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Crises

PARROCHIA, Daniel. La forme des crises: Logique et épistémologie. Seyssel: Champ vallon, 2008.

1. A reflexão sobre a ideia de crise torna-se necessária diante do enfraquecimento das filosofias da história fundadas em teleologias messiânicas e da consequente necessidade de reconstruir o sentido histórico a partir de acontecimentos cujo encadeamento não se encontra previamente determinado.

  • As concepções cristãs de uma comunidade paradisíaca, a crença iluminista no progresso irreversível, a utopia comunista de uma sociedade sem classes e o ideal de uma comunicação inteiramente transparente perderam sua força como sistemas coletivos de orientação do tempo.
  • O desaparecimento dessas grandes narrativas não significa o fim da história, mas o início de uma compreensão mais rigorosa de sua abertura e imprevisibilidade.
  • Os acontecimentos passam a formar uma rede cujo sentido deve ser reconstruído pacientemente, sem modelo previamente disponível.
  • A lucidez histórica exige combate contínuo contra as recorrentes interferências ideológicas.
  • A nova experiência do tempo prescinde de revoluções finais, pensadores soberanos e heróis histórico-mundiais.
  • A expectativa de uma época sem seguidores, igrejas e fanatismos permanece contrariada pela persistência concreta dos dogmatismos.

2. A história recente impõe uma investigação das crises como momentos em que sociedades e culturas vacilam, pois acontecimentos políticos, militares, econômicos e tecnológicos distintos parecem compartilhar características capazes de fundamentar uma teoria geral ainda por desenvolver.

  • O colapso da União Soviética, o fim da Guerra Fria e o recrudescimento de conflitos periféricos modificaram profundamente a ordem internacional.
  • As ameaças terroristas dirigidas ao Ocidente, especialmente as associadas ao Oriente Próximo, adquiriram expressão extrema nos atentados de 11 de setembro de 2001.
  • As crises abrangem estados de mal-estar e incerteza, transformações sociais profundas, colapsos financeiros, desastres tecnológicos e confrontos políticos internacionais.
  • A presença de propriedades comuns nesses fenômenos permite considerar uma abordagem teórica conjunta.
  • A comparação entre diferentes tipos de crise pode esclarecer suas respectivas especificidades.
  • A percepção de descontinuidades e fraturas na história não constitui uma descoberta contemporânea, mas integra uma longa tradição de reflexão.

3. A crescente dificuldade das democracias liberais modernas em compreender os fundamentos científicos, tecnológicos, econômicos e militares de suas próprias decisões exige reafirmar que a história continua acessível à racionalidade, embora essa compreensão não deva converter-se em uma nova mitologia totalizante.

  • A incompreensão dos mecanismos que regulam a ciência, as tecnologias, as empresas, os riscos, a economia e as escolhas militares favorece reações de rejeição.
  • Os meios de comunicação e os partidos interessados na conquista do poder podem estimular e explorar politicamente essas reações.
  • A ausência de finalidades históricas últimas não obriga à resignação nem impede a busca de explicações racionais.
  • A presença do acaso e de acontecimentos aparentemente insignificantes não elimina a possibilidade de compreensão.
  • Modelos lógico-matemáticos oriundos da topologia diferencial, das probabilidades, da teoria dos jogos e da teoria dos grafos podem reconstruir conexões explicativas.
  • Esses instrumentos fornecem razões para conservar uma expectativa racional diante da complexidade histórica.
  • Uma teoria geral das crises ainda não foi constituída, sendo possível apresentar apenas seus elementos iniciais.

4. A finalidade prática da investigação consiste em reunir métodos de interpretação e ação capazes de aproximar políticos, estrategistas e demais agentes do funcionamento efetivo do mundo contemporâneo, oferecendo instrumentos neutros que também possam servir à resistência contra formas abusivas de poder.

  • As rupturas históricas e as revoluções permanecem parcialmente opacas, embora as transformações sociais continuem ocorrendo.
  • A ação revolucionária contemporânea incorpora conhecimentos de informática e novas tecnologias.
  • As possibilidades combinatórias das sociedades industriais podem ser utilizadas para expor contradições, revelar fragilidades e explorar vulnerabilidades.
  • Redes descentralizadas, intermitentes e codificadas podem substituir formas tradicionais de mobilização e dificultar o controle policial.
  • A ampliação das operações de vigilância e das demonstrações públicas de força tende a alimentar o medo e a agressividade social.
  • A neutralidade dos instrumentos analíticos não impede que sejam empregados contra poderes convertidos em opressivos.
  • A investigação originou-se como documento preparatório para um grupo de pesquisas sobre crises instituído na França pela Delegação Geral para o Armamento em 2001 e 2002.
  • Sua revisão e atualização conduziram à compreensão do trabalho como uma nova forma de tratado da rebeldia.
  • As antigas florestas simbólicas foram substituídas por estruturas matemáticas, e as intuições deram lugar a modelos.
  • As formas contemporâneas de opressão e alienação tornaram-se mais discretas e insidiosas.
  • A vigilância penetrou até mesmo os espaços tradicionalmente associados à fuga e à resistência.
  • A luta contra a irracionalidade e contra aqueles que dela se beneficiam permanece necessária.
  • A indignação conserva sua força e não deve ceder à intimidação.
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