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Husserl

PICKLES, John. Phenomenology, science and geography. Cambridge: Cambridge University Press, 1985.

1. Ao justapor a 'fenomenologia geográfica' à fenomenologia, e ao passar da primeira para a segunda, está implícita a afirmação de que as duas não são a mesma coisa, e agora é necessário passar do que passa por fenomenologia na literatura geográfica para o que realmente é o caso na própria fenomenologia, permitindo que a fenomenologia se mostre a partir de si mesma mais uma vez, não com a intenção de sugerir que a fenomenologia como tal passou despercebida na geografia, mas para mostrar como as alegações falsas e interpretações errôneas devem ser corrigidas quando a ciência se volta para a reflexão filosófica para esclarecer seus conceitos básicos.

2. Ao se voltar para a fenomenologia a partir de perspectivas geográficas estabelecidas, as categorias tradicionais de tal discurso foram pressupostas e influenciaram a compreensão do projeto fenomenológico, e agora é tarefa mostrar como uma compreensão mais clara da fenomenologia é importante para a prática da própria ciência empírica, permitindo que Husserl e Heidegger apresentem suas ideias de forma justa e precisa a um público geográfico.

3. No desenvolvimento das várias posições referidas como 'fenomenologia geográfica', conceitos bem utilizados foram tomados como certos e seu significado foi alterado, atribuindo-se palavras com significados que antes nunca tiveram, e, portanto, quase certamente haverá mal-entendido a menos que se busque revigorar o vocabulário básico por meio de uma análise fundamental de conceitos como 'objeto', 'objetivo', 'abstração' e 'redução', em contraste com seus supostos lados opostos - 'sujeito', 'subjetivo', 'descrição' e 'mundo da vida'.

4. As alegações correspondentes da 'fenomenologia geográfica' de superar o empirismo e o caráter postulante e objetivante da ciência empírica são apenas parcialmente precisas, pois um empirismo não reflexivo do tipo que floresceu na geografia durante as décadas de 1950 e 1960 precisa ser fundamentado filosoficamente, o que não é uma superação do empirismo, mas um retorno aos seus princípios fundamentais, de que a “reflexão contínua pertence a toda ciência” e de que as perspectivas científicas nas quais a investigação empírica se baseia são a priori.

5. Ao perguntar o que é fenomenologia, pode-se começar com a própria resposta de Husserl: “Fenomenologia - sou eu e Heidegger”, e, embora o termo 'fenomenologia' seja usado por Lambert, Kant e Mach, e seja uma parte vital e totalmente desenvolvida da filosofia de Hegel, quando se fala hoje de fenomenologia, refere-se ao projeto de Edmund Husserl e seu desenvolvimento subsequente, que influenciou todos os fenomenólogos posteriores.

6. Husserl forneceu muitas introduções à fenomenologia, seguindo um ou outro dos vários caminhos para a fenomenologia transcendental, e para os propósitos presentes, guiar-se-á inicialmente por suas palestras de 1907 sobre A ideia da fenomenologia e seu artigo para a Encyclopaedia Britannica de 1927, onde Husserl incorporou e esclareceu a importante distinção entre fenomenologia mundana, descritiva ou eidética e redução eidética, por um lado, e fenomenologia transcendental e reduções fenomenológicas, por outro.

7. Husserl começa A ideia da fenomenologia com a distinção entre pensamento natural e filosófico, onde o pensamento natural na ciência e na vida cotidiana não é perturbado pelas dificuldades relativas à possibilidade da cognição, enquanto o pensamento filosófico é circunscrito pela posição em relação aos problemas concernentes à possibilidade da cognição, e, portanto, deve-se distinguir entre as ciências apropriadas a cada atitude, entre filosofia e ciências não filosóficas.

8. As ciências não filosóficas fluem da atitude natural, onde o pensamento está voltado para as coisas, dadas como obviamente evidentes, e assume-se que o mundo pode ser considerado em qualquer parte sem que sua natureza objetiva seja alterada, um mundo objetivo existente em si mesmo e possuindo uma racionalidade que pode ser totalmente compreendida, e com base nisso, as ciências objetivas foram desenvolvidas.

