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Cibernética

CHABOT, Pascal. La philosophie de Simondon. Paris: J. Vrin, 2003.

** A informação: relações entre alter techno **

1. Por volta de 1940, a teoria da informação emerge como disciplina transdisciplinar associada à cibernética, reunindo matemáticos, lógicos, engenheiros, linguistas e biólogos em torno dos problemas da transmissão da informação e do controle da ação, sob a influência decisiva de Norbert Wiener, que define a cibernética como ciência do controle e da comunicação nos seres humanos e nas máquinas.

  • O termo cibernética deriva do grego kubernetes, que significa governar.
  • A transversalidade da nova disciplina permite tratar processos humanos, biológicos e técnicos segundo categorias operatórias comuns.

2. A cibernética pretende constituir a informação como fundamento teórico comum a diferentes disciplinas e substituir conceitos considerados vagos por funções informacionais unívocas e operações formalizáveis, estabelecendo uma linguagem científica centrada em controlar, comandar, comunicar, mover, agir e reagir.

  • Processos tão diversos quanto regulações hormonais, circuitos eletrônicos e fenômenos psicológicos passam a ser reinterpretados segundo a teoria da informação.
  • O vocabulário comum proporciona um método de análise que pretende aumentar a precisão científica.
  • Termos como vida, finalidade e alma são considerados por Wiener inadequados à linguagem científica por sua imprecisão.
  • A depuração conceitual privilegia operações suscetíveis de representação e esquematização técnica.

3. A cibernética combina teoria e prática de maneira propriamente tecnocientífica, pois conhecimento e intervenção tornam-se inseparáveis, como exemplificam as pesquisas militares de Wiener sobre sistemas capazes de antecipar a trajetória de aeronaves mediante retroação.

  • Durante a guerra, a necessidade de posicionar lançadores exigia que o sistema reagisse continuamente à velocidade e à posição do alvo.
  • Wiener matematiza em 1942 essa reação mediante o conceito de feedback ou retroação.
  • Posteriormente, o mecanismo complementar de feedforward introduz a antecipação do comportamento do sistema.

4. O imaginário cibernético desloca o centro da técnica da máquina isolada para redes de objetos conectados, nas quais sinais circulam entre dispositivos e cada máquina regula suas operações segundo informações provenientes de outras máquinas, transformando o controle da informação em valor técnico predominante.

  • Postos de controle ferroviário, leitores de cartões perfurados, eletroencefalógrafos e centrais telefônicas exemplificam uma técnica organizada por conexões.
  • Cabos e circuitos integram cada objeto a um meio técnico associado, formado por outros objetos com os quais ele se comunica.
  • O paradigma energético e termodinâmico característico da indústria do século XIX cede lugar ao paradigma informacional.
  • A locomotiva fumegante, representativa da antiga industrialização e evocada por Zola e pelos irmãos Lumière, é substituída simbolicamente pela sala de controle de uma rede ferroviária.
  • O progresso técnico passa a localizar-se menos na ação material direta e mais nos centros em que os operadores e processos materiais são representados, informados e controlados.

5. Gilbert Simondon figura entre os primeiros divulgadores franceses da cibernética, acolhendo sua linguagem transdisciplinar e suas categorias operatórias, mas recusando suas extrapolações sociais e políticas, especialmente o mito do homem-máquina e a pretensão de racionalizar integralmente o comportamento humano.

  • Comunicação, controle, relação, função, ação e reação tornam-se conceitos importantes de seu vocabulário filosófico.
  • O entusiasmo histórico suscitado pela cibernética ultrapassa a importância efetiva de alguns de seus resultados teóricos.
  • Sua relevância filosófica reside sobretudo em ter simbolizado uma transformação técnica e epistemológica associada à convergência que atravessa a história da informática.

** Encontros do signo, da matéria e da memória **

6. O extraordinário entusiasmo pela cibernética nos anos 1950 pode ser compreendido como resultado de uma concretização singular na qual a integração técnica deixa de reunir apenas componentes materiais e passa a incorporar linguagem, signos e significações, produzindo objetos híbridos de matéria e linguagem, técnica e lógica.

