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Techne

ROJCEWICZ, Richard. The Gods and Technology. A Reading of Heidegger. New York: SUNY, 2006

O conceito grego de techne

1. Trata-se, como o próprio Heidegger admite, de uma perspectiva estranha, mas para ele a mesma perspectiva se abre caso se proceda não de uma análise da instrumentalidade, do que é requerido para fazer e produzir coisas, mas de uma análise da própria palavra “técnica” (Technik), ou antes, da palavra grega da qual esta deriva, techne (τέχνη).

2. O parágrafo principal sobre essa questão em “Die Frage nach der Technik” é extremamente compacto, tendo Heidegger tratado do mesmo assunto alhures, num comentário completo de 168 páginas à passagem do Livro VI da Ética a Nicômaco de Aristóteles ali citada.

  • O ponto principal de ambas as exposições é o mesmo: tal como os antigos a entendiam, a techne é primariamente teórica, não prática, sendo essencialmente questão de ver ou conhecer, não de fazer ou produzir, e o que a techne vê é o ser, a essência dos entes.

3. No ensaio sobre a técnica, Heidegger estabelece esse ponto ao remeter a techne a duas outras palavras gregas: ἐπιστήμη (episteme, “conhecimento”) e ἀληθεύειν (aletheuein, “desvelar a verdade”).

  • Heidegger afirma que, para os antigos, até a época de Platão, a palavra techne “anda junto” com a palavra episteme, no sentido de uma convergência de significado, tendo sobretudo Platão em mente, já que Aristóteles virá a contrastar techne e episteme, mas em Platão os dois termos são quase intercambiáveis.
  • Para Platão e os gregos anteriores, techne e episteme simplesmente significam conhecer: “ambas as palavras são nomes para o conhecimento no sentido mais amplo”.

4. Em outro lugar, Heidegger associa esse sentido platônico de techne ao assombro (Erstaunen), atitude enraizada no conhecimento do ser em geral; o que é assombroso é que o ser se nos desvele.

  • A fonte do assombro pode também ser chamada techne, pois techne é nosso apreender o ser em geral, sendo assim assunto não de prática, mas de episteme, devendo, portanto, ir junto com a mais alta episteme, o mais alto conhecimento teórico.
  • Basta atentar para o fato de que a techne ainda, precisamente em Platão, por vezes assume o papel de designar o conhecimento puro e simples, isto é, a relação perceptiva com os entes enquanto tais, sendo claro que esse perceber os entes em seu desvelamento não é mero fitar vazio, realizando-se a techne antes num procedimento contra os entes, de tal modo que estes mesmos precisamente se mostrem em sua essência, eidos, ideia.

5. A techne, como desvelamento dos entes enquanto tais, não é mero fitar vazio; realiza-se “contra” os entes, o que significa que sai ao encontro destes a meio caminho, sendo a apropriação da autorrevelação dos entes enquanto tais, exigindo esforço, não sendo recepção passiva.

  • Heidegger chega a chamar o olhar característico da techne dos gregos de uma espécie de violência, olhar violento no sentido de envolver luta e superação — a saber, quanto ao modo superficial e generalizado como as coisas ordinariamente aparecem, realizando-se a techne contra a aparência cotidiana das coisas, tendo quem possui techne feito o esforço de ver a essência oculta à visão superficial.
  • Por outro lado, a techne é também um olhar submisso; não contra, mas precisamente a serviço da essência oculta, sendo, assim, a apropriação ativa que temos chamado olhar revelador, o ver de antemão a essência das coisas — e é por isso que a techne é o ver das Ideias no sentido platônico, sendo, para Platão, o ser, a essência das coisas em geral, chamado eidos ou idea.

6. A techne é central à doutrina platônica das Ideias, sendo precisamente nosso apreender as Ideias, os entes enquanto tais, o próprio ser: sem querer antecipar uma discussão da doutrina das Ideias, observa-se apenas que compreenderemos a gênese, o sentido primário e o que há de opaco nas Ideias de Platão somente se permanecermos orientados para o lugar onde o eidos primeiro emerge naturalmente, isto é, em qual modo de desvelamento explicitamente surge, sendo precisamente a techne o terreno sobre o qual algo como o eidos se torna primeiramente visível.