9. Nas ciências exatas da atitude natural, tudo é claro e compreensível, e, na medida em que métodos sólidos e confiáveis foram aceitos e usados, alguma verdade objetiva sobre a realidade externa pode ser alcançada com certeza, mas a reflexão sobre esse processo e sobre a teoria do conhecimento que busca explicá-lo leva rapidamente a dificuldades e até contradições, com os perigos associados do ceticismo.

10. Através da teoria do conhecimento, como crítica dessa atitude natural, é possível interpretar com precisão e definitivamente as maneiras pelas quais essas ciências decidem sobre o que existe e esclarecer os erros que a reflexão comum comete sobre a relação da cognição, seu significado e seu objeto, e isso também permite esclarecer as “interpretações fundamentalmente enganosas” das entidades com as quais as ciências do tipo natural lidam.

11. Essa crítica da atitude natural busca mostrar de que perspectiva as coisas no mundo são tomadas pelas ciências e como os objetos de cada ciência são constituídos, sendo essa a tarefa da fenomenologia na atitude natural, que denota um sistema de disciplinas científicas mundanas, ou ontologias regionais, correspondentes a cada domínio da ciência empírica, e para esse fim, uma nova ciência deve ser desenvolvida - fenomenologia eidética ou descritiva - que fornecerá a fundação metodológica para as ciências empíricas.

12. A fenomenologia descritiva é necessária para evitar “todas as construções e formulações abstratas, descobertas acidentais, aceitação de conceitos apenas aparentemente demonstrados e adoção de pseudoproblemas que frequentemente se apresentam como problemas reais”, e a especulação metafísica e construções epistemológicas que se concentram nos processos mentais e cognitivos em detrimento dos próprios fenômenos devem ser rejeitadas, com o objetivo da ontologia fenomenológica sendo “retornar aos dados originais da experiência do homem e fornecer uma clarificação conceitual desses dados, delineando as estruturas constitutivas que os tornam o que são”.

13. Além de denotar uma ciência descritiva correspondente às ciências empíricas, a fenomenologia também denota um método e uma atitude mental diferentes, o método filosófico e a atitude filosófica, e tradicionalmente a filosofia e as ciências positivas não fizeram essa distinção radical, tratando a filosofia e as ciências empíricas como iguais, com a filosofia não apenas relacionada às outras ciências, mas também podendo ser fundamentada nas conclusões dessas ciências, uma posição insustentável para Husserl.

14. A teoria do conhecimento não deve ser baseada na psicologia da cognição e na biologia, um preconceito inaceitável pelo qual o pensamento filosófico é tratado como se fosse pensamento natural, enquanto a filosofia está em uma “dimensão inteiramente nova” em relação às ciências positivas, exigindo “um ponto de partida inteiramente novo e um método inteiramente novo” que a distinga em princípio de qualquer ciência empírica e positiva.

15. O termo 'fenomenologia' designa três coisas: (1) um novo tipo de método descritivo; (2) um conjunto de ciências descritivas a priori ou puras, ou ontologias regionais, correspondentes a cada um dos domínios das ciências empíricas e fornecendo a fundação metodológica para elas, com base nas quais métodos empíricos cientificamente rigorosos podem ser estabelecidos; e (3) uma ciência a priori - fenomenologia filosófica ou transcendental - destinada a fundar uma filosofia rigorosamente científica e, consequentemente, a permitir a reforma metódica de todas as ciências.

16. A ciência moderna lida com realidades espaço-temporais concretas, e para o domínio da natureza física, uma ontologia universal ou de uma ciência natural pura foi desenvolvida ou formalizada, onde todas as predicações extra-físicas foram excluídas, e, portanto, uma ciência pura ou ontologia da natureza física foi desenvolvida para fundar as ciências naturais empíricas, mas, em relação às ciências humanas, deve-se perguntar qual é a ciência pura equivalente correspondente aos domínios psíquico e cultural das ciências empíricas, pois não existe tal ciência pura do domínio humano.

