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pensadores:milet:matematico-tecnica

Matemático e Técnica

(MILET, Jean-Philippe. L’Absolu Technique. Heidegger et la question de la technique. Paris: Editions Kimé, 2000:47)

** III. O caráter matemático dos funcionamentos técnicos **

** 1. A essência matemática do utensílio **

** 1.1. O utensílio considerado em si mesmo **

1. A emergência do matemático deve ser procurada no próprio núcleo da utensilidade, pois o uso do ente disponível pressupõe uma afinidade originária entre o utensílio e a mão, constituída por um saber pré-teórico capaz de discernir, avaliar e antecipar.

  • O disponível torna-se acessível primeiramente como Zeug, isto é, como utensílio pertencente ao domínio dos pragmata.
  • A utilização mobiliza uma visão prática e experiente que acompanha continuamente a aprendizagem dos usos.

2. O utensílio define-se essencialmente como algo feito para determinada utilização, sendo inseparável a unidade concreta entre seu suporte material e sua função.

  • A função não constitui propriedade acidental acrescentada a um objeto previamente existente.
  • Um martelo incapaz de martelar somente poderia ser chamado martelo por homonímia.
  • O utensílio somente aparece como tal no interior de uma rede de remissões que forma um complexo instrumental.

3. As diferentes modalidades do ser feito para, como a serventia, a contribuição, a destinação, a empregabilidade e a manejabilidade, constituem uma totalidade instrumental estruturada pela remissão de uma coisa a outra.

4. A dimensão ontológica do utensílio manifesta-se porque sua função pressupõe uma multiplicidade de remissões previamente desvelada, na qual se incluem outros utensílios, o espaço de utilização e, em última instância, uma modalidade do ser-no-mundo.

  • Um instrumento de escrita somente aparece como tal em conexão com a tinta, o papel, a mesa, o mobiliário, o cômodo e a habitação.
  • A totalidade instrumental participa antecipadamente da definição da função do utensílio.
  • O complexo de remissões não precisa ser contemplado tematicamente para orientar o uso.
  • A habitação encontra-se compreendida por uma visão prática própria, distinta da observação teórica.

5. Aprender a manejar um utensílio não consiste apenas em conhecer aquilo para que ele serve, mas em apropriar-se do complexo instrumental previamente compreendido que torna sua função acessível.

6. A visão de conjunto revela a dimensão ontológica do utensílio porque manifesta a orientação prévia do Dasein perante os entes e a compreensão pré-ontológica que sustenta seu uso.

  • A visão de conjunto avalia tarefas, possibilidades e obstáculos dentro de um contexto pragmático.
  • A utilidade do utensílio depende de suas conexões com outros instrumentos, de seus usos possíveis e da rede de remissões à qual pertence.
  • A obra realizada incorpora toda a rede referencial em que o utensílio se apresenta.
  • A conexão entre tarefas, usos estabelecidos e prescrições desvela previamente um horizonte de existência.
  • A avaliação prática submete-se a um contexto de usos já antecipadamente compreendido.

7. A visão de conjunto que procura, experimenta e reflete no interior da rede de remissões possui o caráter de explicitação hermenêutica pré-judicativa, diferindo da explicitação apofântica que isola a coisa para enunciá-la.

  • O juízo procura evidenciar a constituição de ser da coisa, mas a separa de suas remissões práticas.
  • A transformação do utensílio em objeto de enunciado neutraliza o contexto referencial e a familiaridade própria de seu uso.
  • Na explicitação hermenêutica, utensílios, usos e possibilidades de existência permanecem integrados em um horizonte já apropriado.
  • A dimensão ontológica do utensílio abre o campo de uma hermenêutica instrumental.

8. A hermenêutica instrumental somente alcança sua plena extensão quando o utensílio aparece como mediador da abertura à totalidade dos entes, o que exige ampliar a utensilidade para além dos produtos fabricados.

