Cultura técnica
COMBES, Muriel; LAMARRE, Thomas. Gilbert Simondon and the philosophy of the transindividual. Cambridge, Massachusetts London, England: The MIT Press, 2013.
1. A ênfase na noção de “cultura técnica”, desenvolvida especialmente em “O Modo de Existência dos Objetos Técnicos”, contribuiu para a reputação de Simondon como um “pensador da técnica”, mas esse destaque sistemático anda de mãos dadas com um silêncio notável sobre o lado “naturalista” da teoria da constituição do coletivo, sugerindo duas tendências de pensamento incompatíveis que se desenvolvem em direções divergentes, cuja ambiguidade deve ser situada.
2. O ponto de partida de “O Modo de Existência dos Objetos Técnicos” é uma crise, um conflito entre cultura e tecnologia, nascido de um mal-entendido da tecnologia por parte de uma cultura que a considera uma “realidade estrangeira” e a rejeita; a “cultura técnica” nomeia um modo de pensar que resolverá esse conflito, e Simondon afirma desde o início que apenas uma maneira filosófica de pensar pode assumir a tarefa de tornar a cultura e a técnica compatíveis.
3. Em vez de um “pensador da técnica”, Simondon aparece como um pensador da resolução de uma crise da humanidade em sua relação com o mundo técnico, cujas razões parecem residir na oposição secular entre o mundo da cultura como mundo de sentido e o mundo da técnica considerado exclusivamente sob o ângulo da utilidade; a primeira frase da obra declara que os objetos técnicos são depositários de sentido, atacando o pilar que sustenta o edifício da discórdia.
4. A filosofia, para revelar o sentido dos objetos técnicos, permanece uma filosofia da individuação, uma ontogênese, que não trata da técnica em geral, mas dos objetos técnicos, de uma multitude de seres resultantes de operações técnicas; o objetivo inicial é provocar uma “tomada de consciência dos modos de existência dos objetos técnicos”, focando não apenas em seu uso ou na intenção utilitária, mas em sua gênese, na qual o ser técnico é inventado e dotado de autonomia relativa.
5. A intenção fabricacional depositada no objeto técnico não deve ser confundida com a intenção utilitária, que lhe é exterior, e o modo de ser de um objeto técnico não pode ser explicado pela intenção fabricacional que lhe deu origem; na medida em que qualquer indivíduo técnico é um sistema de elementos organizados para funcionar em conjunto e caracterizado por sua tendência à concretização, é necessário distanciar-se da intencionalidade humana e entrar na concrescência dos sistemas técnicos para compreender seu modo de existência.
6. A essência do técnico é verdadeiramente técnica, consistindo na tendência a uma solidariedade cada vez mais concreta dos elementos reunidos em sistemas que funcionam, tendência autônoma em relação ao ato de invenção; a invenção dá origem a uma “essência técnica”, um ser que, ao existir, tende a se simplificar, engendrando um filo genético, uma linhagem de indivíduos técnicos cada vez mais concretos, de modo que um objeto técnico não pode atingir a concretude de uma só vez.
7. Do momento em que a máquina é inventada, a individualidade técnica não reside mais nos humanos, que até então desempenhavam o papel de portadores de ferramentas; inverte-se o senso comum de que a máquina “tomou o lugar do homem”, afirmando que foram os humanos que ocuparam provisoriamente o lugar da máquina, de modo que a crise recente, que toma a técnica como fonte de drama, deve-se a um mal-entendido sobre o deslocamento da função de portador de ferramentas do humano para a máquina.
8. A segunda parte da obra revela a exigência de igualdade implicada pela técnica na era das máquinas, uma igualdade entre humanos pertencentes ao mesmo coletivo técnico e, mais fundamentalmente, entre humanos e máquinas, que para os humanos consiste em “existir no mesmo nível que as máquinas”; a “vida técnica” atribuída aos humanos define-se pela capacidade de “assumir a relação entre o ser vivo que são e a máquina que fabricam”, estabelecendo correlações entre máquinas.