17. Para estabelecer essa 'ideia orientadora', é necessário esclarecer o que é peculiar à forma particular de experiência com a qual se está preocupado, e isso significa que a precedência será dada aos tipos mais imediatos de experiência, e essa intuição original das coisas mesmas - a base do chamado de Husserl 'de volta às coisas mesmas' - é um retorno aos dados imediatos e originais da consciência, onde o que se manifesta através da intuição original é apoditicamente evidente, verdadeiro e certo, e não requer nenhuma fundamentação adicional.

18. Husserl não vê a raiz última, o ponto de partida radical e absoluto da filosofia, em qualquer conceito básico único, em qualquer princípio fundamental único, em um simples cogito, mas em um campo inteiro de experiências originais, e sua filosofia é uma fenomenologia precisamente porque tem como ponto de partida um campo de fenômenos primordiais, dentro do qual ele não quer indução ou dedução, mas unicamente intuição com base em uma análise e descrição muito exatas, e nenhum dos métodos usados pelas outras ciências pode ter valor aqui.

19. Se uma ciência pura da natureza humana e psíquica deve ser desenvolvida, é necessário refletir não sobre os objetos da percepção, mas sobre a maneira como eles são originalmente dados, e através da reflexão, a atenção é desviada da vida cotidiana no mundo e focada na maneira como se apreendem as experiências correspondentes, que Husserl chamou de 'fenômenos', e os objetos aos quais correspondem são quaisquer objetos da atenção do homem, de modo que o mundo e todas as suas partes, na medida em que possa haver qualquer consciência deles, são 'fenômenos' e podem se tornar o tema da reflexão.

20. A expressão intencionalidade refere-se a esse caráter básico da consciência, de sempre se dirigir àquilo que não é, e toda experiência é uma experiência de algo, sendo corretamente dita “intencionalmente relacionada” a esse algo, mas isso não é uma adaptação passiva da consciência ao que quer que encontre no mundo, nem uma relação de um objeto externo a uma consciência interna, mas, na “retenção não reflexiva de algum objeto ou outro na consciência, estamos voltados ou direcionados para ele: nossa 'intentio' se dirige para ele”, e a inversão fenomenológica do olhar mostra que esse 'ser dirigido' é realmente uma característica essencial imanente das respectivas experiências envolvidas.

21. Para Husserl, é característico de todo fenômeno que ele tenha sua própria forma de intencionalidade, e que o objeto de qualquer ato seja inseparável do próprio fenômeno do significado, onde a “estrutura da intencionalidade é uma em que o objeto aparece como essencialmente determinado pela estrutura do próprio pensamento; este próprio pensamento primeiro dá significado ao objeto e então continua a se orientar para o polo de identidade que ele mesmo já criou”, e a intencionalidade é, para Husserl, a estrutura básica da consciência, onde todo ato de consciência é dirigido ao seu objeto intencional.

22. Para Heidegger, a estrutura intencional está presente não apenas como essa relação cognitiva ou teórica entre o homem e seu mundo, mas no mundo cotidiano das preocupações práticas do homem, onde, no mundo cotidiano pré-reflexivo, o homem já se entende como fundamentalmente relacionado ao seu mundo, e quando se busca entender a intencionalidade e a consciência mais amplamente, pode-se perguntar como se é dado a si mesmo, às coisas e ao mundo, e aqui se torna claro que, em todo ato consciente concreto, o mundo já está presente como constituído antes de ser posto nesse ato.

23. Em A filosofia como ciência rigorosa e em todas as suas obras posteriores, Husserl estabeleceu o programa de “salvar a razão humana”, refutando tendências ao naturalismo, psicologismo e historicismo, e estabelecendo as bases para uma filosofia estritamente científica sobre uma base de racionalidade inquestionável, que era a fenomenologia, que só ela poderia ser verdadeiramente científica, e apenas a filosofia como ciência rigorosa poderia garantir o caráter científico de qualquer ciência particular, um objetivo cartesiano de uma filosofia universal fornecendo uma ciência universal fundamentada em uma base absoluta.