  • Os produtos artificiais constituem exemplos privilegiados de utilizáveis, mas o caráter de utilizável também alcança a natureza anterior à fabricação.
  • Os elementos e materiais naturais aparecem como disponíveis quando integrados a circuitos de remissões.
  • A fabricação pressupõe o discernimento antecipado da utilizabilidade e da inserção dos materiais naturais em redes instrumentais.
  • A concepção teórica da natureza como anterior ao artifício separa o ente subsistente de suas remissões práticas.
  • O ser-no-mundo encontra-se previamente compreendido na apreensão pragmática da natureza.
  • A visão pragmática instrumentaliza a totalidade dos entes ao interpretá-los segundo sua utilizabilidade.
  • Essa instrumentalização pertence à cotidianidade ocupada e encobre o ser dos entes e a manifestação do mundo.
  • O caráter utensiliar da totalidade dos entes antecede e torna possível a distinção entre aquilo que é natural e aquilo que é fabricado.
  • Todo saber pragmático se edifica sobre o desvelamento prévio da utilizabilidade.

9. O manejo de um utensílio pode ser aprendido sobre o fundamento da explicitação hermenêutica, pois aprender um instrumento significa aprender o mundo ao qual ele pertence, ainda que esse mundo permaneça apropriado apenas por uma compreensão pré-ontológica.

** 1.2. O mundo como horizonte da aprendizagem **

10. O utensílio somente desvela o ser-no-mundo porque remete ao usuário, enquanto uma coisa de uso público também revela o mundo compartilhado e a natureza circundante, embora o Dasein permaneça absorvido pelas exigências práticas e não perceba expressamente o ser do mundo.

  • Um relógio situado em uma estação revela a organização do mundo público.
  • A estação e o relógio também remetem às condições climáticas e à alternância entre dia e noite.
  • A absorção nas exigências da utensilidade mantém o fenômeno do mundo encoberto.

11. O mundo não se constitui simplesmente pela presença dos utilizáveis, mas pode tornar-se perceptível quando uma perturbação rompe a familiaridade da rede instrumental e o utensílio deixa de funcionar de maneira habitual.

  • O utensílio chama a atenção quando falta, encontra-se deslocado ou impede a realização da tarefa.
  • Na pane, o utilizável à mão passa a aparecer como algo simplesmente presente.
  • A possibilidade antecipada da pane revela a cooriginariedade entre o ente disponível e o ente subsistente.
  • A deficiência separa o utensílio de seu contexto, mas ainda não basta para manifestar plenamente o mundo.
  • O fenômeno do mundo aparece privilegiadamente por meio do utensílio que funciona como sinal.
  • Para a visão ontológica, o sinal revela o ser do mundo como significância.

12. O sinal distingue-se do utensílio comum porque não apenas remete a alguma coisa, mas também a mostra, revelando a orientação espacial e a forma geral da relação prática com o mundo circundante.

  • A interpretação formal do sinal como simples relação encobre seu caráter de remissão e mostração.
  • O martelo remete a outras coisas sem mostrá-las expressamente.
  • Uma seta de automóvel ou uma placa indicativa remete mostrando uma direção.
  • A orientação revelada pelo sinal constitui um modo espacial do ser-no-mundo.

13. O sinal dirige-se ao discernimento próprio da ocupação e permite que a visão prática apreenda expressamente a região do mundo circundante indicada por ele.

14. O sinal é o utensílio que permite que a própria utensilidade apareça expressamente.

15. O sinal não é uma coisa relacionada externamente a outra, mas um utensílio que destaca uma totalidade instrumental e anuncia simultaneamente a modalidade de pertencimento ao mundo própria dos utilizáveis.

16. O sinal pressupõe uma compreensão pré-ontológica do utensílio, enquanto a ontologia deve explicitar essa compreensão e constituir-se como hermenêutica da própria explicitação hermenêutica.