  • O apreender das Ideias, do ser, do que é assombroso, é a mais alta episteme, o mais alto conhecimento teórico, sendo a techne, como apreensão primordial das Ideias, episteme — sentido em que techne e episteme “andam juntas” para Platão e os gregos anteriores.
  • Poder-se-ia dizer que, para Platão, todas essas palavras andam juntas: techne, episteme, assombro, ser, essência, Ideia, conhecimento, não sendo a techne simplesmente conhecimento em oposição à prática, mas mesmo o conhecimento mais elevado.

7. A primeira conexão que Heidegger estabelece, entre techne e episteme, significa que techne é o nome grego para o conhecimento no sentido mais próprio, o nome para nossa compreensão do ser em geral, confirmando o que Heidegger já havia determinado quanto à techne ao abordá-la do ponto de vista da causalidade e da produção: o domínio da techne é o âmbito da verdade, do conhecimento, do olhar teórico, não a mera manipulação prática das coisas.

8. Heidegger prossegue afirmando, ainda no mesmo parágrafo, que Aristóteles distingue sim a techne da episteme, mas essa distinção não é ainda a que existe entre prática e conhecimento teórico.

  • Para Aristóteles, a distinção reside inteiramente no âmbito do conhecimento teórico, sendo uma distinção entre dois modos de conhecimento, dois modos de olhar revelador; é isso que Heidegger exprime ao ligar a techne à outra palavra grega já citada, aletheuein: techne e episteme são ambas modos de aletheuein.
  • Numa passagem notabilíssima (Ética a Nicômaco, Livro 6, capítulos 3-4), Aristóteles de fato distingue episteme e techne, mas o faz especificamente quanto ao que desvelam e como desvelam, sendo a techne um modo de aletheuein.

9. Aletheuein é verbo derivado de aletheia, significando alcançar a verdade, ver a verdade, olhar reveladoramente para as coisas; na passagem citada da Ética a Nicômaco, Aristóteles lista cinco modos de aletheuein, cinco modos de acesso à verdade, sendo o significativo, para Heidegger, que a techne seja um desses cinco.

  • A techne é, assim, um modo de olhar reveladoramente para os entes, não estando divorciada do olhar revelador, como a prática poderia estar distinta do conhecimento teórico; ao contrário, a techne é questão de conhecimento.

10. Para Aristóteles, a diferença entre techne e episteme, entre techne e conhecimento puro e simples, está no que desvelam e como desvelam: a episteme desvela o que é imutável, a techne o que é mutável; a episteme é desvelamento por si mesmo, ao passo que a techne tem um motivo ulterior além do mero desvelar.

  • A episteme é literalmente conhecimento puro e simples: conhecimento do que é simples (o eterno e imutável), e conhecimento puro (por si mesmo).

11. Para Aristóteles, o conhecimento não muda; o que mais propriamente merece o nome de conhecimento é constante e permanente, sendo tal conhecimento possível apenas de objetos imutáveis, determinando, para Aristóteles, primariamente o objeto o caráter do conhecimento, não o inverso.

  • Só pode haver conhecimento genuíno do que é imutável, e o que é imutável é eterno, jamais tendo vindo a ser nem jamais deixando de ser; não há, portanto, conhecimento genuíno das coisas individuais, sendo o conhecimento possível apenas dos princípios das coisas, das essências dos entes (em termos platônicos, as Ideias), sendo o princípio último dos entes o ser.
  • O conhecimento mais genuíno é, então, o conhecimento ontológico, e este, mais que qualquer outro, merece ser chamado conhecimento, episteme; havendo, portanto, apenas uma episteme genuína, a filosofia ou a compreensão do ser enquanto tal, conhecimento este que não tem motivo ulterior, já que seu objeto, o ser, não pode ser influenciado, manipulado ou alterado de modo algum — sendo esse conhecimento olhar revelador pelo mero desvelar, puramente thea-horético.