  • A locomotiva concretizava a convergência entre máquina a vapor e infraestrutura mineira, permanecendo ainda no domínio material.
  • Computadores, telefones, postos eletrônicos de comando e redes de informação ultrapassam esse limite ao integrar estruturas simbólicas ao funcionamento material.
  • O domínio técnico incorpora, assim, instrumentos tradicionalmente associados ao humano, sobretudo os signos e, em determinados casos, as significações.

7. As máquinas de informação concretizam a convergência entre uma linhagem lógica dedicada à formalização dos raciocínios e uma linhagem material dedicada à inscrição e conservação física da informação, convergência que na informática recebe a forma característica da implementação.

  • Aristóteles, Raimundo Lúlio, Leibniz, Bacon, Boole e Turing pertencem à linhagem de esforços voltados à formalização lógica.
  • Ábacos, Lúlio, Pascal, Leibniz, Babbage e numerosos engenheiros representam a linhagem material que procura configurar suportes capazes de registrar informações.
  • Implementar significa inscrever uma estrutura lógica na matéria mediante a programação de um circuito.
  • A força histórica da cibernética decorre precisamente do encontro entre lógica e matéria.

8. As linhagens lógica e material já se cruzavam antes da informática, pois ábacos e dispositivos semelhantes materializam informações numéricas por meio da posição espacial de objetos, fazendo com que operações matemáticas dependam da própria arquitetura física do instrumento e não apenas de uma escrita simbólica.

** Raimundo Lúlio **

9. No século XIII, Raimundo Lúlio concebe uma técnica material de expressão dos raciocínios que articula sua formação em lógica e teologia com um projeto de conversão religiosa por meio do conhecimento, atribuindo à sua ars magna uma capacidade persuasiva que deveria decorrer da própria organização racional do dispositivo.

  • Nascido em Palma de Maiorca em 1235, Lúlio aproxima-se dos estudos por volta dos quarenta anos, após uma juventude aventureira.
  • Estuda Aristóteles e Averróis, aprende línguas orientais e frequenta alquimistas espanhóis.
  • Seu projeto consiste em substituir a cruzada militar por uma espécie de cruzada intelectual fundamentada na demonstração racional.
  • Apoiado pelo papa, viaja à Tunísia com sua ars magna na intenção de converter muçulmanos.
  • Diante da indiferença e da zombaria dos interlocutores, atribui o fracasso às insuficiências da própria máquina, aperfeiçoa-a e retorna com uma versão modificada.

10. A ars magna pretende formalizar exaustivamente todas as formas e combinações possíveis do pensamento mediante círculos concêntricos móveis que associam sujeitos, atributos e modos do ser, eliminando idealmente a interpretação ao fazer o raciocínio resultar das combinações espacialmente produzidas pelo dispositivo.

  • Os círculos são divididos em casas e podem girar independentemente, produzindo diferentes combinações.
  • Um primeiro círculo organiza tipos de sujeitos, enquanto outro contém atributos e um terceiro acrescenta modos do ser, como diferença, concordância, contrariedade, princípio, meio, fim, superioridade, igualdade e inferioridade.
  • A combinação das inscrições deveria gerar proposições sem depender da interpretação particular de quem manipulasse a máquina.
  • A confiança de Lúlio repousa na expectativa de que a formalização material do pensamento pudesse impor racionalmente a adesão às conclusões produzidas.

11. Embora incapaz de excluir raciocínios contraditórios ou obscuros, a máquina de Lúlio possui importância histórica por espacializar dinamicamente o pensamento e fazer com que uma transformação material do arranjo produza uma transformação correspondente do raciocínio.

  • Francis Bacon ridiculariza a invenção, enquanto Giordano Bruno procura reconstruí-la e Leibniz demonstra admiração por ela.
  • A escrita já materializava o pensamento, mas o dispositivo luliano acrescenta a dependência do raciocínio em relação às posições físicas dos elementos.
  • Sua originalidade consiste em vincular dois problemas até então distintos: a formalização lógica e a configuração espacial da matéria.
  • Lúlio pertence simultaneamente às linhagens lógica e material, e seu dispositivo concretiza a convergência entre ambas.

** Leibniz **

12. Leibniz ocupa uma posição decisiva na organização e formalização dos raciocínios ao procurar uma análise rigorosa da linguagem a partir de elementos simples e ao conceber o signo como relação que vincula uma percepção presente a outra realidade evocada por uma experiência anterior, real ou imaginária.

