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Técnica moderna

ROJCEWICZ, Richard. The Gods and Technology. A Reading of Heidegger. New York: SUNY, 2006

1. Heidegger inicia sua caracterização da técnica moderna em “Die Frage nach der Technik” falando do “âmbito essencial” (Wesensbereich) da técnica, termo que, embora não explicitado, é prontamente inteligível: tendo a técnica sido determinada em sua essência como um olhar revelador, o âmbito da essência é presumivelmente o âmbito visado nesse olhar, que se revelou ser o âmbito do ser, da essência, da verdade, do desvelamento, da aletheia.

  • O “âmbito essencial” da técnica é, então, precisamente a essência, a essência das coisas em geral, devendo talvez o termo Wesensbereich ser traduzido bem literalmente como “âmbito-essência”, exprimindo que a técnica tem a essência como seu âmbito, sendo fundamentalmente o olhar revelador voltado à essência das coisas em geral — e não primariamente um modo de fazer e produzir coisas.

2. Heidegger levanta a objeção hipotética de que essa determinação do âmbito essencial se aplicaria apenas à técnica antiga, e não à moderna: contra essa determinação, poder-se-ia objetar que ela valeria talvez para o pensamento grego e, quando muito, se aplicaria à técnica artesanal, mas de modo algum diria respeito à técnica moderna, movida por máquinas de força.

Técnica antiga versus técnica moderna

3. A objeção nega que a técnica moderna seja assunto de olhar reveladoramente para o ser ou para a essência das coisas, podendo a técnica antiga ser assim entendida, mas não a moderna, sendo a diferença expressa entre a técnica artesanal e a técnica movida por máquinas de força — entre a mão, ou a máquina manual, e a máquina de força.

  • Há um sentido mais fundamental em que ser gentil significa deixar vir à frente, por mais ruído e força bruta que isso exija, e ser violento é impor, por menor que seja o dano material causado; nesse sentido, a ferramenta manual é gentil, e a escultura de Michelangelo é trabalho gentil, ao passo que a cirurgia moderna, mesmo a cirurgia ocular a laser, é violenta e forçosa, quando decorre da atitude imperiosa habitual da medicina de hoje.
  • A técnica artesanal não domina a matéria, engrenando-se apenas ao próprio fluxo desta em certa direção, sendo serva, não senhora, da forma soterrada na matéria — recorde-se a tese aristotélica de que o eidos é o genuíno produtor, e tudo o mais lhe é subserviente; é exatamente por isso que a técnica antiga pode ser determinada em sua essência como um olhar revelador, podendo o trabalho primordial do artesão manual ser entendido como a ocupação gentil da contemplação.
  • A técnica movida por máquinas de força é precisamente forçosa, impondo sua vontade à matéria, forçando uma forma sobre a matéria, em vez de meramente nutrir uma forma da latência à visibilidade, sendo pragmática, desejando resultados e não se importando com teoria; através das máquinas de força, a vontade humana é infligida à matéria, sendo quem opera uma máquina de força um ditador.

4. Embora essa distinção esteja sem dúvida no pano de fundo da objeção hipotética, Heidegger coloca em primeiro plano outro fenômeno, apreensível ao se comparar os produtos das duas técnicas.

  • A diferença mais marcante entre alfinetes comuns feitos à mão, como costumavam ser feitos, e os feitos por máquinas modernas de alfinetes, é que os primeiros eram todos individuais, ao passo que os alfinetes feitos por máquina são completamente uniformes, sem características individualizantes, todos exatos, precisos, desviando-se apenas dentro de tolerâncias muito estreitas.
  • A fonte última dessa exatidão é aquilo em que a máquina de força se baseia, a saber, a ciência exata, sendo a exatidão da ciência natural moderna a fonte da precisão nos produtos da técnica moderna — assim, diz-se, é porque a técnica moderna repousa sobre a ciência natural exata e moderna que ela é incomparavelmente diferente de todas as técnicas anteriores.

5. Poucas linhas adiante, Heidegger usa novamente o epíteto “exata” para caracterizar a ciência natural, dizendo-se que a técnica moderna é científica, que “reduziu tudo a uma ciência”, significando que dispersou toda conjectura e acaso.

