Problema técnico?
SÉRIS, Jean-Pierre. La technique. Paris: Presses universitaires de France, 1994.
“… Cabe aos fabricantes resolver as dificuldades técnicas. Ora, a tecnologia moderna pode exclamar, com Mirabeau: ‘Impossível! Nunca me digam essa palavra idiota!’” Marx, O Capital, I, XV, p. 156.
Todos já se depararam com o incidente técnico, em oposição ao “erro humano”, como possível causa de acidentes. O Airbus da Air Inter caiu no Monte Sainte-Odile, perto de Estrasburgo, em 20 de janeiro de 1992. O jornal *Le Monde*, de 22 e 30 de janeiro de 1992, analisa essas possibilidades. A técnica é um domínio (rede de causalidades) onde podem ocorrer disfunções, surpresas, avarias, falhas, deficiências, imprevistos e até mesmo o imprevisível. O diagnóstico de incidente técnico isenta de culpa os agentes de operação (piloto, torre de controle, sistemas de segurança…), mas a técnica, por isso, não é isenta de culpa nem inocente. Pois são a aeronave, a confiabilidade de seus sistemas e seus projetistas que são imediatamente responsabilizados.
Passar do incidente técnico para o problema técnico é passar do evento para a estrutura. Da dificuldade passageira e circunstancial para a dificuldade persistente e permanente.
Se a técnica é o domínio das soluções, como é possível que se fale de problemas técnicos? A questão é ociosa, se o problema técnico for aquele cuja solução é, ela própria, técnica! Mas há também problemas técnicos que aguardam sua solução.
Comecemos por enumerar alguns problemas. Irrigar um planalto desértico ou criar jardins ao redor de um castelo (Versalhes) pressupõe que se conduza água até lá ou que se resolva um problema de abastecimento de água. O problema se formula em relação e “em torno” de um objetivo determinado desde o início, de acordo com as intenções dos agentes humanos e também com os recursos técnicos existentes. O problema, então, nada mais é do que a enunciação de uma lista de recursos a serem mobilizados para atingir um objetivo que, por sua vez, é delineado pelos meios — em número finito — de que se dispõe.
Não é exatamente a mesma coisa quando nos deparamos com uma dificuldade imprevista, um fracasso inexplicável, um acidente ou uma avaria. O problema surge, então — e somente então —, como um obstáculo interposto em nosso caminho, entre nós mesmos e a meta que havíamos estabelecido. O problema surge como um desafio à nossa imaginação. Não é mais um simples enigma nem um quebra-cabeça matemático; ainda não é um problema teórico que exija uma reformulação do quadro conceitual e dos fundamentos: ele desestabiliza nosso projeto. É então que se recorre ao técnico, caso não se tenha competência suficiente.
Mas o próprio técnico — eu diria a própria técnica — pode se deparar com uma dificuldade residual. O problema técnico não é apenas o tipo de problema para o qual a técnica pode oferecer — e de fato oferece — uma solução, ou um leque de soluções; mas os casos em que ele é compreendido de forma mais autêntica são aqueles em que o especialista se reconhece “superado” por um fracasso repetido e não esclarecido, e em que os recursos técnicos disponíveis se mostram insuficientes. A impossibilidade técnica se apresenta como insuperável. Mas a demonstração da impossibilidade propriamente dita é tarefa do cientista: pensemos no “movimento perpétuo”, no princípio de Carnot… É justamente porque “impossível não é técnico” que sempre há técnicos que se dedicam a problemas desesperadores, como se, para eles, não houvesse “casos encerrados”. A teimosia técnica em relação a uma impossibilidade (reconhecida) assume a forma de um investimento reforçado e de uma busca acentuada por caminhos paralelos ou indiretos. A técnica é levada ao limite do que é capaz de fazer: a técnica nunca disse sua última palavra, se entendermos por isso a investigação tateante e aventureira, exploradora e criativa. É preciso, então, destacar o terceiro sentido que a expressão “problema técnico” pode assumir. Trata-se, no âmbito da pesquisa e da invenção, do desafio ao qual se mede a vontade de alcançar um determinado resultado, fora do alcance dos métodos existentes e comprovados.
Será que, então, estamos em condições de compreender melhor a especificidade dos “problemas técnicos”, em relação aos tipos de problemas dos quais eles se distinguem de maneira significativa? Parece que o terceiro nível identificado acima é o mais interessante, mas que só adquire esse interesse graças à base que os outros dois lhe proporcionam.
Em primeiro lugar, com quais tipos de problemas diferentes é legítimo compará-los? Pensamos imediatamente nos problemas políticos, nos problemas morais ou éticos e nos problemas científicos.