  • A decomposição do pensamento em elementos simples aproxima Leibniz de Lúlio e também de Bacon, Locke e Descartes.
  • O signo não possui valor isoladamente, mas estabelece uma ligação entre o sujeito e o mundo da experiência.

13. A reflexão de Leibniz sobre os signos articula memória e invenção a problemas concretos de organização encontrados na jurisprudência, nas bibliotecas e na genealogia, conduzindo à busca de sistemas de classificação que permitam ordenar, localizar e recuperar informações.

  • A jurisprudência de seu tempo apresenta-se como um conjunto desordenado e próximo do caos, exigindo mecanismos que facilitem localizar decisões e documentos.
  • Sua atividade como bibliotecário em Wolfenbüttel e Hanôver suscita problemas de inventário e disposição sistemática dos livros.
  • Seu trabalho de genealogista para a casa de Brunswick igualmente exige métodos de organização e recuperação de informações.

14. A pesquisa documental, a classificação de dados e a construção de genealogias exigem uma linguagem formalizada capaz de administrar a multiplicidade, levando Leibniz a pensar em índices, catálogos, inventários e repertórios como instrumentos simultaneamente cognitivos e mnemônicos.

  • A própria metafísica leibniziana requer a circulação entre múltiplas perspectivas e séries às quais uma mesma coisa pode pertencer.
  • O problema da memória divide-se entre a arte de conservar o que foi conhecido, ars retinendi, e a arte de recuperar o que foi conservado, ars revocandi ou ars reminiscendi.
  • Como a memória é limitada, torna-se necessário economizá-la mediante sistemas de signos simultaneamente simples e ricos.

15. A característica universal de Leibniz procura superar a arbitrariedade das línguas naturais mediante um alfabeto das ideias humanas no qual pensamentos simples sejam designados por signos de valor fixo e componham uma verdadeira álgebra do pensamento.

  • Nas línguas comuns, não há conexão necessária entre o signo e aquilo que ele faz recordar.
  • A característica universal pretende eliminar essa contingência mediante unidades inequívocas.
  • O objetivo consiste em impedir ambiguidades semânticas e tornar as combinações do pensamento suscetíveis de operações sistemáticas.

16. A eficácia mnemônica dos signos depende de sua organização espacial e de uma correspondência motivada com a estrutura das coisas representadas, razão pela qual esquemas técnicos, mapas, partituras, plantas urbanas, representações zodiacais e recursos tipográficos podem facilitar simultaneamente conhecimento e memória.

  • Um sistema representativo é tanto mais adequado quanto sua própria configuração reproduz relações pertencentes à coisa representada.
  • No zodíaco, por exemplo, características gráficas remetem visualmente às figuras significadas.
  • A informação deve fazer recordar a própria organização do objeto.
  • A universalização e a popularização do conhecimento podem, portanto, apoiar-se em representações esquemáticas capazes de aliviar a carga verbal do pensamento.

17. A notação binária constitui um exemplo privilegiado de característica universal porque, para Leibniz, sua configuração gráfica mantém relação mais motivada com determinadas propriedades numéricas do que a notação decimal convencional, permitindo que a própria escrita manifeste aspectos estruturais dos números representados.

** Pascal **

18. A Pascalina, construída por Blaise Pascal em 1642 independentemente da máquina de calcular anteriormente produzida por Wilhelm Schickard, materializa o sistema decimal por meio de rodas dentadas associadas às diferentes ordens numéricas e transforma operações aritméticas em movimentos mecânicos regulados.

  • Pascal concebe a máquina para auxiliar o trabalho de seu pai, administrador na Normandia.
  • A construção recorre ao saber técnico dos relojoeiros, especializados em mecanismos de regulação.
  • Cada roda corresponde a uma ordem decimal, como unidades ou dezenas, e um mecanismo mantém sua posição no algarismo selecionado.
  • O número registrado torna-se visível em aberturas que revelam as inscrições existentes no perímetro das rodas.
  • O movimento de uma roda acumula mecanicamente a informação necessária para produzir a passagem de uma ordem decimal à seguinte.