  • A técnica artesanal, por outro lado, é chamada de arte (techne sendo frequentemente traduzida como “arte”, em oposição à ciência ou ao conhecimento), significando que depende de acerto ou erro, da habilidade de alguma pessoa particular; assim, se a técnica moderna repousa sobre a ciência, não poderia ser caracterizada como um olhar revelador voltado ao ser, e seu âmbito essencial não seria a essência das coisas em geral, mas os fatos científicos, empíricos, práticos e comprovados.

6. Heidegger prossegue, nesse primeiro parágrafo introdutório sobre a técnica moderna, formulando uma questão penetrante que contém, em germe, uma radical desconstrução da objeção hipotética: a questão decisiva permanece sendo de que essência é a técnica moderna, tal que possa lhe ocorrer empregar a ciência natural exata.

  • Essa questão, pensada até o fim, desconstruirá completamente a objeção hipotética, pois, para Heidegger, não é tanto que a técnica moderna se baseie na ciência moderna, quanto que a técnica moderna emprega a ciência moderna, anunciando a questão uma certa prioridade da técnica sobre a ciência.
  • Para pôr a ciência a serviço, deve ter havido previamente a ideia de pôr a ciência a serviço; alguém deve ter tido essa ideia, isto é, alguém deve ter visto algo, deve ter-se-lhe desvelado a possibilidade de pôr a ciência a serviço, devendo alguém ter olhado reveladoramente para essa possibilidade essencial — sendo esse ver a possibilidade essencial o que Heidegger entende por técnica moderna.
  • A ciência não é, portanto, a fonte da técnica; o ver (= a técnica) não se baseia na ciência, pois o ver está fora do alcance da ciência fática e empírica; empregar a ciência não é ideia científica, não é uma das descobertas do método experimental, mas, ao contrário, é uma ideia essencial, que repousa numa perspicácia quanto a possibilidades essenciais, quanto ao que poderia ser a essência das coisas.
  • Essa perspicácia constitui a técnica moderna (ou qualquer técnica); assim, para Heidegger, toda técnica é fundamentalmente uma compreensão do que significa ser, uma compreensão da essência das coisas enquanto meramente coisas; toda técnica é um olhar revelador voltado ao ser em geral.

7. Heidegger conclui suas observações preparatórias enunciando diretamente esse fio condutor: o que é a técnica moderna? Também ela é um olhar revelador; apenas se deixarmos nosso olhar repousar nessa característica fundamental é que se nos mostrará aquilo que há de novo na técnica moderna.

  • A tarefa de Heidegger é agora descrever o tipo de olhar que ele entende ser característico da técnica moderna, e justificar sua afirmação de que a técnica moderna é de fato um olhar revelador, e não meramente ciência aplicada, tendo de mostrar, se a técnica moderna tem prioridade sobre a ciência, que é a ciência que é técnica aplicada, e não o inverso.

A técnica moderna como desafiar: a engrenagem e o capacitor

8. A descrição heideggeriana da técnica moderna se envolve numa longa lista de termos inconfundivelmente pejorativos, violentos, imperiosos: a técnica moderna é um desafiar, forçar, arrebatar, atacar, sufocar, dominar, explorar, impor, dispor, expor e depor — sem que Heidegger use exatamente uma palavra traduzível literalmente por “estupro”, mas seus termos descrevem inequivocamente uma violação da natureza equivalente ao estupro.

9. Heidegger começa caracterizando a atitude da técnica moderna como um “desafiar” (Herausfordern), no sentido de desafiar para um duelo, provindo o duelo de uma bravata imperiosa e adolescente, significando desafiar alguém a um duelo: “exijo que venhas aqui e me dês satisfação.”

  • O que se deve satisfazer é a reivindicação de que se tem o direito de tirar a vida do outro; ora, o duelo se realiza honrosamente, expondo o desafiante ao perigo de ser ele mesmo morto, sendo dada ao outro homem a chance de se defender.
  • Para Heidegger, a técnica moderna não é apenas um desafiar, mas um desafiar desonroso: à natureza não se dá nenhuma chance de se defender, sendo antes forçada a dar satisfação.

10. A exigência que a técnica moderna coloca à natureza, a satisfação reivindicada no desafio, é a de que a natureza ceda suas energias e recursos, de modo a estarem à disposição, isto é, prontamente disponíveis para o uso humano, reivindicando-se que os tesouros da natureza estão ali apenas para satisfazer, tão eficientemente quanto possível, as necessidades e caprichos humanos.

