte trabalha “segundo a natureza” (physis) e pressupõe potencialidades já pré-existentes e pré-dadas no material a ser trabalhado.
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O exemplo aristotélico do carpinteiro mostra que a produção técnica deve ajustar-se ao coup d'oeil que discerne antecipadamente as potencialidades latentes de um material singular, e não de um material genérico.
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A techne se distingue do mero “ofício” (métier) porque reside nesse olhar inicial que orienta e ordena as etapas da fabricação, apoiando-se numa potência pré-técnica e preexistente que a antecede e sustenta, designada pelos gregos como physis.
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Physis nomeia a dimensão do já-aí, da presença daquilo que advém a partir de si e em vista de si mesmo, distinguindo o que existe “por natureza” (physei), cuja origem do movimento está em si próprio, daquilo que é produzido pela arte, cuja origem do movimento está em outra coisa.
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A produção técnica revela essas formas latentes fazendo-as sair de sua reserva, processo que os gregos nomeiam aletheia, o que supõe o reconhecimento de uma potência própria da coisa, manifesta à vista “técnica”, ou seja, o reconhecimento da physis.
2. Essa interpretação da relação entre techne e physis é a de Heidegger, para quem os gregos transmitiram, a seu próprio insu, que a técnica se funda no desvelamento (Entbergen), o que faz da techne não apenas um saber fabricador, mas uma “visão constante além do subsistente”, submetida à facticidade de uma dimensão de presença.
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A fidelidade heideggeriana à palavra grega não visa restaurar a experiência grega da técnica, mas tomar a medida do que ocorreu com a modernidade, quando Descartes concebeu seu método como instrumento de uma vontade de tornar o homem “como que senhor e possuidor da natureza”.
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A natureza passa a preexistir à operação técnica apenas como “fundo disponível para um cálculo” (Bestand), sendo o cálculo entendido não como mera quantificação, mas como “colocação em ordem” (Ordnung) da totalidade do real, um “cálculo absoluto (unbedingt) de todas as coisas”.
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Essa absolutização do cálculo é pensada por Heidegger, anos mais tarde, sob os títulos de “provocação” (Herausfordern) e “arrasamento” ou “dispositivo” (Gestell), invertendo a prioridade ontológica grega ao subordinar a potência da natureza à construção do projeto, e não o inverso.
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O exemplo do ar requisitado para o fornecimento de azoto, do solo para o minério, do minério para o urânio e deste para a energia atômica ilustra a requisição generalizada (Bestellen) que inscreve toda coisa num plano técnico único, fazendo da técnica o “nexo mesmo da existência”.
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Apreendido em sua unidade e totalidade, esse nexo técnico não depende de nenhuma condição estranha à ordem da produção técnica, configurando-se como “absoluto técnico”, que não reconhece limite algum vindo de condições “naturais” anteriores à operação técnica.
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A medicina exemplifica essa mutação ao deixar de se determinar como arte de curar regulada por uma potência de viver que se manifestaria physei, para visar a produção técnica das próprias condições dessa potência, como testemunham os avanços na interpretação dos mecanismos genéticos do envelhecimento.
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O que se vê atingido, com espanto de Heidegger, é a essência mesma da vida em sua doação pré-técnica, sua facticidade, e, no caso do homem, a existência em sua finitude, recebida e não escolhida, da qual porém a responsabilidade incumbe ao existente.
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Nos anos sessenta, os desenvolvimentos cruzados da cibernética (Kybernetik) e da biologia molecular inspiram a Heidegger prognósticos sombrios quanto à ameaça que a técnica representa para uma abertura não violenta do homem à presença, para uma habitação poética capaz de “deixar ser” ou “deixar vir”, culminando na afirmação de 1966 de que já não se vive senão de condições técnicas.
3. Cabe interrogar se a técnica possui de fato o poder de se separar inteiramente da ordem natural, pois pensar uma artificialidade técnica totalmente desligada de toda “presença” equivaleria a afirmar que a natureza “não é”, esvaziando de sentido a própria referência a ela.
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Heidegger afirma ao mesmo tempo a possibilidade de uma técnica desligada da potência produtora da physis e a impensabilidade dessa mesma possibilidade, o que constitui o motivo da “salvação” (Rettung) e do “salvo” (das Heile), da “virada” (Kehre), evento pelo qual o projeto do cálculo absoluto se recurvaria em direção à terra.
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Tal recurvamento encontraria sua medida, isto é, seu limite, na rigidez inflexível de uma potência mais inicial, a da physis, que permanece intacta por estar subtraída ao domínio técnico, dita “salva” ou, por vezes, “sagrada”, impondo sua medida ao desdobramento da potência técnica sem restaurar a experiência grega da techne, mas antes preservando o poder próprio de cada coisa anterior a todo projeto, construção ou técnica, o que Heidegger nomeia como aménager (dispor, preparar) uma possibilidade de mundo.
4. A reviravolta não equivale a um retorno, de modo que não é possível saltar por sobre a própria época tampouco sobre a própria sombra, o que impede libertar-se das condições modernas do desdobramento da técnica, isto é, da potência do cálculo, para restaurar a experiência grega da techne, colocando-se então a questão de saber se o absoluto técnico deve ser pensado em correspondência com uma dimensão de presença que o precede, ou como uma produção cuja artificialidade o desligaria (absolvere) de toda presença.
5. Essa questão atravessa e sustenta o pensamento de Heidegger, de modo que é a partir do sítio desse pensamento que ela deve ser desdobrada, e inversamente, é a partir dela, seguida como fio condutor, que se explicita o pensamento heideggeriano da técnica, impondo-se contudo, previamente, a consideração de uma dificuldade: Heidegger uniu a questão da técnica à questão do ser (Sein), mas separou a questão do ser da questão do absoluto, uma vez que é o fundamento que é absoluto, não sendo o ser um fundamento, o que torna necessário perguntar em que sentido é legítimo nomear “absoluto técnico” aquilo que Heidegger dá a pensar.
