Utensílio
(MILET, Jean-Philippe. L’Absolu Technique. Heidegger et la question de la technique. Paris: Editions Kimé, 2000:67-70)
Se é pertinente interpretar, em “O que é uma coisa?”, um convite para ler “Ser e Tempo” seguindo o fio condutor da aprendizagem dos usos, é no cerne da utilidade que se deve buscar o surgimento do matemático. O uso se manifesta a partir do ser disponível (ou utilizável, Zuhanden). O disponível é acessível a partir do Zeug — e, à primeira vista e na maioria das vezes, como Zeug. Heidegger aproxima o Zeug dos pragmata, que ele relaciona, curiosamente, ao gênero de ser da práxis. De que maneira a Análise do utensílio nos coloca no caminho da questão do aprendizado? Na medida em que as determinações do utensílio pressupõem uma afinidade inicial deste com a mão, afinidade que tem o caráter de um saber. Esse saber, pré-teórico, requer um certo olhar, um olhar perspicaz que discerne, avalia, antecipa. O fio condutor do aprender emerge ao longo de toda a análise.
Por essência, diz Heidegger, um utensílio é algo que é “feito… para”: observação aparentemente trivial. A menos que se tenha o cuidado de esclarecer que a relação entre a ferramenta e sua propriedade não tem o caráter de uma adição acidental entre um suporte e uma função, mas que a ferramenta se apresenta como a unidade concreta — ou seja, indissociável — do suporte e da função. Um martelo que não martelasse não seria um martelo, ou então, diria Aristóteles, apenas por homonímia. O martelo é seu uso — mas, então, ele só aparece, como tal, quando inserido em uma rede de referências, manifestada por meio de um complexo instrumental:
“As diferentes variedades do ‘feito para’, como a utilidade, a contribuição, a destinação a um emprego, a manuseabilidade, constituem uma totalidade instrumental. Na estrutura do ‘feito para’ reside uma referência de algo a algo.”
Em que sentido a referência atesta a dimensão ontológica da ferramenta? A partir do utensílio para escrever, da caneta, por exemplo, constitui-se uma multiplicidade de referências que inclui a pena, a tinta, o papel, o tapete de mesa, a mesa, o mobiliário, a sala e, em última instância, a habitação. Ora, a caneta só aparece como caneta quando inserida nessa multiplicidade de referências. Todo o complexo instrumental está implicado de antemão na função e a co-define, e é a função assim determinada que se torna um só com o suporte. Ou ainda, a caneta só é acessível ao uso na medida em que o complexo instrumental já está nela pré-revelado: mas essa pré-revelação não é temática, o uso não pressupõe uma intenção expressa do complexo instrumental, na medida em que nele está pré-compreendida uma modalidade do estar-no-mundo, a saber, a habitação. A habitação é vista, mas não de modo teórico. Ela tem sua própria visão.
Manipular uma ferramenta é ter aprendido seu uso. Mas o que é passível de ser aprendido não é apenas o “fato para”, é o complexo no seio do qual a ferramenta está inscrita. É a visão prévia do complexo que dá acesso ao fato para.
A determinação dessa visão é essencial para a compreensão da dimensão ontológica do utensílio. Por meio do utensílio, o que se torna acessível é a maneira pela qual o Dasein já está orientado para o ser — ou ainda, o que se torna acessível é a maneira pela qual, a priori, o ser é pré-revelado. Afirmar que o utensílio possui uma dimensão ontológica não implica que seu uso esteja ligado a uma ontologia explícita, mas sim que ele pressupõe uma compreensão pré-ontológica. Essa compreensão tem o caráter da visão de conjunto (Umsicht), que avalia as tarefas que se impõem e as possibilidades correspondentes, discernindo os problemas, ou seja, os obstáculos. Tal visão é uma apreciação pragmática; o que nela é avaliado é o conjunto de possibilidades que um utensílio encerra: as conexões que ele pode estabelecer com outros utensílios, os usos que lhe são próprios, a rede de referências à qual está ligado: “A obra compreende toda a rede de referências dentro da qual a ferramenta se apresenta.” Por meio dessas avaliações, delineia-se a conexão entre as tarefas, os usos estabelecidos que as exigem e as prescrições às quais esses usos obedecem. Por meio dos elementos que compõem essa conexão, antecipa-se um horizonte de existência. É com base nessa antecipação que o manuseio de um utensílio se torna possível. O olhar que avalia a usabilidade de um utensílio submete-se ao contexto referencial, na medida em que este é antecipado. O olhar próprio à avaliação da usabilidade orienta-se para um contexto antecipado. O contexto da antecipação é pragmático e remete para os usos. E quanto à antecipação do contexto?