  • Essa atitude opõe-se diametralmente à do respeito; é por isso que, para Heidegger, o fazer ou produzir que decorre da perspectiva da técnica moderna não é uma poiesis: o olhar revelador particular que impera na técnica moderna não se desdobra num trazer-à-frente no sentido de poiesis, sendo antes um desafiar que impõe à natureza a presunçosa exigência de entregar energia, energia como tal, que uma vez arrebatada da natureza pode então ser acumulada.

11. A poiesis é o modo de produção que encarna a atitude de respeito, “seguindo o fluxo”, deferindo-se aos fins naturais, aos fins com que a natureza já está prenhe, sendo a técnica antiga primariamente um olhar revelador voltado a esses fins, a essas possibilidades naturais, e a poiesis a obstetrícia que assiste esses fins a virem à plena visibilidade.

  • A técnica moderna é também um olhar revelador voltado a possibilidades, mas estas são impostas à natureza, e isso, para Heidegger, é o que há de novo na técnica moderna: não um olhar deferente, mas presunçoso, fazendo uma exigência excessiva, hybrística, antinatural à natureza.

12. Heidegger não responde diretamente à questão de por que essa exigência seria excessiva, dado que a natureza de fato a cumpre — a técnica moderna funciona —, mas oferece exemplos destinados a tornar óbvia a presunção das exigências que a técnica moderna coloca à natureza, perguntando se o antigo moinho de vento não fazia a mesma exigência às energias da natureza.

  • As pás do antigo moinho de vento de fato giram com o vento, dependendo imediatamente do soprar do vento, mas esse moinho não explora (ausbeuten) a energia das correntes de ar com o objetivo de acumulá-la.

13. A ideia de explorar aqui é a de tornar acessível ou abrir, como um empreendedor explora ou abre novos mercados, podendo também ser traduzida como “trabalhar”, no sentido de trabalhar uma mina, abri-la ao máximo de seu valor.

  • Heidegger está dizendo que o antigo moinho não trabalha o vento por tudo o que vale — ao contrário, é o vento que o trabalha, e o trabalha “imediatamente” (unmittelbar), talvez a palavra mais reveladora da passagem.

14. O moinho antigo é precisamente um moinho, isto é, mói grãos, prevalecendo-se, sim, dos ventos para seus próprios fins, fins humanos, já que, deixado a si mesmo, o vento jamais moeria grãos.

  • O moinho apenas se engrena ao vento, o que é verdade no sentido literal de que a conexão entre as pedras de moinho e o vento se dá por meio de engrenagens, ao passo que o moinho de vento moderno não é projetado para moer nada, não sendo um moinho, mas um dínamo, gerando eletricidade que é estocada e distribuída para usos remotos.

15. A conexão entre o vento e esses usos remotos é indireta, não se realizando por meio de engrenagens rudes, mas de capacitores exatos, resumindo-se a diferença entre o antigo moinho e o moderno, entre uma conexão imediata com o vento e uma mediata, à diferença entre a engrenagem e o capacitor.

  • A engrenagem do antigo moinho é “imediatamente dependente” (ou imediatamente submissa) ao soprar do vento, funcionando apenas enquanto o vento efetivamente sopra e apenas de certo modo: o vento deve soprar acima do limiar de força necessário para superar a resistência das engrenagens, e deve soprar de certa direção; ademais, a energia do vento canalizada pelo moinho não é armazenada, mas imediatamente esgotada ao girar as engrenagens.
  • O capacitor (carregado por um gerador movido a vento), por outro lado, é também inteiramente dependente do soprar do vento, mas não imediatamente dependente dele: continua a funcionar depois que o vento parou, e não oferece resistência alguma que o vento deva superar, podendo sua carga ser construída ao máximo por incrementos infinitesimais.
  • A engrenagem, por outro lado, obedece à lei do tudo ou nada: abaixo do limiar, o vento não tem efeito algum sobre as engrenagens; praticamente falando, não há limiar para um moinho de vento moderno, podendo o menor movimento do ar ser posto a uso — o moinho de vento moderno trabalha o vento por tudo o que vale.
  • O capacitor, finalmente, não esgota a energia despendida para carregá-lo; ao contrário, todo o propósito do moinho de vento moderno é acumular essa energia e mantê-la disponível — em suma, aos olhos de Heidegger, o moinho de vento moderno extrai energia do vento, arrebata o vento por sua energia, e depois acumula essa energia.