17. Por meio do sinal, o Dasein reconhece implicitamente que sua absorção pragmática nas redes de remissões possui a estrutura do ser-no-mundo, deixando transparecer a forma de um mundo através da utensilidade destacada.

18. A forma do mundo ainda precisa concretizar-se numa rede de remissões e no comportamento que lhe corresponde.

19. A rede de remissões constitui o nexo pragmático, enquanto o deixar ser corresponde ao comportamento que permite a manifestação de sua unidade.

  • O nexo pragmático liga o utensílio a uma tarefa, a uma prescrição e a uma finalidade de uso.
  • O martelo conecta-se ao martelar, à consolidação da construção e à habitação.
  • A unidade do nexo depende do desvelamento prévio da ligação intrínseca entre utensílio, tarefa, prescrição e uso.
  • A forma de existência indicada pela rede instrumental constitui um mundo.
  • O sinal destaca o nexo pragmático e permite que sua unidade apareça numa compreensão pré-teórica.
  • O mundo é a significância mediante a qual a unidade do nexo pragmático faz sinal.
  • À abertura pragmático-hermenêutica do mundo corresponde o comportamento do deixar ser.

20. O deixar ser possui um sentido ôntico e um sentido ontológico.

21. Em sentido ôntico, deixar ser significa colocar o utilizável em seu próprio ser, empregando-o segundo sua disposição e em vista do uso que lhe corresponde.

22. Construir um abrigo ou fabricar um móvel exige apropriar antecipadamente o lugar e os materiais segundo as condições que lhes são próprias, de modo que deixar ser significa revelar limites imanentes em vez de impor formas inteiramente exteriores.

  • O lugar da habitação deve ser escolhido segundo a luz, o clima e as estações.
  • O material precisa ser apropriado à construção pretendida.
  • Deixar ser a madeira significa configurá-la segundo possibilidades e limites que já lhe pertencem.
  • A intervenção técnica não abandona a coisa, mas descobre aquilo que nela permanecia inaparente.
  • Até mesmo conter um curso de água pode constituir um modo de deixá-lo ser quando a intervenção se ajusta à sua disposição.

23. O desvelamento técnico não elimina a inaparência da matéria, pois o móvel permite que a madeira apareça enquanto ela continua retendo e reservando outras possibilidades de forma.

  • A matéria manifesta-se ao fornecer uma figura, mas conserva sua reserva não tematizada.
  • Deixar ser consiste em desvelar um ente já existente segundo sua utilizabilidade.
  • Esse desvelamento possibilita que o Dasein encontre e integre onticamente o ente que possui tal modo de ser.

24. O ter já sempre integrado o ente numa conjuntura liberada constitui uma estrutura apriorística própria do modo de ser do Dasein.

25. Em sentido ôntico, deixar ser significa utilizar o ente segundo uma disposição anterior à vontade do usuário, permitindo que o próprio uso determine e oriente o manejo.

  • A utilização não deriva de uma vontade soberana que atribui arbitrariamente uma função à coisa.
  • O usuário ajusta-se à disposição própria do utensílio.
  • O manejo testemunha que a orientação segundo o uso já havia ocorrido antecipadamente.

26. A orientação pelo uso possui sentido ontológico porque manifesta a abertura do usuário à anterioridade factual das possibilidades que o mundo já lhe apresentou.

  • O uso sempre antecede o usuário como horizonte de possibilidades.
  • A atenção às prescrições do utensílio revela a abertura do Dasein à facticidade de seu mundo.
  • O deixar ser libera a unidade do nexo pragmático por meio da consideração das conexões práticas.
  • A visão de conjunto manifesta essa unidade ao consentir livremente com os usos impostos pelo instrumento.

27. Aprender o manejo de um utensílio significa aprender a deixá-lo ser, apropriando-se simultaneamente de sua disposição particular e da atitude geral de consentimento perante seus usos e limites.

