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Pretensão ontológica da matemática

(MILET, Jean-Philippe. L’Absolu Technique. Heidegger et la question de la technique. Paris: Editions Kimé, 2000:49)

Por que, pergunta J. Beaufret, os chineses, que inventaram a pólvora, não a transformaram no princípio da artilharia? Não foi por falta de capital, mas porque eles “não eram homens da técnica no sentido da techne dos gregos”. Da techne dos gregos à técnica, há um salto: “O que até então tinha seu princípio em uma simpatia inventiva em relação às forças naturais e, por isso, se enquadrava no ‘instinto mecânico’ tão bem celebrado por Voltaire, cede agora lugar a uma relação totalmente diferente com a mesma natureza.” Essa relação se concretiza no projeto cartesiano do método, que considera o todo do ser como objetivável e calculável, e cuja possibilidade, revelada pelo próprio Descartes, é a de nos “tornar senhores e possuidores da Natureza”. O método é, por essência, o “projeto matemático da natureza”. Por meio do desdobramento da técnica moderna, é a “pretensão matemática” que deve ser reconhecida.

O matemático caracteriza-se por sua pretensão ontológica de determinar toda abertura possível sobre o ser. Em eco às análises de *O que é uma coisa?*, a palestra sobre “a questão da técnica” apresenta a técnica moderna como um desvendamento, que se realiza por meio da provocação — que insta a natureza a entregar sua energia — e da apropriação, que a apresenta como um conjunto de forças calculáveis. É por meio de sua oposição à experiência grega da técnica como poiesis que Heidegger destaca a essência do desvendamento moderno. É, portanto, necessário acompanhar o movimento da Análise sobre as duas experiências — grega e moderna — do desvendamento, para obter uma primeira visão sobre a técnica como domínio do matemático. Em um segundo momento, convém deter-se no sentido dessa pretensão matemática que se deixa pressentir a partir da realidade técnica. Se é verdade que o método remete a um projeto totalmente diferente do “instinto mecânico”, deve-se concluir que não há nenhuma afinidade entre a techne e o matemático? Da mesma forma, a possibilidade de uma artilharia já se anunciava na techne; a racionalidade moderna, diz Heidegger em O Princípio da Razão, “incuba-se” no poema de Parmênides e, mais precisamente, na co-pertença do pensamento e do Ser. A techne dos gregos e a técnica moderna estão compreendidas na unidade de um destino: a erecção de uma estátua e a produção industrial moderna participam igualmente, embora de maneira diferente, do “stellen”, da instalação, cujos modos podem ser reunidos na unidade do “Gestell”. Essa possibilidade está inscrita na essência do matemático? Desdobrar concretamente a pretensão matemática implica, por fim, avaliar a possibilidade de fazer da matemática um fio condutor que guie uma compreensão concreta dos funcionamentos técnicos.

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