12. A techne, em contraste com a episteme, é conhecimento das coisas mutáveis, cujos objetos vêm a ser e deixam de ser, mudando de vários modos, não podendo ser considerada conhecimento no sentido mais próprio.

  • Seus objetos não são as coisas mutáveis da natureza, que vêm a ser e deixam de ser por si mesmas, mas as coisas que vêm a ser e deixam de ser em razão do papel desempenhado por quem possui a techne, o qual desvela o que ainda não existe concretamente, estando esse desvelamento sujeito à mudança, já que a coisa pode resultar diferentemente do que fora concebida.
  • A techne é um modo de aletheuein; seu objeto não é aquilo que se produz a si mesmo [= as coisas naturais]; ao contrário, olha reveladoramente para o que ainda não existe diante de nós e que, por essa razão, pode vir a se mostrar de um ou outro modo.

13. A techne desvela esse objeto com motivo ulterior, o de produzi-lo, tendo meta prática; não é, assim, conhecimento puro e simples: não é simples, porque seus objetos estão ligados ao vir a ser e deixar de ser; não é puro, porque visa a produzir aqui diante de nós aquilo que vê de antemão.

  • Ainda assim, participa do conhecimento, já que o que é primário na techne é o ver de antemão a essência; a construção efetiva da coisa, para Aristóteles, pode ser deixada aos escravos, sendo seus senhores que contemplam e veem — não a coisa concreta, mas a essência da coisa de antemão, objeto este que, em certa medida, escapa à mudança.
  • A essência não é coisa individual, mas princípio ou Ideia, algo ideal que participa, ao menos até certo ponto, da eternidade e da imutabilidade, não vindo e não indo como as coisas individuais, sendo a essência o ser imutável do ente mutável.

14. Segundo Heidegger, Aristóteles inclui a techne entre os modos de aletheuein porque ela, no que tem de decisivo, desvela algo aparentado a uma verdade eterna — talvez não a mais universal das verdades, e não puramente pelo desvelar mesmo, mas ainda assim um objeto de conhecimento estável: uma essência ideal, o ser de algum ente particular.

  • A techne é, sim, mais prática que a episteme, mas seu aspecto prático, seu papel prático, não é manipulação, mas apenas guiar ou ordenar o processo de manipulação, tal como o senhor ordena o escravo, podendo desempenhar esse papel precisamente porque olhou reveladoramente para algo, porque o senhor viu de antemão uma essência, porque o senhor tem conhecimento teórico.
  • É como olhar revelador, não como manufatura, que a techne é um produzir: quem constrói uma casa ou um barco olha reveladoramente — de antemão — para a essência e a matéria do barco ou da casa, reunindo-as numa visão da coisa acabada, determinando então, a partir dessa visão prévia da coisa acabada, o modo de construção; consequentemente, o que é decisivo na techne não reside de modo algum em fazer e manipular, nem em utilizar meios, mas no já mencionado olhar revelador.

15. Encerra-se assim o parágrafo compactado em que Heidegger liga techne a episteme e aletheuein e, com isso, explicita o sentido grego da palavra da qual deriva nosso termo “técnica”, exame este destinado a confirmar a estranha perspectiva que se abriu ao pensarmos a noção de técnica como produção ou instrumentalidade.

  • Essa perspectiva é a visão de que a técnica é apenas secundariamente prática e primariamente teórica; a techne tem, sim, aplicação prática ou instrumental, mas o que os gregos entendem por techne não é a aplicação, e sim o conhecimento teórico que torna possível a aplicação prática — e é também isso que Heidegger entende por técnica.
  • Em sentido próprio, a técnica é ver, e não fazer; seu âmbito próprio é a verdade, não a instrumentalidade, o conhecimento do ser, não a fabricação de artefatos: nossa investigação do sentido da palavra techne, tal como determinado à maneira grega, conduziu-nos ao mesmo contexto que se abriu quando perseguimos a questão do que a instrumentalidade enquanto tal é em verdade — a técnica é um modo de olhar revelador, residindo no domínio do olhar revelador e do desvelamento, isto é, ali onde aletheia, a verdade, ocorre.

