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Problema técnico e problema científico

SÉRIS, Jean-Pierre. La technique. Paris: Presses universitaires de France, 1994.

Afinal, em que sentido um “problema técnico” se opõe a um problema científico?

Um belo encontro histórico entre esses dois tipos de problemas é a descoberta do iodo e de seu uso terapêutico. Em 1812, Bernard Courtois, um fabricante de salitre, expôs seu problema (seus aparelhos metálicos estavam sendo corroídos por um resíduo do processo de extração de soda a partir das cinzas de algas marinhas) a Clément e Desormes, dois químicos, que identificaram esse resíduo como uma nova substância, à qual Gay-Lussac deu o nome de “iodo” em 1814. Coindet, médico de Genebra, descobre a aplicação do iodo no tratamento do bócio. Trata-se de “um evento importante, de um tipo frequente na história das ciências: a reformulação teórica decorrente de um fracasso técnico” (G. Canguilhem, Estudos de História e Filosofia das Ciências, p. 282). É preciso, no entanto, observar que a reformulação teórica veio endossar um sucesso técnico anterior, ainda que cego: o da terapia do bócio por meio da esponja calcinada e das cinzas de alga marinha, que a tradição clínica prescreve desde o século XII. G. Canguilhem é muito sensível à diferença entre problema técnico e problema científico. Ele evoca o caso semelhante dos cervejeiros que procuraram Pasteur para que ele curasse as doenças de sua cerveja. Ele demonstra claramente que: 1. o problema técnico é um fracasso, um erro; 2. a ciência, por sua vez, não se limita ao fracasso ou ao erro; ela é capaz de se reformular, de reconsiderar seus dogmas… G. Canguilhem remete, para essa bela sequência, ao relato de Sir John Herschel, amigo de Babbage e de Sir Humphry Davy. Ele escreve em outro lugar: “O que falta a uma técnica não é saber descobrir a solução para seus problemas, mas sim saber generalizar essas soluções” (“O pensamento de R. Leriche”, Revista Filosófica, 1956).

O que significa “problema” quando os fontineiros de Florença ou os cervejeiros do Norte se obstinam a fazer a água subir acima de uma certa altura, ou a praticar fermentações nocivas? É esperar da natureza uma resposta que ela não dá. Os cientistas demonstram que ela não pode dar essa resposta. Eles identificam (o iodo, no exemplo mencionado acima). Eles integram o esquema técnico a um esquema diferente, o esquema científico. Em *A formação do conceito de reflexo*, p. 123, G. Canguilhem escreve: “As questões autenticamente importantes são as questões mal formuladas… Uma pergunta bem formulada já não é mais uma pergunta, uma vez que contém todos os elementos da resposta. Sem paradoxo, uma pergunta não pode, enquanto tal, ser senão mal formulada”.

No âmbito de um sistema coerente de proposições certas, o problema surge como um enigma lançado ao outro, com a condição ou obrigação irritante de descobrir o que ele não sabe, valendo-se apenas do que ambos sabemos. O problema técnico nem sempre possui essa pureza formal despojada. O universo da técnica é um universo de acidentes, de eventos. O técnico a quem um obstáculo imprevisto priva do resultado esperado (a avaria, a falha, a quebra, o acidente, o erro humano — diversos aspectos do aleatório que toda técnica deve conseguir dominar ou neutralizar, em um primeiro encontro com o risco) se depara com uma situação que exige dele 1. um diagnóstico e 2. um novo procedimento. Mas nem sempre ele tem à sua disposição todos os meios técnicos de diagnóstico, reparo e substituição (enquanto o matemático submetido ao desafio do problema está na posse, pelo menos supõe-se, de “toda” a sua matemática), e esse é seu segundo encontro com o risco — o risco de erro, desta vez —, em um jogo “com informação imperfeita”. O técnico lida com objetos materiais, concretos, resistentes ou frágeis, que nunca dependem apenas de sua vontade. Os problemas não são, para ele, exercícios escolares criados à vontade com fins pedagógicos ou lúdicos, mas imprevistos do caminho, independentes das intenções humanas, sempre suscetíveis de surgir e de desorientá-lo: ele se depara, mais uma vez, com o risco, o risco de destruir exatamente aquilo em que está trabalhando, ou de se destruir. Há também, é preciso dizer, problemas técnicos que são muito mais do que incidentes imprevistos no caminho: os problemas que se colocam para aprimorar um processo de fabricação, para promover uma inovação revolucionária. Mas eles raramente se apresentam com a clareza dos problemas matemáticos, assim como raramente se reduzem à sua essência científica.

Os problemas científicos não se reduzem ao exercício — lúdico e pedagógico — sugerido pela etimologia. Tornou-se comum reconhecer na história das ciências uma sucessão de crises, durante as quais os problemas cruciais se apresentam com uma intensidade dramática. Pensemos na “crise dos irracionais” na Grécia do século V a.C. ou na “crise dos fundamentos” no início deste século, que abalaram as certezas mais profundas dos matemáticos. É evidentemente muito mais difícil estabelecer aqui uma oposição radical com o “problema técnico”, como se as ciências “em formação” e as técnicas “em ação” passassem por situações totalmente comparáveis e se aproximassem umas das outras nos momentos difíceis. Resta saber até que ponto vai essa semelhança e em que medida a resolução do problema segue, em um caso e no outro, o mesmo tipo de percurso e de procedimentos. Será que ainda é (e continua sendo?) possível especificar uma problemática propriamente, se não exclusivamente, técnica?

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