Discurso sobre a técnica
SÉRIS, Jean-Pierre. La technique. Paris: Presses universitaires de France, 1994.
O uso trivial da palavra “tecnologia” é, aos olhos do purista, repreensível porque omite o sufixo: faz como se “tecnologia” (à maneira do termo anglo-americano “technology”) pudesse significar a técnica em si, a operação e a prática efetiva, enquanto o sufixo indica claramente que se trata de um discurso sobre a técnica, anterior ou posterior, dependendo do caso, mas nunca contemporâneo e indissociável. A embriologia não é confundida com o desenvolvimento efetivo do feto; a criminologia não é equiparada à prática do crime.
Para analisar as coisas de uma perspectiva um pouco mais ampla, que tipo de discurso sobre as técnicas, ou sobre a técnica, pode ter legitimidade, interesse e função? De quem as técnicas podem alimentar o discurso?
A. 1. Discurso funcional, discurso do conhecimento, o do ensino, da didática, da transmissão. A literatura técnica, do manual ao manual de instruções. O livro de receitas, com suas receitas e conselhos práticos, o guia prático do usuário, que acompanha os aparelhos.
A. 2. Discurso legitimador: principalmente um discurso de natureza científica, que deduz aplicações práticas a partir de uma base científica, ou que se baseia em um conhecimento cientificamente comprovado para estabelecer procedimentos cuja eficiência é, por isso, estabelecida ou confirmada. Um manual de resistência dos materiais ou de mecânica dos fluidos, destinado ao engenheiro de pontes e estradas ou ao projetista de cascos navais.
B. Seria possível pensar que não é necessário ir além? Adotando o ponto de vista “pragmático” das técnicas e dos próprios técnicos, os cínicos dirão que não há necessidade de mais nada. No entanto, terão dificuldade em ignorar as investigações às quais os técnicos não podem permanecer totalmente indiferentes, em nome da própria seriedade com que se encara o fenômeno técnico.
B. 1. Sem me alongar sobre o assunto agora, destaco o interesse da investigação histórica (e historiográfica) sobre as técnicas, as artes, os ofícios e a base material da vida das sociedades: a história pode cada vez menos prescindir dela. O mesmo vale para a pré-história, a antropologia e a etnologia. Esse interesse é tanto mais perceptível quanto as técnicas são a parte mais ignorada e menos conhecida de muitas culturas, tendo frequentemente permanecido no âmbito do não dito.
B. 2. Uma tecnologia que não seja mais empírica e descritiva, mas racional e crítica, à maneira daquela que criou o termo, na Alemanha, na França e na Inglaterra no final do século XVIII (ciências “cameralistas”, escolas de engenharia, revistas técnicas, racionalização da grande indústria) ou na esteira dessas disciplinas. A questão será saber se ela se limita à tarefa tradicional de articulação entre ciências e técnicas, conhecida como “ciências aplicadas”, ou se assume a dimensão, vislumbrada e reivindicada por alguns, de uma ciência geral da ação operacional ou de uma ciência do artificial, como diz H. Simon (The Sciences of the Artificial).
Talvez não seja inútil examinar esse “problema da tecnologia”, cujos termos podem ser resumidos da seguinte forma:
1. Precisamos conhecer as técnicas, por um conjunto de razões que podemos qualificar como culturais, e independentemente de quaisquer considerações de ordem utilitária.
2. Esse conhecimento não pode ser um acúmulo de receitas. Deve ser organizado segundo uma lógica e uma coerência, que são características próprias de todo conhecimento científico.
3. Ora, as disciplinas técnicas tradicionais, seja qual for a denominação que lhes seja dada (tecnologias, ciências aplicadas, ciências da engenharia…), satisfazem essa exigência apenas de forma incompleta.
4. É, portanto, necessário desenvolver uma tecnologia que seja uma verdadeira ciência das técnicas. Uma ciência, ou seja, uma disciplina desinteressada, que não tenha outro objetivo além do conhecimento coerente de seu objeto. E uma ciência humana, uma vez que as técnicas são, evidentemente, atividades humanas. (François Sigaut, Prefácio de Haudricourt, A tecnologia como ciência humana, p. 11).
C. Portadores de interesse, legitimidade e funcionalidade (mas não instrumental), outros discursos: os discursos críticos, que questionam as técnicas.
C. 1. Se a técnica dá motivo para discussão, se preocupa e inquieta a consciência de nossa época, é evidentemente fora dos limites do campo restrito dos interesses puramente utilitários e pragmáticos, em nome de uma crítica a esses interesses. Precisamente, a questão mais insistente neste final do século XX é a questão ética, que centra sua controvérsia ou seu julgamento na noção de responsabilidade ( (Hans Jonas, O Princípio da Responsabilidade. Ver abaixo o capítulo 9.)).
C. 2. Antes que as questões éticas passassem para o primeiro plano, uma obstinada iniciativa de crítica à técnica, em nome de exigências fundamentais, foi empreendida e desenvolvida ao longo do século. Não se trata de abordá-las aqui. Limitar-nos-emos a mencionar os nomes de Heidegger, H. Arendt, Marcuse e Habermas.
Nosso próprio discurso sobre a técnica não pode se limitar a nenhuma dessas posições: ele tentará situá-las, e a tarefa de nos situarmos em relação a elas não pode ser um passo preliminar.
