pensadores:milet:techne

Techne à técnica

(MILET, Jean-Philippe. L’Absolu Technique. Heidegger et la question de la technique. Paris: Editions Kimé, 2000:47)

** I. Da techne à técnica **

** 1. A physis como essência da técnica **

1. A essência da técnica não se encontra nos objetos técnicos, mas naquilo que limita seu poder e permite interrogá-la em direção à physis, permanecendo aberta a questão de saber se existe um limite possível para a técnica e um caminho de acesso à natureza originária.

  • A physis não é estabelecida como tema ou objeto, mas deixada vir por meio da própria interrogação acerca da essência da técnica.
  • A investigação não parte de uma definição previamente assegurada, mas da possibilidade de que a técnica possua uma essência e, portanto, uma limitação.

2. A concepção antropológica e instrumental da técnica é apenas correta, mas não verdadeira, porque a techne se funda no desvelamento e deve ser compreendida mediante uma reinterpretação das quatro causas aristotélicas como modos de corresponsabilidade na produção.

  • A matéria, o aspecto e o telos participam conjuntamente do aparecimento da coisa produzida.
  • O telos não designa simplesmente uma finalidade externa, mas aquilo que reúne e orienta a corresponsabilidade da matéria e da forma.
  • O artesão não atua como causa eficiente, mas como aquele cuja reflexão permite que os demais modos de responsabilidade entrem em jogo na produção.

3. A inexistência de uma causa eficiente decorre de que a essência da técnica não reside na fabricação material, mas no desvelamento que unifica as causas e se realiza na reflexão do artesão, por meio da qual a matéria e a forma aparecem uma através da outra.

  • A operação manual não constitui simples execução de um plano anteriormente concebido, mas o próprio desenvolvimento e cumprimento da reflexão produtiva.
  • A produção é dirigida pelo aparecer da coisa e pelas modalidades segundo as quais esse aparecer pode realizar-se.

4. Produzir significa fazer vir ou deixar avançar algo para a presença, estabelecendo uma passagem entre o não ser e o ser, embora seja necessário distinguir a physis, na qual a potência de aparecer reside na própria coisa, da techne, na qual a possibilidade de advento reside em outro.

  • O não ser corresponde tanto ao que ainda não veio à presença quanto ao que já apareceu e novamente se retirou.
  • A temporalidade própria da produção permanece implícita na passagem pela qual algo advém, permanece e se retira.

5. A physis constitui poiesis no sentido mais elevado e autêntico, de modo que a techne somente pode ser considerada poiética enquanto pertence ao movimento produtivo originário da própria physis.

6. O produzir é uma passagem do oculto ao não oculto, denominada pelos gregos aletheia, e a submissão de toda produção ao desvelamento insere a techne no domínio da physis e de sua potência limitadora.

  • O movimento de surgimento e retração define o ser da physis.
  • A techne permanece finita enquanto sua capacidade produtiva depende do jogo de manifestação e ocultamento que não controla.

7. A responsabilidade atribuída à matéria deve ser compreendida como responsabilidade do artesão perante a matéria, pois somente o artesão responde pelo ato produtivo e pelas diferentes direções nas quais sua ação se exerce.

8. A matéria prescreve possibilidades e limites à produção, uma vez que sua configuração natural condiciona o aspecto e o telos da coisa, fazendo da responsabilidade artesanal uma guarda ontológica da physis contra o risco da hybris técnica.

  • A prata não se transforma espontaneamente em taça, mas sua natureza orienta as operações pelas quais a taça pode ser concebida e produzida.
  • O artesão responde perante a physis, isto é, perante aquilo que limita a técnica e mantém em reserva possibilidades de aparecimento.
  • A essência finita da técnica é preservada quando se reconhece que sua tecnicidade depende de algo diferente dela mesma.
  • Essa guarda da limitação encontra-se ameaçada pela figura moderna da mathesis.

** 2. A mathesis como essência da técnica **

9. A possibilidade de outra essência da técnica surge quando se pergunta se sua determinação como poiesis fundada no desvelamento permanece válida apenas para os gregos ou também alcança a técnica moderna.

10. A dependência recíproca entre técnica moderna e ciência exata da natureza constitui um fato histórico insuficiente para explicar seu fundamento, sendo decisivo compreender qual essência da técnica moderna possibilita a utilização das ciências naturais matematizadas.