19. O mecanismo de transporte ou reporte da Pascalina constitui uma memória técnica das operações porque cada rotação completa de uma roda conserva materialmente a passagem efetuada e transmite essa informação à roda seguinte, mecanizando uma operação anteriormente executada pelo calculista.

  • O reporte que na escrita aritmética precisa ser anotado e posteriormente reincorporado ao cálculo passa a ser efetuado automaticamente.
  • Posições, signos e mecanismos de memória tornam-se conjuntamente meios materiais de tratamento da informação.
  • Pascal realiza, assim, uma etapa decisiva da mecanização do cálculo.
  • Leibniz reconhece teoricamente que a memória pode depender da posição dos signos e posteriormente amplia essa mecanização construindo uma máquina capaz também de multiplicar e dividir.

** Turing **

20. Alan Turing intervém decisivamente na história da informática primeiro como lógico, em 1936, e depois como participante do trabalho britânico de decifração durante a guerra, concebendo uma máquina universal inicialmente imaterial destinada a enfrentar o problema lógico da decidabilidade formulado no contexto do programa de fundamentação matemática de Hilbert.

  • Hilbert procura estabelecer bases axiomáticas seguras para a matemática.
  • As proposições devem ser consideradas como grupos materiais de signos, deslocando a atenção da significação ideal para as regras formais de sua escrita.
  • Demonstrar uma proposição passa a equivaler à produção de uma sequência finita de símbolos conforme regras determinadas.

21. O programa de Hilbert procura reduzir a lógica à teoria dos números e pressupõe que todas as proposições verdadeiras sejam decidíveis, mas a demonstração de Gödel revela a existência de uma proposição indecidível no sistema formal da aritmética de Peano.

  • A aritmética elementar deveria funcionar como fundamento axiomático a partir do qual as demais estruturas matemáticas poderiam ser desenvolvidas.
  • O problema da decidabilidade pergunta se podem existir proposições verdadeiras que não sejam demonstráveis dentro de determinado sistema formal.
  • Para Hilbert, provar significa produzir uma sequência finita de signos compatível com os axiomas.
  • A possibilidade de proposições verdadeiras indecidíveis compromete a expectativa de uma fundamentação formal completa.

22. A demonstração de Gödel conserva a exigência hilbertiana de materialização formal ao atribuir números aos símbolos e operadores, permitindo traduzir proposições e demonstrações inteiras em estruturas numéricas submetidas a operações rigorosamente definidas.

23. Turing reformula o problema da decidabilidade em termos de calculabilidade e algoritmos, fazendo da produção de uma prova a execução de uma sequência finita de operações elementares por uma máquina lógica universal e avançando decisivamente na mecanização dos raciocínios formais.

  • Um algoritmo consiste em uma sequência finita de instruções elementares executadas segundo uma rotina.
  • As operações matemáticas podem ser decompostas em instruções de leitura, adição, conservação em memória e escrita.
  • Uma fórmula é decidível quando a máquina completa seu cálculo mediante uma sequência finita de operações.
  • Quando o processo prossegue indefinidamente sem que a máquina pare, a proposição correspondente não pode ser decidida pelo procedimento.
  • A máquina universal antecipa logicamente os computadores posteriores ao reunir programa algorítmico, memória, unidade de controle e dispositivos de leitura e escrita.

24. A máquina de Turing estabelece uma possibilidade de isomorfismo operacional entre lógica e matéria e converte a técnica em uma segunda memória, distinta do livro porque não apenas conserva dados, mas também opera sobre aquilo que armazena.

  • A matéria torna-se suporte de estruturas lógicas e recebe uma quantidade crescente de operações anteriormente realizadas pelo pensamento humano.
  • O livro conserva palavras diretamente legíveis, enquanto a informática traduz a informação para linguagens técnicas que não são imediatamente acessíveis ao leitor comum.
  • O conteúdo impresso permanece materialmente estável e varia apenas segundo sua interpretação, ao passo que o computador transforma os dados armazenados.
  • A crescente delegação à máquina supõe uma confiança extraordinária em sua confiabilidade.
  • A possibilidade de considerar o alter techno mais confiável do que o alter ego constitui simultaneamente uma promessa da teoria da informação e uma tendência perigosa pela qual a técnica pode aprofundar o individualismo.