24. As ciências positivas, ingênuas como a existência diária e prática, são incapazes de explicar os atos intencionais dos quais suas construções se originam, e a fenomenologia respondeu à crise de distância que se abriu entre as ciências e a vida, dificultando a fundamentação do significado das abstrações científicas na vida concreta, e é “no longo caminho através da objetividade das ciências positivas que a fenomenologia é melhor vista como o esforço para ser a ciência da ciência”, desde a crítica das ciências a priori existentes (matemática e lógica), passando pelas ontologias a priori, mas ainda positivas, formais e materiais, culminando na ontologia do mundo da vida, todas recebendo sua fundamentação completa na ontologia transcendental.

25. Como estabelecido em Ideias, a nova ciência da fenomenologia seria fundada em um domínio independente de experiências diretas até então inacessíveis, onde os fatos empíricos serviriam apenas como exemplos de generalidades essenciais, e as generalidades essenciais seriam obtidas por meio das reduções fenomenológicas, levando a uma fenomenologia eidética - o domínio da 'descrição' eidética pura ou o domínio das estruturas essenciais imediatamente transparentes à consciência - estabelecendo uma ciência de possibilidades puras, a fundação para as ciências de fatos.

26. Husserl respondeu fortemente às ciências positivas infundadas, que perpetuavam o distanciamento entre ciência e vida, representavam uma séria ameaça à filosofia e negavam a possibilidade de qualquer ciência que não lidasse com fenômenos como indicações de fenômenos físicos, e o naturalismo empiricista, como Husserl o chamava, embora provenha de motivos louváveis para estabelecer a Razão como autoridade sobre a verdade e se opor à tradição, superstição e preconceito, passou a equiparar a fundamentação na experiência imediata com a fonte de fatos em sua autodação, de modo que 'essências' e 'ideias', em oposição a 'fatos', são vistas como fantasmas metafísicos.

27. Ao equiparar a exigência de retornar aos 'próprios fatos' com a exigência de que todo conhecimento seja fundamentado na experiência, o naturalismo enfrenta o problema de que o mundo dos fatos é visto como o único domínio apropriado da ciência, e isso contém vários problemas: (1) é incapaz de justificar sua própria posição com base apenas na experiência; (2) a teoria da experiência que propõe é atomista e não pode explicar como surgem ideias gerais ou universais; e (3) a teoria da experiência é altamente seletiva, recusando-se consistentemente a aceitar todo o campo fenomênico pelo valor de face, enfatizando as impressões sensoriais de entidades físicas como formas privilegiadas de experiência.

28. Para Husserl, a separação entre fato e essência que isso implica deve, eventualmente, ter um efeito negativo sobre as próprias ciências empíricas, uma vez que a fundamentação eidética incompleta dessas ciências e a necessidade de desenvolver novas ciências que lidem com essências para o avanço posterior das ciências empíricas devem, eventualmente, se revelar inibidoras.

29. As ciências positivas e a 'prosperidade' que geraram influenciaram a visão de mundo do homem moderno, produzindo uma falta de preocupação com questões importantes da humanidade genuína, que são universais e necessárias para todos os homens, concernentes ao homem como ser livre e autodeterminante em seu comportamento em relação ao mundo circundante humano e extra-humano e na formação desse mundo, e porque abstraem tudo 'subjetivo', a ciência do físico não tem nada a dizer sobre essas questões, nem as ciências humanas que buscam excluir posições valorativas, questões de razão e padrões culturais.