11. A compreensão da técnica moderna exige esclarecer seu caráter matemático a partir de sua própria estrutura, respeitando as etapas da análise pela qual sua essência aparece primeiramente como provocação e depois como arrazoamento.

12. A essência da técnica moderna apresenta-se sob duas determinações articuladas: como provocação da natureza e como arrazoamento que reúne e ordena essa provocação.

** 2.1. A essência da técnica como provocação **

13. O desvelamento próprio da técnica moderna provoca a natureza a fornecer energias extraíveis e acumuláveis, distinguindo-se do antigo moinho de vento, que permanece entregue à manifestação imediata e não armazenável da força do ar.

14. A técnica moderna transforma os elementos naturais em condições calculáveis do funcionamento, enquanto as técnicas arcaicas permanecem expostas à manifestação acidental e incalculável da natureza.

  • A agricultura motorizada requisita o ar, o solo e os minérios como fornecedores previamente determinados de materiais e energias.
  • O moinho depende de uma energia que se manifesta por si mesma e cuja presença não pode ser assegurada antecipadamente.
  • Os saberes tradicionais podem antecipar fenômenos naturais, mas não eliminam a contingência irredutível de sua manifestação.
  • O elemento não constitui substância disponível, mas acontecimento acidental que manifesta o domínio da physis sobre o complexo técnico.

15. A extração, a acumulação e o armazenamento convertem os elementos em fundos permanentemente disponíveis, reduzindo a limitação natural à quantidade das reservas e tendendo a eliminar até mesmo essa restrição por meio da renovação dos recursos ou do acesso a fontes consideradas inesgotáveis.

  • O fundo é uma reserva da qual nada deveria poder subtrair-se ao processo produtivo.
  • A destruição e o esgotamento dos recursos permanecem como os últimos limites naturais da produção técnica.
  • Tecnologias de regeneração de combustíveis e armazenamento de resíduos procuram adiar ou contornar esses limites quantitativos.
  • Uma fonte ilimitada de energia não restauraria a physis, mas poderia representar sua completa anulação como potência limitadora da técnica.

16. A transformação do rio em recurso de uma central hidrelétrica revela uma mudança essencial, pois o rio utilizado por uma ponte ou acolhido pela poesia permanece reunido em seu próprio ser, enquanto o rio requisitado pela produção existe apenas em função do funcionamento técnico.

  • O uso que deixa ser não subordina a existência da coisa às condições da produção.
  • A ponte e o poema revelam o rio sem produzir sua unidade, pois se submetem ao movimento pelo qual ele se reúne desde a nascente até a foz.
  • A exploração industrial introduz a possibilidade de uma relação inteiramente indiferente à potência própria do elemento e à sua proximidade.
  • Ao ameaçar a proximidade da physis, a técnica moderna ameaça também a possibilidade de surgimento de novos possíveis.

17. A técnica moderna constitui uma nova época porque altera a própria essência da técnica, embora essa diferença histórica permaneça inscrita na unidade de um destino no qual o caráter matemático da modernidade deve ser relacionado ao arrazoamento.

  • A essência não é simplesmente aquilo que permanece invariável, mas aquilo que dura fazendo época.
  • A busca da proveniência historial da técnica moderna precisa articular sua singularidade com o movimento unitário do destino do desvelamento.

** 2.2. A essência da técnica como arrazoamento **

18. A provocação não constitui simples iniciativa humana, pois o próprio ser humano é previamente provocado a liberar as energias naturais e a participar do desvelamento que transforma o real em fundo disponível.

  • Embora possa ser tratado como material humano ou recurso administrável, o ser humano nunca se reduz inteiramente ao fundo.
  • Sua responsabilidade permanece comprometida porque participa do ato de requisitar como modalidade do desvelamento.
  • Gestell, ou arrazoamento, designa a reunião da interpelação que convoca o ser humano a desvelar o real segundo o modo da encomenda e da disponibilidade.

19. O arrazoamento manifesta o caráter destinal da técnica moderna, pois a provocação continua pertencendo ao desvelamento, mesmo quando a natureza é reduzida a obstáculo ou recurso técnico.

  • O arrazoamento oculta o brilho e a potência da verdade, mas esse ocultamento pertence ao próprio jogo da verdade como unidade de velamento e desvelamento.
  • A verdade não constitui um fundamento situado atrás dos fenômenos, mas o movimento pelo qual algo simultaneamente se mostra e se retrai.
  • A produção poiética e a requisição provocadora diferem radicalmente, embora ambas permaneçam modos da aletheia.
  • A unidade entre esses modos precisa ser pensada sem apagar a diferença introduzida pelo saber matematizado.

