Comum
COMBES, Muriel; LAMARRE, Thomas. Gilbert Simondon and the philosophy of the transindividual. Cambridge, Massachusetts London, England: The MIT Press, 2013.
1. As últimas páginas de “A Individuação Psíquica e Coletiva” apresentam uma hipótese para pensar o coletivo sem invocar uma distinção entre indivíduo e sociedade, na qual a individuação do coletivo é reexplicada pelo problema da emoção, que passa a ser chamada de “latência emotiva” e que, ao ser abalada em sua dimensão afetiva, sinaliza ao sujeito sua incompatibilidade entre a carga de natureza e a realidade individuada, indicando que ele abriga energia para uma individuação subsequente; a emoção, contudo, permanece latente e só se torna plenamente efetiva como relação transindividual dentro da individuação coletiva, de modo que há um coletivo na medida em que uma emoção é estruturada.
2. Essa reversibilidade entre a individuação do coletivo e a estruturação da emoção torna claro que o que há de mais íntimo em nós mesmos, sempre experimentado em termos de singularidade inalienável, não nos pertence individualmente; a intimidade surge menos de uma esfera privada do que de uma vida afetiva impessoal, que é imediatamente mantida em comum, e, antes de ser estruturado, o coletivo já está de certa forma nos sujeitos, na forma de parcelas de natureza não efetuada, o potencial real que insiste em cada um de nós.
3. Ao tentar pensar a constituição do coletivo em um nível molecular, que é simultaneamente infraindividual e infrassocial, Simondon aproxima-se de Tarde, que desubstancia a abordagem dos fenômenos sociais descrevendo-os como processos de imitação, nos quais nunca se imitam indivíduos, mas fluxos que os atravessam, sempre fluxos de crença e de desejo; mesmo a invenção surge da imitação de fluxos que se conjugam de uma nova maneira no inventor, sendo sempre “um encontro feliz, em uma mente inteligente, de uma corrente de imitação com outra corrente que a reforça ou com uma percepção exterior intensa”, daí a importância que Tarde atribui aos fenômenos de “sugestão à distância” e “contágio”.
4. Encontra-se em Simondon um interesse semelhante pelos fenômenos de propagação afetiva pelos quais uma forma é imprevisivelmente precipitada no campo social, considerado como um campo metaestável, como na propagação do Grande Terror, que pode ser explicada por uma “teoria energética da tomada de forma em um campo metaestável”; essa descrição do campo social como um campo em tensão onde ocorre a tomada de forma propõe uma concepção da emergência da novidade na sociedade sem recorrer à figura do homem excepcional, um gênio político capaz de “dar forma” à vida social.
5. A “energética humana” de Simondon, que se concentra na defasagem entre potenciais que lançam a sociedade em um estado metaestável, é um complemento indispensável a uma “morfologia” social interessada apenas nas estruturas estáveis dos grupos sociais; dizer que o coletivo já está, de certa forma, nos sujeitos é adotar o ponto de vista energético sobre o modo dos potenciais que podem impulsionar a individuação do campo social, devendo-se pensar a novidade em termos de coletivo-em-devir, e não em termos de um germe estrutural pré-formado.
6. O esboço de uma energética humana responde à questão de por que as sociedades se transformam e os grupos são modificados em função de condições de metaestabilidade, uma questão que Simondon torna a condição para qualquer ciência humana que deseje ser rigorosa; responder a essa questão supõe um interesse por uma zona que não é a do indivíduo, objeto da psicologia, nem a da sociedade, objeto da sociologia, ou seja, os interstícios pré-individuais deixados inexplorados por ambas, nos quais a novidade é produzida e que são anteriores tanto a qualquer objeto quanto a qualquer sujeito.
7. Durante o debate seguinte à conferência de fevereiro de 1960, Simondon reafirma que apenas uma “filosofia da natureza”, que explora processos de individuação e situa a origem de toda mudança em uma zona pré-individual do ser, em parcelas de natureza associadas aos indivíduos, pode salvar as concepções empobrecidas de sujeito e objeto; ele é criticado por Paul Ricoeur por objetificar a natureza e por Gaston Berger por, ao não partir da consciência, recair no objetivismo, ao que Simondon responde que não se trata de metáforas, mas de uma noção de relação transdutiva, e que a consciência só pode ser adequadamente compreendida “a partir de uma transconsciência mais primitiva”.
8. A filosofia da natureza reivindicada por Simondon não deixa espaço para a filosofia da consciência, para a filosofia da linguagem ou mesmo para a antropologia, cuja impossibilidade ele reafirma em favor do estudo de “correlações” psicossociais, que são as únicas reais; tais correlações só podem ser pensadas com base na centralidade de uma zona pré-individual dos seres, dessa parcela comum à natureza em cada um deles, que é simultaneamente a dimensão molecular do coletivo e a única base para a transformação das sociedades.
9. A noção de natureza em Simondon opõe-se à noção de natureza como realidade “objetiva”, cuja descrição tende a negligenciar a realidade subjetiva da consciência ou do discurso; a natureza não é o operador objetivista de repressão do sujeito, nem se opõe à cultura ou à sociedade, sendo precisamente o que torna a transformação social pensável, e foi porque a filosofia da natureza se mostrou adequada ao problema do aparecimento da novidade nas sociedades que Simondon escolheu se afastar da teoria da informação, considerada normativa demais.
10. Ao se afastar da teoria da informação, Simondon opõe-se ao ideal social de adaptação como valor supremo, enfatizando os estados sociais metaestáveis como expressões mais profundas da realidade da sociedade; o estado pré-revolucionário é o tipo de estado psicossocial a ser estudado com a hipótese apresentada, e a escolha do termo “natureza” para a zona íntima comum dos sujeitos, pela qual a mudança social se torna possível, é menos importante do que o que esse gesto aponta: a necessidade de fazer o pensamento político como um todo depender da consideração da vida afetiva pré-individual.