9. É como seres vivos inscritos no tempo que os humanos são declarados responsáveis pelos seres técnicos, tendo a capacidade de agir retroativamente sobre suas condições de vida, modificando as formas dos problemas a resolver; a invenção, como ato de um ser vivo que carrega seu meio associado consigo, é descrita como “uma influência do futuro sobre o presente, do virtual sobre o atual”, e o humano atua como transdutor entre máquinas, assegurando a função do presente.
10. O perigo do tecnicismo, atualizado na obra de Norbert Wiener, é o da redução da sociedade a uma máquina de um tipo particular, apresentando a homeostase como o único ideal; para evitar o reducionismo tecnológico, Simondon propõe estudar, para além dos objetos técnicos, “a tecnicidade desses objetos como modo de relação entre humano e mundo”, que deve ser conhecida “em sua relação com outros modos de ser no mundo humano”.
11. A última parte da obra atribui à cultura a tarefa de reunir os diversos modos humanos de ser no mundo que foram progressivamente cindidos, função de convergência que agora cabe à filosofia, cuja tarefa é remontar geneticamente a um momento anterior à ruptura entre religião e técnica, entre teoria e prática; a filosofia é a única “força de convergência” do devir a longo prazo, podendo operar essa convergência ao falá-la, ou seja, ao realizá-la.
12. Ao longo da exposição sobre o papel “cultural” da filosofia, depreende-se uma afirmação recorrente sobre a existência de um “sentido do devir”, e Simondon toma cuidado para distinguir sua posição do finalismo, definindo o devir como “a operação de um sistema que possui potenciais em realidade”; contudo, o devir que implica fases passa a ser compreendido como um devir finalizado e dividido em momentos, o que parece contradizer os postulados antifinalistas do estudo.
13. Para evitar o finalismo, Simondon distingue as noções de adaptação e equilíbrio, que rejeita, das noções de evolução e invenção, cabendo aos humanos não se adaptar a um meio, mas inventar novas estruturas, descobrir “novas formas e forças capazes de fazê-lo evoluir”; no entanto, essa proposição parece substituir um finalismo estático por um finalismo evolutivo e dinâmico, que não se distancia suficientemente do esquema finalista de pensamento.
14. O “sentido do devir” significa apenas que o devir em si mesmo porta sentido, e todo o trabalho da genealogia consiste em dar conta desse sentido, trazê-lo à luz e nele entrar para aprofundá-lo, mas seria vão pretender transformá-lo; a “consciência teórica” dos processos técnicos não seria a verdadeira cultura técnica, que deve ir até o ponto de fazer emergir o “valor normativo” neles contido, subordinando o ponto de vista genealógico a um ponto de vista normativo.
15. O viés normativo da filosofia do devir é suficientemente explícito para que se possa ser tentado a dele extrair uma imagem geral do pensamento de Simondon, como faz Gilbert Hottois, que entende a relação exclusivamente em termos de “religação”, como uma realidade tendo eficácia simbólica; essa leitura, ao enfatizar a “cultura técnica”, revela uma tendência no pensamento de Simondon de não se livrar totalmente de uma concepção substancialista da ética na forma do dever-ser, simplesmente deslocando-o para o dever-tornar-se.
16. Na conclusão de “O Indivíduo e sua Gênese Físico-Biológica”, Simondon pergunta se uma teoria da individuação pode oferecer uma ética por meio da noção de informação, definindo a ética não em normas fixas, mas em valores que são “o pré-individual das normas”, ou seja, a capacidade das normas de mutar sob a pressão do devir, ou ainda, “a capacidade de uma transferência amplificadora contida no sistema de normas”, que define o sujeito ético.
17. As noções de “transferência” e “amplificação” caracterizam o caráter físico da ética decorrente da teoria da individuação, onde não se pode mais distinguir entre o nível do sentido e o da physis; a ética é dita “sentido da individuação” e há ética na medida em que há informação, isto é, significação, sendo que a ética é o que fornece os critérios para seu próprio valor, afirmando a imanência de uma ética do devir.