20. As ciências matemáticas da natureza conduzem ao núcleo ontológico da técnica moderna.

21. A ciência moderna somente se torna experimental porque sua teoria já obriga a natureza a apresentar-se como um complexo calculável e previsível de forças, ao qual os experimentos são encarregados de exigir respostas determinadas.

22. O arrazoamento estabelece uma relação objetivante com a natureza ao submetê-la ao projeto matemático que define previamente as condições de todo encontro com o ente e faz aparecer a totalidade do real como calculável.

  • O cálculo absoluto não explica por si mesmo o arrazoamento, mas deve ser compreendido a partir dele.
  • A determinação da relação entre cálculo e arrazoamento depende de saber se a essência matemática da técnica moderna constitui uma essência inteiramente distinta da techne grega.

23. A afirmação da unidade da técnica como desvelamento confronta-se com a diferença monstruosa introduzida pela técnica moderna, mas essa diferença é novamente reconduzida a uma unidade mais originária em um movimento realizado em duas etapas.

24. A técnica moderna é historicamente posterior à ciência matemática da natureza, mas é essencialmente anterior a ela, pois somente pode aplicar saberes matematizados porque sua própria essência já se encontra originariamente estruturada de maneira matemática.

  • A precedência essencial da técnica não coincide com sua posterioridade cronológica.
  • A essência da técnica moderna permaneceu oculta mesmo durante o desenvolvimento dos motores, da eletrônica e da tecnologia atômica.

25. A ciência encontra-se submetida à essência da técnica como modalidade de uma abertura geral do ente, sem que isso implique um determinismo causal exercido pelas máquinas ou pela industrialização sobre a formação das teorias científicas.

  • A física matemática desenvolveu-se antes das aplicações industriais que posteriormente se apoiaram nela.
  • A técnica moderna não constitui simples aplicação prática da física, pois ciência e técnica conservam horizontes respectivamente teórico e pragmático.
  • A essência da técnica articula ambos os domínios mediante a exigência de provocar o ente a apresentar-se como algo requisitável e calculável.
  • A consideração do aparelho de medição pela física quântica não representa condicionamento técnico da teoria, mas sua participação na essência técnica do desvelamento.
  • A indeterminação associada à interferência experimental já havia sido formalizada matematicamente antes de sua confirmação empírica.

26. A essência matemática da técnica moderna encontra-se há muito tempo em curso e, por isso mesmo, ainda permanece por vir como destino inscrito no ser do desvelamento.

  • A possibilidade moderna do cálculo já se preparava secretamente na experiência grega da poiesis.
  • A modernidade constitui a época em que a essência da técnica se expõe como tal.
  • O sentido originário dessa exposição permanece oculto, pois o próprio desvelamento depende de uma retração que abre a distância temporal de cada época.

27. A unidade destinal entre poiesis e mathesis significa tanto que a possibilidade do arrazoamento já estava inscrita na produção poiética quanto que o próprio arrazoamento conserva uma possibilidade de salvação proveniente de uma origem não técnica.

  • A palavra de Hölderlin segundo a qual aquilo que salva cresce onde está o perigo indica a possibilidade de um desvelamento que sempre precede e excede todo cálculo.
  • A physis permanece como excesso originário sobre qualquer operação técnica.
  • A palavra grega techne conserva a memória da manifestação mais pura, embora já contenha secretamente a possibilidade do arrazoamento.
  • O perigo não reside primordialmente nas máquinas, mas na própria essência da técnica e em seu risco de hybris, dispersão e aniquilamento no ilimitado.
  • A técnica encontra sua limitação justamente ao expor-se ao perigo de sua essência e entrar em correspondência com a physis.
  • Essa correspondência não implica restaurar historicamente a antiga techne, mas aproximar-se finalmente de seu ser originário.

28. A provocação constitui a essência da técnica enquanto cálculo, ao passo que o cálculo é exigido pelo arrazoamento como modalidade de desvelamento que decide antecipadamente o ser do ente e recebe o nome de matemático.

pensadores/milet/techne.txt · Last modified: by 127.0.0.1

Except where otherwise noted, content on this wiki is licensed under the following license: Public Domain
Public Domain Donate Powered by PHP Valid HTML5 Valid CSS Driven by DokuWiki