16. O que há de desrespeitoso ou excessivo no moinho de vento moderno? Por que Heidegger considera necessário descrevê-lo com termos tão pejorativos como “arrebatar” e “acumular”? Pode-se começar a responder perguntando o que deve ser visto de antemão para se construir um moinho de vento.

  • Há uma diferença essencial entre o ver de antemão que dá origem ao antigo moinho e o ver que está na base do moderno; tanto os antigos quanto os modernos veem força ou energia no vento, mas há diferença essencial: os antigos não veem no vento energia como tal, podendo se chamar o que veem no vento de o soprar natural do ar.
  • Veem o vento inteiramente em seu contexto natural, e respeitam esse contexto natural; é por isso que o antigo moinho de vento tem de esperar por um “dia ventoso”, ao passo que, para um moinho de vento moderno, todo dia é um dia ventoso, já que o ar está sempre em movimento e sempre contém alguma energia explorável.

17. Os antigos não veem o vento como fonte de energia como tal, energia que poderia ser posta a qualquer uso, mas como uma força numa certa direção, vendo uma direcionalidade no vento, isto é, veem o vento já prenhe de algo, sendo o antigo moinho projetado para trazer essa prenhez a fruição.

  • O vento está naturalmente conectado ao movimento: ajuda ou dificulta coisas em seu movimento; o antigo moinho aproveita esse potencial do vento, atrelando-o a um aparato de girar; o antigo moinho não faz nada além de girar, e o girar não é senão um movimento natural que o vento pode ou não assistir, servindo as engrenagens apenas para transferir o movimento de giro das pás à pedra de moinho.

18. Um moinho de vento moderno, composto de pás, gerador e capacitor, não apenas aproveita e transfere, mas explora, transforma e armazena.

  • As pás de fato giram, mas, como praticamente não oferecem resistência, não requerem vento, um dia ventoso, para girar, mas qualquer tipo de corrente de ar — é assim que o moinho de vento moderno explora o vento; o moinho de vento moderno não necessita de engrenagens, e o gerador não transfere movimento, mas o transforma em potencial elétrico; o capacitor, por fim, não usa nem esgota essa nova forma de energia, mas a acumula, para que possa ser descarregada quando e onde os humanos julgarem conveniente.
  • O olhar revelador que impera na técnica moderna tem o caráter de um desafiar: o desafio equivale a isto, a saber, que a energia latente na natureza é explorada, o explorado é transformado, o transformado é armazenado, o armazenado é, por sua vez, distribuído, e o distribuído é convertido de novo, sendo explorar, transformar, armazenar, distribuir e converter modos característicos desse olhar revelador.

19. O que é preciso ser visto no vento, para se conceber a possibilidade de um moinho de vento moderno que explora, transforma e armazena, não é meramente aquilo com que o vento está naturalmente prenhe, o movimento, mas a energia como tal.

  • O vento deve ser visto fora de seu contexto natural, onde ajuda ou dificulta o próprio movimento de alguma coisa, devendo ser visto não tanto como vento, aquilo que sentimos em concreto ao caminhar ao ar livre, mas antes como mera anemo-pressão, não sendo essa anemo-pressão ou anemo-energia Bóreas, nem o Vento Oeste, nem vento algum que nos seja familiar, sendo antes algo que não experimentamos de modo algum, resultado de um modo abstrato de olhar o vento.
  • A anemo-pressão é o vento visto apenas em termos da energia que dele pode ser extraída, não sendo mais o vento que H2O é a água.

20. O que é preciso para ver o vento desse modo artificial, como anemo-energia? De perspectiva heideggeriana, é preciso hybris, é preciso desrespeito pela natureza, requerendo a imposição de uma perspectiva estranha, que vê na natureza apenas o que pode ser extraído dela para necessidades e caprichos humanos.