** Para concluir: discussão sobre duas maneiras de apresentar o progresso **

25. A cibernética realiza tecnicamente o antigo sonho de inscrever signos na matéria e fazê-los produzir efeitos autônomos, substituindo as significações sagradas associadas ao Golem por diferenças elementares como sim/não e 0/1, materializadas nos estados físicos dos circuitos e capazes de sustentar uma vasta tradução entre linguagem, memória, matéria e ação.

  • Na tradição do Golem, a inscrição da palavra emeth, verdadeiro, confere existência à criatura, enquanto a retirada de uma letra transforma o termo em meth, morto.
  • A cibernética abandona a eficácia sagrada da significação e retém a capacidade operatória da inscrição.
  • A oposição binária corresponde materialmente aos estados aberto e fechado dos comutadores.
  • A linguagem pode ser armazenada em memórias materiais, circular por redes e produzir efeitos mecânicos e energéticos quando associada a motores e dispositivos de ação.
  • A separação bergsoniana entre matéria e memória parece ser tecnicamente atravessada pelo signo.
  • Nos anos 1950, a teoria da informação aparece como promessa de mediação entre material e imaterial e como paradigma potencialmente fecundo para física, biologia, psicologia e sociologia.

26. A convergência histórica entre lógica e matéria pode ser narrada de maneira épica, como desenvolvimento orientado no qual ábacos, Aristóteles, Lúlio, Pascal, Leibniz, Turing e os engenheiros da teoria da informação constituiriam etapas sucessivas de um movimento destinado a culminar na informática contemporânea.

  • A narrativa épica privilegia linhas de força e atribui sentido unitário ao movimento histórico.
  • A compatibilidade final entre raciocínios formais e arquiteturas materiais parece, nessa perspectiva, resultado de uma orientação subterrânea, de uma teleologia ou de uma espécie de mão invisível.
  • Filosofias do progresso como a de Hegel exemplificam essa compreensão ao integrar acontecimentos passados em uma necessidade retrospectiva.
  • O presente aparece, então, como resultado necessário de uma história que aparentemente não poderia ter ocorrido de outro modo.

27. A sátira de Voltaire em Cândido expõe o caráter absurdo da explicação teleológica que converte retrospectivamente toda realidade em meio necessário para um fim, como ocorre no raciocínio de Pangloss segundo o qual narizes existiriam para sustentar óculos e pedras existiriam para permitir a construção de castelos.

28. A interpretação contingente da história substitui a necessidade teleológica pela atenção ao acaso, às circunstâncias singulares, às bifurcações e à multiplicidade de possibilidades, recusando subordinar séculos de filosofia e técnica ao êxito retrospectivo de uma única trajetória.

  • Cada realização histórica é compreendida como singular e dependente de circunstâncias que poderiam ter produzido resultados diferentes.
  • Não existe uma narrativa histórica absolutamente privilegiada, mas maneiras de narrar o passado que transformam também a maneira de perceber o presente.
  • Aquilo que a narrativa épica chama de progresso pode ser compreendido simplesmente como mudança.
  • Pequenas diferenças, acontecimentos fortuitos e alianças cujo significado escapa aos próprios agentes podem alterar decisivamente as trajetórias históricas.
  • A contingência permite um otimismo crítico: justamente porque o passado poderia ter sido diferente, o futuro também permanece aberto a outras direções.

29. Embora Simondon não declare explicitamente se privilegia uma história necessária ou contingente e manifeste ocasionalmente posições relativistas, sua filosofia das técnicas aproxima-se estruturalmente da narrativa épica ao sustentar proposições que conferem unidade e orientação progressiva ao desenvolvimento técnico.

  • A ausência de condescendência diante das técnicas antigas impede uma simples identificação de sua filosofia com evolucionismos lineares.
  • A recusa de considerar a formação técnica tradicional necessariamente inferior à formação baseada em símbolos intelectuais introduz uma dimensão relativista.
  • Apesar disso, certas teses fundamentais fazem da história técnica um processo orientado e aproximam Simondon das filosofias do progresso.

** 1. A mentalidade técnica **

30. A mentalidade técnica constitui um princípio histórico de transformação que atravessa diferentes épocas da racionalidade ocidental, desde os fisiólogos jônicos, alquimistas e Descartes até o Iluminismo e a cibernética, caracterizando-se pela análise dos seres e pela intervenção localizada destinada a aumentar a racionalidade e corrigir imperfeições naturais.

