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Tecnologização do mundo

(MILET, Jean-Philippe. L’Absolu Technique. Heidegger et la question de la technique. Paris: Editions Kimé, 2000:45)

Dirigindo-se a Kojima Takehico nos anos de 1963 a 1965, Heidegger escreve: «… com esta carta, trata-se apenas de reconhecer o seguinte fato: que é precisamente o olhar voltado para a interpelacão, ou seja, para o próprio caráter da tecnicização do mundo, que aponta um caminho para o próprio caráter do homem, que distingue sua humanidade no sentido da reivindicação que se faz por isso por meio do Ser.” Heidegger expõe, em poucas linhas, a questão da atribuição tecnológica.

A atribuição tecnológica parece indicar, em um primeiro sentido, que a técnica, por meio de seus complexos instrumentais e de seus métodos, se apropriou do ser do homem — e do mundo. Para Heidegger, isso é inegável, mas ainda não se disse nada ao se limitar a essa constatação: se a existência está atribuída à técnica, é porque esta é portadora de um poder de atribuição que rege a própria necessidade dos funcionamentos técnicos e, portanto, não se deixa explicar por eles. É esse poder que constitui a essência da tecnologização do mundo. É esse poder que exige ser pensado para que se abra um caminho rumo ao ser do homem. Esse poder lança um apelo — por meio da “tecnologização do mundo”. A “logicização” aponta duplamente: para o logos como a palavra que mostra e revela e, nessa qualidade, concede o pensamento ao que é mostrado; o logos é a interpelacão ou, ainda, a palavra que requer. Mas a “logicização” também aponta para o “cálculo”: certamente, para os processos algébricos da lógica matemática e para sua realização em máquinas de calcular. Mas, de maneira mais geral e fundamental, para a ordenação generalizada da totalidade do ser, por meio da qual já reconhecemos o “cálculo absoluto de todas as coisas”.

A partir daí, a questão da atribuição tecnológica é a da relação entre a força exigente do “decreto do Ser” — do poder de atribuição na medida em que se impõe à técnica, ou seja, a rege e a limita — e as estruturas do cálculo absoluto. Por meio das estruturas — que articulam métodos e ferramentas — do cálculo, trata-se de perceber um poder mais inicial do que a técnica, ocultado pelos requisitos de funcionamento; perceber esse poder é percebê-lo por meio do que o oculta, é interpretar, ler nos requisitos de funcionamento a explicitação do “decreto do Ser”. A atribuição à técnica pressupõe a atribuição da técnica; inversamente, esta se manifesta por meio da atribuição à técnica. A primeira parte será dedicada ao círculo dessa dupla atribuição.

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