Objeto técnico
SÉRIS, Jean-Pierre. La technique. Paris: Presses universitaires de France, 1994.
“Não seria exagero dizer que a qualidade de uma simples agulha expressa o grau de perfeição da indústria de uma nação. Isso explica por que existem, com bastante legitimidade, julgamentos tanto práticos quanto técnicos, como aqueles que qualificam uma agulha de ‘agulha inglesa’. » G. Simondon, Sobre o modo de existência dos objetos técnicos.
Como um objeto técnico se distingue daqueles que não o são? E essa distinção nos ensina algo sobre a técnica?
O “fazer” distingue-se do “agir”, o “poiein” do “prattein”, na medida em que o primeiro produz uma obra na qual a operação deixa seu rastro. A intervenção (e o interveniente?) deixa sua marca por meio da obra e nela. Os objetos técnicos não se opõem apenas aos objetos naturais, que são ou os resultados da ação das leis causais naturais gerais (a pedra) ou os frutos da geração (a andorinha ou a cereja); são obras entre outras, e talvez haja motivo para diferenciá-las de outros tipos de obras (por exemplo, artísticas).
Percebe-se imediatamente que i. Nem toda técnica é um fazer; há técnicas do agir e, por isso, “técnica” e “objeto técnico” não se coincidem exatamente. 2. Mesmo no seio das técnicas do fazer, há uma dialética incessante entre a técnica propriamente dita, que regula o fazer, e o produto “acabado”, o objeto, que, por sua vez, na maioria das vezes se torna elemento de outra técnica. A questão é saber se o objeto é um “bom” caminho de acesso à técnica ou se, ao contrário, ele a desvia de seu curso. É bom que a técnica esteja “submetida” ao seu objeto? Ela se esgota inteiramente em sua objetivação?
A definição inicial de “objeto técnico” pode referir-se ao uso possível: será objeto técnico todo objeto suscetível de entrar, a título de meio ou de resultado, nos requisitos de uma atividade técnica. A desvantagem é que o material de uma transformação — por exemplo, o minério na jazida de onde o mineiro o extrairá, ou a rocha na qual o martelo-picador penetra — passará a fazer parte do conjunto, um pouco contra a nossa vontade. Mas talvez seja legítimo aceitá-los nesse conjunto, na medida em que, antes da ação técnica que os toma como alvo ou como matéria-prima, a rocha e o filão não estão individualizados 1) de outra forma que não seja pelo olhar do geólogo ou pelo objetivo da geologia. “Sem dúvida, um objeto natural não é naturalmente natural; ele é objeto de experiência cotidiana e de percepção dentro de uma cultura. Por exemplo, o objeto mineral ou o objeto cristalino não têm existência significativa fora da atividade do pedreiro ou do mineiro, do trabalho na pedreira ou na fábrica”, escreve G. Canguilhem 2).