  • Essa mentalidade pode parecer monstruosa ou desequilibrada quando julgada antes que seu desenvolvimento seja plenamente compreendido.
  • Em lugar de tratar os seres vivos como totalidades intangíveis, ela identifica pontos específicos nos quais uma intervenção pode modificar o funcionamento.
  • O técnico prefere a operação localizada e racionalmente determinada ao julgamento global da totalidade.

31. A permanência histórica da mentalidade técnica permite reconhecer na história da informática a recorrência de problemas e finalidades semelhantes, como delegar cálculos extensos, obter resultados seguros e construir memórias materiais capazes de conservar grandes quantidades de informação.

  • Pascal constrói sua máquina em função das necessidades contábeis de seu pai.
  • Babbage dedica-se a problemas associados aos cálculos de recenseamento populacional.
  • Durante a guerra, o governo norte-americano solicita a Von Neumann tabelas de cálculo destinadas aos disparos militares.
  • Em outro contexto tecnológico, programas são desenvolvidos para medir a extensão da Internet.
  • Finalidades semelhantes reaparecem, assim, sob formas técnicas diferentes.

32. A cibernética realiza também o antigo projeto de retirar dos números suas significações sagradas e convertê-los em elementos estritamente funcionais, fazendo com que 0 e 1 deixem de representar essências metafísicas para valer apenas pela posição e pela operação que desempenham em determinado sistema.

  • Para os pitagóricos, os números exprimiam realidades como masculino, feminino, perfeição e harmonia e constituíam a essência das coisas.
  • A mentalidade técnica rompe com essa significação sagrada ao atribuir aos números funções operatórias.
  • Os elementos da lógica binária não possuem significado intrínseco, mas adquirem valor pelo lugar ocupado em uma estrutura.

33. A história da informática assume feição épica quando considerada a partir da mentalidade técnica, pois essa disposição parece permanecer ativa ao longo da história da humanidade e prolongar, do Iluminismo à cibernética, uma mesma manifestação histórica da técnica.

** Cada objeto possui um núcleo **

34. O objeto técnico possui uma camada interna ou núcleo propriamente técnico e uma camada externa submetida a valores, usos e variações psicossociais, sendo a primeira governada por exigências funcionais que não podem ser modificadas arbitrariamente sem comprometer o funcionamento do conjunto.

  • A câmara de combustão de um motor, o reator de um avião e o microprocessador de um computador exemplificam núcleos técnicos.
  • Frequentemente oculto ao usuário, o núcleo funciona como uma caixa-preta e permanece inacessível a alterações meramente estéticas ou sociais.
  • A camada externa pode incorporar cores, formas, disposições e modas sem alterar necessariamente o princípio técnico.
  • O arranjo interno de um navio ou a cor de um automóvel podem variar segundo preferências sociais, embora sejam secundários do ponto de vista estritamente técnico.

35. A separação simondoniana entre núcleo técnico e camada psicossocial reproduz em outro registro a distinção cartesiana entre qualidades constitutivas e qualidades secundárias, permitindo isolar invariantes técnicas e formular leis específicas, como a tendência à miniaturização característica das tecnologias da informação.

  • Descartes distingue extensão e matéria, consideradas qualidades objetivas, de características como sabor, rugosidade e cor.
  • Simondon separa analogamente a essência técnica das variações sociais e históricas consideradas exteriores.
  • A miniaturização não constitui mero capricho do consumidor, mas decorre de exigências internas ao funcionamento dos dispositivos informacionais.
  • Enquanto a indústria termodinâmica tende ao gigantismo porque sua eficiência energética pode crescer com as dimensões, os canais de informação melhoram sua eficiência pela redução das dimensões.
  • A determinação de uma dimensão adequada constitui, portanto, um problema técnico interno.
  • A forma tecnicamente eficaz pode resistir durante séculos às mudanças culturais, como ocorre com perfis de sinos estabelecidos desde a Idade Média e reencontrados por métodos computacionais contemporâneos.

36. A distinção entre essência técnica e camada exterior reforça a leitura épica da história ao separar duas evoluções paralelas e atribuir o progresso verdadeiro às transformações do núcleo técnico, enquanto ergonomia, acabamento, design, hábitos e modas permanecem como variações secundárias.