30. Além disso, as ciências empíricas, começando de maneira ingênua, têm problemas com seus próprios fundamentos e paradoxos internos resultantes, sendo teoricamente infundadas e não podendo, portanto, substituir a filosofia como base de uma ciência totalmente fundamentada, e esse naturalismo infundado é essencialmente o mesmo que o positivismo, onde a natureza física é sensualisticamente fragmentada em complexos de sensações e objetos 'psíquicos' são fragmentados em complexos complementares das mesmas ou de outras 'sensações'.

31. Para o naturalista, tudo o que existe é físico (pertencendo a uma totalidade unificada da natureza física) ou psíquico, mas então meramente como uma variável dependente do físico e, pertencendo ao domínio psicofísico da natureza, determinado por leis rígidas e, em última análise, as mesmas leis da natureza, e a consciência é entendida como um produto, bem como uma parte, da mesma natureza interrogada pelos cientistas, com o mental incorporado no físico.

32. Apontar isso como o estado de coisas a ser remediado pela fenomenologia não é negar que existem mecanismos psicofísicos que afetam a consciência, e a tentativa de fundamentar o mundo cultural em sua base física é justificável se o objetivo da ciência cognitiva ou comportamental é dar explicações causais, onde as previsões podem ser verificadas experimentalmente, mas as idealizações exigidas para tais procedimentos são possíveis apenas sob reduções abstrativas específicas, que, em última análise, dão o objeto da física pura.

33. Ao reduzir fenômenos psicológicos a observações físicas substitutas, a psicologia naturalista não fala mais de fenômenos psicológicos, perdendo contato com a experiência vivida, embora para saber quais fenômenos físicos são substitutos apropriados para fenômenos psíquicos, ela deva pressupor tal experiência vivida em primeiro lugar, e enquanto os métodos da ciência física pressupõem o ideal de conexões causais exatas, a experiência da vida psíquica não implica tal ideal.

34. A mesma situação se aplica quando se recorre a tentativas da ciência comportamental de explicar a experiência e o comportamento em termos de atitudes psicológicas, e o psicologismo é outra forma de reducionismo que busca entender a lógica, por exemplo, em termos psicológicos, substituindo critérios extralógicos de validade, e ao tornar a lógica parte da psicologia, o psicologismo, por sua vez, torna a psicologia o fundamento da filosofia, embora as questões de como se pensa e por que se pensa sejam áreas legítimas de estudo, elas estão fora do domínio da lógica, pressupondo-a e sendo fundamentalmente irrelevantes para a questão – qual é a estrutura formal da lógica?

35. Na experiência vivida intersubjetiva, tem-se (a) objetos culturais, (b) objetos animados e © objetos físicos, que estão relacionados entre si de uma maneira particular, e pode-se conceber um objeto cultural apenas na medida em que as outras duas formas de objeto estão implicadas nele, e pode-se abstrair de qualquer objeto cultural gradualmente até um ponto em que apenas objetos animados e objetos naturais permanecem, o que não significa que os objetos culturais sejam sempre primeiro dados como não culturais, mas que se pode abstrair do objeto cultural para o objeto concreto não cultural.

36. Pode-se realizar reduções abstrativas universalizantes, restando objetos físicos e objetos animados, e as reduções abstrativas podem ser levadas adiante, abstraindo todos os fatores que constituem objetos animados até que se fique apenas com objetos físicos puros e simples, e uma terceira redução abstrativa pode ser realizada onde se abstrai dos próprios objetos concretos de modo que apenas objetos puramente formais permaneçam, e tais reduções abstrativas dão os objetos das ciências, com uma redução abstrativa pertencendo a toda ciência que determina os objetos do campo e a forma de idealização que permite que esse campo dê definições precisas de seus conceitos básicos.

37. O cientista tematiza as idealizações que se tornam possíveis como resultado da realização das reduções abstrativas, e essas tematizações são estritamente limitadas ao domínio descoberto pelas reduções, na medida em que são suscetíveis ao método científico, mas o naturalista falha em reconhecer esses limites inerentes às reduções abstrativas, substituindo o esquema 'em-si' / aparência pelos passos metódicos das reduções abstrativas, onde o objeto físico ou o objeto animado e físico é o 'em-si', o objeto real, enquanto os fenômenos culturais são epifenômenos, meras aparências.

