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Objetivismo e sujetivismo

PICKLES, John. Phenomenology, science and geography. Cambridge: Cambridge University Press, 1985.

O que, então, constitui os conceitos básicos e o quadro de significado dado como certo com o qual este trabalho se preocupa principalmente? Trata-se nada menos do que da própria tradição do pensamento geográfico, com um modo de investigação que se fundamentou e se desenvolveu a partir de uma determinada visão de mundo ou interpretação metafísica do homem e do mundo. Isso podemos chamar de visão de mundo cartesiana ou newtoniana, que pressupõe o que Heidegger chamou de uma forma de pensar e interpretar o mundo que “propõe” e “postula”, “a qual assegura os seres como objetos em oposição a si mesma e para si mesma” (Welte, 1981, 92). A metafísica ocidental tornou-se cada vez mais esse pensamento de proposição e postulação de objetos, no qual, juntamente com a objetividade dos objetos, desenvolve-se a subjetividade dos sujeitos. A subjetividade assim implantada cresce ao longo do pensamento ocidental, culminando na “Vontade de Poder” de Nietzsche e, de maneira diferente, na ciência moderna e no domínio tecnológico do mundo que dela decorre, sintetizado pela era nuclear (ver Heidegger, 1977a). Se pudermos aceitar, com Heidegger, que em diferentes épocas o homem e o mundo são apropriados de maneiras distintas, então a maneira como o homem e o mundo se apropriam um do outro nesta época constitui o nível mais fundamental no qual opera o caráter de dado como certo do mundo. É somente esse fundamento que nos permite esclarecer plenamente a natureza do homem e do mundo e delimitar a maneira pela qual a ciência pode operar como um domínio válido e verdadeiro do discurso dentro de certos limites.

Há um elemento comum a todas as verdadeiras fenomenologias desde Husserl, que é a rejeição da suposição metafísica tradicional da separação entre sujeito e objeto como descrição do estado fundamental das coisas. Existimos primordialmente não como sujeitos que manipulam objetos no mundo externo, “real” e físico, mas como seres no mundo, ao lado dele e voltados para ele. Dentro desse mundo, podemos, é claro, descobrir seres ou entidades intramundanas e, por meio de um processo formal de abstração, podemos estabelecer um mundo de sujeitos e objetos para reflexão puramente teórica. Mas, de maneira geral e principalmente, existimos — isto é, ek-sistimos, ou nos destacamos — em direção a um mundo.

Se, como afirmei, a maior parte deste trabalho consiste em lidar com a fenomenologia e, por implicação, com esse processo de ek-sistência, e se isso ainda não foi alcançado na investigação geográfica, então devo mostrar: (a) como a geografia pressupõe as categorias da metafísica tradicional, permanecendo ancrada em uma ontologia da natureza física, na qual o mundo é apenas e sempre um mundo de sujeitos e objetos, e (b) como a rejeição desse estado de coisas resultou em uma omissão da própria fenomenologia em favor de um mundo de sujeitos. Esse é o objetivo deste e dos dois capítulos seguintes.

Além disso, é necessário demonstrar como o dilema epistemológico a que essa situação conduziu não pode ser superado a partir de dentro. Somente a superação da dicotomia sujeito-objeto do pensamento ocidental nos permitirá ir além do relativismo e do dogmatismo da ciência geográfica contemporânea, e somente dessa forma seremos capazes de recuperar o projeto científico — como o domínio apropriado para uma atividade de proposição, postulação ou objetivação — de maneira racional e coerente para as ciências humanas. Somente dessa forma poderemos apreciar plenamente a natureza e os limites do projeto da ciência positiva. Somente dessa forma poderá ser desenvolvido um programa de pesquisa coerente e significativo voltado para a espacialidade humana e a mundialidade. Demonstrar como e por que isso ocorre é o objetivo do restante deste trabalho.

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