  • A aprendizagem compreende as operações exigidas pelo utensílio, sua rede de remissões e suas formas de utilização.
  • O instrumento não se encontra inteiramente submetido a uma vontade onipotente.
  • Os ritos tradicionais de aprendizagem técnica inserem o aprendiz numa tradição em que se configura a facticidade de um mundo.
  • A facticidade precisa permanecer parcialmente retirada para tornar possíveis a transmissão e a aprendizagem.
  • Aprender pressupõe consentimento com uma facticidade previamente desvelada, mas ainda implícita.
  • A apropriação ontológica expressa não é necessária ao aprendizado prático e pode até neutralizar seu horizonte pragmático.
  • A condição da aprendizagem encontra-se no consentimento com aquilo que já orienta implicitamente ferramentas e usos.

28. A experiência moderna da técnica talvez se caracterize pela perda desse consentimento, tornando necessário esclarecer em que sentido ela constitui outra experiência do matemático.

** 2. Do Gestell **

29. O desvelamento que domina a técnica moderna possui o caráter de uma interpelação provocadora que libera, transforma, acumula, distribui e reconverte as energias naturais sob direção e controle permanentes.

30. O Gestell não é matemático devido à dimensão quantitativa da organização técnica, mas porque o desvelamento provocador se estrutura pela direção e pela garantia antecipadas.

  • A essência do matemático reside na certeza entendida como aquilo que é previamente estabelecido como verdadeiro.
  • A certeza assume a forma de uma decisão axiomática que fixa antecipadamente as direções do desvelamento.
  • A organização industrial desenvolvida por Taiichi Ohno no Japão oferece um exemplo concreto da matematicidade do Gestell.

31. A organização ohniana estrutura a produção segundo a plurifuncionalidade dos trabalhadores, o controle contínuo da qualidade, a fabricação no momento exato e a adaptação flexível às variações da demanda.

  • O objetivo do justo a tempo é evitar tanto o excesso quanto a insuficiência da oferta.
  • O estoque zero funciona como indicador da eficiência do sistema e como critério para a gestão do número de trabalhadores.
  • Pensar ao contrário significa fazer o início da cadeia depender das encomendas recebidas ao final.
  • Diferentemente do fordismo, a diminuição da demanda não precisa produzir imediatamente redução proporcional dos efetivos.
  • A flexibilidade permite modular tarefas, ritmos e quantidades segundo as oscilações do mercado.
  • A reorganização iniciada na Toyota buscou neutralizar conflitos sociais provocados pelas demissões.
  • As inovações são sobretudo organizacionais, mas permanecem tecnológicas porque a própria cadeia produtiva funciona como instrumento.
  • A autoativação associa o trabalhador ao controle de qualidade.
  • A autonomação combina autonomia operacional e automação.
  • O método Kanban satisfaz a exigência do justo a tempo e transforma a organização ohniana num dispositivo de otimização generalizado.

** 2.1. A direção pelos olhos **

32. A direção pelos olhos retoma a antiga exigência de controle visual sobre a produção e seus agentes, mas assume caráter matemático quando a visão passa a organizar o processo, determinar seu funcionamento e corrigir todos os desvios.

33. A organização ohniana não reproduz simplesmente o modelo panóptico de observar sem ser observado, pois cada agente deve controlar o curso da produção mediante sinais visuais.

34. Os padrões operacionais e os painéis Andon tornam imediatamente visível o estado da linha de produção, sinalizando pedidos de ajuda, dificuldades e necessidades de interrupção.

  • Os padrões de operação são expostos em cada posto de trabalho.
  • Uma luz alaranjada indica a necessidade de auxílio.
  • Uma luz vermelha determina a parada da linha.
  • As informações essenciais ficam continuamente disponíveis para assegurar a regularidade do fluxo produtivo.

35. A direção pelos olhos constitui uma antecipação destinada a detectar previamente as panes possíveis, classificar os acidentes e reduzir a presença do imprevisível.

