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Introdução
MORIN, Edgar. La méthode. 3: La connaisance de la connaissance: anthropologie de la connaissance. Paris: Éd. du Seuil, 1986.
I. O abismo
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A demanda de conhecer o próprio conhecimento surge do reconhecimento de que o erro e a ilusão nunca se manifestam como tais no momento em que se impõem como verdade, ao contrário do que ocorre com a asfixia ou a intoxicação corporal.
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O mito assumiu forma de razão, a ideologia camuflou-se em ciência e a salvação tomou forma política dizendo-se verificada pelas leis da história, revelando que messianismo e niilismo se combatem e se produzem mutuamente no próprio século.
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Os progressos da física mais avançada aproximam o pensamento de um desconhecido que desafia os conceitos, a lógica e a inteligência, colocando o problema do incognoscível no coração da própria razão.
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A busca da verdade passa a exigir necessariamente uma investigação sobre a possibilidade mesma da verdade, situando o combate pela verdade no nó estratégico do conhecimento do conhecimento.
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A noção de conhecimento estilhaça-se ao ser interrogada, multiplicando-se em inúmeras noções distintas como percepção, representação, juízo, raciocínio, crença e razão, sem que nenhuma delas a esgote isoladamente.
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Todo evento cognitivo exige a conjunção inseparável de processos energéticos, químicos, fisiológicos, cerebrais, psicológicos, culturais, linguísticos e lógicos, configurando o conhecimento como fenômeno multidimensional.
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A grande disjunção entre ciência e filosofia, somada aos compartimentos disciplinares, fragmenta os saberes que permitiriam o conhecimento do conhecimento, dispersando-os entre física, biologia, ciências humanas e filosofia sem comunicação entre si.
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A fragmentação dos saberes provoca uma patologia do saber na qual o crescimento exponencial das ignorâncias acompanha o crescimento exponencial dos conhecimentos, gerando um novo obscurantismo que desce dos cumes da própria cultura.
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Os males especificamente modernos, como a superpopulação, a poluição e a ameaça termonuclear, revelam-se inseparáveis dos próprios progressos do conhecimento científico, tornando os cientistas incapazes de controlar os poderes destrutivos derivados de seu saber.
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A física quântica desagrega a substância própria do real, fazendo a partícula oscilar entre onda e corpúsculo, enquanto o cosmos aparece como fruto de uma deflagração inconcebível sujeita a dispersão talvez irreversível.
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A ausência de fundamento certo para o conhecimento não deixa um vazio, mas uma espécie de lama semântica sobre a qual se erguem os pilares do saber científico, tornando o dúvida e a relatividade elementos ineliminaveis.
II. Do meta-ponto de vista
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Conforme a lógica de Tarski e o teorema de Gödel, nenhum sistema cognitivo consegue conhecer-se exaustivamente nem validar-se completamente a partir de seus próprios instrumentos, exigindo a constituição de um metassistema capaz de examiná-lo como sistema-objeto.
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A aptidão reflexiva do espírito permite que toda representação, todo conceito e o próprio espírito tornem-se objeto de uma segunda pensée reflexiva, instaurando um sistema de meta-pontos de vista sobre o conhecimento.
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O conhecimento não pode ser tratado como um objeto qualquer, pois é justamente aquilo que serve para conhecer os demais objetos e também para conhecer a si mesmo.
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A abertura bio-antropo-sociológica exige relacionar o conhecimento ao continente do qual faz parte, impondo um duplo imperativo contraditório de abertura e fechamento que jamais encontra solução a priori.
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A revolução copernicana de Kant transformou o próprio conhecimento em objeto central da conhecimento, legando três faces complementares que ora limitam a conhecimento aos fenômenos, ora revelam a unidade entre possibilidades e limites cognitivos, ora abrem um campo novo voltado às estruturas da própria conhecimento.