  • Isso é, para Heidegger, o que há de excessivo ou antinatural na técnica moderna: reduz a natureza a algo à disposição dos humanos, em vez de respeitar a natureza e seus próprios fins; a técnica moderna é um olhar reducionista sobre a natureza, desvelando-se nesse olhar um semblante reduzido da natureza, reduzido do concreto ao abstrato, reduzido da natureza tal como se apresenta em nossa experiência à natureza na forma que nos permite explorá-la.
  • Podemos explorar a água, entendida como H2O, explorá-la por seu hidrogênio e oxigênio; mas ninguém nada em H2O, ninguém batiza com H2O; ver na água H2O equivale a olhar uma mulher como mero objeto sexual: em ambos os casos, temos o mesmo reducionismo, a mesma violação, a mesma exploração.
  • Para Heidegger, é de fato a ciência que nos ensina que a água é composta de hidrogênio e oxigênio, mas é a técnica que efetivamente realiza a redução, já que é a perspectiva tecnológica que motiva a ciência a ver na água, em primeiro lugar, um composto químico.

21. Do mesmo modo, é a ciência que nos ensina a construir um moinho de vento moderno, mas é a técnica moderna que fornece à ciência sua ideia motivadora, a saber, a ideia de que o vento é fonte de energia como tal.

  • O moinho de vento moderno certamente surge como aplicação de descobertas científicas, mas é a técnica moderna que motiva essa aplicação em primeiro lugar, fornecendo a ideia da natureza como algo explorável, o que motiva a exploração efetiva pela ciência.

22. Nesse primeiro exemplo, vê-se também, preliminarmente, que, para Heidegger, o antídoto ao perigo da técnica moderna não é a conservação, ou ao menos não é mera conservação.

  • Um moinho de vento moderno é “ecologicamente correto”, explorando fonte de energia renovável e não poluindo; para Heidegger, porém, tal moinho não é a solução, mas parte do problema, devendo a solução ir mais fundo que a conservação, até a raiz do problema, que é a atitude perante a natureza no cerne da técnica moderna.
  • O conservacionismo pode, na verdade, incluir exatamente a mesma atitude de que a natureza está ali apenas para ser explorada, só que agora se reconhece que os tesouros da natureza são finitos e devem ser feitos durar; para Heidegger, tal atitude é essencialmente a mesma da exploração desenfreada da natureza, incorporando ambas a mesma visão da natureza, sendo essa visão que encerra o perigo.
  • O perigo não é que a técnica possa fugir ao controle e tornar o mundo inabitável; o perigo não é apenas à vida humana, mas a algo ainda mais precioso, algo ainda mais digno de defesa, a saber, a liberdade e a dignidade humanas.

A técnica moderna como imposição

23. O segundo dos termos principais pelos quais Heidegger caracteriza a atitude da técnica moderna é “imposição” (Stellen), impondo-se a técnica moderna à natureza precisamente no sentido em que uma pessoa pode ser uma imposição a outra, ao tirar vantagem indevida do outro, inflingindo-se os humanos, através da técnica moderna, sobre os recursos da natureza, raptando-os, carregando-os à força.

  • A palavra alemã Stellen tem sentido básico de “pôr” ou “colocar em posição”, formando muitos compostos que Heidegger explora plenamente, podendo significar simplesmente “pôr” ou “colocar” em sentido neutro, mas frequentemente carregando a conotação de colocar à força — significando coloquialmente “encurralar” ou “pressionar” alguém, importunar; na caça, significa “levar ao fim da corda”; pode também significar “atacar” alguém, sitiar; e diz-se das condições, quando ditadas ao vencido.

24. É esse sentido de posicionar forçosamente que está em jogo aqui, tendo Heidegger já usado a palavra em sentido forçoso ao afirmar que a técnica moderna, precisamente como um desafiar, “impõe à natureza uma exigência presunçosa”, vindo a dizer explicitamente que Stellen deve ser tomado no sentido de desafiar.

  • Proponho “imposição” como tradução de Stellen, sendo a tradução inglesa publicada “setting upon” (colocar-se sobre); a palavra tem também a vantagem de conotar uma espécie de autoinflição sexual, aproximando-se Heidegger de chamar a técnica moderna de estupro da natureza.

25. A introdução da noção de imposição ocorre na passagem imediatamente após a menção do antigo moinho de vento, contrastando-se a terra hoje desafiada — arrebatada por seu carvão e minério — e vista precisamente como jazida de carvão, o solo como depósito de minério, com o campo que o agricultor de antigamente costumava cultivar, o qual aparecia diferente, quando cultivar ainda significava tratar e nutrir.