38. O erro do naturalista é tomar a abstração como fundamento para cada um dos domínios de entidades, sendo um erro afirmar que “um animal é uma máquina” ou que “o homem obedece apenas às leis da física”, embora seja, em princípio, aceitável que o cientista argumente que a pesquisa considerará os animais apenas na medida em que eles podem ser considerados como se fossem máquinas, ou que essas afirmações permanecerão válidas apenas na medida em que o homem é afetado por leis físicas.

39. Os próprios construtores de modelos devem perguntar qual é a base para esses modelos, de onde eles vêm, e se eles têm base na própria essência dos fenômenos, ou são meramente analogias, e se a base para essas analogias é a economia de pensamento ou a explicação causal, mas essas construções são impostas aos fenômenos sem a clarificação cuidadosa e necessária prévia, através da fenomenologia descritiva, do domínio dos fenômenos em consideração, e o argumento ad hominem se aplica: se os fenômenos culturais devem ser reduzidos a fenômenos sociopsíquicos e então a fenômenos fisiológicos para serem explicados cientificamente, qual é então o status das próprias explicações e do próprio esforço do cientista?

40. As alegações do naturalismo não são as mais perigosas para Husserl, pois é relativamente fácil mostrar como operam as reduções abstrativas, mas no historicismo, quando as leis lógicas são englobadas nas Weltanschauungen e assim reduzidas a tendências históricas, não é o caso, e Husserl concorda com Dilthey que as Weltanschauungen são formações culturais que vêm e vão no fluxo do desenvolvimento humano, com a consequência de que seu conteúdo é motivado nas relações históricas dadas, mas ele argumenta que o mesmo é verdadeiro para as ciências estritas.

71. Levado à sua conclusão, esse argumento leva a uma situação em que as ideias de verdade, teoria e ciência perdem sua validade objetiva, e razões históricas só podem produzir explicações históricas, e a explicação da gênese e da história de uma ideia não explica totalmente o significado da própria ideia, e assim como se deve distinguir entre ciência natural e naturalismo, uma distinção tem que ser feita entre história e historicismo, que leva inevitavelmente ao relativismo, onde as alegações de verdade da ciência histórica são de igual valor.

72. O historicista está, portanto, inclinado a aceitar todos os tipos de diferentes visões de mundo como dependentes do contexto e do tempo, e a filosofia se torna meramente outra visão de mundo, e os critérios de validação têm peso igual, todos são verdadeiros, e, consequentemente, a ciência não tem critérios de validação eficazes e não pode recorrer a tal filosofia de visão de mundo para ajudar a resolver suas questões fundamentais, um caminho que paralela o caminho para o naturalismo e o psicologismo, e poderia ser construído para outros 'ismos', como o sociologismo, e mesmo o 'espacialismo' no contexto da ciência geográfica.

73. É essencialmente um problema que o racionalismo tem que enfrentar continuamente, o que Husserl chamou de 'o paradoxo da subjetividade', onde as ciências que pressupõem um mundo objetivo como seu correlato reconhecem que seu método particular determina o que é realmente o caso no mundo, e o mundo e o mundo do cientista são vistos em termos dessa perspectiva metodológica, mas como há outras perspectivas, o mundo é visto apenas através de visões de mundo metódicas, e no caso do historicismo, a autorreflexividade dessa situação força o historiador a reconhecer a natureza histórica de sua perspectiva e de suas descobertas.

74. Para Husserl, este é o ponto de teste da fenomenologia descritiva, e somente se o 'paradoxo da subjetividade' puder ser resolvido, as alegações para a fenomenologia como filosofia fundamental racional se sustentam, e para os propósitos presentes, será Heidegger, e não Husserl, cuja ontologia da facticidade extricará a fenomenologia e o projeto fundacional para as ciências do paradoxo, e o faz de tal maneira que as alegações feitas sobre a fenomenologia descritiva como ciência eidética se sustentam.

