Funcionalismo
PINKAS, Daniel. La matérialité de l’esprit: la conscience, le langage et la machine dans les théories contemporaines de l’esprit. Paris: Éd. la Découverte, 1995.
1. O funcionalismo, como reação às dificuldades do behaviorismo lógico e da tese da identidade psico-cerebral, propõe que os estados mentais são definidos pelos seus papéis causais, em vez de por sua constituição física, evitando o holismo problemático do behaviorismo e o “chauvinismo” da tese da identidade de tipos.
2. O behaviorismo lógico falha por não conseguir estabelecer uma correlação biunívoca entre estados mentais e disposições comportamentais, pois a especificação do comportamento associado a um estado mental depende de outros estados mentais, como no “ciclo crença-desejo”, o que torna as análises circulares.
3. A tese da identidade, por sua vez, é considerada “chauvinista” por implicar que um estado mental só pode ocorrer em sistemas neurofisiológicamente idênticos, como a dor restrita a organismos com fibras C, excluindo a possibilidade de realização múltipla em sistemas físicos diversos.
4. A ideia fundamental do funcionalismo é que o que define um tipo particular de estado mental, como a dor ou uma crença, é o papel causal que ele desempenha, definido por suas relações com entradas sensoriais, saídas motoras e outros estados mentais, e não a natureza do seu realizador físico.
5. O funcionalismo incorpora três acepções do termo “função”: a matemática, relacionada a máquinas de Turing e computação; a teleológica, referente à utilidade para a sobrevivência ou operação de um sistema; e a sistemática, que trata da interdependência funcional de subsistemas na análise de capacidades complexas.
6. Um princípio fundamental do funcionalismo é a “realizabilidade múltipla”, que postula que uma mesma função mental pode ser implementada por diferentes constituições físicas, e a relação de “superveniência” é usada para descrever como as propriedades mentais dependem das físicas sem serem redutíveis a elas.
7. A tese funcionalista é frequentemente apresentada por analogia com programas de computador, onde a descrição do software (função) é distinta do hardware (implementação), e a expectativa é que a estrutura da mente possa ser especificada em um nível de abstração independente dos detalhes físico-químicos dos neurônios.
8. A abordagem de Lewis e Armstrong, uma forma de funcionalismo “de primeira ordem”, define estados mentais como os ocupantes de papéis causais especificados pela psicologia de senso comum, resultando em uma teoria causal da mente que é compatível com a tese da identidade de tipos relativizada a espécies.
9. Putnam e Fodor, por outro lado, defendem um funcionalismo “de segunda ordem”, no qual os estados mentais são propriedades funcionais abstratas, cuja realização física é irrelevante para sua individuação, implicando a falsidade da tese da identidade de tipos.
10. A distinção crucial para Putnam é a entre estados “lógicos” ou funcionais e estados “estruturais” ou físicos de um sistema, onde os estados lógicos são definidos pela tabela de uma máquina de Turing e podem ser conhecidos pelo próprio sistema sem inferência, oferecendo um modelo para a infalibilidade dos relatos introspectivos.
11. A analogia de Putnam busca explicar a aparente infalibilidade dos relatos de dor, por exemplo, comparando-os aos relatos de uma máquina sobre seus estados lógicos, que são “auto-evidenciadores” e não requerem um processo de reconhecimento, evitando uma regressão de observadores internos.
12. A crítica de Rorty a essa analogia é que a distinção entre “resultar diretamente” e “reconhecer” não é clara, pois qualquer estado físico de uma máquina poderia ser conectado a um relato, e a suposta infalibilidade não é um traço exclusivo de estados lógicos, mas sim uma característica que define o mental como não-corrigível.
13. Rorty também argumenta que a distinção estado lógico/estado estrutural é dependente do nível de abstração da descrição, tornando-a arbitrária, e que qualquer sistema pode ser descrito como realizando qualquer autômato sob a descrição adequada, o que tornaria a analogia estéril.
14. Embora a acusação de vacuidade tenha algum peso, é reconhecido que nem toda descrição de um sistema é igualmente útil, e que a distinção entre software e hardware em sistemas computacionais não é vazia, e a analogia, mesmo que limitada, destacou a singularidade dessas máquinas.
15. O funcionalismo maquínico, ou tese da identidade psico-funcional, sustenta que um organismo estar em um estado mental M equivale a ele “realizar” uma máquina de Turing em um estado lógico específico, mas essa versão forte enfrenta diversas objeções técnicas e conceituais.
16. Objeções ao funcionalismo maquínico incluem a dificuldade de distinguir entre estados disposicionais e ocorrentes, a trama excessivamente fina dos critérios de identidade de estados máquina, a impossibilidade de expressar a “produtividade” dos estados mentais e a inadequação para modelar interações simultâneas entre estados.
17. O modelo de estados sequenciais de uma máquina de Turing também é insuficiente para capturar a complexidade e a dependência de contexto de estados mentais mais globais, como o ciúme, que dependem de aprendizagem e de informações culturais, e o advento de modelos conexionistas sugere um nível de organização diferente.
18. Devido a essas limitações, Putnam revisou sua posição para um funcionalismo baseado na noção de “isomorfismo funcional” entre modelos de uma teoria psicológica, onde dois sistemas são isomorfos se existe um mapeamento entre seus estados que preserva as relações definidas pela teoria.
19. Tanto a versão revisada de Putnam quanto a de Lewis compartilham o defeito comum de postular a existência de um estado físico ou computacional para cada estado mental, incluindo atitudes proposicionais, um postulado que é central para o que Putnam chama de “mentalismo contemporâneo”.
20. Dennett rejeita esse postulado, argumentando que caracterizar um sistema intencionalmente é descrever um padrão de comportamento, e não fazer referência a estados internos, e que dois sistemas podem compartilhar uma descrição intencional sem ter qualquer outra propriedade física ou computacional em comum.
21. A ruptura de Putnam com o funcionalismo é baseada em argumentos que mostram que conceitos e crenças não podem ser individualizados sem referência ao ambiente (externalismo), tornando a ideia de um “conteúdo estreito” no cérebro pouco plausível e a busca por um algoritmo universal de interpretação uma quimera.
22. A ideia de uma “forma normal” para a descrição psicológica de todos os organismos possíveis é abandonada, pois a prática interpretativa, que define a noção de “mesma crença”, é irredutível a um estado computacional ou neuroquímico único.
23. Apesar de abandonar a versão forte do funcionalismo, Putnam mantém a intuição central de que a função (o “como”) é mais importante que a matéria (o “que”), uma posição que pode ser considerada trivial quando se reconhece a complexidade dos níveis de organização natural, onde algo é funcional ou estrutural apenas em relação a um nível específico.
24. A posição de Dennett é apresentada como uma alternativa que reconhece a tarefa empírica de explicar como a mente emerge do cérebro, em contraste com o funcionalismo clássico, que ainda estaria muito atrelado ao projeto de identificar entidades do “nível pessoal” com estruturas físicas ou computacionais.