18. O que permite escapar da universalidade da normatividade tecnológica é a tematização da reticularidade no coração do pensamento de Simondon sobre a técnica; a realidade ética é estruturada em rede, havendo ressonância dos atos em relação aos outros, não por meio de normas implícitas ou explícitas, mas diretamente no sistema que formam, que é o devir do ser, onde a reticularidade é a condição para a ressonância imediata dos atos na estruturação do potencial em comum.
19. Em “O Modo de Existência dos Objetos Técnicos”, a noção de reticularidade designa a rede não de atos, mas de técnicas, e o que se descobre ao passar do nível dos objetos técnicos ao nível mais profundo da tecnicidade não é um sistema de normas técnicas, mas um modo de ser que excede cada objeto técnico tomado separadamente, a saber, a reticularidade; o caráter reticular da organização das técnicas confere ao mundo técnico uma capacidade de condicionar a ação humana como tal.
20. A reticularidade (dos conjuntos técnicos integrados) opõe-se ao hilomorfismo (da ferramenta) e o esquema da rede parece constituir uma arma contra ele, oferecendo uma possibilidade de escapar do modo de pensamento e ação hilomórfico; a tecnicidade em termos de reticularidade permite romper radicalmente com a descrição da técnica baseada na categoria de meio e, em suma, com o esquema da utilidade, que é adequado apenas à ferramenta.
21. Bernard Stiegler, inspirado em Simondon, reformula a “constitutividade originariamente técno-lógica da temporalidade” através da ideia de que a “tecnogênese é estruturalmente anterior à sociogênese”, fundando-se na continuidade entre as duas obras de Simondon; contudo, o silêncio de Simondon parece indicar uma escolha intelectual, e a leitura de Stiegler parece avançar uma interpretação que evacua a especificidade que Simondon atribui à individuação do coletivo.
22. Ao subordinar a individuação psíquica e coletiva à evolução técnica e ao constranger a produção da novidade à invenção técnica, a hipótese de uma avanço da tecnogênese parece erradicar toda a especificidade da individuação coletiva, tornando a invenção propriamente social impensável; para Simondon, a resposta sobre as razões da transformação das sociedades não é o avanço estrutural da técnica, mas a existência de parcelas de natureza pré-individual associadas aos indivíduos.
23. A perspectiva de Stiegler, ao declarar que “Todo suplemento é técnica”, sobredetermina completamente em termos tecnológicos os poderes do ser humano, não levando em conta a possibilidade de que os humanos compartilhem mais do que falta ou carência; a lição a extrair da hipótese de Simondon sobre a existência de um potencial pré-individual associado aos indivíduos é a de uma pertença comum a uma dimensão ontológica que os precede, sem que nada force a conceber o pré-individual como tecnológico.
24. A questão é menos saber o que define o humano do que saber o que faz seu devir, ou seja, o potencial pré-individual real que, por ser pré-físico e pré-vital, não pode ser concebido como biológico nem como antropológico, pois é o que há de pré-humano nos humanos; pode-se mesmo tentar inverter o procedimento de Stiegler e perguntar se a vida já não é sempre política, se “o político [não está] já contido na vida como seu núcleo mais precioso”.
25. Simondon busca renovar a ação humana por meio do engajamento na reticularidade dos conjuntos técnicos conectados, vendo nela a possibilidade de finalmente escapar do hilomorfismo que caracteriza a fase do ser-no-mundo; as forças e potências do mundo técnico atual são articuladas em termos do que os humanos, como seres com potencial, podem fazer, e é nesse mundo reticular que se oferece a possibilidade de construir uma nova modalidade de relação, uma relação transdutiva do humano com a natureza e uma relação transindividual entre humanos.
26. A análise da “alienação dos humanos em relação à máquina” revela uma dimensão “psicofisiológica” que se resume ao fato de que “a máquina não prolonga mais o esquema corporal”, levando Simondon a pedir o estabelecimento de uma nova relação com as máquinas, na qual “o humano pode ser acoplado à máquina como igual a igual, como um ser que participa de sua regulação”, indo além da tarefa cultural da “tomada de consciência filosófica e nocional” para uma provação existencial.