A visão de conjunto em ação na rede de referências, ao buscar e tatear, ou, como se costuma dizer, “refletir”, tem o caráter da explicitação hermenêutica. Ao contrário da explicitação apofântica, ela não requer a enunciação. O enunciado é a forma que a fala assume na operação do juízo. Cabe ao julgamento trazer à luz, destacar a constituição do ser — o que a coisa é em si mesma. Mas o julgamento separa a coisa de suas referências. No julgamento, o instrumento é neutralizado: não apenas o contexto referencial, mas também a pré-revelação como traço do contexto e o modo de compreensão que lhe é próprio, a saber, a familiaridade que nele se encontra e se reconhece, pois, por meio das ferramentas, dos usos e das obras, ela se move no horizonte que já se apropriou como sua possibilidade de existência. Na explicitação hermenêutica, realiza-se uma pré-revelação pré-julgativa e pré-enunciativa da rede de referências, dos usos e das possibilidades de existência às quais o utensílio está intrinsecamente ligado. O alcance ontológico do utensílio é hermenêutico: ele autoriza o tema, mas também o campo de pesquisa de uma hermenêutica instrumental.
Esta última, mais do que esboçada em Ser e Tempo, só atinge, no entanto, seu alcance se fizer surgir o utensílio como mediador de uma abertura para o todo do ser. Para que, por meio do utensílio, se realize o pré-revelamento da totalidade do ser, não seria necessário que a utensilidade se estendesse à totalidade do ser? O que acontece com a distinção entre o ser “natural” e o ser “fabricado”? A originalidade do pensamento heideggeriano sobre o utensílio não reside apenas em seu caráter de índice ontológico; reside também na irredutibilidade do utensílio a um produto fabricado. Os produtos fabricados constituem, certamente, na qualidade de utensílios, exemplos de objetos utilizáveis que se encontram “à primeira vista e na maioria das vezes”. Mas o utilizável é coextensivo à natureza, entendida como a ordem do que precede toda fabricação: “No utensílio posto em uso e por meio de seu uso revela-se simultaneamente a ‘natureza’, a ‘natureza’ à luz desses produtos naturais.” Os “produtos naturais”, e em primeiro lugar os “elementos”, aparecem como utilizáveis e, devido à sua integração em um circuito de referências, como utensílios. Eles não são utensílios no mesmo sentido que os produtos fabricados: mas sua utilizabilidade é pressuposta pela fabricação, ou melhor, a fabricação deriva sua possibilidade de ter discernido antecipadamente a utilizabilidade, mas também a “utensilidade” dos materiais naturais, consistindo essa “utensilidade” na pré-inscrição destes últimos em uma rede de referências. A visão que determina a natureza como anterior ao artifício é teórica: ela lida com o ser subsistente, ou seja, com o ser desligado de sua rede de referências e da pré-revelação inerente a essa rede. O que é pré-revelado por meio da rede é o estar-no-mundo; uma compreensão pré-ontológica do estar-no-mundo está implícita na apreensão da “natureza à luz de seus produtos naturais”; é por isso que o fenômeno da natureza só pode ser trazido à luz a partir do estar-no-mundo. Mas o que ele revela é que a visão de conjunto, na medida em que é pragmática — por meio dessa visão, a techne se deixa facilmente reconhecer em sua dimensão de conhecimento familiar —, implica a instrumentalização da totalidade do ser, produzido como utilizável e como utensílio. Essa determinação é própria do horizonte pragmático da existência: ela pressupõe a ocultação do ser do ser. O que é ocultado, em particular, é a maneira como as conexões pragmáticas deixam “brilhar” o fenômeno do mundo. Mas parece que uma compreensão ontológica do utensílio, por torná-lo um índice ontológico, exclui a restrição do utensílio à ferramenta fabricada, estendendo-a à totalidade do ser. Essa extensão consiste em reconhecer a instrumentalização de todo o ser como característica própria da cotidianidade preocupada. O ser natural, assim como o ser fabricado, é explicitado na perspectiva de sua utilizabilidade. O caráter de utensílio da totalidade do ser precede e torna possível a distinção entre o que é natural e o que é fabricado. E, portanto, todo conhecimento relativo ao ser — e, em primeiro lugar, os conhecimentos “pragmáticos” — se constrói sobre a pré-revelação da utilizabilidade.
É, portanto, em um contexto de explicitação hermenêutica que o manejo de uma ferramenta pode ser aprendido — aprender a ferramenta é aprender o mundo ao qual ela pertence —, mas de tal forma que a apropriação desse mundo permanece na ordem da compreensão pré-ontológica. O mundo constitui o verdadeiro horizonte do aprendizado.