  • A multiplicidade dos sinais pressupõe uma tipologia antecipada das falhas.
  • O acidente é incorporado ao cálculo como elemento que deve ser levado em consideração.
  • Associado ao estoque zero, o controle visual procura eliminar excedentes, interrupções e disfunções.
  • A organização torna-se matemática ao transformar a segurança e a previsibilidade em critérios estruturais.

36. A racionalização ohniana procura economias e ganhos de produtividade dentro do próprio processo produtivo, diferentemente da fábrica fordista, que privilegia a ampliação das séries e as economias de escala enquanto aceita disfunções e custos adicionais como inevitáveis.

37. A passagem do fordismo ao sistema ohniano torna tudo antecipadamente visível e elimina a possibilidade de ocultamento, retração ou reserva, instaurando uma nova relação com o fundo e com o estoque.

** 2.2. A anulação dos estoques **

38. A organização ohniana utiliza os estoques como instrumento de gestão dos efetivos e concebe uma fábrica flexível para reduzir os efeitos das oscilações da demanda sobre o número de trabalhadores.

39. A produtividade passa a ser buscada na flexibilidade interna do trabalho e na distribuição variável das operações, em oposição à produção em grandes séries sustentada por estoques intermediários.

40. O estoque zero mede a plasticidade do sistema Toyota, que substitui a produção fordista de grandes séries uniformes pela fabricação de séries reduzidas, diversificadas e adaptáveis.

41. O caráter matemático da relação com o fundo aparece na antecipação da totalidade dos entes como reserva disponível e na tentativa de codificar integralmente todos os fluxos produtivos.

  • A determinação prévia do fundo possibilita as operações de planejamento, ordenação e cálculo.
  • A acumulação e o armazenamento constituem formas privilegiadas de ordenar os fluxos.
  • No fordismo, perdas e fluxos produtivos, financeiros e humanos ainda escapam parcialmente ao cálculo.
  • Os fluxos não codificados permanecem subtraídos à ordem numérica.
  • A organização ohniana busca integrar todos os fluxos ao código e reorganizar integralmente o fundo.
  • A anulação dos estoques não elimina imediatamente a acumulação, mas transforma seu modo de funcionamento.

42. Anular os estoques significa abandonar a imobilização dos fluxos e garantir sua circulação contínua entre as etapas da produção.

  • Peças e produtos ficam imobilizados quando não se conhece sua utilização ou venda futura.
  • O estoque imóvel constitui um sinal de insegurança e incerteza.
  • A produção em fluxo contínuo procura assegurar a circulação fazendo as etapas finais comandarem as etapas iniciais.
  • O estoque não desaparece, mas é mobilizado e colocado em movimento.
  • O estoque consiste na avaliação dos fluxos disponíveis, e não simplesmente no espaço físico do depósito.
  • A acumulação aumenta a disponibilidade dos fluxos, não apenas sua quantidade.
  • A dissipação preventiva do estoque constitui sua nova forma de ordenação.

43. O estoque passa a coincidir com a própria produção em movimento, de modo que produzir significa organizar sua dissipação e eliminar toda possibilidade de reserva não codificada.

  • Armazenar e produzir tornam-se operações inseparáveis.
  • O estoque somente aparece ao circular e desaparecer como reserva imóvel.
  • A reserva corresponde aos fluxos que ainda escapam ao número e à ordem.
  • A produção fordista conservava algum vestígio do desvelamento poiético.
  • A organização ohniana procura apagar essa persistência da aletheia.

44. A mobilização integral dos fluxos realiza a determinação ontológica dos entes como fundo e levanta a questão das formas pelas quais o ser humano é engajado na provocação por meio do Kanban e da polivalência dos postos de trabalho.

** 2.3. Métodos de trabalho: a gestão do estoque humano **

45. A provocação manifesta-se na gestão do estoque humano quando o espaço, as tarefas e os movimentos dos trabalhadores são reorganizados para maximizar os tempos de operação.