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A disjunção contemporânea entre ciência e filosofia jamais rompeu totalmente a comunicação entre ambas, sendo necessário hoje um diálogo binocular entre reflexão filosófica e investigação científica para alcançar o recuo necessário à compreensão do conhecimento.
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A reintegração do sujeito exige conceber um sujeito vivo, aleatório, insuficiente e vacilante, introduzindo sua própria finitude e historicidade, sem contudo recair no subjetivismo metafísico.
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A reorganização epistemológica proposta assume complementarmente as ciências cognitivas como objeto da epistemologia e a epistemologia como objeto das ciências cognitivas, estabelecendo uma relação recursiva entre ambos os pontos de vista.
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A epistemologia complexa é concebida como desprovida de fundamento e de centro, à maneira da revolução hubbleana que mostrou a ausência de centro no universo, girando em torno do problema da verdade por meio de perspectivas rotativas.
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O conhecimento do conhecimento assume vocação méta-pan-epistemológica, permanecendo aberto tanto a conhecimentos não ocidentais quanto a conhecimentos não racionais, sem jamais rejeitá-los de antemão como não conhecimentos.
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A dupla infirmidade que marca o conhecimento do conhecimento decorre da impossibilidade de fundar e de completar tanto o conhecimento quanto o conhecimento do conhecimento, reproduzindo-se essa impossibilidade ao infinito em cada novo grau reflexivo.
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A vocação emancipadora do conhecimento do conhecimento reside em permitir tomar consciência das condições físicas, biológicas, sociais e paradigmáticas que produzem e organizam todo conhecimento, contribuindo assim para uma relativa emancipação dessas mesmas condições.
III. A aventura
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Distinguem-se a verdadeira impossibilidade, decorrente dos limites reais do pesquisador, e a falsa impossibilidade, imposta pelo tabu disciplinar e pela resignação diante da fragmentação dos saberes.
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As grandes ideias suscitadas por cientistas como Einstein, Planck, Bohr e Heisenberg sobre a natureza da matéria, do tempo e do espaço ultrapassam o domínio técnico de suas disciplinas e pertencem à reflexão de todo espírito curioso.
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Os desacordos entre especialistas de uma mesma disciplina frequentemente remetem a debates filosóficos clássicos, como evidenciam as divergências entre neurocientistas quanto à realidade ou irrealidade do espírito em relação ao cérebro.
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O termo método não equivale a metodologia, pois enquanto esta programa a priori a pesquisa, o método aqui buscado constitui uma ajuda estratégica que incorpora necessariamente descoberta e inovação.
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A obra intitulada O Conhecimento do Conhecimento conduz ao núcleo mesmo do empreendimento reflexivo, confrontando o paradoxo segundo o qual o operador do conhecimento deve tornar-se simultaneamente objeto desse mesmo conhecimento.
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A redação simultânea e recíproca dos primeiros volumes de O Método fez com que cada tomo retroagisse sobre os demais, de modo que o método empregado resultou de um processo de autoprodução.
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Diante da impossibilidade de exploração exaustiva do terreno, adotou-se uma estratégia de ataque concentrado sobre os nós de comunicação e problemas-chave julgados decisivos, assumindo plenamente os riscos dessa escolha.
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A tragédia da complexidade manifesta-se tanto no nível do objeto de conhecimento, dividido entre o fechamento mutilador e a dissolução das fronteiras, quanto no nível da própria obra, que deve visar a síntese ao mesmo tempo em que luta contra a pretensão de alcançá-la plenamente.
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A consciência do inacabamento cósmico e do inacabamento antropológico reforça o sentimento de que toda obra de conhecimento deveria permanecer a céu aberto, marcando suas próprias lacunas em vez de disfarçá-las sob uma falsa conclusão definitiva.
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A decisão de interromper a pesquisa bibliográfica e empreender a redação final do texto resultou de uma necessidade biológica diante do sentimento de estar submerso pelo crescimento exponencial das referências em cada campo do saber.
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