75. Na visão de Husserl, a ciência infundada coloca problemas importantes de relativismo, e o desenvolvimento de uma fundamentação completa para a ciência só é possível através de uma investigação rigorosamente crítica e sistemática, onde tudo é reduzido a 'pressuposições' primárias, que são imediatamente evidentes, e é nesse sentido que “a ciência dos fundamentos últimos” é uma ciência rigorosa, e a fenomenologia não pode começar ingenuamente, como as ciências positivas, com base nas experiências previamente dadas do mundo pressuposto como algo que existe como questão de curso.

76. Uma distinção deve ser feita entre filosofia e ciências não filosóficas; entre a atitude filosófica e a atitude natural, e este é o problema da transferência da atitude natural para aquela própria da fenomenologia transcendental - a atitude filosófica - mas deve-se perguntar se uma ciência totalmente fundamentada pode ser desenvolvida independentemente de quaisquer concepções científicas estabelecidas, e claramente não, pois como se começaria se não se pressupusesse, por exemplo, a lógica?

77. O uso da dúvida radical por Husserl na forma da epoché fenomenológica tem sido frequentemente criticado por negar exatamente aquilo em que as ciências humanas estão interessadas, e foi dito que, uma vez colocado entre parênteses, o mundo não pode ser reconstituído, mas isso é entender mal o objetivo de Husserl e a noção de colocar entre parênteses, e na Quinta Meditação Cartesiana, Husserl mostra como o objetivo geral de fundamentar a ciência não deve ser renunciado, mas deve motivar continuamente não apenas o curso de suas próprias meditações, mas também implicitamente as das próprias ciências.

78. A ideia geral de ciência pode ser tomada das ciências como se as tem como uma “pressuposição precursora, que nos permitimos tentativamente, pela qual nos permitimos tentativamente ser guiados em nossas meditações”, mas este conceito genuíno de ciência não é derivado por abstração das ciências de fato, e as ciências como fatos da cultura objetiva e ciências “no sentido verdadeiro e genuíno” não precisam ser idênticas, sendo tarefa da fenomenologia revelar a última a partir da primeira.

79. Esta ideia geral de ciência fundamentada em uma base absoluta e apoditicamente justificada guia todas as ciências em seu esforço por universalidade, seja qual for sua situação real, e embora evidências e verdades relativas sejam suficientes na vida cotidiana pré-científica, a ciência busca verdades que são válidas, e permanecem assim, de uma vez por todas e para todos, e, portanto, busca verificações de um novo tipo, verificações levadas até o fim, e embora de fato, como a própria ciência deve finalmente ver, ela não atinja a atualização de um sistema de verdades absolutas, ela segue a ideia de verdade absoluta ou cientificamente genuína.

80. A ciência envolve, portanto, um movimento de cognições anteriores para posteriores que não é arbitrário, mas tem sua base “na natureza das próprias coisas” na maneira de sua doação, e esta 'ideia de ciência' guia as meditações de todas as ciências, seja qual for a situação de qualquer ciência particular em relação à atualização de fato dessa ideia, e, consequentemente, as reflexões sobre o empreendimento científico podem permitir descobrir elementos da ideia genuína de ciência que guia o esforço das ciências ingênuas.

81. Embora a crise das ciências (e do homem europeu e do racionalismo) seja real, Husserl ainda mantém admiração pelas ciências, especialmente aquelas que são modelos de disciplina científica rigorosa e altamente bem-sucedida, e a própria fenomenologia é dependente delas para seu desenvolvimento, e o cientista praticante, como o artista ou artesão, possui uma certa 'racionalidade técnica' que permite descobertas importantes na ciência, apesar de sua falta de fundamentação, mas se o ideal da ciência é ser atualizado, especialmente no domínio dos objetos culturais, e se a crise deve ser superada, as ciências (assim como o homem europeu) precisariam da fenomenologia.

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