  • O Kanban descentraliza a gestão das restrições mediante instruções transportadas em cartões ou placas móveis.
  • A linha produtiva baseada em um trabalhador fixo para cada posto é substituída por uma organização em formato de U.
  • As máquinas e tarefas podem ser agrupadas de modo flexível.
  • O trabalhador ohniano desloca-se entre diferentes postos.
  • A especialização fordista é substituída pela polivalência operacional.

46. A reorganização da produção elimina o espaço pragmático no qual a localização dos utensílios dependia das tarefas cotidianas e, com isso, enfraquece a proximidade que mantinha as coisas disponíveis e prontas para o uso.

47. A proximidade ordenada do utensílio significa que ele não ocupa apenas uma posição espacial, mas se encontra disposto, arranjado e preparado para servir.

48. O espaço ohniano deixa de ser ordenado pelos usos e transforma os lugares em posições espaço-temporais substituíveis dentro do projeto matemático.

  • A posição abstrata substitui o lugar próprio do utensílio.
  • Os pontos do espaço produtivo deixam de possuir diferenças qualitativas.
  • O projeto matemático desfaz os compartimentos do mundo circundante.
  • O espaço reduz-se a um conjunto de posições intercambiáveis.

49. A organização moderna da produção transforma a aprendizagem prática em submissão a uma produção axiomatizada, cujas regras determinam previamente operações, movimentos e critérios de funcionamento.

  • A axiomática técnica não constitui aplicação direta de um sistema formal.
  • As restrições produtivas produzem consequências necessárias e fazem as disfunções aparecerem como contradições.
  • Assim como as axiomáticas formais, os sistemas técnicos delimitam planos de consistência.
  • A independência relativa das regras permite modificar o sistema pela adição ou retirada de determinações.
  • O atelier flexível pressupõe como primeiro axioma a constituição de espaços moduláveis.
  • Os deslocamentos passam a obedecer à lógica da utilização e do desgaste, e não à estrutura dos usos.
  • A dissipação dos estoques torna-se o próprio movimento da produção.

50. A produção ohniana tende a dissolver a espacialidade geométrica tradicional ao anular distâncias por meio das tecnologias da informação e ao organizar suas operações segundo o tempo real.

  • O espaço euclidiano funda-se em dimensões contínuas e infinitamente divisíveis.
  • A rentabilização quantitativa da extensão, ainda importante no fordismo, deixa de comandar a organização flexível.
  • A transmissão instantânea de dados reduz a dependência da localização geográfica.
  • O tempo real e a ubiquidade funcionam como limites ideais, sem eliminarem absolutamente o tempo e o espaço.
  • A operação tecnomatemática contrai espaço e tempo num ponto desligado da orientação pragmática.
  • A pontualidade substitui o espaço dos utilizáveis e o tempo prescrito pelas coisas a fazer.
  • Tarefas temporárias, oficinas flexíveis e ritmos variáveis transformam trabalhadores, lugares e tempos em módulos montáveis e desmontáveis.
  • A pontualização das tarefas contribui para a precarização das condições de trabalho.
  • A pontualidade substitui a dimensão fundada no hábito, na repetição e na continuidade das operações.

51. A essência matemática da técnica moderna esclarece a possibilidade do cálculo absoluto, já inscrita na techne e na relação prática com os utensílios, mas desenvolvida tecnologicamente pela articulação entre mathesis, autopressuposição do saber e determinação calculável da totalidade dos entes.

  • A experiência tecnológica moderna estava potencialmente inscrita tanto na techne quanto na mathesis.
  • O matemático contém a possibilidade de uma técnica que se torna absoluta.
  • A autopressuposição do saber das coisas abre a possibilidade do cálculo de todas as coisas.
  • A realidade da técnica poderá ser compreendida como cálculo absoluto mediante a análise das próprias estruturas do calcular.
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