  • Na evolução do automóvel, potência do motor e soluções de transmissão e frenagem seriam indicadores mais fundamentais do progresso técnico.
  • Alterações de aparência ou conforto pertenceriam à camada externa e não à linhagem essencial do objeto.

37. A história contingente contesta a separação rígida entre técnico e psicossocial ao mostrar que a concretização dos objetos resulta de negociações entre interesses heterogêneos, como exemplifica a análise de Bruno Latour sobre o projeto Aramis, em que engenheiros, políticos, financiadores e usuários participam conjuntamente da definição do objeto.

  • Cada agente procura traduzir seus interesses nas especificações e na configuração material do projeto.
  • As necessidades aparentemente externas dos usuários tornam-se propriedades concretas do sistema técnico.
  • A velha senhora carregando pacotes representa o usuário cuja maneira de entrar, deslocar-se e sentar-se no metrô precisa ser incorporada ao projeto.
  • Até mesmo a qualidade de um sistema de frenagem pode expressar simultaneamente desempenho técnico e consideração pelos corpos transportados.
  • Considerado globalmente, o essencial do objeto técnico não precisa localizar-se exclusivamente no interior da caixa-preta.

** O bom acoplamento **

38. A cibernética inaugura uma relação renovada entre seres humanos e máquinas que Simondon interpreta como possibilidade de um acoplamento técnico mais adequado, superando tanto a imaturidade das sociedades tradicionais quanto as formas corporativas racionalizadas pelo Iluminismo e o mal-estar provocado pela proliferação industrial das máquinas no século XIX.

  • As técnicas da informação tornam possível conceber uma relação que não se baseie simplesmente na substituição do humano pela máquina.
  • A maturidade técnica depende da construção de uma complementaridade entre capacidades humanas e capacidades maquínicas.

39. A memória humana e a memória técnica possuem propriedades opostas e complementares, pois a primeira seleciona informações segundo significações, interesses e afetos, enquanto a segunda conserva indiferentemente grandes quantidades de detalhes sem ser capaz de hierarquizá-los por seu valor.

  • A memória humana relaciona situações distantes e organiza a experiência mediante estruturas e filtros construídos ao longo da própria atividade.
  • Ela é pouco eficiente para conservar séries aleatórias de números ou inventários minuciosos de objetos heterogêneos.
  • A memória técnica triunfa precisamente na multiplicidade e na desordem, registrando informações ponto por ponto.
  • Películas fotográficas, fitas magnéticas e discos exemplificam dispositivos capazes de conservar detalhes sem selecioná-los.
  • Sua força quantitativa corresponde a uma incapacidade qualitativa: a máquina registra, mas permanece indiferente à importância daquilo que registra.

40. A complementaridade entre memória humana e memória maquínica permite conceber uma memória bifurcada capaz de reunir ordenação significativa e conservação indiferenciada, fazendo da cibernética uma superação das etapas tecnológicas em que a máquina aparecia primordialmente como substituta do ser humano.

  • A diferença entre as duas memórias deixa de ser deficiência e torna-se condição de cooperação.
  • A máquina conserva aquilo que a memória humana selecionaria ou esqueceria, enquanto o humano pode avaliar e organizar aquilo que a máquina registra sem discriminação.
  • O bom acoplamento constitui, assim, o ideal de uma vida técnica baseada na colaboração entre capacidades diferentes.

41. A vida técnica não consiste em dominar ou simplesmente dirigir as máquinas, mas em existir no mesmo nível operacional que elas, formando redes de acoplamento nas quais o ser humano atua como agente e tradutor de informação de máquina para máquina e alterna funções de guardião e servidor.

  • A função humana desloca-se do comando exterior para a mediação entre sistemas técnicos.
  • O especialista técnico participa das relações informacionais internas ao conjunto de máquinas.
  • Nessa configuração, pretende-se ultrapassar a oposição simples entre senhor e instrumento e, com ela, as formas tradicionais de alienação.

42. A realização efetiva desse acoplamento entre humanidade e técnica permanece, entretanto, problemática, deixando aberta a questão da qualidade concreta da relação estabelecida entre os dois termos e dos desenvolvimentos que dela poderão resultar.

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