16. Quanto a Aristóteles e sua afirmação de que a techne é um modo de aletheuein, a exposição de Heidegger no ensaio sobre a técnica contenta-se em mostrar que e como a techne envolve um olhar revelador, demonstrando ali apenas um sentido mínimo em que a techne é conhecimento teórico: a techne é o desvelamento de antemão da essência de algum ente, do ser de algum ente.

  • A techne permanece, contudo, ligada ao particular e ao prático, não parecendo desvelar o ser em geral, a verdade em geral, o que não pode fazer enquanto for governada por uma intenção última de fabricar; para Aristóteles, então, ao que parece, a conexão entre techne e aletheia seria tênue, escapando a techne apenas por pouco ao âmbito do particular e do mutável, qualificando-se apenas por pouco como conhecimento.

17. Para Heidegger, essa visão da techne recém-exposta é apenas a posição inicial de Aristóteles, que desenvolveu e aprofundou sua visão, afastando a techne do particular e do prático, em direção ao geral e ao teórico, até que, finalmente, a techne pareça coincidir com a própria filosofia, com a compreensão do ser em sua universalidade — desenvolvimento este que Heidegger expõe em seu comentário completo, de 168 páginas, à passagem em questão da Ética a Nicômaco.

  • No início de seu relato dos modos de aletheuein, Aristóteles opera uma divisão em dois: em termos aristotélicos, uma divisão entre os modos que contribuem para o conhecimento e os que contribuem para a deliberação, sendo a distinção, portanto, entre o teórico e o prático, deliberando-se sobre aquilo que podemos mudar na prática.
  • Inicialmente, Aristóteles considera, sim, a techne um dos modos práticos de desvelamento, colocando-a do lado prático, junto com φρόνησις (phronesis), a prudência ou juízo prático quanto ao que é propriamente humano, sendo os principais modos teóricos de acesso à verdade a episteme e a σοφία (sophia, “sabedoria”).

18. Aristóteles concentra-se nos modos comuns de desvelamento dentro de cada divisão — a episteme para o teórico e a techne para o prático —, sendo, aos olhos de Heidegger, a questão mais significativa que Aristóteles coloca a esses dois modos sua primeira pergunta: qual é o paradigma de cada um?

  • Aristóteles formula essa questão de vários modos, perguntando pelo estado mais elevado (βελτίστη ἕξις, beltiste hexis), a consumação (τελείωσις, teleiosis) ou a excelência (ἀρετή, arete) de cada um, isto é, para o que cada um tende, em que cada um se cumpre, como cada um se pareceria se plenamente desenvolvido.

19. Do lado teórico, Aristóteles encontra sem dificuldade o paradigma da episteme na sabedoria (sophia), forma mais elevada de conhecimento, equivalente à teoria, ao puro contemplar as “coisas mais honrosas” de todas, o ser em sua universalidade, sendo a sabedoria, assim, equivalente à filosofia, o conhecimento do que é preciso para que algo seja.

20. Qual é o paradigma da techne? Aristóteles nega que seja a phronesis, não tendendo a techne ao juízo prático quanto ao bem humano; para Heidegger, Aristóteles rejeita a phronesis como forma mais elevada de techne porque o Estagirita reconhece na techne uma tendência a afastar-se da prática e a aproximar-se de uma “episteme autônoma”.

  • Nisso, Aristóteles apenas se baseia, segundo Heidegger, no modo cotidiano de conceder honra a quem possui techne: quem possui techne não é primariamente honrado pelo papel que desempenha em fazer coisas, as coisas práticas que satisfazem as necessidades da vida ou servem ao lazer e ao prazer; é honrado simplesmente porque avança nosso conhecimento dos entes, simplesmente porque desvela algo além do que qualquer um pode ver, seja isso útil ou não, grande ou pequeno — sendo então creditado com sabedoria.

