Tecnicidade
CHATEAU, J.-Y. Le vocabulaire de Simondon. Paris: Ellipses, 2008.
1. A tecnicidade constitui uma das duas fases fundamentais do modo de existência do conjunto formado pelo homem e o mundo, não podendo ser apreendida apenas pela análise das realidades que possuem o modo de existência dos objetos, mas somente no quadro de uma interpretação genética generalizada das relações do homem com o mundo, em sua relação com todos os outros modos principais, considerados fases do sistema conjunto do homem e do mundo.
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Definição precisa da noção de fase como aspecto resultante de um desdobramento de ser e opondo-se a outro aspecto, inspirada na noção física de relação de fase, concebível apenas em relação a outra ou outras fases, num sistema de equilíbrio e tensões recíprocas.
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A realidade completa corresponde ao sistema atual de todas as fases tomadas em conjunto, não a cada fase isolada, distinguindo-se uma fase das outras de modo independente das noções de gênero e espécie.
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A existência de uma pluralidade de fases define a realidade de um centro neutro de equilíbrio em relação ao qual existe a defasagem, esquema distinto do esquema dialético.
2. A tecnicidade, manifestando-se pelo emprego de objetos fragmentados do meio, disponíveis, transportáveis e manipuláveis, corresponde a uma defasagem do ser ao mundo mágico, concebido como a relação mais primitiva com o mundo, união anterior a todo desdobramento entre subjetividade e objetividade, caracterizada por sincretismo, ação à distância por intenção e influência, e relação afetiva com os lugares privilegiados do mundo.
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O mundo mágico caracteriza-se por sua reticulação em pontos-chave, lugares altos, singulares e privilegiados, dotados de eficácia própria, numa indistinção entre fundo e figura.
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Ausência de exterioridade na intervenção do homem mágico sobre o mundo, que se modifica de modo íntimo e fluido, numa relação com o mundo antes de tudo afetiva, de respeito, medo ou amizade.
3. Existe no mundo mágico um germe de desdobramento, quando este se torna excessivamente funcional e eficaz, fazendo os lugares privilegiados aparecerem como figuras distintas do fundo do mundo, tendendo então a defasar-se e a tornar-se técnico, sem que o modo de ser ao mundo técnico substitua exteriormente o mágico, provindo antes deste por desdobramento em que tudo se conserva segundo relação de diferença e não de negação.
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O desdobramento da figura e do fundo, ao se objetivar, corresponde também ao desdobramento do sujeito e do objeto, da realidade humana e da realidade do mundo exterior, e dos meios objetivados de ação sobre o mundo, deles destacados e voltados contra ele.
4. O desdobramento da figura e do fundo objetiva-se na defasagem entre técnica e religião, retendo a técnica apenas o aspecto figural e a religião o fundo, cabendo por natureza à religião a vocação de representar a exigência de totalidade, sem que a técnica constitua seu contrário, mas antes seu outro, com o qual mantém relações de solidariedade e equilíbrio na divergência.
5. Além da gênese da tecnicidade a partir da magia, há também uma gênese a partir da própria tecnicidade, que se caracteriza por uma tomada de distância em relação ao mundo mediante a constituição de um universo desenraizado de meios e objetos destacáveis, dando origem, por defasagem com o pensamento prático, ao pensamento teórico científico, ao mesmo tempo em que o pensamento religioso se desdobra em modo teórico e prático, sendo o pensamento estético e artístico não propriamente uma fase, mas lembrança permanente da ruptura da unidade mágica e busca da unidade futura.
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A técnica dá origem à ciência como pensamento teórico e a uma moral prática, equilibrando-se com o pensamento religioso, que se dedobra em teologia universal e ética religiosa de vocação universal.
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O pensamento estético e artístico situa-se no ponto neutro entre as fases divergentes, mantendo o lembrete implícito da unidade e a função de totalidade, servindo de paradigma para orientar e sustentar o esforço do pensamento filosófico.
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Cabe ao pensamento filosófico, situado também no ponto neutro das fases divergentes, operar a síntese verdadeira das duas fases fundamentais da gênese, condição para a construção de uma cultura verdadeiramente geral, reequilibrando-a mediante o acolhimento dos valores da tecnicidade, injustamente negligenciados em favor da cultura literária e das marcas do passado.
6. Existiria assim não apenas uma gênese da tecnicidade, mas também uma gênese a partir da tecnicidade, por desdobramento da tecnicidade originária em figura e fundo, correspondendo o fundo às funções de totalidade independentes de cada aplicação dos gestos técnicos e constituindo o saber teórico, enquanto a figura, feita de esquemas definidos e particulares, especifica cada técnica como maneira de agir e dá a prática.
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As fases não são momentos temporais e sucessivos, não existindo fase sem sua fase oposta, correspondendo as diferentes formas de pensamento a fases ou funções distintas no sistema de conjunto.
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A gênese das diferentes formas de ser ao mundo não constitui apenas interpretação de uma evolução histórica ou pré-histórica, mas interpretação genética da tecnicidade, análise do sistema de relações complexas entre a tecnicidade e o que não é ela, fazendo aparecer a essência da tecnicidade sem se reduzir a uma simples história ou a uma análise nocional intemporal.
