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Física da informação
MORIN, Edgar. La méthode. 1: La nature de la nature. Paris: Ed. du Seuil, 1977.
I. A informação shannoniana
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A teoria da informação nasce de preocupações práticas de transmissão de mensagens pela companhia Bell, definindo o bit como unidade que resolve a incerteza de um receptor diante de alternativas equiprováveis.
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A redundância aparece como excesso eliminável sob a ótica econômica, mas se converte em proteção contra o ruído sob a ótica da fiabilidade da transmissão.
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O ruído constitui toda perturbação aleatória que degrada a mensagem ao longo do canal de comunicação, sendo inerente a qualquer canal físico real.
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A medida shannoniana em bits permanece cega ao sentido, à qualidade e ao valor da informação para o receptor, tratando com a mesma métrica um poema organizado e um amontoado aleatório de letras.
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O sentido da mensagem é remetido ao contexto anthropo-social, que a teoria de Shannon pressupõe mas não consegue teorizar, revelando uma carência fundamental.
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Com Wiener, a cibernética integra a informação ao universo das máquinas, transformando-a em programa dotado de força imperativa sobre a energia.
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A equação de Shannon coincide, em sinal inverso, com a equação de entropia de Boltzmann-Gibbs, o que permite a Brillouin estabelecer a equivalência entre informação e neguentropia através do paradoxo do demônio de Maxwell.
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Atlan restabelece a prioridade da organização neguentrópica sobre a informação, mostrando que a neguentropia se transforma primeiro em informação para depois se retransformar em neguentropia.
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O conceito de organização é apontado como fundamento que torna a informação inteligível, articulando seu caráter relacional e sua dimensão zero.
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A descoberta de Watson e Crick identifica a estrutura química do gene à estrutura informacional, introduzindo a ideia de código genético e de dupla articulação biológica.
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A mutação genética evolutiva é interpretada como erro na cópia do ADN provocado pelo ruído, exigindo a noção de “ruído organizador” desenvolvida por Atlan.
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A informação penetra o cérebro humano sem que este funcione como um computador, permanecendo o funcionamento cerebral um mistério não redutível ao bit.
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A informação, ao pretender-se soberana sobre matéria, vida e sociedade, converte-se em conceito imperialista que oculta seu enraizamento anthropo-social e sua articulação com a organização neguentrópica.
II. Para mais ampla informação
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A medida em bits só é válida estritamente no âmbito da transmissão de sinais, sendo incapaz de medir memória, saber, saber-fazer, norma ou programa.
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A quantidade de bits não revela o grau de organização, de neguentropia, de vida ou de inteligência contidos numa mensagem.
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O caráter digital da informação, embora irredutível, não esgota sua realidade, havendo uma dimensão contínua e analógica complementar ao aspecto discreto.
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A informação shannoniana é sempre degenerativa e pré-gerada, sem que a teoria explique como ela nasce ou cresce a partir da não-informação.
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A geração da informação exige necessariamente a participação da redundância e do ruído, problema pouco percebido antes de von Foerster, Bateson e Atlan.
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A identificação entre gene e informação exige que a teoria da vida revise as noções emprestadas de código e de programa, insuficientes para explicar um programa sem programador.
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A inoculação de esquemas anthropomórficos de código e tecnomórficos de programa na biologia produz um efeito ao mesmo tempo heurístico e deformante.
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O concepto físico de informação é inconcebível sem os conceitos biológico e anthropo-sociológico, exigindo um meta-sistema teórico que integre a tripla articulação física, biológica e social.
III. Genealogia e generatividade da informação
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A informação surge ao final de um longo processo pré-biótico e proto-biótico, e não como aparição miraculosa isolada, exigindo repensar a distância organizacional entre a sopa primitiva e a célula viva.
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Organizações espontâneas do tipo turbilhonar, segundo a termodinâmica prigoginiana, constituem o ponto de partida para bouclagens proto-simbióticas entre entidades duplicadoras, catalíticas e reativas.
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Constitui-se um ser nucleo-proteinado produtor-de-si, cuja boucle simbiótica se fragiliza e se refaz através de recomeços seletivos que reforçam progressivamente a organização.
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A complexificação interna e a saturação das combinações possíveis entre as bases do ARN levam à formação de um sistema de dupla articulação, análogo à formação do código genético.
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A informação nasce da não-informação, num processo organizacional neguentrópico que se desenvolve a partir de interações aleatórias e que, uma vez constituído, pode regenerar aquilo que o gera.
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Os termos mensagem, código e programa traduzem apenas parcialmente a generatividade informacional, pois deixam na sombra a estratégia, a competência e a totalidade recursiva do ser vivo.
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O núcleo celular funciona como proto-aparelho informacional, centralizando o armazenamento, o tratamento e a emissão de instruções, em relação recursiva com o citoplasma.
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O signo informacional adquire caráter de arquivo, sendo lido apenas na dinâmica do recomeço, da reprodução e da reorganização, e não como modelo intemporal fixo.
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Estabelece-se uma analogia entre a memória genética, praxicamente reprodutora, e a memória cerebral, imaginariamente reprodutora, ambas duplicações de eventos passados por meio de engramas.
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A generatividade informacional produz eventos organizadores que se tornam elementos necessários da organização, conservando caráter evenemencial sem deixar de ser ordem.
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A informação revela-se um conceito camaleônico, assumindo sucessivamente as faces de signo, engrama, programa, arquivo, memória, saber e saber-fazer.
IV. A informação circulante
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A atividade fenomenal de uma célula é indissociável de um processo de comunicação em que elementos químicos funcionam como quase-sinais no circuito ADN/ARN/proteínas.