  • O agricultor de antigamente não desafiava o solo do campo; ao semear o grão, entregava a semente às forças do crescimento, e então tratava de seu incremento; nesse ínterim, o ordenamento do campo foi sugado ao redemoinho de um ordenamento diferente, um que impõe à natureza, impondo-se a ela no sentido de desafiá-la.
  • A agricultura é agora indústria mecanizada de gêneros alimentícios; o ar é imposto a ceder nitrogênio, o solo a ceder minério, o minério a ceder, entre outras coisas, urânio, e este último é imposto a desovar energia atômica, que pode ser desencadeada para fins destrutivos ou pacíficos.

26. O ponto principal é inconfundível, ilustrado no exemplo da agricultura tradicional versus a agricultura moderna: o agricultor de antigamente submetia, tratava, nutria — atividades quintessenciais da poiesis, sendo o antigo modo de cultivar obstetrícia, trazendo à frente aquilo com que a natureza já estava prenhe.

  • A agricultura moderna, por outro lado, dificilmente traz à frente colheitas; produz “gêneros alimentícios” ou, talvez devêssemos antes dizer, ingesta; a agricultura moderna não submete as sementes às forças do crescimento — ao contrário, interfere nelas, manipulando-as geneticamente; as forças do crescimento estão agora nas próprias mãos do agricultor, que impõe as condições que determinam o crescimento.
  • O produto final, no caso extremo a que talvez estejamos inexoravelmente caminhando, é a comida de astronautas; seria uma pantomima dar graças antes de “comer” uma “refeição” de tais “alimentos” — não são dádivas, são criações humanas; não são cultivados, são sintetizados; são criados por alguém que faz o papel de Deus, e não faria sentido rezar a Deus antes de ingeri-los.

27. O que Heidegger entende por “impor” é “fazer o papel de Deus”: colocar-se acima da natureza, olhar para a natureza como subserviente ao próprio comando — atitude imperiosa, adolescente, violenta, que a viola, forçando-a a entregar seus tesouros, sufocando-os para fora dela, devendo então a natureza precisamente “desovar”.

  • A terra, o ar e os campos parecem agora diferentes: vemos a terra como enorme jazida mineral, o ar como anemo-energia, o rio como potência hidráulica — havendo um sentido óbvio em que isso é verdade, mas a ordem correta de motivação não é tão óbvia.
  • Não é porque a terra é arrebatada que agora parece um estoque de minerais; ao contrário, a terra vem a ser arrebatada precisamente por causa do modo como agora a vemos; o olhar revelador vem primeiro, as possibilidades vêm antes das atualidades.
  • Devemos primeiro olhar para a terra, para a natureza em geral, de certo modo; então podemos explorar o que vemos, sendo esse modo de olhar o modo da técnica moderna, o modo desrespeitoso que vê na natureza algo ali apenas para satisfazer, tão eficientemente quanto possível, necessidades e caprichos humanos.
  • Isso é a perspectiva mais básica da técnica moderna, equivalendo concretamente a ver na natureza energia como tal, energia minerável, acumulável, explorável; a natureza é explorada porque é desvelada como algo explorável, precedendo o desvelamento das possibilidades exploráveis a exploração efetiva; requer avanços científicos explorar a natureza, mas o ver precedente da natureza como explorável não é questão de ciência, sendo um assunto teórico, e não prático ou experimental, um modo de olhar revelador que exprime, para Heidegger, a essência da técnica moderna.

A técnica moderna como arrebatamento

28. O novo termo é Fördern, que pode ter vários significados conforme o contexto, jogando Heidegger com esses diferentes sentidos, não sendo possível traduzir o termo com a mesma palavra em todas as ocorrências.

  • Na tradução inglesa publicada do ensaio, fördern é vertido como “expedite” (agilizar) quando Heidegger o propõe como caracterização essencial da técnica moderna, sendo também traduzido, nessas poucas páginas, como “extrair”, “pôr para fora”, “impulsionar”, “arrastar para fora”, “despachar” e “explorar”.

29. Há duas conotações principais da palavra fördern: a primeira, neutra, significa simplesmente transportar, mover adiante ou promover — um Förderband é o que chamamos de esteira transportadora.

  • Fördern pode também sugerir o uso de força bruta, significando não simplesmente transportar, mas arrastar para fora (contra resistência), içar (como peso morto), extrair (com esforço); é termo usado na mineração, tendo talvez sido esse o contexto — em jogo desde que Heidegger começou a falar de carvão e minério — que lhe sugeriu a palavra.
  • Na mineração, o termo tem sentido forte, violento: caracteriza o modo como o carvão é trazido à superfície da terra, não sendo gentilmente “promovido”, mas “arrastado para fora”.