27. A supressão do trabalho figura entre as mudanças indispensáveis para uma compreensão adequada da tecnicidade, pois “o trabalho deve se tornar atividade técnica”; Simondon critica a inadequação da organização do trabalho na empresa capitalista fordista em relação às aspirações igualitárias do devir técnico, observando que a alienação do trabalhador resulta de uma ruptura entre o conhecimento técnico e suas condições de uso, o que o leva a sugerir um modo social e econômico em que o usuário do objeto técnico seria também seu proprietário e aquele que o escolhe e mantém.
28. Simondon vê no trabalho a origem do esquema hilomórfico, que “representa a transposição para o pensamento filosófico da operação técnica extraída do trabalho e tomada como o paradigma universal para a gênese dos seres”; no trabalho, o humano impõe uma “forma-intenção” de proveniência humana sobre a “matéria a trabalhar”, mas permanece necessariamente cego à operação da qual é operador, e o trabalho pode ser definido como a modalidade de operação técnica “que impõe forma à matéria passiva e indeterminada”.
29. A genealogia do trabalho como modalidade determinada sócio-historicamente por uma operação técnica que instaura ilegitimamente um “paradigma universal para a gênese dos seres” estende-se imediatamente a uma crítica radical do trabalho, formulada de maneira igualmente distante da perspectiva marxista e da dos psicólogos do trabalho; para Simondon, o trabalho é alienante em essência, e a alienação de que fala é mais fundamental do que o “aspecto econômico da alienação”, que ele atribui à análise “marxista”.
30. Embora critique Marx, Simondon está mais próximo dele do que pensa, pois ambos propõem uma análise da relação dos humanos com a natureza e de sua relação mútua; no entanto, enquanto Simondon vê a alienação na relação inadequada que os humanos, incapazes de superar a dialética de dominação e submissão, mantêm com as máquinas, Marx a situa no nível das relações de produção, como uma mistura inextricável de exploração e dominação.
31. Ao reduzir o ponto de vista marxista ao econômico para formular sua hipótese de uma alienação mais geral, Simondon relativiza a realidade sociopolítica da dominação, sugerindo que a condição servil do trabalhador contribuiu para obscurecer a operação, o que parece contradizer suas próprias análises sobre a origem social do esquema hilomórfico; no entanto, ele insiste que apenas uma saída definitiva do paradigma do trabalho pode permitir aos humanos transformar sua relação inadequada com a técnica, com a natureza e entre si.
32. A atividade técnica aparece como o modo de relação com o objeto técnico que religa essas duas relações de novas maneiras, reconectando os humanos à natureza com uma ligação mais rica e estabelecendo uma convertibilidade entre o humano e o natural através do esquematismo técnico; além disso, a atividade técnica é “o modelo para a relação coletiva”, e o objeto técnico adequadamente compreendido e posto em funcionamento pode permitir o surgimento do transindividual.
33. O objeto que vem da invenção técnica carrega consigo algo do ser que o produziu, não o que é especificamente humano no humano, mas “essa carga de natureza que se conserva com o ser individual, e que contém potenciais e virtualidades”, a própria carga a partir da qual o transindividual se constitui; a atividade técnica é um modo de transindividualidade constituído por meio da parcela pré-individual depositada no objeto técnico, que se torna portador de informação para outros sujeitos.
34. A atividade técnica “não é o único modo e o único conteúdo do coletivo, mas é do coletivo, e, em certos casos, é em torno da atividade técnica que o grupo coletivo pode nascer”; a constituição de um modo transindividual de relação com a técnica é necessária para que se possa apreender os objetos técnicos à luz do pré-individual sedimentado neles, mas isso só faz sentido se for verdade que a relação desalienada com os objetos técnicos pode se abrir no interior do coletivo transindividual.
35. Construir uma relação justa com a técnica não significa reencontrar uma origem sempre reprimida, pois o que a tecnicidade pode fazer como rede amplificadora está ainda por ser inventado; a virtude de Simondon foi ter visto que a técnica como rede constitui agora um meio que condiciona a ação humana, a partir do qual é preciso inventar novas formas de fidelidade à natureza transdutiva dos seres, vivos e não vivos, com novas modalidades transindividuais de amplificação da ação.