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A informação circulante se desenvolve com a complexificação dos organismos multicelulares, interferindo redes de comunicação sanguínea e nervosa.
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A eco-comunicação se amplia progressivamente, permitindo que os seres vivos traduzam eventos do ambiente em informações sobre alimento, perigo ou parceiros.
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O aparecimento da trapaça, da camuflagem e do engano na comunicação biológica prenuncia a mentira propriamente humana, que se sociologiza e se ideologiza.
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A informação generativa e a informação circulante se transformam mutuamente, mas essa conversão só é possível quando existe um aparelho capaz de registrar e tratar os sinais recebidos.
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A informação circulante é mais vulnerável ao ruído do que a informação generativa, uma vez que esta permanece protegida em suportes estáveis, enquanto aquela viaja através de nuvens de interferência.
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A vulnerabilidade ao erro constitui o ponto fraco de toda organização viva, exigindo que a vida desenvolva estratégias de manipulação e uso produtivo do próprio erro.
V. O desdobramento antropo-socio-informacional
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O aparelho cerebral humano, dotado de mais de vinte bilhões de neurônios, ultrapassa a função de mero computador ao gerar potencialidades imaginativas e ideais praticamente ilimitadas.
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A linguagem de dupla articulação constitui o único sistema desse tipo surgido na evolução da vida fora do código genético, permitindo a construção de edifícios noológicos complexos.
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A cultura configura o primeiro complexo gerador e regenerador da complexidade social, funcionando nas sociedades arcaicas como memória coletiva de saberes, técnicas e normas.
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O surgimento do aparelho de Estado nas megassociedades históricas equivale, no plano social, às metamorfoses biológicas da célula procariota para a eucariota e do unicelular para o organismo multicelular.
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O desenvolvimento urbano e tecnológico multiplica de forma quase ilimitada os suportes e veículos de informação, culminando num deferlement informacional moderno.
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A proliferação excessiva de informações jornalísticas e midiáticas pode gerar um acréscimo de entropia interna que supera o ganho de neguentropia informacional, dissolvendo-se em ruído cultural.
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A esfera noológica, composta por ideias, teorias, mitos e fantasmas, constitui seres informacionais capazes de se multiplicar ao captar neguentropia dos cérebros e das culturas humanas.
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A informação, considerada em sua unidade e diversidade, atravessa da termodinâmica à cultura o mesmo princípio de equivalência potencial entre neguentropia e informação.
VI. A pequena e a grande relacionalidade
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A informação constitui um conceito físico relacional de dimensão zero, existindo apenas no ato de recepção ou no evento regenerador, e não isolada no signo ou no sinal.
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A organização neguentrópica precede geneticamente a informação, tornando-se informacional apenas quando nela se constitui um complexo gerador dotado de engrama e de competência estratégica.
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A informação só é ativa e reprodutiva dentro da atividade de um aparelho gerador, que por sua vez só funciona dentro da organização comunicacional total, numa relação recursiva.
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A organização informacional permite economia energética ao possibilitar controle preciso sobre processos que, sem informação, exigiriam dispêndio maior de energia.
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Toda informação degenerada pode ser regenerada caso encontre um aparelho gerador e uma cabeça decifradora capazes de reativá-la.
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A equivalência entre neguentropia e informação constitui relação de transmutabilidade mútua, condicionada a fatores energéticos e organizacionais dados, não uma identidade absoluta.
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O poder social se estabelece pelo controle dos aparelhos que monopolizam a informação generativa, relegando os dominados às tarefas puramente energéticas de execução.
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A crítica a Marx aponta que este identificou corretamente o caráter gerador da produção social, mas fundamentou-a apenas em termos energéticos de trabalho, sem perceber o poder propriamente informacional dos aparelhos.
VII. A pequena e a grande relatividade
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No quadro shannoniano estrito, informação, redundância e ruído permanecem distintos apenas quando emissor e receptor compartilham um código comum, tornando-se indistintos fora desse quadro.
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O exemplo de dois militantes de partidos adversários assistindo ao mesmo debate ilustra como a mesma mensagem pode ser simultaneamente redundância e ruído, conforme a ideologia do receptor.
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A reprodução biológica pode ser lida ao mesmo tempo como redundância, como transmissão de informação e como fenômeno de ruído, dependendo do ângulo de observação adotado.
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A mutação genética evidencia que a informação só pode nascer da interação entre uma organização geradora e uma perturbação aleatória, tornando o ruído simultaneamente destrutivo e cooperador da generatividade.
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A entropia, ao se ligar à informação, passa a significar a ignorância de um observador sobre o sistema observado, enquanto a informação corresponde ao saber que reduz essa ignorância.
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Estabelece-se um princípio de equivalência entre o jogo físico desordem/interações/ordem/organização e o jogo psíquico ruído/informação/redundância/organização, mediado por seres noológicos tradutores.
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Brillouin demonstra que toda observação com medida modifica fisicamente o sistema observado, de modo que a informação tem sempre um custo físico que altera a realidade.
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Uma observação exaustiva exigiria informação, energia e neguentropia infinitas, o que tornaria a própria busca de conhecimento absoluto autodestrutiva para o universo observado.
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Toda experiência científica, ao isolar seu objeto do contexto real, introduz-o à força num novo contexto anthropo-sociológico, produzindo informação transformável que alimenta a técnica.
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A ciência física pode ser lida como um apêndice da teoria da informação, e a teoria da informação como um apêndice da física, estabelecendo uma boucle recursiva entre conhecimento físico e conhecimento psíquico.
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A necessidade de uma conhecimento de duplo foco, articulando objeto e sujeito, impõe-se como condição para superar o círculo entre a física da conhecimento e o conhecimento da física.
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