30. Além disso, o termo fördern (Heidegger também usa herausfördern) está intimamente ligado à palavra para “desafiar”, herausfordern, não havendo dúvida de que Heidegger pretende que essas duas palavras sejam ouvidas juntas, chegando a usá-las como sinônimos por duas vezes.

  • A conexão com herausfordern corrobora a leitura de que fördern deve ser tomado em seu sentido forçoso; tudo leva a tomar fördern no sentido mais forte possível quando o termo é usado como caracterização da essência da técnica moderna, sendo assim insuficientemente fraca a tradução publicada como “expedite” (agilizar), termo neutro que encobre a conotação pejorativa — conotação essa que Heidegger torna explícita ao estipular o sentido em que emprega Fördern, a saber: expor e explorar.

31. Expor e explorar é estuprar: é forçar algo (ou alguém) a ceder seus tesouros (ou seus), é tomar o outro como ali meramente para a própria satisfação.

  • Desafiar é exigir satisfação, e estuprar é obter essa satisfação à força, por imposição, por pressão; o que Heidegger está dizendo é que a técnica moderna estupra a natureza por suas energias e recursos, não os “agilizando” a partir da natureza, mas os raptando.
  • No contexto, “rapto” — não como um neutro “extrair”, mas como um carregar à força para fins ilícitos — seria tradução defensável de Fördern; raptar, expor e explorar, estuprar — todas essas descrições de uma violação tipicamente imperiosa de algo ou alguém, sendo, aos olhos de Heidegger, a técnica moderna, como qualquer estupro, uma autoimposição violenta e imatura.

32. Proponho, então, “arrebatar” como tradução de fördern: arrebatar é estuprar com violência especial, deixando devastado, e é precisamente isso que está em questão aqui, já introduzida a palavra no parágrafo anterior (“hoje a terra é desafiada; é arrebatada por seu carvão e minério”).

  • Heidegger elabora agora mostrando uma dupla violação da natureza por parte da técnica moderna: a imposição que desafia a natureza a ceder energia é um arrebatamento, e o é em duplo sentido — arrebata na medida em que expõe e explora; esse arrebatar, porém, está de antemão subordinado ao arrebatamento de outra coisa, isto é, ao impulsionar adiante de algo até sua máxima utilidade ao mínimo custo.
  • O carvão obtido pelo arrebatamento de uma jazida de carvão não foi extraído para que simplesmente estivesse à mão em algum lugar; o carvão é estocado, isto é, colocado à disposição para cumprir uma encomenda do calor solar nele armazenado, sendo o calor do sol desafiado a ceder energia térmica, ordenada então a suprir vapor, cuja pressão movimenta as engrenagens que mantêm uma fábrica funcionando.

33. A dupla violação é esta: a natureza é arrebatada para extrair carvão, e o carvão é então arrebatado por sua energia, havendo primeiro um carregamento à força para fins ilícitos, e depois a execução efetiva desses fins ilícitos — precisamente o que entendemos por rapto, estupro ou arrebatamento.

  • Fördern não pode significar aqui “agilizar” ou “impulsionar” em sentido benéfico; é verdade que Heidegger joga com o sentido etimológico de Fördern (o prefixo “för-” significa “adiante”), mas isso não faz dele um impulsionar no sentido de promover ou beneficiar.
  • A terra não é beneficiada por ser explorada a céu aberto; o carvão não é beneficiado por ser forçado a desovar sua energia térmica; o ponto de Heidegger é que a terra e o carvão são “desperdiçados” pela técnica moderna em seu desafio a eles, sendo devastados, exauridos — os humanos, sim, são beneficiados, sendo promovido o cumprimento das necessidades e caprichos humanos.
  • Em suma, o que Heidegger está dizendo é que o arrebatamento da jazida de carvão é para o arrebatamento do carvão, que é para a satisfação desenfreada dos desejos humanos, desenvolvendo assim o termo Fördern, entendido como arrebatamento, a mesma caracterização básica da técnica moderna expressa nos termos “desafiar” e “imposição” — resultando numa visão da técnica moderna como violação da natureza afim aos atos imaturos e violentos do duelo, da pressão e do estupro.
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