21. Heidegger encontra Aristóteles confirmando esse mesmo sentimento ao dar precedência a quem possui techne sobre quem tem experiência: quem possui techne é admirado, mesmo carecendo da habilidade prática dos trabalhadores manuais, precisamente por ver a essência.

  • Pode assim falhar na prática, pois a prática concerne ao particular, ao passo que a techne concerne ao universal; apesar dessa deficiência quanto à prática, quem possui techne é ainda mais respeitado e considerado mais sábio, em virtude de seu modo privilegiado de olhar reveladoramente.

22. A tendência a uma episteme autônoma exprime-se mais explicitamente na determinação aristotélica do paradigma da techne: no Livro VI da Ética a Nicômaco, Aristóteles finalmente decide pela sabedoria, sophia, como a consumação da techne.

  • A techne, que Aristóteles inicialmente colocara do lado prático, entre os modos práticos de desvelamento, atinge seu estado mais elevado do lado teórico — o que é da máxima importância para Heidegger: episteme e techne têm o mesmo estado mais elevado, ambas tendendo à sophia, ao conhecimento em sua forma mais pura e simples, isto é, à forma mais universal e teórica de conhecimento, que é o conhecimento do objeto mais elevado ou “mais honroso”, o ser.
  • A techne ordena-se, assim, a uma compreensão do que significa ser em geral; como formula Heidegger, a techne em Aristóteles tende a se fundir com a “reflexão filosófica”, o “genuíno compreender”, “a mais rigorosa de todas as ciências”.

23. O que é mais notável agora é que Aristóteles designa a sophia como a arete, “excelência”, da techne (Ét. a Nic. VI, 7; 1141a12), sendo o modo mais elevado de aletheuein, a reflexão filosófica, que segundo Aristóteles é o modo mais elevado de existência humana, ao mesmo tempo a arete da techne.

  • Aristóteles observa explicitamente (Ét. a Nic. VI, 7; 1141a11s.): “o genuíno compreender, sophia, é a consumação, arete, teleiosis, da techne, do saber-fazer empregado para construir algo.”

24. Ao chamar a sophia de consumação (teleiosis) da techne, Aristóteles a designa como o telos (“causa final”) da techne; para Aristóteles, o telos não é extrínseco, não estando fora da coisa de que é telos, não sendo mero objetivo exterior.

  • Ao contrário, pertence mais propriamente à coisa; o telos define a coisa, sendo em virtude de seu telos que a coisa é mais propriamente o que é; assim, a sophia, consumação da techne, designa o que a techne mais propriamente é.
  • A techne é mais propriamente sophia, a teoria mais pura e mais elevada, a compreensão do ser em geral.

25. Essa é a significação plena da afirmação aristotélica, na Ética a Nicômaco, de que a techne é um modo de aletheuein, destinando-se a longa exposição heideggeriana a estabelecer, em sua forma mais radical, as conclusões afirmadas no ensaio sobre a técnica: tal como os gregos a entendiam, a techne, a técnica, é um olhar revelador; é primariamente teórica; visa ao universal; seu domínio é o âmbito da verdade; diz respeito ao modo como compreendemos o ser em geral.

  • Confirma-se, assim, a estranha perspectiva que se abriu ao pensarmos a noção de técnica como produção ou instrumentalidade, a saber, a perspectiva de que o aspecto instrumental ou prático da techne não é sua determinação mais própria.
  • Mais propriamente, a techne diz respeito à compreensão do ser, a compreensão que guia a produção; nosso senso do ser, do que significa ser, determina como fazemos e produzimos coisas, e esse senso do ser é o que os gregos entendem por techne e o que Heidegger entende por técnica.
  • A técnica é Entbergen, o modo como olhamos de volta reveladoramente em resposta à aletheia, em resposta ao olhar sobre nós (ou ao mostrar-se) do ser; a técnica é, assim, o mesmo que teoria, thea-horia, sendo constitutiva do Dasein enquanto tal, determinando o resultado dessa parceria no desvelamento (a compreensão resultante do ser em geral) como fazemos as coisas e como compreendemos o fazer das coisas — não sendo a técnica prática, mas a teoria que determina a prática.

A prática tecnológica antiga como poiesis

1. Para concluir o exame da técnica antiga, cabe perguntar qual é o sentido especificamente antigo do ser, o que se desvela no olhar revelador que constitui a técnica antiga, qual é a compreensão antiga do ser, e que tipo de fazer ou produzir decorre dessa compreensão.

2. Para Heidegger, a compreensão antiga é a de que o ser em geral é natureza (physis), tendo todas as coisas que vieram a ser sido autoemergentes, autodesveladoras; os nomes antigos para o ser são, assim, physis (“natureza”, “autoemergência”) e aletheia (“verdade”, “des-velamento”).

  • A compreensão antiga de produzir coisas é nutrição, respeito pela natureza e engrenar-se a ela, isto é, coadjuvar o que é autoemergente a ser plenamente autoemergente, plenamente visível; a palavra grega para fazer, entendida assim como um pro-duzir ou conduzir à frente pela mão, como um coadjuvar, é poiesis, sendo a prática da técnica antiga poiesis.

3. Para os antigos, portanto, a distinção entre o natural e o feito pelo homem é indistinta: todo fazer, toda produção, é natural, é autoemergência, não havendo, para os antigos, distinção rígida entre crescer e produzir.

  • As coisas humanamente produzidas requerem apenas mais assistência para crescer, para vir à luz, e nada mais, permanecendo, em essência, autoemergentes; para os antigos, em certo sentido todas as coisas estão vivas, pois todas são naturais, todas autoemergentes.

4. O motor primeiro em todo ente que veio a ser está dentro desse ente, isto é, o motor primeiro é a natureza, o ímpeto interior de autoemergir; algumas coisas requerem, sim, assistência humana, mas então o artesão humano é entendido simplesmente como parteiro, apenas coadjuvando ou liberando um impulso já existente à autoemergência, mesmo que esse impulso esteja imerso num bloco de mármore.

  • O artesão humano não é o motor primeiro, mas apenas um ob-stetra, alguém que “está ali” (ob-stare) de modo coadjuvante; é por isso que o paradigma do fabricante é o conselheiro, o agricultor ou o médico, e por que não há distinção rígida entre o agricultor e o escultor: nenhum dos dois impõe existência.

5. Ambos pro-duzem em sentido estrito: ambos tomam algo pela mão e o conduzem à frente até a visibilidade, ambos o liberam, o soltam, o desvelam.

  • A colheita no campo, a testemunha no tribunal e a estátua no ateliê são todas produzidas no mesmo sentido, requerendo todas uma mão humana, mas havendo um artesão oculto que é o motor primeiro: esse artesão oculto é o ser, a natureza, o ímpeto interior à autoemergência, sendo a mão humana apenas a mão da parteira.

6. Também na era moderna, contudo, a distinção entre o artificial e o natural é indistinta, tendendo agora tudo, na mais aguda oposição à primeira época, a ser entendido como feito pelo homem.

  • O crescimento natural cedeu lugar à imposição humana; a natureza não é mais o motor primeiro, entendendo-se os humanos como os principais agentes responsáveis por tudo.
  • O que costumava vir a ser pela natureza — como o nascimento e a morte, o curso dos rios, os poderes da memória humana, as emoções, as colheitas, a quantidade de carne branca num peru, a intensidade do odor de uma rosa, e assim por diante — é agora imposto pelos humanos.

7. Para Heidegger, essa situação moderna é a mais perigosa, e ainda assim não desprovida de promessa, sendo a essa análise que se volta em seguida.

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